2.3 Tilknytning, felles oppmerksomhet og responsivitet
2.3.1 Tilknytning
Como no subponto anterior, faremos aqui um primeiro sobrevoo, neste caso, sobre os estudos portugueses dedicados à análise dos trajetos de contratendência e deixaremos para os capítulos seguintes uma exploração mais aprofundada dos contributos substantivos dessas pesquisas. Na sociologia portuguesa, o prolongamento e sucesso escolares nas classes populares não tendo estado completamente invisíveis nas pesquisas sobre as desigualdades sociais na educação, tiveram, habitualmente e com diferentes intensidades, um estatuto analítico secundário.
Só muito recentemente é que esses trajetos têm vindo a ser tomados enquanto objeto de análise específico. Tratam-se ainda de pesquisas de pequena escala, desenvolvidas no quadro de projetos individuais de doutoramento, como o nosso estudo e o de Évora (2013) 10; e de mestrado, como a pesquisa de Teixeira (2010) e de outros (Fernandes, 2007; Antunes, 2008; Santos, 2012), frequentemente pesquisas qualitativas sobre trajetos no ensino superior de jovens com origem nas classes populares. Boa parte desses trabalhos coloca, como veremos, o centro da análise nas estratégias e contextos familiares, como aliás acontece em boa parte das pesquisas internacionais sobre o tema, como se viu anteriormente.
Encontramos ainda pesquisas que, não se debruçando unicamente sobre os trajetos de contratendência nas classes populares, oferecem importantes contributos a esse propósito, como: a de Costa e Lopes (2008), que cunha a designação “trajetos de contratendência” aqui utilizada e que tem tido continuidade em trabalhos recentes (Costa e Lopes, 2010 e 2011; Lopes, 2013; Costa, Lopes e Caetano, 2014; Couto et al., 2014); e o trabalho de análise extensiva da equipa Carvalho et al. (2012) que a partir dos dados PISA, tem procurado caracterizar, para o caso português, os “alunos resilientes”, designação proposta no relatório Against the Odds: Disadvantage Students Who Succeed in School (OCDE, 2011)11.
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Do nosso conhecimento, à altura da redação deste texto, encontrava-se em desenvolvimento, pelo menos, uma tese de doutoramento em sociologia sobre trajetos escolares de contratendência em Portugal. Referimo-nos ao projeto de Elsa Justino, que se debruça sobre os trajetos escolares “inesperados” no ensino superior, designadamente, nas fileiras mais seletivas do sistema (Medicina, Farmácia e Belas-Artes, etc.), prevendo-se a utilização dos dados dos Serviços de Ação Social da Universidade de Lisboa.
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Embora sem o mesmo destaque, encontramos sinalizações desses trajetos na pesquisa Do Outro Lado da
Escola (Benavente et al., 1987), em que se pode considerar que um dos casos analisados corresponde exatamente
a um caso de contratendência. Machado e Silva (2009), num estudo sobre as transições para vida adulta num bairro de realojamento social, salientam a existência daquilo a que chamaram “caminhos de mobilidade ascendente”, associando-os à inexistência de reprovações nas primeiras etapas escolares, frequência de ambientes escolares (escolas, turmas) menos marcados pela exclusão, existência de estratégias parentais orientadas para o investimento escolar e para o enquadramento normativo e escolar em geral (explicações; participação nas reuniões escolares; vigilância da rotina diária e escolar dos descendentes; escolhas e mudanças
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Évora (2013) concluiu recentemente um estudo sobre o sucesso escolar dos alunos de origem cabo-verdiana, de famílias com reduzidos recursos socioeconómicos. Trata-se de uma pesquisa qualitativa (entrevistas em profundidade a 24 jovens e respetivos pais) e comparativa, confrontando os trajetos escolares de jovens das classes populares que concluíram no máximo o 9º ano de escolaridade e os trajetos escolares de jovens que ingressaram no ensino superior português. O estudo foca especialmente o envolvimento dos pais (mas também dos irmãos) nos trajetos escolares dos seus descendentes através de múltiplas estratégias de controlo do quotidiano dos filhos. Não podendo, muitas vezes, apoiar diretamente a realização dos trabalhos escolares, essas famílias desenvolvem estratégias periféricas que procuram garantir que os seus descendentes cumpram as suas “obrigações” escolares.
A pesquisa de Teixeira (2010) sobre os trajetos no ensino superior português de estudantes das classes populares que beneficiaram de bolsas de estudo municipais12 realça, entre outras coisas, o investimento pedagógico dos pais destes jovens, o “cálculo racional do percurso escolar dos filhos e disposições familiares ascéticas” (Teixeira, 2010: 389). Na sua perspetiva, estes casos remetem, em certa medida, para estratégias familiares focadas na escolarização dos descendentes (levadas a cabo especialmente pelas mães), que passam pela “libertação” dos filhos, ao longo do trajeto escolar, da entrada no mercado de trabalho e das tarefas domésticas e pela participação ativa na vida escolar dos filhos (ainda que não apoiem na realização dos trabalhos escolares). Segundo a autora, uma das alavancas dessas estratégias é a frustração das ambições escolares dos pais que, tendo experienciado eles próprios a rutura da aspiração de uma escolarização longa, transferem para os filhos o projeto de uma escolaridade prolongada. Teixeira (2010) observa esse “lastro” do projeto escolar de uma geração para a seguinte pela ótica “sócio-genealógica” proposta por Laurens (1992) que, em termos gerais e a nosso ver, não está muito distante da ideia de “inclinação” para a mobilidade que Pierre Bourdieu assinalava nos “grupos” em trajetória de ascensão (numérica e social) 13
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de escola; etc.). Seabra (2010), numa comparação entre os trajetos escolares de jovens de origem indiana e cabo- verdiana com posições de classe semelhantes, observa que os primeiros atingem resultados relativamente mais positivos, algo que na perspetiva da autora se deve, por um lado, a uma socialização familiar sustentada na “adaptabilidade cultural” e, por outro, à maior probabilidade de inserção em turmas cujos alunos não revelam trajetos escolares desintegrados. Com um enfoque distinto mas que interessa não deixar de salientar, a pesquisa de Matos e Duarte (2007) e o trabalho de Abrantes (2010 e 2011) dão conta daquilo que pudemos considerar escolas de “contratendência”, isto é, escolas que apesar de situadas em contextos muito marcados pela exclusão social revelam resultados acima do que seria esperado face ao perfil dos seus públicos.
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Teixeira (2010) mobiliza no seu estudo, por um lado, uma análise de índole mais quantitativa de quarenta processos administrativos de bolseiros e entrevistas em profundidade a quatro jovens em trajetos de contratendência no ensino superior e às respetivas mães.
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Interessa dizer que, enquanto no quadro bourdiano a “inclinação para a mobilidade” é tida como uma disposição, isto é, uma estrutura incorporada e que opera independentemente da consciência que os indivíduos possam ter dela; para Laurens (1992) o que está em causa é um “ator sócio-genealógico”, um projeto de
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Carvalho et al. (2012) numa comparação entre os resultados das inquirições PISA de 2000 e 2009 (literacia em leitura) analisam o que designam, seguindo a proposta da OCDE (2011), casos de “resiliência” no sistema educativo português comparando e mobilizando para esse efeito o indicador mais propício à análise intra-nacional14. Salientam a importância das estratégias de estudo: maior prazer na leitura e a utilização mais frequente de estratégias de controlo, como monitorização dos resultados das suas estratégias de aprendizagem e estratégias de elaboração em que articulam as aprendizagens escolares com referências de outros contextos de aprendizagem e socialização. Para além disso, salientam a importância da composição socioeconómica das escolas na explicação desses trajetos (face aos restantes da mesma condição socioeconómica, tendem mais frequentemente a estar inseridos em escolas socialmente heterogéneas); a maior presença e utilização de recursos culturais e educacionais nos contextos domésticos; a maior “vantagem” das raparigas e dos autóctones.
Outra das conclusões interessantes desse estudo remete para a proposta explicativa de um dos resultados, de certa forma “inesperado” do relatório da OCDE de 2011 Against the Odds: Disadvantaged students who succeed in school. Na comparação internacional efetuada nesta última pesquisa, o sistema educativo português surge ao lado do sistema finlandês, que há muito se destaca pela maior equidade social na educação, enquanto um dos países com maior peso de estudantes “resilientes” entre os alunos com origens socioeconómicas mais desfavorecidas. Como refere Carvalho et al. (2012), esses resultados poderão ser o efeito da melhoria que, nos últimos anos, o sistema educativo português tem vindo a revelar nas rondas PISA, designadamente no PISA 2009, onde se observa que a marcada melhoria dos níveis médio de proficiência nos últimos anos se deve exatamente à melhoria dos resultados dos alunos com origens socioeconómicas mais desfavorecidas, portanto, parece estar relacionado com o estreitamento do gap entre alunos com origens sociais mais e menos desfavorecidas.
A equipa do projeto ETES: Os Estudantes e os seus Trajetos no Ensino Superior: Sucesso e Insucesso, Fatores e Processos, Promoção de Boas Práticas tem vindo a desenvolver, nos últimos anos, uma tipologia de percursos escolares com base numa abordagem qualitativa de tipo biográfico (retratos sociológicos) cujo um dos perfis remete exatamente para os “percursos de contratendência de sentido ascendente” (Costa e Lopes, 2008; Costa e Lopes, 2010 e 2011; Lopes, 2013; Costa, Lopes e
linhagem: “Nous a inévitablement mené vers les démarches biographiques et les méthodes longitudinales mais
aussi vers une approche sociologique en terme d’acteur, d’homo-historicus puisque nous croyons pouvoir dire maintenant qu’il existe un acteur familial lignager, un acteur social ‘généalogique’ : la lignée familiale. (…) Bref, même en milieu populaire, les lignées familiales sont les acteurs principaux de la réussite scolaire de l’enfant. ” (Laurens, 1992 :238-240).
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Carvalho et al. (2012) classificam como alunos resilientes aqueles que, apesar de terem origens sociais desfavorecidas, atingem scores de literacia em leitura elevados (PISA 2000 e 2009); mais concretamente, a categoria recobre os alunos no tertil mais baixo do ponto de vista do estatuto socioeconómico e cultural do seu país e, simultaneamente, no tertil mais elevado do desempenho em leitura, também no seu país.
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Caetano, 2014; Couto et al., 2014). Uma das conclusões gerais desse trabalho é que, não só esses trajetos põem a claro a multiplicidade de fatores que se combinam na formação de qualquer trajeto escolar, como não parece existir uma constelação de causas dominante na explicação destes trajetos específicos. Existem contudo dois aspetos prevalentes. Por um lado, o pendor estratégico e motivacional, isto é, a capacidade de agência dos atores, quer das famílias (embora nem sempre se trate de uma mobilização altamente focada na educação), quer dos estudantes. Contudo, a capacidade de agência dos estudantes “não nasce num vácuo social, parecendo antes ser induzida e estimulada ora pelas famílias de origem, ora por professores incentivadores, ora ainda pela rede de sociabilidades” (Costa e Lopes, 2008: 565). Por outro lado, o efeito do próprio percurso escolar passado, a preparação escolar prévia ao ensino superior.
Como vimos, as pesquisas portuguesas sobre trajetos de contratendência são recentes, a maior parte publicadas nos últimos cinco anos, contrastando com a produção sociológica em torno do tema noutros países, embora mesmo aí não se possa falar de uma linha consolidada de pesquisa. Deixando para os próximos capítulos uma discussão mais aprofundada de todos esses contributos, interessa agora notar que o caráter recente, mas também escasso, das pesquisas portuguesas sobre trajetos de contratendência das classes populares parece-nos estar relacionado com o perfil tardio da massificação escolar em Portugal e o tipo de problemas sociais e escolares que têm tido saliência nas agendas científicas e políticas no domínio educativo.
Muitos países europeus, designadamente França, enfrentavam, nas décadas de 70 e 80, os desafios da primeira vaga de generalização do ensino secundário e superior e, a partir da década de 90, a chamada “segunda explosão escolar”, conjunturas que ajudam a perceber a profícua produção sociológica em torno das desigualdades sociais perante a educação e a passagem das questões do “acesso” para as do “sucesso” e “orientação escolar” (Seabra, 2009), mas que terão contribuído também, de alguma forma, para o surgimento dos estudos especificamente sobre trajetos de contratendência ou sobre os “novos alunos” (nouveaux etudiants; nouveaux lycéens) (Dubet, 1991; Dubet e Martuccelli, 1996; Bautier e Rochex, 1998; Erlich, 2004). O sistema educativo português, por seu lado, nas décadas de 60 e 70 estava longe de ver generalizado o acesso aos patamares escolares pós-primários, aliás, era ainda bastante saliente o peso do analfabetismo, do insucesso escolar no ensino primário e a sua relação com as desigualdades de classe, género e também território (entre outros, Grácio e Miranda, 1977; Benavente e Correia, 1981; Benavente et al., 1987; D’Espiney e Canário, 1994). Para além disso, o sistema educativo português do Estado Novo era atravessado pelas desigualdades sociais produzida pela divisão entre liceus e escolas técnicas (entre outros, Ângelo, 1975; Cruzeiro e Antunes, 1977 e 1978; Grácio, 1986) e um ensino superior muito restrito e claramente destinado às elites e classes urbanas mais favorecidas (Nunes, 1968)15. Como é possível
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Os primeiros estudos sobre as desigualdades sociais na universidade surgem ainda durante o Estado Novo, no quadro da Juventude Universitária Católica (JUC). Posteriormente surge o projeto A Universidade na Vida
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subentender-se no texto de Vieira (2007a) a propósito do impacto do trabalho de Pierre Bourdieu na então recém-criada sociologia portuguesa, nesse período as pesquisas orientavam-se sobretudo para o desvendamento das formas mais “cruas” das desigualdades sociais perante a escola. Portanto, na transição para o regime democrático e nos anos subsequentes, num contexto quer de escassez de pesquisas quer de contrastes sociais abissais, seria de esperar que a agenda científica e também a agenda política, ambas obviamente interligadas, se orientassem para aquelas que eram as manifestações mais gravosas das desigualdades sociais perante a escola e não para o estudo dos trajetos escolares de contratendência.
Até à transição para o regime democrático em meados da década de 70, o recrutamento social do ensino superior português era particularmente circunscrito e elitizado, somente uma minoria socialmente privilegiada dos jovens acedia a esse sub-sistema, embora nem todas as elites revelassem particular “interesse” pela escola. Contudo, o arranque (lento) do processo de abertura social do ensino