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Verter a infindável riqueza semântica do Convívio sem deixar de considerar a enorme variação sofrida – tanto em relação à língua medieval, quanto em relação aos estudos sobre a transmissão do texto – acabou por implicar as escolhas que aqui se apresentam. No momento de decidir sobre o tipo de observação a ser desenvolvida, entendeu-se que a simples versão em língua portuguesa e contemporânea já poderia tornar o texto de Dante suficientemente claro, sem que fossem indispensáveis as notas interpretativas sobre o conteúdo. Mas, apesar de o propósito do poeta ter sido de um

109 autocomentário, isto é, uma tentativa de ser mais claro do que havia sido até então, as paráfrases de algumas edições comentadas se mostraram, sem medo da redundância, como fundamentais à leitura detalhada do texto e, consequentemente, durante todo o processo desta pesquisa.

Quando foram buscados os estudos de base para a anotação, isso foi feito com a intenção de enriquecer a tradução com as variantes críticas em paralelo à versão adotada, considerando que por mais sério e admirável que tenha sido o trabalho de Ageno, em alguns momentos as suas escolhas também podem ser questionadas. E, no seu desenvolvimento, a anotação da tradução se revelou como um importante processo de revisão do texto traduzido, pois foi nesse momento que se destacaram nuances que apenas o confronto entre as edições críticas seria capaz de ressaltar. Além disso, essa etapa contribuiu efetivamente no entendimento necessário para se chegar à versão em português.

Durante a anotação foi possível ter consciência, por exemplo, de que uma simples mudança de preposição poderia implicar a escolha de uma lição tida como marginal, ou de um códice menos confiável do ponto de vista filológico, ou até mesmo defendida por outro editor crítico que não Ageno. Além disso, foi possível observar que os vários momentos de intertextualidade entre Dante e suas prováveis fontes poderiam contribuir para um estudo mais aprofundado do próprio Convívio; bem como as ligações a outros momentos do pensamento do poeta poderiam complementar ou contrapor os argumentos por ele desenvolvidos internamente. Entendeu-se também que acrescentar algumas observações sobre o momento histórico e político do autor, bem como dos personagens citados, poderia aproximar o leitor não-especializado ao ambiente intelectual em que o Convívio foi escrito. Por fim, percebeu-se que seriam pertinentes algumas justificativas às traduções ou mesmo conclusões surgidas durante a realização desta pesquisa.

Desse modo, as notas da tradução foram elaboradas a partir de cinco critérios principais, os quais procuraram dar conta dessas questões brevemente mencionadas. O primeiro deles se refere às diferentes maneiras como os editores buscaram resolver os problemas textuais da obra. Optou-se aqui por fornecer as principais variantes e conjecturas feitas por outras edições críticas que não a de Ageno, bem como as principais revisões ao texto, a maior parte delas anteriores ao trabalho de 1995. Foi fundamental para essa etapa o cotejo com o texto estabelecido por Parodi-Pellegrini (1921), assim como aquele da sua principal opositora, Simonelli (1966, 1970), além das considerações da própria Ageno (1967, 1971, 1979, 1983), que muitas vezes defendia ou

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complementava as posições dos editores de ’21. Além dessas edições, as revisões

comentadas de Busnelli-Vandelli (1934-37) serviram com alternativas de leitura nos momentos em que a tradição crítica abre espaço para discussões sobre o texto. Já as

edições “Milanesa” (1826), de Cavazzoni Pederzini (1831), Fraticelli (1857), Romani

(1862), Moore (1894), Cudini (1980), assim como os estudos de Witte (1825, 1854), Toynbee (1902), Moore (1896, 1917), Casella (1944), Pernicone (1949) e Pézard (1940, 1967), serviram de parâmetro em momentos pontuais da pesquisa, de forma a incorporar o maior número das importantes contribuições que procuraram mapear e propor soluções aos erros de transmissão do texto. Disso não se excluam os problemas na variação textual das canções, para os quais foram fundamentais ainda os estudos de Barbi-Pernicone (1969) e De Robertis (1988). Foram também acolhidos alguns comentários e correções de Fioravanti (2014) aos simples erros tipográficos encontrados na edição de Ageno ou mesmo às novas contribuições filológicas desse comentador, apesar de não ter sido esse o seu escopo principal.

É importante, entretanto, ressaltar que, como as polêmicas e os dissídios entre os estudiosos são inúmeros e não cabe a este trabalho a última palavra, serão referidos até mesmo detalhes que possam parecer insignificantes em um primeiro momento, mas que aparecem para que o leitor especializado possa construir a noção de quão problemático é o estabelecimento do texto do Convívio; sendo tão vastamente debatida a questão textual, preferiu-se, neste momento, pecar mais pelo excesso do que pela omissão. Saiba-se, nesse sentido, que quando as variantes aparecem traduzidas em nota de rodapé, essas se mostram sempre entre aspas, de modo a indicar que nem sempre a versão será literal em

relação à expressão italiana “vulgar” que a acompanha, mas sim em coerência com o texto

do Convívio proposto em português.

Em decorrência do trabalho descrito nesse primeiro critério de anotação, saltaram aos olhos as inúmeras referências de que os mesmos editores e estudiosos se valem para embasar a argumentação dos trechos debatidos. Entendendo que essas menções poderiam ser importantes para fundamentar suas leituras, decidiu-se estabelecer um segundo critério. Esse visa a conectar o Convívio às suas principais fontes externas, isto é, às obras da formação intelectual de Dante que podem ter servido na sua argumentação apresentada no comentário. Tendo sido o trabalho feito com o auxílio dos mesmos editores e comentadores apresentados para as questões textuais, esses aparecerão citados entre parênteses na própria nota quando oportuno. Entenda-se, nesse caso, tratar-se de uma menção ad locum, isto é, que consta no mesmo passo da referida edição de Dante; ou

111 mesmo, em menor grau, de uma tradução. Além daqueles estudos e edições citadas, somem-se as preciosas contribuições de Nardi (1930, 1942, 1944, 1954, 1957, 1967, 1992, 2013), Gilson (1987), Corti (1959, 1981, 1983) e Vasoli (1988).

Cabe ressaltar que, por uma questão de tempo hábil, a maior parte das prováveis fontes de Dante citadas em nota não foram devidamente verificadas. Mas, ainda que a utilidade dessas informações possa ser questionada, uma vez que não se pode aqui responder pela sua exatidão, entendeu-se que teria sido um desperdício não aproveitar tamanha riqueza de relações feita por outros estudiosos, podendo esta pesquisa funcionar como um pequeno compêndio dessas remissões. Nesse sentido, atribua-se o crédito da citação ao estudo ao qual é referida, bem como a responsabilidade – em caso de erro – unicamente a este trabalho, uma vez que houve a liberdade de incluí-las ou não. Nesse sentido, afirma-se com Vasoli que “remontar sempre às efetivas leituras e conhecimentos textuais de Dante, no momento da composição do Convívio, é uma tarefa extremamente

difícil ou, até mesmo, impossível”177. Sendo assim, optou-se também por não aprofundar e nem discutir essas possíveis obras emuladas por Dante, pois isso já significaria uma ampla pesquisa paralela, que fugiria aos limites desta que se apresenta. Muitas dessas obras referidas são diretamente citadas por Dante ao longo do Convívio, podendo-se ter alguma certeza sobre o conhecimento sobre elas. Outras, no entanto, são objetos de suposições por parte dos estudiosos, o que deu origem a inúmeras polêmicas quanto à influência ou não de certo pensador, como já mencionado.

O terceiro critério de anotação diz respeito às ligações internas a toda obra de Dante, isto é, às referências a outros textos do seu percurso poético ou filosófico. É claro que todos os estudos citados também foram de grande contribuição para essa fase da anotação, mas, para este que escreve, foi essencial a releitura de quase toda a obra de Dante, bem como buscar entendê-la em sua grandiosa unidade. Desse modo, apesar de muitas vezes terem sido os mesmos comentadores a referir passos de obras dantescas em relação a outros específicos do Convívio, coube a mim a tarefa de entendê-los e decidir se incluí-los ou não em nota. Por isso, se o crédito deve ser dividido entre esta pesquisa e os estudos que serviram de apoio à reflexão, é unicamente a esta, mais uma vez, que se deve atribuir a total responsabilidade. Além dos mencionados estudos, a principal base para esse tipo de anotação foi o contato direto com as obras de Dante que mais dialogam com o Convívio, isto é, Vida Nova, De Vulgari Eloquentia, Comédia e Monarquia.

177 Cf. Vasoli, Introd. Cv 1988, p. LXVII. Nessa parte da Introdução do estudioso, vale verificar ainda a

112 O quarto critério a guiar a anotação é a justificativa para algumas das escolhas feitas na tradução. Uma vez que verter um texto escrito em vulgar florentino há mais de sete séculos ao português brasileiro dos dias atuais já implica uma série de facilitadores de leitura, tais notas estarão presentes apenas quando comentadores como Busnelli- Vandelli (1934/37), Vasoli (1988), De Robertis (1988) ou Inglese (1993), bem como os autores da Enciclopedia Dantesca, ofereçam chaves de leituras que complementem aquelas explicitadas na tradução. Um dos motivos para tal medida é porque, do contrário, seriam feitas muitas menções aos dicionários utilizados, os quais encontram-se, portanto, citados apenas nas REFERÊNCIAS ao fim do trabalho. Entendeu-se que é exatamente no texto da tradução que se apresenta a leitura pessoal feita do original pelo tradutor, de forma que procurar explicar o que já está em português contemporâneo não seria coerente com a posição assumida. Mesmo aos trechos de difícil compreensão, procurou-se dar uma interpretação que soasse clara aos lusófonos, ainda que, muitas vezes, traços da intrincada sintaxe dantesca se façam presentes.

Espera-se que todos os critérios anteriores possam satisfazer introdutoriamente um leitor mais exigente de apoio textual, sobretudo para as questões filológicas e, em certo grau, as exegéticas. No entanto, não se pode desprezar um primeiro nível de leitura, necessário ao leitor menos familiarizado com o universo do texto. Nesse sentido, o quinto critério a guiar a anotação é o de caráter histórico-biográfico, de forma a aproximar o leitor às circunstâncias que acompanham pessoas, situações ou fatos referidos no texto. Dito isso, é importante ressaltar, contudo, que não se tem a pretensão de apresentar aqui uma tradução comentada e nem mesmo uma tradução que se equipare a qualquer edição crítica. Com as notas ao texto traduzido, o que se buscou foi transitar de modo horizontal por essas duas correntes analíticas no intuito de apresentar um trabalho em português que esclareça minimamente as complicadas questões que percorrem, principalmente, esses universos.

Dante pensou, ou nós temos certeza de que ele pensou, apenas o que diz no seu texto, e nada daquilo do que dizem os outros autores citados em nota. Às vezes isso é esquecido.

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