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Tidligere studier om finansiell risikostyring

Como em uma quaestio filosófica, em que primeiro são destruídos os argumentos contrários (pars destruens) para depois serem apresentados aqueles favoráveis ao ponto de vista que se quer defender (pars construens), o quarto tratado começa por se mostrar bastante inflexível no intento de trazer a público uma importante correção social. Respeitando essa ordem de argumentação, o poeta acaba por inverter a própria

hexassílabos, marcando uma evidente quebra de seu padrão sonoro. Na versificação italiana, tais padrões silábicos são chamados de endecassilabo (11 sílabas poéticas) e settenario (7 sílabas poéticas), pois são consideradas todas as sílabas do verso, tônicas ou não.

79 metodologia anunciada na primeira estrofe, pois ali havia indicado querer tratar da

verdade (“e falarei do valor/ pelo qual se é realmente gentil” v. 12-13) e depois reprovar o erro (“reprovando o juízo falso e vil / daqueles que querem da gentileza / seja o princípio a riqueza” v. 15-17), enquanto no processo da argumentação acontece o contrário.

Entretanto, se antes a intenção era capturar a atenção do leitor com a promessa da verdade, ao desenvolver a argumentação ele se vê na necessidade de liberar o ânimo do ouvinte das falsas opiniões, de forma a prepará-lo para receber a realidade. Desse modo, Dante

aborda primeiramente a “nobreza” de acordo com o senso comum, empenhando-se em

provar como falsa a opinião daqueles (a maioria) que se limitam a defini-la como “antiga

riqueza”. Em seguida, a abordagem se dá a partir da opinião do último Imperador que o

poeta havia reconhecido como tal, Frederico II de Suábia125, que a havia definido de modo

um pouco mais completo, isto é, como “antiga riqueza e bons costumes”.

E apesar de o senso comum ser, segundo Dante, falso e contrário à verdadeira nobreza, havia o fato de a opinião popular ter a seu favor a autoridade de Aristóteles, que afirma que aquilo que parece a muitos não pode ser completamente falso. Isso seria depois facilmente refutado quando visto pela perspectiva filosófica, uma vez que o Filósofo faz tal afirmação a partir da impressão racional, e não da sensorial. No entanto, permanece o fato inquietante de Dante atribuir na Monarquia essa mesma falsa opinião popular ao próprio Filósofo, talvez por já estar mais familiarizado ao texto da Política126. Assim: “A nobreza é, portanto, virtude e riqueza antiga, de acordo com o Filósofo na Política” (Mon. II iii 4). Além da opinião de Aristóteles, a outra autoridade a apoiar tal visão é a da majestade imperial, usada como ponto de partida para a definição que o poeta iria combater no Convívio. Não se pode deixar de considerar, contudo, que a doutrina exposta no soneto Misura, provedenza e meritanza127, atribuído a Frederico II, é quase idêntica

125 Frederico II (1194-1250), coroado Imperador do Sacro Império Romano em 1220. Ainda que tenham

sido eleitos Reis dos Romanos, Rodolfo de Habsburgo (1273), Adolfo de Nassau (1291) e Alberto I de Habsburgo (1298) nunca foram coroados imperadores. A esse último, no entanto, fora reconhecido o título, mas a sua indiferença à península itálica é lembrada e ressaltada no poema dantesco (cf. Purg. VI 89, XXXIII 37-38). O fato de Dante não mencionar a eleição de Henrique VII de Luxemburgo leva a crer que os tratados do Convívio tenham sido escritos antes de novembro de 1308; sobre a datação da obra cf. Cap 2.1.

126 Cf. Aristóteles, Pol. IV 8 1294a 20-22 (Inglese). Segundo Berti (1970, Politica, in ED), não se pode

determinar que tipo de contato Dante estabeleceu com esse texto de Aristóteles, cuja tradução latina já estava em circulação provavelmente desde os anos de 1260.

127 Misura, provedenza e meritanza / fa esser l'uomo savio e conoscente, / e ogni nobiltà buon senn'avanza

/ e ciascuna riccheza fa prudente. / Né di riccheze aver grande abundanza / faria l'omo ch'è vile esser valente, / ma della ordinata costumanza / discende gentileza fra la gente. / Omo ch'è posto in alto signoragio / e in riccheze abunda, tosto scende, / credendo fermo stare in signoria. / Unde non salti troppo omo ch'è saggio, / per grandi alteze che ventura prende, / ma tuttora mantegna cortesia. Tal composição foi excluída sem qualquer motivo aparente do Canzoniere Vaticano Latino 3793, códice do

80 àquela expressa por Dante. Nesse soneto, fala-se dos três atributos – “moderação”,

“providência” e “mérito” – que, juntamente aos hábitos corretos, seriam os que conduzem

o homem à sabedoria e ao conhecimento, fazendo ainda crer que nem as riquezas, nem a origem senhoril podem conferir dignidade a quem não a possui, assim como seria afirmado no Convívio. Mesmo assim, estando observadas essas desconcertantes incoerências tanto em relação ao Filósofo quanto ao Imperador, pode-se constatar que toda a argumentação de Dante iria se basear na contraposição e na eliminação da suposta má opinião professada por esse último; argumentação essa, como não poderia deixar de ser, constantemente apoiada pelas considerações do Filósofo.

Antecipando nesse tratado o que seria mais tarde retomado como um dos eixos principais da Monarquia, a autoridade imperial é posta por Dante como indispensável ao ordenamento natural do homem em direção à vida feliz, sendo esse o fundamento essencial para justificar o governo laico centralizado em apenas uma figura, assim como o eclesiástico. Nos dois tratados, Convívio e Monarquia, está posto que, para haver a felicidade dos homens, seria necessário existir na terra uma disposição política que abrigasse em si toda autoridade de justiça e garantisse a paz entre os reinos, as cidades, os vizinhos e as famílias, uma vez que ninguém pode ser feliz sozinho; seria necessário que esse governo único atuasse no ofício de comandar e impedisse a inquietação natural dos homens em direção à cobiça, pois é a ambição por mais domínios a responsável pela discórdia entre familiares, vizinhos e concidadãos. Para o poeta, o Imperador assumiria o poder absoluto com a imprescindível função de manter a ordem e permitir que o desejo de seus comandados se conduzisse na direção de bens mais preciosos do que o poder secular; na direção, principalmente, daquele bem que conduz à própria perfeição da alma, isto é, o conhecimento alcançado pela filosofia. Além de estar presente no fim do Convívio, é sobretudo a Monarquia que daria conta de aprofundar o assunto, em um projeto de organização política em que estão postos: a necessidade de um governo absoluto para que os homens alcancem a felicidade temporal; o estabelecimento do povo romano como o legítimo detentor do poder universal; e a origem desse poder como sendo de concessão divina. Assim, afirma Dante, o Sacro Império Romano – apoiado pela autoridade dos filósofos – teria sido o escolhido por Deus para comandar, de modo que os homens pudessem ser livres das disputas civis em prol de um fim supremo, ou seja, a busca pela própria perfeição e felicidade através do conhecimento.

final do século XIII com maior antologia da lírica italiana pré-stilnovista ao qual Dante provavelmente teve acesso (ou à sua cópia) na composição do DVE. Cf. Inglese, Com. Cv 1993, p. 226.

81 Na intenção de legitimar o Imperador Romano, o poeta procuraria mostrar como Roma e o seu povo foram escolhidos por Deus para esse ofício, argumentando que a força

através da qual a cidade se impôs sobre os outros povos deve ser vista como a “causa

instrumental”, e não a “causa movente” dessa decisão divina; da mesma forma como os golpes de martelo são o instrumento do ferreiro, e é a alma do artífice aquilo que verdadeiramente o move a produzir ferramentas. Assim, segundo o seu raciocínio, Roma obteve de Deus um nascimento especial porque na vinda de Cristo o céu e a terra deviam

estar em “ótima disposição”, e a terra não estaria assim se não tivesse existido uma

Monarquia que assegurasse a paz universal, naquele momento representada sob a figura de Augusto. Além desse nascimento, teria também se desenvolvido de um modo especial, porque nascendo sob os reis e depois se conduzindo à República até o Império de César

a cidade teria sido ainda agraciada com tantos heróis “quase divinos”, de modo que o

próprio Deus teria intervindo para protegê-la e direcioná-la ao fim providencial.

Entretanto, observando a etimologia de “autoridade” como um “ato de autor” – podendo ainda “autor” ser visto como aquele “digno de fé e obediência” –, a reflexão do poeta recai sobre a força do filósofo, sendo esse o mestre que melhor considera e demonstra o fim da vida humana: assim, pelas excelentes demonstrações de Aristóteles, esse é o filósofo que mais deve ser obedecido. Gilson, nesse sentido, observa o papel do Filósofo em Dante, ou seja, um moralista que ocupa na ordem filosófica o mesmo lugar ocupado pelo Imperador na ordem pública; “um Monarca de numerosos príncipes”, que reina sem superiores em uma parte bem definida da ordem humana128.

Dante até admite que muitos outros filósofos já haviam bem definido o fim da vida humana, como Zenão e outros antigos, que acreditavam que esse fim fosse a rígida honestidade em si mesma, evitando-se outras paixões; como Epicuro, que acreditava que esse fim fosse o deleite, com total ausência de dor; como Sócrates, Platão e os Acadêmicos, que acreditavam que esse fim fosse a ação operada com virtude. Contudo, apenas Aristóteles e os peripatéticos aperfeiçoaram a definição de Sócrates, momento em que foi estabelecida uma filosofia moral que daria conta desse fim. De forma a complementar à autoridade imperial no campo da administração pública e na gestão dos territórios, a autoridade filosófica viria para orientar o comportamento humano na sua realidade social, mas também podendo conduzi-lo ao verdadeiro caminho em direção à própria perfeição intelectual. Desse modo, fica claro que ambas as autoridades são

82 supremas, sem que uma possa existir sem a outra, pois: a autoridade imperial sem a filosófica é perigosa; e a autoridade filosófica sem a imperial é fraca (Cv IV vi 17).

Nesse sentido, seria de se imaginar que a autoridade imperial não fosse de todo relevante quando se trata de fornecer uma definição filosófica. E, voltando à questão principal, no caso da nobreza, a suposta opinião do Imperador acompanha a popular, e vice-versa, que costumam considerar como nobre aquele que é filho ou neto de alguém cujo valor se sobressai, mesmo que esse descendente não possua nenhum valor em especial. E, dada a grande abrangência e difusão do equívoco, a função esclarecedora de Dante procura se equiparar a isso, na intenção de salvar aqueles em que a razão não esteja completamente apagada. O poeta, assim, orienta seu leitor à conclusão de que quem descende de um homem valoroso e não é capaz de seguir o seu exemplo não é apenas vil, mas é o mais desprezível entre todos os da sua espécie. Valoroso seria quem, por exemplo, encontra o verdadeiro caminho embaixo da neve depois de uma grande nevasca, sendo o mais desprezível de todos aquele que não é capaz de seguir os passos certeiros de quem primeiro passou por ali. Desse modo, assim como viver como homem é usar a razão, aquele que não sabe conduzir suas ações a partir da potência racional pode ser considerado morto, em quem permanece apenas o animal irracional.

Não é possível, contudo, excluir do imaginário dantesco a importância do caráter hereditário da nobreza, principalmente baseado naquilo que será dito em outros lugares: quando, por exemplo, a santa estirpe romana dos florentinos é elogiada em contraposição à má origem dos fiesolanos (Inf. XV 73-78); ou mesmo quando é lamentada a decadência de antigas e ilustres linhagens (Purg. XIV 88-126, Par. XVI 88-141); esse também seria o tom implícito no encontro de Dante com seu próprio antepassado e nobre cavaleiro Cacciaguida, que lhe havia transmitido as honras da família (Par. XV-XVII). No entanto, o poeta coloca que se a nostra nobiltà di sangue é poca – como um manto que logo encolhe se nele não são adicionados outros elementos mais virtuosos (Par. XVI 1-9) – é porque mesmo nos mais altos céus do Paraíso e na Monarquia (II iii 4-7) ele continua a acreditar no fato de que apenas nascer em família ilustre não seja suficiente para ser chamado de nobre. Assim, é de se considerar, com Consoli, que a nobreza dos antepassados não é condenável ou supérflua em si mesma, mas que poderia – ou deveria

– contribuir à nobreza espiritual no sentido de estimular o seu empenho emulador e criar

as condições favoráveis ao seu fortalecimento129.

83 Assim, a exemplo de Cícero e da “beleza da honestidade” (Cv IV viii 2), o poeta evidencia a importância do discernimento necessário na identificação do bom caminho, que consiste em conhecer a ordem das coisas como, por exemplo, a reverência que o inferior deve ao superior, cuja negligência pode ser caracterizada como insolência. Dante demonstrará, nesse sentido, que, reprovando como falsas as opiniões do povo e do imperador, não negligencia a autoridade do Filósofo e nem a autoridade da majestade imperial. Pois, em relação à sentença de Aristóteles sobre considerar a opinião da maioria, como dito anteriormente, deve ser esclarecido que esse não se referia ao conhecimento sensível que as pessoas podem estabelecer de uma coisa que lhes parece ser de um modo e não de outro; mas ao racional, baseado em conceitos que podem ser discutidos a partir de fundamentos teóricos. E como, para Dante, o povo julga de acordo com a opinião aparente, fica fácil identificar que, nesse caso, não se trata de negligenciar a reverência ao Filósofo.

Mesmo em relação ao que professa o Imperador, não acolher a sua opinião não significaria ignorar a reverência que lhe é devida, e para isso o poeta busca diferenciar ser

“irreverente”, isto é, negligenciar uma submissão devida, de ser “não-reverente”, quando

se nega a necessidade de uma submissão indevida. Assim, ele não será irreverente à autoridade imperial enquanto essa se afirmar como tal, mas enquanto professar sentenças filosóficas em desacordo com a verdade. Se fosse reverente ao Imperador enquanto esse se coloca como filósofo, iria contra a verdade e, aí sim, cairia em verdadeira irreverência, pois a autoridade imperial não se estende para além dos limites para o qual foi colocada como reguladora. O poeta, desse modo, conduz o leitor à reflexão de que as operações propriamente humanas são aquelas que subjazem à razão e à vontade, estando essas subordinadas à justiça regulada pelo Imperador. Mas haveria também coisas que parecem se ater a uma arte e, na verdade, não têm nada em comum com ela, “como pescar parece ter relação com o navegar, e conhecer o poder das ervas parece ter relação com a

agricultura” (Cv IV ix xiii). Isso aconteceria até mesmo com a arte imperial, devendo-se

observar que nesses casos não há necessidade de submissão ao mestre da atividade que parece estar inserida em outra maior, e sim ao verdadeiro mestre. Desse modo, ficando estabelecido que a definição da nobreza não compete à arte imperial, mas sim ao filósofo, a devida reverência ao Imperador no campo filosófico simplesmente não se caracteriza enquanto tal.

Isso posto, resta observar quão defeituosa é a definição do Imperador quanto à sua afirmação de que a nobreza se estabelece a partir de “antigas riquezas”, uma vez que o

84 tempo e a riqueza são coisas completamente distantes daquilo que supostamente criariam. Em relação às riquezas, nada mais falso, pois essas são desprezíveis e imperfeitas por si só, sem que possuam o poder de fornecer algo melhor do que elas mesmas. E isso ficaria provado com argumentos teóricos, pois Aristóteles já havia afirmado que “quando uma coisa é gerada de outra, gera-se por essa estar no seu ser” (Cv IV x 8). Nesse caso, portanto, nada mais impossível, pois trata-se de fornecer uma nobreza derivada exclusivamente da perfeição humana, o que obviamente as riquezas não têm.

Na argumentação de Dante, as riquezas seriam imperfeitas e vis por três razões: pela sua indiscriminada relação com a sorte, pois nisso não há nenhuma justiça distributiva; pelo seu perigoso crescimento, pois prometem trazer satisfação quando acumuladas, mas o desejo de acúmulo só aumenta com o acumular; e pelo estrago que deriva de sua posse, gerando injustas desigualdades dentro de uma mesma comunidade. Em relação às riquezas naturais, vale ressaltar que essas não são perigosas enquanto vistas apenas como ouro ou pedras preciosas, mas a partir do momento em que são possuídas pelos homens. Nesse sentido, a única forma possível de relacionar as riquezas ao coração de homens valorosos seria usando-as para exercer a virtude da generosidade. A exemplo do que postulam tanto as Escrituras quanto sábios poetas como Sêneca, Horácio ou Juvenal, não há nada mais contrário à nobreza como a riqueza, completamente diferente daquilo que a opinião popular professa.

De modo que poderia parecer análogo às riquezas, Dante considera que o conhecimento também faz crescer o desejo de ser possuído à medida que é acumulado, o que poderia provocar uma dúvida em relação à sua imperfeição. A isso, ele replica que em toda aquisição o desejo humano se amplia, pois tudo deseja retornar ao seu princípio. Esse seria o motivo pelo qual a alma humana, logo que entra na vida, deseja qualquer coisa que lhe pareça um bem, pois, sendo criada por Deus, quer tornar a ele; assim, a criança começa desejando uma maçã, depois um pássaro, depois uma bela roupa, depois um cavalo, depois uma mulher, depois uma riqueza maior, e depois outra maior ainda. Isso aconteceria porque, para o poeta, nada satisfaz quem deseja, até que esse se depare como o seu último e mais profundo desejo, que é retornar a Deus.

O que se vê nesse percurso de desejos sensíveis, segundo Dante, é que o caminho justo muitas vezes se desvia pelo erro, tornando-se uma estrada equivocada que não leva nunca ao lugar inicialmente almejado. O desejo de riqueza, assim, cresceria em sentido próprio ao longo de uma linha sem fim, sem conduzir a nenhuma perfeição. Além disso, a posse das riquezas seria danosa porque tira a tranquilidade de quem as possui; e,

85 possuindo-as, não se pode exercer a virtude da generosidade, acarretando uma privação do bem. Do contrário, o homem de apetite reto e de verdadeiro conhecimento que não ama as riquezas também não sofreria com a sua perda. Já em relação à ciência, não é bem assim, pois o desejo por conhecimento não aumenta propriamente, mas se amplia; não é sempre um, mas uma sucessão de desejos que passam de uma coisa menor para uma maior. E, mesmo considerando-se o fato de que na busca pela sabedoria é possível crescer sem nunca atingir o fim, é ressaltada a concepção de que os desejos naturais do homem têm certo limite, como já havia sido exposto no tratado anterior (cf. Cv III xv 8-10); nesse sentido, Dante invoca São Paulo e a sua afirmação de que convém saber apenas o suficiente, na medida certa.

Corti, nesse passo, observa o caráter do Convívio de texto “em movimento”, em que as fontes tomistas aceitas em determinados lugares (cf. Cv II xiii 6, III xi 14, xiii 6- 7) podem ser confrontadas em outro (Cv IV xiii 8), dada a crise teórica indicada por algumas Rimas e pelo amadurecimento intelectual decorrido no tempo que separa o quarto tratado dos anteriores130. No último, tratar-se-ia da capacidade humana de alcançar a plena satisfação intelectual na vida terrena; e, diferentemente do que indica Tomás de Aquino, o Dante do Convívio parece entender que o intelecto humano é completamente saciado por aquilo que é permitido conhecer nesta vida. Nesse sentido, Gilson observa que se Dante recorre a considerações filosóficas do dominicano é porque ele muitas vezes se coloca como um dócil intérprete de Aristóteles, como o próprio poeta. Mas quando os dois se afastam é porque Dante prefere fazer valer as suas próprias considerações, acreditando que Tomás poderia contradizer aquilo que o Filósofo sustenta131.

Ainda sobre a definição atribuída ao Imperador, outro ponto a ser combatido pelo poeta é quando se diz que o tempo pode proporcionar a nobreza, o que Dante se empenhará em provar como falso. Admitindo que muitos reconhecem que um homem nobre não pode descender de um vilão, seu argumento se coloca, mais uma vez, no sentido de destruir a visão de que uma perfeição pode ser originária de uma imperfeição, pois o passar do tempo apenas agravaria imperfeições como a perda de memória de antepassados não nobres. Assim, quanto mais perfeita a memória de um povo, mais difícil seria a geração de nobreza nessa sociedade; e quanto mais imperfeita, mais fácil. Entre outras coisas, se isso ocorresse, seria possível afirmar que o gerado vem antes do gerador, o que aconteceria se uma pessoa de incontestável nobreza possuísse um ancestral desprezível

130 Cf. Corti, 1983, p. 59. 131 Cf. Gilson, 1987, p. 143.