4.1 Hvor mye kontakt er det mellom ettåringen og de voksne i hverdagen i barnehagen,
4.1.4 Eksempler fra formiddagen i de ulike barnehagene
Explorámos anteriormente um conjunto de pistas de análise que podem ser entendidas, de certa forma, como “condições externas de possibilidade” desses trajetos, tais como: as dinâmicas e reconfigurações dos sistemas educativos (ver capítulo 2); os lugares e trajetórias de classe específicas dessas famílias e o que isso significa do ponto de vista das disposições de classe e do capital cultural “transmitidos” a esses jovens ao longo do processo de socialização familiar (ver subponto 3.1.); as intencionalidades educativas (umas mais, outras menos diretamente escolares) e o investimento das famílias no sentido de “levar” os seus descendentes a um dado tipo de performance escolar (ver subponto 3.2.); sejam os processos de “transmissão” não intencional de disposições cognitivas e sociolinguísticas que ocorrem na socialização doméstico-familiar (ver subponto 3.3.).
Essas orientações de análise não nos oferecem, contudo, ferramentas que nos permitam pensar no papel dos próprios jovens, como estes participam e como são interiormente marcados por esses trajetos escolares “atípicos”. Discutimos adiante o contributo de Pierre Bourdieu e Bernard Lahire para o entendimento da pluralidade disposicional (subponto 4.1.) e o trabalho de François Dubet (subponto 4.2.) no domínio da experiência escolar e subjetivação nas sociedades contemporâneas.
4.1. Do habitus clivado aos reportórios múltiplos de disposições
As consequências “disposicionais” dos fenómenos da “mobilidade social” (em sentido lato), como é aquele dos trajetos de contratendência que temos vindo a analisar, ou de outros fenómenos que impliquem maior variabilidade entre e intra contextos de socialização, têm vindo a ganhar destaque na agenda sociológica atual através do trabalho de Bernard Lahire (2004 [1995]; 2003 [1998], 2006), autor que se inspira criticamente no património conceptual bourdiano. Na perspetiva de Lahire (2003 [1998]), e apesar de reter muitos aspetos do conceito de habitus, a proposta bourdiana não dá conta dos efeitos próprios da multiplicidade de redes de interdependência em que os indivíduos concretos se encontram e se vão movendo, aspeto que nas sociedades contemporâneas, altamente diferenciadas, tem especial relevância e que levanta muitas questões quanto à unicidade, durabilidade e transponibilidade do habitus.
Contudo, não se pode dizer que Pierre Bourdieu tenha ignorado por completo essas questões. Noções como a de efeito D. Quixote (Bourdieu, 2010 [1979]:189) ou hysteresis do habitus descrevem uma matriz disposicional forjada em determinadas condições passadas de existência e desfasada face a novas condições. Exemplo disso seriam os camponeses celibatários da sociedade Cabila, homens cujos habitus estariam orientados para determinadas condições e estratégias matrimoniais que se tornaram obsoletas com o progressivo declínio das sociedades camponesas, “encurralando-os” assim na
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condição de celibatários. Outra via pela qual Pierre Bourdieu aborda as “inconsistências” interiores refere-se à noção de “habitus clivado”60, resultado da socialização em contextos socialmente distintos e/ou contraditórios (os casos de mobilidade social em sentido lato são casos por excelência disso mesmo). Nesses casos existiria uma incorporação de disposições nem sempre coerentes entre si o que implicaria custos emocionais e psíquicos para os indivíduos nessa situação e sentimentos de desajustamento: “Tais experiências tendem a produzir habitus dilacerados, divididos contra eles próprios, em negociação permanente com eles mesmos e com a sua própria ambivalência; portanto, votados a uma forma de desdobramento, a uma dupla percepção de si e, também, às sinceridades sucessivas e à pluralidade de identidades” (Bourdieu, 1998 [1993]:235).
Ainda que na noção de habitus clivado haja uma abertura teórica para as questões do multi- pertencimento e da heterogeneização dos princípios de socialização e que o autor não deixe de considerar, como assinala Casanova (1995) que o habitus é “o produto da história, é um sistema de disposições aberto, incessantemente confrontado com novas experiências e portanto incessantemente afetado por elas.” (Bourdieu cit. Casanova, 1995:61), não é nesse conceito que encontramos as principais ferramentas para pensar a “variabilidade disposicional”.
Lahire (2004 [1995] e 2003) critica o caráter “sistemático” e “unificado” que Bourdieu atribuía ao habitus61 , questionando-o a partir do potencial de variabilidade decorrente da
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A noção de habitus clivado, apesar de estar longe de ter um lugar central no trabalho de Pierre Bourdieu, parece ter sido para o autor especialmente relevante na sua biografia pessoal, na construção de uma posição específica na academia e no tipo de objetos e metodologia de estudo que o distinguiam de muitos cientistas sociais seus contemporâneos (Derrida, Foucault,..), como revela no seu Esboço para uma auto-análise. “Esta
experiência dualista não podia deixar de contribuir para o efeito duradouro constituído por um desfasamento muito grande entre uma elevada consagração escolar e uma baixa origem social, ou seja, o habitus clivado, dominado pelas tensões e contradições. Esta espécie de «coincidência dos contrários» contribuiu para estabelecer de forma durável uma relação ambivalente, contraditória, com a instituição escolar, feita de rebelião e submissão, ruptura e expectativa, e que está talvez na origem de uma relação comigo mesmo também ela ambivalente e contraditória, como se a certeza acerca de mim mesmo, decorrente de me sentir consagrado, fosse minada, no seu próprio princípio, pela incerteza mais radical acerca da instância de consagração, uma espécie de mãe má, vã e enganadora (Bourdieu, 2005:106-107).
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“De fato, para que tenhamos um sistema de disposições individuais coerente, são necessárias condições
sociais bastante particulares que nem sempre estão reunidas. Durkheim, que utilizava a noção de habitus no sentido de uma relação com o mundo muito coerente e durável, evocava este conceito a propósito de duas situações históricas singulares: as «sociedades tradicionais» e o «regime de internato». (...) A partir do momento em que um ser social foi colocado, simultânea ou sucessivamente, no seio de uma pluralidade de mundos sociais não-homogéneos, às vezes contraditórios, ou no interior de universos sociais relativamente coerentes que apresentam, porém, sob certos aspetos, algumas contradições, podemos então nos defrontar com uma relação com o mundo incoerente, não-unificada, que origina variações práticas segundo a situação social na qual ele é levado a «funcionar» (Lahire, 2004[1995]:35-36). “Pierre Bourdieu insiste, com excessiva exclusividade, sem dúvida, no aspeto “sistemático” e “unificador” do habitus. (...) Não estamos colocando em
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heterogeneidade entre e intra contextos de socialização primária; das variações disposicionais que remetem para diferentes durabilidades das disposições incorporadas; dos limites e condições específicas de transponibilidade dos esquemas de disposições incorporados em determinadas condições para outras situações.
A “teoria da prática” e o conceito de habitus começam a consolidar-se aquando da pesquisa de Pierre Bourdieu na sociedade Cabila, uma sociedade fracamente diferenciada, e que portanto conduzia a proposições em que era privilegiada a unicidade, a durabilidade e a transponibilidade. “O paradoxo reside no facto de ter ao fim e ao cabo retido o modelo de habitus adaptado à abordagem das sociedades fracamente diferenciadas (pré-industrial; pré-capitalistas) para conduzir o estudo das sociedades com forte diferenciação que, por definição, produzem necessariamente atores mais diferenciados entre eles, mas também interiormente” (Lahire, 2003 [1998]:34). Por outro lado, interessa acrescentar que se para Pierre Bourdieu o conceito de disposições incorporadas é concebido pelo prisma dos processos de estruturação classista, Lahire (2003 [1998]) ancora-o aos múltiplos contextos de socialização e redes de interdependência onde os indivíduos concretos se encontram e se movem e assim, de certa forma, o plano da interação ganha uma nova saliência.
A crescente passagem, e cada vez mais precocemente, por uma multiplicidade de configurações sociais, implica discutir conceitos como o de socialização primária e secundária de Berger e Luckmann (1998 [1966]). A primeira estaria associada ao contexto familiar e a segunda aos restantes contextos de socialização (escola, trabalho, etc.). Na socialização primária, fase das primeiras incorporações que decorre numa situação de profunda dependência face aos adultos e, portanto, de estruturação profunda, os indivíduos adquiririam uma conceção do “seu mundo” como “o mundo”, sem recursos para o relativizar. Seria nos processos de socialização secundária que a possibilidade de relativização se constituiria, embora sempre com o predomínio das referências incorporadas na socialização primária. Lahire (2003 [1998]), sem deixar de reconhecer a importância dos primeiros processos de socialização, critica a ideia de que a possibilidade de “relativização” não estivesse presente logo nas primeiras etapas, quer porque as famílias podem ser internamente heterogéneas (algo que explora, por exemplo, em Tableaux de Familles e em Portraits Sociologiques), quer porque um número crescente de crianças estão expostas desde os primeiros meses de vida a outros contextos de socialização (amas, infantários, média) cujas referências podem estar em sintonia ou não com as familiares.
Essa multiplicidade de disposições não estaria simplesmente armazenada como um “amontoado”, mas organizada segundo diferentes princípios de “indexação” relativos aos contextos de socialização, em repertórios de esquemas de ação, que embora distintos (porque reportam a contextos