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2.3 Råvareprisrisiko

2.3.2 Håndtering av uforutsigbare jetfuelpriser

Ao se lembrar da errância dos momentos iniciais de seu exílio, Dante relata que

esteve em muitas partes do território “em que essa língua se estende” (Cv I iii 4). A noção

geolinguística da frase pode ser bem compreendida se posta em analogia ao De Vulgari Eloquentia: trata-se da língua do sì, da fala itálica (Cv I x 14), aquela que se manifesta na parte oriental das fronteiras genovesas, delimitando-se, de um lado, pelo promontório da península italiana onde se inicia o mar Adriático, e, de outro, pela Sicília (DVE I viii 6). Toda essa região será depois lembrada como o bel paese là dove 'l sì suona (Inf. XXXIII 80), já posta geograficamente de uma maneira muito semelhante à que hoje se reconhece como o Estado Italiano. Desse modo, mesmo que uma ideia de nação ainda não pudesse ser aplicável à conturbada situação geopolítica da península, é possível encontrar na obra de Dante uma clara indicação sobre a unidade dessa região, ainda que apenas linguística. Isso será amplamente desenvolvido no seu tratado latino (DVE), no qual o poeta percorre mentalmente as regiões italianas – no papel de um “filósofo da linguagem”52 – para identificar as características dos falares locais e propor uma língua de corte que reunisse o que cada uma dessas várias línguas do sì tinham de melhor. Nesse sentido, em estreita relação com o projeto apresentado no Convívio, o De Vulgari Eloquentia será “a maior contribuição no processo de admissão da língua vulgar como um veículo adequado do

saber”, onde prevalece “o argumento de que essa língua se afirma como um meio possível para a filosofia e a ciência”53. Assim, “a língua das pessoas iletradas” (DVE I i 1) passa a

ser vista como uma alternativa ao “nobre” latim, que há muito dominava as discussões

filosóficas nas escolas tradicionais ligadas, principalmente, aos centros clericais54. E ainda que algumas considerações do DVE sejam depois reavaliadas através da figura de

51 Cf. Gentili, 2003, p. 179.

52 Cf. Mengaldo, 1970, volgare in ED. 53 Cf. Imbach, 2003, pp. 133-135.

54 Note-se que até mesmo alguns dos primeiros comentadores da Comédia, como Graziolo Bambaglioli

(1324), Guido de Pisa (1327-28[?]), Pietro de Dante (1340-64) e Benvenuto de Ímola (1375-80) não abrem mão do latim nos seus comentários, apesar das palavras de Dante. Conheceriam eles o texto do Convívio e do De Vulgari Eloquentia?

46 Adão – afastando-se o poeta da tradição que admitia Babel necessariamente como um castigo – isso é feito em coerência com os dois aspectos da condição humana: o temporal e o linguístico55. Mesmo que isso só fique completamente claro para Dante mais futuramente no Paraíso, o que parece já estar sendo colocado com a escolha do vulgar como língua de cultura é a liberdade e a capacidade que o homem tem de reinventar a linguagem desde a sua criação bíblica; pois Opera naturale è ch'uom favella; / ma così o così, natura lascia / poi fare a voi secondo che v'abbella56 (Par. XXVI 130-132).

No entanto, a novidade que a escolha linguística do Convívio representa exige do poeta uma justificativa ao fato de oferecer ao seu leitor “um pão de grãos e não de trigo”, ou seja, um alimento menos nobre que o habitual em latim. Essa justificativa, por si só, já revela a importância histórica do texto. Dante se mostra consciente de que terá de defender com argumentos racionais os motivos que o levaram a usar uma língua como o

vulgar em condições tão diferentes da costumeira poesia de amor, língua essa “tida

geralmente como indigna de abordar questões doutrinais de tão alto nível e

complexidade”57. O poeta demonstra, assim, acreditar que o uso na prosa científica deixaria clara a agilidade dessa língua, bem como a sua capacidade de exprimir conceitos altos e novos, o que até então o vulgar não parecia ter o direito de fazer.

Mas, além da predominância do latim como língua de erudição, havia ainda a recente afirmação do francês. Sabe-se que, por conta de uma intensa atividade comercial, a rica Florença do século XIII era detentora de uma grande população alfabetizada58. Porém, mais que favorecer o nascimento de um ambiente em que o vulgar florentino fosse aplicado em caráter prático, as trocas comerciais também levaram à valorização linguística da principal parceira comercial de Florença, a França. Some-se a isso o fato de que o francês e o provençal gozavam não só do contato estabelecido por vias econômicas, mas também do prestígio cultural alcançado pelas suas literaturas desde o século anterior. E, se quisermos um exemplo interno à obra de Dante, os versos de Il Fiore – impregnados de francesismos59– são uma prova disso.

55 Cf. Imbach, 2003, p. 184.

56“Natural obra em fala homem revela; / mas assim ou assim, natura deixa / que o façais vós conforme vos apela.” Trad. Vasco Graça Moura, 2011, p. 827.

57 Cf. Vasoli, Intr. Cv 1988, p. XVIII.

58 Como atesta Villani, esse número poderia chegar a 10 mil jovens (quase 10% da população) de uma nova

burguesia letrada que, por exigência do contexto mercantil, além de saber bem calcular com o ábaco, precisava dominar a leitura e a escrita. Além desses, havia ainda os quase 600 inscritos em estudos mais

altos, como aqueles de “gramática” e “lógica”, em pelo menos quatro grandes escolas da cidade. Cf.

Villani, Nuova Cronica, III 198.

47 Esses parecem ser os motivos principais que levam Dante a travar um embate dentro da sua própria cultura letrada, quase a ponto de elevar à categoria de adversários pessoais os que julgavam o vulgar de além-Alpes mais digno de uma linguagem técnica e filosófica. Nesse sentido, o poeta apresenta uma série de fatores para explicar o descrédito de sua língua natural até mesmo junto àqueles que assim também podiam chamá-la (Cv I xi). Entre esses, não se exclui nem o seu próprio mestre, já que Brunetto Latini optou por compor a sua maior obra, o enciclopédico Tresor, em francês. E pelo fato de Ser Brunetto ter falado abertamente contra a sodomia nessa obra, ainda há dúvidas

se o seu exemplo de condenação entre os “violentos contra Deus” (Inf. XV 22 et seq.),

tradicionalmente relacionada a uma violação de ordem sexual, não se refere mais à sua escolha linguística – antinatural – do que propriamente ao seu comportamento lascivo60.

Entre os fatores de justificativa mencionados por Dante para o descrédito do

vulgar italiano entre seus próprios falantes estão: a “cegueira de discernimento” por parte

dos literatos italianos, a qual não permitia enxergar a verdade em relação à própria língua;

a “desculpa maliciosa”, usada por aqueles que queriam ser tidos como mestres e – por

não terem sabido produzir com a própria língua – culpavam a matéria de sua arte (o vulgar italiano) e louvavam aquela que são obrigados a conhecer; a “ambição de vanglória”, razão inspiradora dos que sabiam usar outros vulgares e não o próprio, de modo que, para serem mais admirados, tais literatos precisavam enaltecer essas línguas estrangeiras; o

“raciocínio invejoso”, motivo daqueles que faziam de tudo para tirar a fama de quem fazia

um bom uso dessa língua, desprezando-a com a intenção de desprezar a obra nela

composta; e, por fim, a “fraqueza de ânimo”, uma vez que os pusilânimes rebaixam as

próprias coisas e valorizam a de outros, pois “por essa vileza, muitos depreciam o próprio vulgar e apreciam o alheio” (Cv I xi 20).

Como nota Gentili, o que Dante faz no Convívio está muito próximo do que havia feito Tadeu Alderotti com a tradução da Ética de Aristóteles61, que, apesar das censuras do próprio Dante sobre a qualidade de tal tradução (Cv I x 10), estava criando um ambiente bastante favorável à afirmação dessa nova língua para a divulgação científica. E, justiça seja feita, Brunetto Latini também teve sua participação nesse processo com a tradução de parte do De Inventione, de Cícero, a qual enriqueceu com comentários

60 Pézard (1950), sem dúvida, é o maior defensor dessa leitura a respeito de Brunetto Latini, que, além da

menção do Tresor (II XXXIII, XL 4), havia criticado no Tesoretto a luxúria (vv. 2839-52) e a sodomia (2859-64).

48 próprios e intitulou Rettorica. Nesses casos, o que parecia já estar posto era a visão de que a filosofia precisava transpor os limites do mundo erudito, dominado principalmente pelos ambientes acadêmicos e clericais em que o predomínio da língua latina era evidente. E o próprio poeta é o primeiro a reconhecer o exemplo de Cícero (Cv I x 14), que em seu tempo e lugar havia refletido sobre o mesmo problema em relação à língua grega (artificial) e a língua latina (natural), ressaltando a importância de uma nova língua de cultura para a difusão do conhecimento na Roma antiga62.

Nesse cenário de vanguarda, o Convívio se destaca pela profunda imaginação criativa no que compete à forma linguística, um caráter inventivo que se manifesta pelo

alto número de novidades presentes no texto. Mazzucchi, assim, observa que “a um léxico

altamente técnico e fortemente especializado se junta aquele do uso cotidiano e, às vezes, de conotação fortemente realista”63, fazendo com que a mudança de ambiente acarrete a adaptação e, consequentemente, a transformação engenhosa da linguagem. Esse consistente sistema vocabular que se cria no Convívio é o que o estudioso vê como “uma das primeiras tentativas do vulgar italiano de se dotar de um léxico intelectual e doutrinal

próprio”64, sem que se abra mão de latinismos utilizados com funções precisas nas partes mais solenes da obra. Na sintaxe isso não poderia ser diferente, de forma que o resultado concreto seria uma espécie de adaptação do florentino falado às relações de concordância, de subordinação e de ordem presentes na estrutura argumentativa do latim escolástico.

É nesse contexto que, para Dante, surge a necessidade de explicar aquilo que

poderia ser encarado como a “mancha substancial do tratado”, isto é, realizar-se por meio

de uma língua sem qualquer tradição intelectual ou aceitação formal entre os filósofos de profissão. Para purgar tal defeito, a sua justificativa irá se desenvolver por meio de três

razões: pela “cautela contra uma inconveniente conduta”, pela “propensão à generosidade”, e pelo “amor natural à própria língua” (Cv I v-xiii). No que compete à primeira justificativa, a “cautela contra uma conduta inconveniente”, isso se dá pela

necessidade de coerência interna à obra, pois é necessário adotar a mesma língua em que foram compostas as canções. Além disso, para Dante, o latim não deixa de ocupar a

62 Cf. Cícero, De fin. I 1-4. 63 Cf. Mazzucchi, 2004, pp. 14-24.

64 Cf. Mazzucchi, Op cit. Como exemplo para esse fenômeno, o estudioso destaca os vocábulos abito,

accidente, affezione, atto, cagione, disposizione, effetto, essenza, essere, forma, idea, intelletto, intenzione, materia, obietto, principio, speculazione, sustanza, entre outros (sufixos -ale, -evole, -ivo, - ione). Com Dante, tais vocábulos assumem uma tendência a tornarem-se técnicos e de acepção puramente filosófica, tendo se manifestado de forma muito limitada nos textos poéticos – e, ainda mais, naqueles em prosa – anteriores ao Convívio.

49 posição de soberania, seja por nobreza, por virtude ou por beleza, de forma que não seria correto adotá-lo para comentar composições feitas em uma língua inferior: soberano por nobreza, porque o latim é perpétuo e incorruptível, enquanto o vulgar é instável e corruptível; soberano por virtude, porque é mais idôneo ao propósito linguístico, tendo mais capacidade de expressar conceitos do que uma língua sem tradição intelectual e, portanto, mais restrita; e soberano por beleza, porque mostra as partes do discurso com mais harmonia de disposição e de correspondência que o vulgar, que segue somente o uso, e não a regra. Vasoli, nesse sentido, nota que:

[Dante] parece aceitar a inferioridade do vulgar como língua de cultura em relação ao latim. Porém, as razões aduzidas para justificar a sua escolha investem um vasto arco de problemas, às vésperas da elaboração do De Vulgari Eloquentia, e são de grande interesse para avaliar a efetiva novidade do Convívio e a sua posição na cultura da época.65

Como observa o estudioso, Dante demonstra compreender perfeitamente as condições da vida intelectual de seu tempo. Nesse momento, começava a se destacar um novo grupo de homens de cultura não inseridos no ambiente linguístico e cultural da filosofia escolástica, mas dispostos a elevar a própria língua à condição de instrumento para as mais altas formas do saber. Com esse terreno já preparado, manifesta-se a

“propensão à generosidade”, segunda justificativa a se concretizar por três qualidades fundamentais: “a primeira é doar a muitos, a segunda é doar coisas úteis e a terceira é doar algo sem que este tenha sido solicitado” (Cv I viii 2). Assim, se doar algo a apenas

uma pessoa já pode ser considerada uma coisa boa, doar a muitas traria consigo a semelhança dos benefícios divinos, sendo impossível doar a muitas pessoas sem que se doe a uma só. E o latim não poderia doar a muitas, apenas aos que o conhecem, isto é, os literatos, justamente aqueles que são acusados de adultério em relação à própria língua

por negligenciarem “o precioso vulgar” (Cv I xi 21). Por outro lado, esse vulgar está posto

para vir ao encontro de todos os nobres de coração – homens e mulheres, aristocratas ou pessoas comuns, não literatos – para que esses tenham acesso ao conhecimento filosófico e, assim, de si mesmos.

E, por mais que seja bom doar coisas não úteis, a “propensa generosidade” exige que a oferenda seja útil para que seja gratificante para o doador e para quem a recebe,

65 Cf. Vasoli, Intr. Cv 1988, pp. XIX-XX. E cf. também Corti (1981, pp. 60-70) sobre a provável presença

50 tanto pela melhora no potencial de uso do que é doado, como pela possibilidade de gerar amizade com essa doação. Contudo, o latim não teria oferecido nada de útil, pois o que está sendo doado com o Convívio é o sentido das canções, em vulgar, o qual intenciona conduzir os homens à ciência e à virtude. Mas essa finalidade não poderia se concretizar senão em relação aos nobres de coração, que para Dante estava claro serem todos falantes apenas do vulgar, e não letrados em latim ou outras línguas. Além disso, outra qualidade

da “propensa generosidade” seria a de doar algo que não foi pedido, porque aquilo que o

é pode custar caro a quem recebe; assim, entenda-se que aquilo que o vulgar está oferecendo não se trata de algo requisitado, pois esse nunca havia sido solicitado em forma de comentário filosófico.

Gentili observa que o grande motivo inspirador do proêmio do Convívio seria o de eliminar o enorme problema social e antropológico produzido pela inclinação individual à cobiça; sobretudo, nesse momento, no que se refere à cobiça intelectual e à avareza dos detentores de conhecimento66, na maior parte das vezes ligados aos centros religiosos e acadêmicos. Nesse sentido, a divulgação do saber funciona como um benefício aos pobres indigentes, quando a esmola, ou a misericórdia em geral, equivale a um ato de justiça. Tal sentido de comprometimento social, segundo a estudiosa, estaria posto assim como no De elemosyna de Agostinho, e não como um ato de caridade, como coloca a autoridade de Tomás de Aquino; pois, no texto agostiniano, o benefício é considerado útil para reorganizar a justiça distributiva que está comprometida pela cobiça individual, um grande pecado por ser contrário à caridade e por impedir a geração da misericórdia em relação aos indigentes. O que de novo estaria sendo proposto com o Convívio seria esse sentimento de justiça, agora colocado até mesmo em relação aos indigentes intelectuais, altamente negligenciados até então.

Assim como as outras justificativas à “mancha substancial”, a terceira delas, o “amor natural à própria língua”, se manifesta em outras três razões, isto é, magnificar,

zelar e defender o idioma vulgar. Segundo Dante, a primeira se realiza quando a bondade própria do vulgar é evidenciada no seu potencial comunicativo, isto é, ao se manifestarem os conceitos gerados na mente humana. Em seguida, quando se zela por ele, usando-o por si mesmo em contato direto com o seu público alvo, de modo a evitar que algum possível tradutor atue como intermediário67. O poeta justifica, ainda, todo esse amor à sua língua

66 Cf. Gentili, 2003, pp. 185-187.

67 Sobre a função do tradutor, no entanto, espera-se poder refletir de modo satisfatório no Cap. 2.4.1, uma

51 natural com base em causas relativas, como a proximidade e a bondade. Em relação à proximidade, são considerados fatores substanciais e acidentais, numa espécie de reflexão que hoje poderia ser definida como aquela que estabelece a noção de língua materna68, isto é, o contato com pessoas que com essa se comunicam (proximidade acidental), de modo que tal língua seja a primeira a se manifestar na mente de quem cresce em seu ambiente cultural (proximidade substancial). Em relação à bondade, o autor parte do pressuposto de que a bondade mais característica de uma coisa é a mais amável; como a justiça, nos homens, amada até mesmo pelos ladrões. Da mesma forma aconteceria com o vulgar, cuja bondade mais característica é manifestar os conceitos racionais, o que Dante estava disposto a provar ser verdade mesmo em relação às mais altas concepções intelectuais.

Contudo, para que esse amor pudesse ser alimentado, eram necessários outros fatores, como o benefício, a aplicação do intelecto e o hábito. Em relação ao benefício,

deveriam ser consideradas as duas perfeições do homem, “uma primeira que o faz ser, e

uma segunda que o faz ser bom” (Cv I xiii 3), sendo claramente, para Dante, a língua natural a causa dessas perfeições nele próprio. O benefício do ser, assume o poeta, chega até ele pela união de seus genitores, sendo a comunicação em vulgar a causa eficiente de

tal encontro, assim como “o fogo e o martelo são as causas eficientes da faca, ainda que

o ferreiro seja a principal” (Cv I xiii 4). Já o benefício do “ser bom” se dá pelo fato de o vulgar tê-lo introduzido na vida dos estudos filosóficos, o que lhe serviu de guia para que ele se aproximasse da segunda perfeição.

E claro que, posteriormente, a aplicação do seu intelecto só foi possível por meio do latim, uma vez que naquela língua eram compostas, ou traduzidas, a grande maioria das obras filosóficas às quais o próprio Dante teria tido acesso, uma vez que o grego e o árabe não estavam entre os idiomas conhecidos por ele; mas, para chegar a um bom entendimento da gramática, o poeta precisou antes compreender questões de sua própria língua materna. Quanto ao hábito, Dante dá testemunho de que, desde o início de sua vida, manteve o costume de deliberar, interpretar e questionar, sempre em língua vulgar, sendo a Vida Nova uma bela prova disso. Entende-se, assim, que o exercício linguístico do qual o Convívio parece ser o amadurecimento já vinha sendo posto em prática há tempos, e aquilo que o autor reflete nos tratados parece sintetizar um anseio comunicativo

68 Cf. DVE I i 2: vulgarem locutionem asserimus, quam sine omni regula, nutricem imitantes, accipimus (“definimos como língua vulgar aquela que recebemos ao imitar a nutriz, sem necessidade de qualquer regra”).

52 que já se revelava de grande importância desde sua primeira juventude. Com tudo isso, é necessário afirmar, com Gentili, que o Convívio se apresenta como uma verdadeira “teoria

da divulgação científica em língua vulgar”, cuja realização linguística se dá pelos três

elementos morais (universalidade, utilidade e doação desinteressada), os quais distinguem a finalidade da obra como um benefício, e o seu autor como um benfeitor69.

Sabe-se que “a verdadeira oferenda deste comentário [Convívio] é o significado das canções para as quais foi feito, a qual intenciona principalmente induzir os homens à

ciência e à virtude” (Cv I ix 7). Assim, pela forte inspiração filosófica, a importância do

texto pode ser vista naquilo que ele representa dentro da história de seu autor, isto é, uma tentativa de, nos primeiros anos do seu duro exílio, oferecer ensinamento a todos aqueles que compartilham da sua sede de sabedoria. Esses ávidos de conhecimento seriam os verdadeiros nobres, pelo simples fato de se assumirem como subordinados à natureza humana primordial, ressaltada na obra desde as primeiras linhas.

53 2.2 A FILOSOFIA COMO “DAMA GENTIL”