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A segunda característica do membro de uma instituição simbólica de caráter militante é apresentada por Willaime (2003:126) nos seguintes termos: o clérigo “trabalha em relação constante com militantes benévolos”. Quem são esses “militantes benévolos”? Ora, são os leigos, pois os clérigos precisam deles não só para fortalecer a militância da instituição, mas principalmente para mantê-la financeiramente por meio das contribuições, garantindo assim por tabela o seu próprio sustento. Os leigos, por sua vez, não querem apenas contribuir financeiramente, mas também participar das diversas instâncias de poder, redefinindo com essa participação os rumos da instituição. Em contrapartida, os clérigos tentam impedir que os leigos exerçam hegemonia nesses espaços.

O pastor presbiteriano lida com duas categorias de “leigos benévolos”: os presbíteros, leigos escolhidos por outros leigos para administrar, juntamente com o pastor, a comunidade local, também chamados de presbíteros regentes, e os demais leigos que compõem a membresia da igreja. Vamos analisar cada um separadamente. Comecemos com uma citação de Emile Leonard (1981:239) sobre a importância dos presbíteros numa igreja presbiteriana: “Sua importância é, de fato, tão grande nas igrejas que, por sua causa, elas se chamam presbiterianas, tornando-se eles, muitas vezes, uma força bem distinta entre o pastor e os fiéis”. Praticamente, os presbíteros exercem todas as funções dos pastores, exceto aquelas que são privativas do pastor, conforme determina o Manual Presbiteriano (1999:19): “administrar os sacramentos, invocar a bênção apostólica sobre o povo de Deus e celebrar o casamento com efeito

civil”. Conforme afirmamos anteriormente, no sistema presbiteriano de governo os presbíteros participam em regime de igualdade com os pastores das diversas instâncias de poder que definem os rumos da instituição. Entretanto, essa paridade no exercício do poder religioso gera, freqüentemente, tensões e conflitos entre pastores e presbíteros, especialmente nas reuniões conciliares. Daí por que, segundo Leonard (1981:239), “a história de todas as Igrejas Calvinistas conhece, em todo o mundo, as lutas entre pastores e os ‘antigos leigos’. Elas existem também nas comunidades brasileiras”.

Campos (1987:162), à luz das teorias de Weber e Bourdieu, tratou da relação conflituosa entre pastores e presbíteros. Segundo ele,

“o exercício da autoridade coletiva através do ‘Conselho da Igreja’ impõe ao pastor limites aos quais ele precisa se ater. Daí haver necessidade de uma interação entre pastor e presbíteros, convivência nem sempre pacífica, entremeada de tensões e conflitos, decorrentes do lugar ocupado por ambos na produção e distribuição dos bens religiosos”.

Wilson E. de Souza (1998:26) também deu especial atenção à relação entre pastores e presbíteros, relembrando que “os presbíteros representam o poder na instituição e, devido aos seus privilégios, competem entre si e especialmente com o pastor”. Um outro autor, Breno Martins Campos (2002:69-70), ao analisar as relações de poder dentro da IPB, afirma que:

“...sociologicamente, pode-se interpretar o poder atual dos presbíteros (para manipular os bens religiosos e a vida dos fiéis leigos que só demandam bens de salvação) como fruto dos mecanismos de pressão desenvolvidos por eles para ter acesso ao poder e à legitimação desse acesso ao poder: ora ameaçando apoio a um profeta (que pode ser um leigo ou um pastor concorrente não enquadrado aos esquemas de poder-dominação), ora ameaçando tornarem-se eles mesmos, os presbíteros, profetas concorrentes do pastor, tirando-lhes os seguidores, a legitimação, a força e autoridade conseqüentes, e, sobretudo, o sustento financeiro (remuneração). E os presbíteros têm condições para esta última empresa por não dependerem de remuneração da igreja”.

Em nossa pesquisa, foi possível localizar respostas a alguns problemas enfrentados pelos pastores no relacionamento com os presbíteros. Assim, à pergunta: “Na sua opinião, quais as principais dificuldades que o pastor enfrenta no ministério?”, pelo menos 13 pastores mencionaram as dificuldades relacionadas aos presbíteros. Por isso, para analisar tais dificuldades, resolvemos, para efeitos didáticos, classificá-las em três blocos:

As dificuldades devidas à ausência ou desinteresse dos presbíteros na gestão dos bens simbólicos:

“Falta de contribuição dos presbíteros no ministério pastoral de visitação,

sobrecarregando o pastor”.

“Os presbíteros estão muito envolvidos com suas profissões”. “Pouca dedicação dos presbíteros”.

Essas críticas podem sinalizar o aumento do clericalismo na medida em que os leigos delegam ao especialista religioso a responsabilidade de gerir o capital simbólico, conforme sugestão de Campos (1987:163). Geralmente, essas dificuldades são detectadas pelos pastores de “dedicação exclusiva”, também chamados de pastores de “tempo integral”. Os presbíteros sentem-se mais desobrigados de suas funções, sabendo que há alguém que se dedica exclusivamente à causa e que está sendo remunerado para isso.

As dificuldades relacionadas ao modo como o pastor é tratado pelo conselho:

“Expectativa e carga que o Conselho impõe ao pastor, esquecendo-se de que o pastor é também um ser humano limitado”.

“Presbíteros entendendo que o pastor é seu funcionário”.

“Falta de percepção do Conselho quanto às necessidades pessoais do pastor”.

“A igreja perdeu a visão do que é um ministério pastoral. A impressão que se tem é que a Igreja paga um profissional para livrá-la de seus problemas. A tendência da igreja é ver o pastor como empregado e não como um ministro de Deus”.

Alguns pastores presbiterianos têm escrito sobre essa “tendência”. Casimiro (2002:40), por exemplo, fala do “Conselho-Patrão”: “Há muitos presbíteros e conselhos que tratam o pastor como se fosse um empregado. Há tesoureiros de igreja local que humilham o pastor, principalmente quando o sustento do mesmo depende integralmente da igreja”. Um outro pastor presbiteriano, Addy Carvalho (2002:150,151), afirma: “O pastor é às vezes tratado como empregado e seu ministério passa a ser direcionado para o atendimento daquele homem especial, sob pena de passar por dificuldades até mesmo financeiras”. Carvalho relata um episódio

ocorrido com ele mesmo, que reflete bem essa percepção do pastor como empregado dos presbíteros:

“Aqui em São Paulo um certo presbítero ligava para a minha casa sempre entre as 6 ou 7 horas, disfarçando a voz, e quando eu atendia, ele desligava sem dizer uma palavra. Às pessoas da igreja ele dizia que assim agia para ver se o pastor não era preguiçoso e/ ou se já estava acordado àquela hora da manhã. Pastor, para esse ‘irmão’ , não é preguiçoso quando acorda às 7 da manhã...”

As dificuldades relacionadas aos conflitos de poder:

“Monopólio de alguns membros do Conselho”. “Choques com lideranças – donos de igrejas”.

“Ciúmes de alguns oficiais por causa da amizade do pastor com outros membros”. “Ciúme gerado por ocupar seu lugar na liderança”.

É importante, porém, ressaltar a existência, no discurso do pastor, de uma imagem idealizada do presbítero e de como este deve se conduzir no exercício de seu oficio, especialmente em suas relações com o pastor. Recolhemos durante a pesquisa dois parágrafos de um texto escrito por Carvalho (2002:151), os quais retratam o presbítero ideal na concepção do pastor:

“Quero testemunhar, por outro lado, a favor da grande maioria de presbíteros que conhecem e que exercem bem o ministério presbiteral. A começar pelo respeito que devotam ao pastor e à família do pastor. São companheiros que se juntam e compartilham as alegrias e dificuldades naturais que vigem no presente, inclusive nas casas dos pastores ; presbíteros de vida sã e piedosa, arautos das doutrinas e do governo da igreja; homens de boa índole, modelos na família e dos quais todos falam bem.

Conheço bons presbíteros e dedicados tesoureiros que depositam pontualmente a côngrua pastoral, fazem adiantamentos, perguntam de que o pastor precisa, assistem às necessidades de seu docente, além do que, quantas vezes vão à casa do pastor ou mandam sua esposa ‘espiar’ o armário de mantimentos para que, em hora alguma, nada falte à família e à casa do pastor” . (o grifo é do autor)

Além do exposto, queremos ainda acrescentar algumas outras observações. O conselho de uma igreja local presbiteriana sempre é formado por mais presbíteros do que pastores. No entanto, os presbíteros formam um espírito de corpo que ora amplia o apoio ao pastor, ora o limita ou até mesmo o retira, inclusive em termos financeiros, diminuindo o salário do pastor. Embora a comunidade de leigos tenha o

direito de eleger ou reeleger o seu pastor mediante o voto, na verdade, a permanê ncia ou a troca de um pastor é geralmente determinada pelo Conselho. Por isso, quase sempre é o pastor indicado pelo Conselho para concorrer a uma eleição quem sai vencedor. Porém, se porventura ocorrer o contrário, o pastor eleito terá muitas dificuldades para impor o seu projeto de gestão dos bens simbólicos, pois não irá contar com o apoio do Conselho, o que pode levar inclusive à renúncia do pastorado da igreja. O mesmo se verifica quando o Conselho decide não renovar o convite para que um pastor continue na igreja, mesmo gozando esse pastor do apoio e da simpatia de grande parte da comunidade.

De tudo isso, concluímos que o pastor presbiteriano, estando em desvantagem numérica no conselho da igreja, procurará estabelecer alianças e buscar o consenso com o maior número possível de presbíteros. É comum ouvir entre os pastores presbiterianos, especialmente em épocas de eleição pastoral, frases como estas: “Eu tenho todo o Conselho comigo”, “Tenho metade do Conselho”, ou ainda, “Boa parte do Conselho me apóia”, ou “Todo o Conselho está contra mim”. Por causa dessa relação muitas vezes conflituosa entre pastores e presbíteros, cunhou-se uma expressão que acabou virando um refrão nas igrejas presbiterianas e que revela quem são normalmente os vencedores: “O pastor passa (vai embora) e o Conselho (presbíteros) fica”.

Queremos agora tratar do trabalho do pastor em sua constante relação com o restante dos leigos, que são a maioria na igreja e formam a sua base social. Podemos perguntar: No que consiste o trabalho que o pastor oferta para os leigos? Para usar a linguagem weberiana, podemos afirmar que o pastor exerce basicamente funções sacerdotais e proféticas em relação aos leigos. Suas funções sacerdotais são: presidir o culto público, celebrar os sacramentos, impetrar a bênção sobre os leigos, fazer oração com os leigos e por eles, ensiná-los na doutrina cristã, prestar assistência pastoral através de visitas aos lares dos fiéis ou em hospitais quando internados, instruir os iniciantes na religião, conforme preceitua o Manual Presbiteriano (1999:21). Por outro lado, a função profética do pastor consiste em fazer pregações da Bíblia para os fiéis reunidos em culto. Porém, é possível inverter a pergunta: O que o pastor espera dos leigos? Segundo o mesmo Manual (p.14), que eles coloquem em prática os ensinos da Bíblia; que sejam militantes no sentido de trazer outros para a igreja; que contribuam financeiramente para a igreja, de preferência tornando-se

dizimistas; que obedeçam e valorizem o pastor e sua fa mília; que sejam assíduos aos cultos e demais reuniões da igreja.

Por isso, tanto o trabalho do pastor em relação aos leigos, como a resposta destes ao que lhes é oferecido devem ser vistos no contexto das interações que se estabelecem entre as duas partes. Nesse sentido, podemos nos valer mais uma vez da análise feita por Campos (1987:137-142) sobre as relações entre pastor e leigos. Tomando como exemplo um pastor recém-instalado na igreja, Campos observa dois momentos. No primeiro momento, o pastor e os leigos começam a se descobrir mediante um cuidadoso estudo mútuo. É a fase em que o pastor identifica quem são os líderes da comunidade, os membros mais influentes, aqueles mais assíduos e devotados às atividades religiosas, possíveis focos de oposição e o tipo de culto (formal ou informal) preferido na igreja. Por sua vez, os leigos começam a perceber o estilo do pastor, se é conservador ou liberal, se é contagiante, se faz boas pregações, se sua família se envolve com as atividades da igreja, principalmente a esposa, no caso de ele ser casado, etc. Dependendo de como se desenvolve esse período, que Campos chama de “lua de mel” entre pastor e igreja, duas frases podem ser ouvidas entre os leigos: “Esse pastor veio para ficar” ou “Esse pastor não dura muito aqui”.

O segundo momento é marcado pela tentativa do pastor de impor à igreja a sua estratégia de trabalho, visando, sobretudo, ao crescimento numérico da comunidade e ao aumento das arrecadações financeiras, o que pode redundar até mesmo no aumento do seu próprio salário. Segundo observa Rubem Alves (1982:162), esse tipo de crescimento é um dos principais quesitos para se medir o sucesso do trabalho de um pastor na igreja. É evidente que, a fim de implementar seu projeto, o pastor se devotará totalmente ao trabalho religioso, procurando visitar todas as famílias da igreja e aquelas que potencialmente poderão vir a fazer parte dela. Conseqüentemente, ainda segundo Alves, o pastor que quiser ter sucesso em seu trabalho “deve estabelecer relações de confiança, amizade e ascendência espiritual para com seus paroquianos”, e nada melhor para isso do que visitas periódicas aos membros da igreja. Nesse aspecto, o pastor de dedicação exclusiva ou de tempo integral leva vantagem sobre o pastor de tempo parcial, porque ele terá melhores condições de tempo e de disponibilidade para investir nessas relações. Esse tipo de dedicação conta muito na hora de os leigos votarem pela permanência ou troca de um pastor na igreja local.

Ainda quanto ao segundo momento das relações entre pastor e leigos, Campos (1987:138) mostra que o pastor precisa do apoio e da cooperação do maior número possível de leigos para levar adiante os seus projetos, porém, via de regra ele logo percebe que há resistência de uns e de outros, temerosos de perder os cargos que ocupam na igreja. Lembrando novamente da teoria dos campos de Bourdieu, a igreja local também se apresenta como um espaço de lutas pelo poder religioso, disputando os leigos com o pastor e entre si parcelas desse poder. Por isso, torna-se imperioso para o pastor estabelecer alianças com determinados leigos, principalmente os mais influentes na comunidade, para realizar os seus planos de trabalho e assim permanecer na função-emprego. De outro lado, os leigos, em troca do apoio dado ao pastor, procuram exercer um certo controle sobre ele, circunscrevendo-o “dentro de um círculo a eles favorável...”, conforme observações de Campos (1987:138).

Todavia, as relações do pastor com os leigos se dão também por meio de grupos organizados, quase sempre por interesses ou faixa etária. Geralmente, nas igrejas locais, os leigos se organizam em sociedades internas, obedecendo a critérios de gênero (SAF – Sociedade Auxiliadora Feminina; UPH – União Presbiteriana de Homens) e de faixas etárias (UMP – União da Mocidade Presbiteriana; UPA – União Presbiteriana de Adolescentes; UCP – União de Crianças Presbiterianas). A importância de cada uma dessas sociedades na igreja local é medida pelo número de sócios arrolados, bem como pela participação mais ou menos intensa nas atividades comunitárias. Essas sociedades também disputam entre si o poder religioso na Igreja. Ao falar sobre eleição de presbíteros na igreja, Casimiro (2002:40) declara: “Quando se faz eleição para presbíteros na igreja local, cada segmento deseja eleger um representante a fim de que o mesmo defenda os seus interesses junto ao conselho. É muito comum a expressão ‘o candidato da SAF’ ou ‘o candidato dos jovens’”.

Disso se depreende que há conflitos de interesse entre as várias sociedades de leigos na igreja, e o pastor não está imune a eles. Podemos citar como exemplo de conflito de interesse a questão da preferência litúrgica. Os jovens desejam uma liturgia mais informal, com cânticos animados por ruidosos instrumentos musicais, enquanto as senhoras e os homens preferem um culto mais solene, com hinos tradicionais ao som de órgão ou de piano. Como responsável pela liturgia do culto, a quem o pastor atenderá? Poder-se-iam descrever outros variados exemplos de conflitos comuns no cotidiano de uma igreja local. Diante de tudo isso, cabe ao pastor investir nas alianças com os leigos, sabendo, contudo, que não será possível

agradar a todos e que, em algum momento, os conflitos emergirão com maior ou menor intensidade, podendo, inclusive, provocar a sua saída da igreja.

Fizemos um mapeamento das dificuldades na relação com os leigos por meio da análise das respostas à seguinte pergunta: “Na sua opinião, quais as principais dificuldades que o pastor enfrenta no ministério?” As dificuldades mencionadas foram classificadas em três grupos:

Dificuldades decorrentes do modo como os pastores e suas famílias são tratados pelos leigos:

“Ingratidão”.

“Desvalorização do seu ministério por parte da igreja, vendo-o como empregado”. “Expectativas excessivas por parte da igreja”.

“Críticas injustas”.

“Cobranças indevidas em áreas não fundamentais”. “Mistificação da figura do pastor”.

“Muita cobrança, pois muitas vezes os membros se aborrecem por não terem sido visitados, mas nunca chamam o pastor”.

“Falta de visão da igreja quanto ao ministério pastoral”.

“Dificuldade do pastor e seus familiares serem vistos pela comunidade como pessoas com necessidades, problemas e limitações como todos os membros da igreja”; “cobranças quanto à sua família”.

“Alta cobrança sobre a família do pastor”.

Dessas declarações, queremos chamar a atenção para as que se referem às dificuldades da comunidade para ver o pastor e sua família como pessoas que comportam necessidades, problemas e limitações. Observa-se, com freqüência, cobranças e um excesso de exigências ao pastor e aos seus familiares. Souza (1998:50) escreveu sobre o modelo ideal de pastor presbiteriano, sob a ótica da instituição, alistando, entre as características desse modelo ideal, algumas ligadas à vida familiar: “A casa do ministro, sempre bem freqüentada, principalmente pelos seus paroquianos - a grande maioria das residências pastorais localizam-se próximas do templo – deve ser um exemplo às demais famílias de sua comunidade (...) um exemplo para os demais lares da Igreja”. Os leigos esperam que o pastor e seus familiares sempre correspondam a esse ideal, daí as críticas, exigências e cobranças.

Nessa mesma linha, Velasquez Filho (1990:228-229), referindo-se ao controle disciplinar que uma comunidade local exerce sobre seus membros, principalmente aquele de caráter informal, lembra que o pastor e seus familiares são os alvos privilegiados. Embora seja um longo trecho, vale a pena registrá-lo:

“O controle disciplinar é exercido por toda a comunidade. Contudo, a situação mais complexa é a dos pastores. Ao mesmo tempo em que são os principais responsáveis pelo controle e aplicação da disciplina, são igualmente os mais controlados pela comunidade. Como herança pietista, o protestantismo acha que alguém que não seja absolutamente puro de coração e não dê testemunho impecável, tanto dentro da comunidade religiosa como no mundo, não tem condições espirituais de pregar o Evangelho, exortar os crentes ou ministrar os sacramentos. (...). A casa, a família e a vida privada ou pública do pastor são mais vigiadas do que as de qualquer outro membro da comunidade. A esposa do pastor também é alvo de vigilância dobrada. Além do seu testemunho pessoal, deve estar presente a todas as atividades da comunidade. De preferência deve ser organista, participar do coral, da sociedade de senhoras, ser professora de crianças e adolescentes da Escola Dominical e ainda estar sempre disponível para atividades e campanhas especiais que a comunidade promover. Mas os mais sacrificados talvez sejam os filhos. Eles devem ser modelo para todos, sem direito a serem crianças ou adolescentes normais como os demais de sua idade. Os problemas que afetam a vida conjugal do pastor ou que envolvam seus filhos não podem ser do conhecimento da comu nidade. Além disso, o pastor não tem suficiente confiança em seus colegas para tomá-los como confidentes e conselheiros. Uma confidência pode transformar-se em arma na mão do colega, em disputa de cargo eclesiástico ou em discussão doutrinária. Talvez esta seja uma das razões pelas quais tão grande número de pastores, geralmente os mais esclarecidos, deixa o pastorado ou a Igreja”.

Dificuldades decorrentes dos desgastes nos relacionamentos com os leigos:

“É preciso ter reservas quanto aos próprios membros”. “A política eclesiástica até mesmo da SAF e da UMP”.