Neste item analisamos as relações que os pastores estabelecem com os seus pares. Segundo Freidson (1998:220,249), sempre é possível a existência de uma competição acirrada entre os membros de uma profissão. Daí a importância de se estabelecerem normas que regulamentem as relações entre estes, tendo em mira a coesão, a solidariedade e a simpatia mútua. Nesse contexto, ainda segundo Freidson, as normas “não se destinam tanto a impedir a concorrência entre os membros quanto a controlá-la”. Algumas visam impedir que alguém venha a denegrir o trabalho de um colega diante dos clientes. Há também normas que procuram limitar a competição econômica, entre elas a fixação de um piso de rendimento para toda a categoria.75 Desse modo, “fica estabelecida uma atmosfera colegial e igual dentro da profissão em que as maiores remunerações são simbólicas”. Essas normas expressam um elemento central do modelo profissional: o “coleguismo”.
Referências à ausência desse “coleguismo” e à “desunião da classe pastoral” foram registradas por este pesquisador em algumas de nossas conversas com pastores presbiterianos de São Paulo: “Falta coleguismo entre os pastores”; “Não existe classe
75 As discrepâncias de salário entre os pastores são lembradas pelo pastor presbiteriano Addy Félix de
mais desunida do que a nossa”. Assim, preocupamo-nos nesta pesquisa em tentar perceber o grau e a qualidade das interações entre os pastores e se essas interações repercutem no modo como eles encaram e realizam o seu trabalho. No questionário enviado aos pastores constava a seguinte pergunta: “Como você avalia o relacionamento entre os pastores?” Dos 46 pastores que responderam ao questionário, apenas um deixou de responder a essa questão. A maioria dos pastores foi reticente nas respostas, porém alguns expressaram mais abertamente suas opiniões, as quais variaram muito. Vamos conhecer algumas das avaliações:
• Entre aqueles que avaliaram positivamente o relacionamento com seus pares, temos as seguintes respostas:
“Muito bom e construtivo”.
“Em alguns casos muito bom, em virtude da amizade, do companheirismo, do amor fraternal; em outros, um tanto complicado devido à inveja, o egoísmo e o interesse pelo poder”.
“Muito bom e construtivo”. “Bom, porém escassos”.
“Bom, poderia ser melhor, mas, sem sindicatos e outras invencionices que se tornam apenas em campos de disputa de poder e auto-projeção de alguém”.
“Cordial”.
• Os pastores que avaliaram como regular o relacionamento entre eles assim se expressaram:
“Regular”.
“Apenas o formal dos concílios”. “Superficial”.
“Não tão próximo e profundo como poderia ser. As múltiplas atividades pessoais, as exigências do rebanho, as crises pessoais, familiares e profissionais, muitas vezes levam o pastor a afastar-se, deliberadamente ou não, do convívio com seus colegas”. “Não há tempo para se aproximar, relacionamento de fachada”.
“Deficiente, geralmente só se encontram em reuniões de trabalho, há pouco companheirismo genuíno”.
“Há pouca liberdade e confiança entre os pastores”.
“A desejar, considerando os diversos transtornos causados pela política eclesiástica”. “Regular, sem muita proximidade”.
“Distante”. “Impessoal”. “Desconfiado”.
• Quanto aos pastores que fizeram uma avaliação mais negativa do relacionamento entre eles, temos as seguintes manifestações:
“Sofrível”.
“Muito superficial, pois eles estão preocupados com a concorrência, têm medo de perder o emprego para o colega e, em alguns casos, falta de ética com os colegas”. “Falta de ética no relacionamento”.
“Ruim”.
“Não há relacionamento”. “Fraco, muito fraco”. “Difícil”.
“Muita inveja, ciúme e pouca comunhão”. “Frio”.
“Péssimo, devido a competitividade”.
“Distante e com aspectos de competição, como se vê em empresas e entre seus diretores”;
“Bastante difícil”.
“Muito frio e com receio de perder a igreja onde trabalham, pois o medo da concorrência é muito grande”.
“Péssimo”.
“Parece um campo minado, há muito fisiologismo”. “Uma fogueira de vaidades”.
“Alguns se apresentam como semideuses”. “Precário, sofrível”.
Não foi apenas nas respostas à pergunta acima que os pastores emitiram suas opiniões quanto à qualidade do relacionamento existente entre eles. Alguns o fizeram também quando lhes perguntamos: “Na sua opinião, quais as principais dificuldades
que o pastor enfrenta no ministério?” Vejamos o que alguns pastores incluíram em suas respostas:
“Dificuldade com os colegas pastores, não há amizade e companheirismo”. “Isolamento, sem muitos amigos com quem poder se abrir (inclusive colegas), o pastor acaba ficando isolado”.
“Falta de intercâmbio com outros pastores”. “Ciúmes entre colegas de ministério”.
“A falta de percepção dos concílios e de colegas pastores quanto a suas necessidades pessoais”.
Houve, ainda, pastores que apontaram a existência de tensões e concorrência entre colegas quando lhes foi perguntado: “Você poderia alistar algumas vantagens e desvantagens de ser pastor na cidade de São Paulo?” Eis algumas respostas:
“Abundância de pastores, acarretando desvalorização do ministro por parte das igrejas”.
“Pouca convivência com pastores”;
“Concorrência de pastores-colegas quando no processo de eleição pastoral na igreja”. “Pouco relacionamento entre pastores”.
Correndo o risco de parecer redundantes, reafirmamos que não há dúvidas quanto à existência de tensões nos relacionamentos entre os pastores. Contudo, há dois problemas, se é que nós podemos nomeá-los assim, que, segundo nosso entender, afetam de forma mais aguda as relações entre eles: A concorrência e a falta de ética. Temos aqui duas características que aproximam o pastor presbiteriano do modelo do profissional liberal num contexto marcado pelo crescimento do número de profissionais (concentração de pastores em São Paulo) e pelo encolhimento ou retração das ofertas de trabalho (não há igrejas para todos).
Freidson (1998:250) aponta para o fato de que a concorrência entre os membros de uma mesma profissão pode levar à quebra da ética profissional. Alguns pastores fizeram referência à falta de ética entre eles. De que modo isso se dá? Um dos respondentes afirmou que uma das desvantagens de ser pastor em São Paulo era “a concorrência de pastores-colegas quando no processo de eleição pastoral na
igreja”. Porventura, isso não seria uma prática natural numa organização religiosa que apregoa ser um modelo de democracia? É certo que sim. Mas qual o problema, então, de se ter vários pastores concorrendo pela mesma vaga? O problema está em se quebrar uma norma que rege as relações entre os colegas de uma mesma profissão, norma esta que, conforme observa Freidson (1998:249), pode ser escrita como regra ou praticada como “costume não-escrito”. Tais normas podem ser chamadas de “etiqueta” ou mesmo de “ética”. Nesse sentido, até há pouco tempo, havia um “costume não-escrito” entre os pastores presbiterianos de que, quando um deles fosse consultado quanto à possibilidade de vir a disputar uma eleição para o cargo de pastor em uma determinada igreja e tivesse o conhecimento de que o seu concorrente seria o próprio pastor da igreja tentando a reeleição, o correto seria simplesmente declinar do convite. É fato que havia exceções, mas estas não repercutiam bem entre os pastores, que logo tomavam conhecimento dos nomes dos pares que haviam quebrado esse “costume não-escrito”.
Por trás das declarações dos pastores a respeito do isolamento, da dificuldade de se abrir com os colegas, da superficialidade que caracteriza o relacionamento entre eles e do medo de perder a igreja para outros pastores, está a questão da “falta de ética”. Na percepção dos pastores, tudo o que é dito e confidenciado entre colegas pode vir a público e se tornar uma arma, caso esteja em jogo o pastorado de uma igreja ou outro cargo eclesiástico.
Constatamos haver, também, certas tensões nos relacionamentos entre pastores de tempo parcial e pastores de tempo integral. Embora em nossa pesquisa não tenhamos perguntado como eles se vêem uns aos outros, pudemos, em conversas com representantes desses dois tipos de pastorado, perceber a existência de algum mal-estar entre eles. Os pastores de tempo integral reclamam dos de tempo parcial, pois estes estariam tomando seus lugares nas igrejas, além de “acostumarem mal essas igrejas”, as quais não seriam desafiadas a assumir e a sustentar pastores de tempo integral. Por outro lado, os pastores de tempo parcial se defendem ao afirmar, através de um jogo de palavras, “que o tempo é parcial, mas a dedicação é exclusiva”. Um pastor, que declarou no questionário ter aberto mão de qualquer salário ou beneficio da igreja, respondeu categórico, quando perguntado sobre o tempo dedicado ao ministério: “Embora seja parcial por trabalhar em empresa privada, dedico mais tempo à igreja do que muitos de tempo integral”.
Gostaríamos de concluir essa discussão mencionando alguns itens do Código
de Ética Pastoral da Igreja Metodista do Brasil, especialmente os que tratam das
relações entre os pastores/as metodistas:
Art. 12o. – Requer-se do pastor e da pastora reconhecer que o envolvimento em manobras ou em esquemas políticos visando a posições ou cargos eclesiásticos é incompatível com a transparência exigida daqueles e daquelas chamados/as ao serviço cristão na forma do ministério pastoral.
Art.14o. – O pastor e a pastora só aceitam convite para quaisquer atividades, pregações, palestras e celebrações em outra igreja quando formulado pelo/a respectivo/a pastor/a ou por quem de direito. Em qualquer caso, somente o faz mediante o conhecimento do/a colega de outra igreja.
Art. 19o. – O pastor e a pastora não depreciam os seus colegas, especialmente quem os/as tenha antecedido.
Art. 20o. – Quando transferido/a, o pastor ou a pastora deve evitar visitas sistemáticas
aos membros da igreja anterior, principalmente nos dois primeiros anos, para que a igreja e o/a novo/a pastor/a tenham tempo e condições para conhecimento mútuo, adaptação e continuação da missão.
Art. 21o. – A pastora e o pastor, em qualquer caso, não interferem no trabalho desenvolvido por quem o/a substitua.
Art. 22o. – O pastor e a pastora que assumem nova igreja, ou ministério, honram e respeitam o/a colega que lhes sucedeu.
Art. 23o. – Toda pastora e todo pastor metodista são considerados cooperadores/as e companheiros/as na vocação comum. Atitudes de lealdade, boa vontade, franqueza, colaboração e respeito à variedade de ênfases teológico-pastorais são partes do relacionamento entre pastores e pastoras.
Art. 24o.- Cabe ao pastor e à pastora expressar lealdade e solidariedade ao/à colega que demonstre infidelidade à vocação, que desenvolva atitudes incompatíveis com a dignidade do ministério ou que descumpra seus deveres pastorais procurando-o/a de forma sábia e amorosa e/ou encaminhando solicitações de acompanhamento ao Bispo ou à Episcopisa.
Devemos, ao reproduzir esse documento elaborado em uma outra realidade eclesiástica, a Igreja Metodista do Brasil, lembrar que aspectos sistematizados por esse Código tocam em problemas vividos também por pastores de outras igrejas
evangélicas brasileiras. A Ordem dos Pastores Batistas do Brasil – Secção do Estado de São Paulo (OPBB-SP) também elaborou o seu próprio Código de Ética (2004:102) e incluiu nele os “deveres do pastor para com os seus colegas de ministério”, entre os quais destacamos os parágrafos IV e XV: “Recusar-se a tratar outros pastores como competidores, a fim de conseguir uma igreja” (...). “Não tomar em consideração sondagens para outro pastorado, se o pastor da igreja interessada ainda estiver no cargo, ou ainda não tenha anunciado sua renúncia (...)”. Nesse sentido, os presbiterianos têm algo a aprender com a normatização dos metodistas e dos batistas brasileiros.
2.3 – O PASTOR PRESBITERIANO: UM TIPO PARTICULAR DE CLÉRIGO
Em termos sociológicos, Willaime (2003:129) apresenta o “clérigo” como sendo “membro de uma instituição militante que gera bens de salvação oficiando (culto), ensinando e liderando uma população leiga”. O modo como esse clérigo administra os bens de salvação compreende, segundo ele, três tarefas:
1a) a apresentação do divino aos fiéis através da atividade regular do culto;
2a) a fixação dessa imagem divina por meio de um discurso sistemático e coerente que racionaliza crenças e práticas (funções de ensino), bem como a salvaguarda dela no contexto sociocultural ambiente (funções apologéticas);
3a) a liderança sobre as vidas dos fiéis, atentando para que eles coloquem em prática
os ensinos religiosos e ajudando-os nesse mister (funções pastorais).
À luz dos conceitos de Willaime não temos dificuldades em classificar o pastor presbiteriano na categoria de “clérigo”. Entretanto, para cada tradição religiosa há um tipo específico de clérigo. A questão que importa aqui é: Que tipo particular de clérigo é o pastor presbiteriano? Tendo como ponto de partida a tipologia weberiana de autoridade religiosa (Weber,1991:280-320), Willaime (1986,2002,2003) procura analisar a figura do pastor protestante. Porém, os seus estudos mostram algumas ambigüidades e contradições que cercam a figura do pastor como profissional da religião. Willaime, ao constatar que a tipologia
weberiana não dava conta de apreender as várias facetas da figura do pastor como autoridade religiosa, procurou estudá-lo a partir do lugar ocupado por esse especialista no sistema religioso protestante. Assim, num primeiro momento, Willaime apresenta o pastor como “pregador”, para em seguida abordá-lo como “doutor”. Consideremos cada um desses modelos separadamente.