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Em 1933, em Dachau, foi construído o primeiro campo de concentração. Em abril daquele ano, 60.000 pessoas já estavam aprisionadas (BLACK, 2001). Os campos de concentração também usariam a tecnologia dos cartões perfurados:

Os prisioneiros era identificados por meio de cartões Hollerith descritivos, data de nascimento, estado civil, quantidade de filhos, motivo de encarceramento, características físicas e habilidades profissionais. As colunas três e quatro reuniam dezesseis categorias codificadas de prisioneiros, dependendo da posição dos orifícios: o orifício 3 significava homossexual; o orifício 9, antissocial; orifício 12, cigano. O orifício 8 designava judeu. Listas impressas com base nos cartões também relacionavam os prisioneiros por códigos numéricos pessoais.

A coluna 34 era rotulada ―Razão de Partida‖. Código 2 simplesmente significava transferido para outro campo a fim de prosseguir com o trabalho. Morte natural era código 3. Execução, código 4. Suicídio, código 5. O agourento código 6 designava ―tratamento especial‖, termo que em geral significava extermínio, seja em câmara de gás, seja por enforcamento ou fuzilamento.

À medida que os trens e caminhões chegavam da Bélgica, França e Holanda, milhares de cartões perfurados eram examinados, processados, e as informações neles contidas eram enviadas para o Departamento de Estatística, no Escritório Econômico da SS, em Oranienburg. [...]

Cheim observou com especial atenção o dia em que cinco mulheres fugiram de Bergen-Belsen. Os guardas da SS, furiosos, juraram que as recapturariam. E lamentaram relatar a partida das prisioneiras na coluna 34 dos formulários de cartão perfurado com o código 7 – fuga (IDEM, 15-16).

Praticamente em todos os campos de concentração havia um departamento de contagem de presos, que eram conhecidos como Hollertih Abteilung. Os principais campos recebiam códigos numéricos: Auschwitz 001; Buchenwald 002; Dachau 003; Flossenbürg 004; Gross-Rosen 005; Herzogenbush 006; Mautausen 007; Nattzwiler 008; Neuengamme 009; Ravnsbrück 010; Sachsennhausen 011; Stutthof 012. Todos os movimentos dos presos eram cadastrados nos cartões perfurados (IBIDEM).

Cartão perfurado usado para catalogar presos em campos de concentração pelo nazismo. Fonte: http://gizmodo.com/dehomag/. Acesso em 15/02/2012.

Quando a Alemanha nazista invadiu a Polônia, as pessoas foram obrigadas a preencher formulários identificando suas ascendências, e em dois meses foram localizados 366.000 judeus. Esses formulários eram entregues em conselhos judaicos, os Judenräte. O funcionamento desse primeiro recenseamento em Varsóvia só foi possível com a participação dos próprios judeus.

Em Varsóvia, onde um terço dos mais de um milhão de residentes eram judeus, um engenheiro calvo chamado Adam Czerniakow foi nomeado, de uma hora para a outra, presidente do Jurendat local. [...] Czerniakow e seu conselho de 24 idosos cuidadosamente selecionados foram incumbidos do gerenciamento de todos os assuntos civis da população judaica encurralada. Era atribuição do Conselho assegurar a rigorosa observância da torrente de medidas opressivas decretadas pelos nazistas, à medida que o Reich rapidamente desmantelava a outrora florescente comunidade dos mais ou menos 375.000 judeus de Varsóvia. No cumprimento de sua missão impossível, todas as iniciativas do Jurendat eram rigidamente controladas pela Gestapo, SS, Einsatzgruppen e outras entidades nazistas. Oficiais nazistas por vezes ficavam à espreita, apenas a poucos metros da janela, enquanto Czerniakow trabalhava no escritório (IBIDEM, 233).

No campo de concentração de Dachau, um cabo apresentou grande facilidade em lidar com os dados de prisioneiros no recém-inaugurado campo de concentração de Dachau. Era Adolf Eichmann (IBIDEM).

Em seu julgamento, que culminaria ne execução da pena de morte, realizado em Israel, Eichmann foi considerado como uma pessoa ―normal‖: ―Meia dúzia de psiquiatras haviam atestado sua ‗normalidade‘ [...] Sua atitude quanto a esposa e filhos, mãe e pai, irmãos, irmãs e amigos, ‗não apenas normal, mas inteiramente desejável‘‖ (ARENDT, 1999, 37). Para Hannah Arendt, mesmo a partir deste diagnóstico Eichmann foi capaz de participar do holocausto: ―O problema com Eichmann era exatamente que muitos eram como ele, e muitos não eram nem pervertidos, nem sádicos, mas eram e ainda são terrível e assustadoramente normais [...] Essa normalidade era muito mais apavorante do que todas as atrocidades juntas, pois implicava que [...] esse era um novo tipo de criminoso [...] que comete seus crimes em circunstâncias que tornam praticamente impossível para ele saber ou sentir que está agindo de modo errado‖ (IDEM, 299). O conceito de banalidade do mal, como expressa o juízo de Hannah Arendt, portanto, seria a indiferença de pessoas tidas como normais diante das atrocidades do regime nazista, tanto oficiais como do povo alemão e que os levam a tomar decisões desprovidas do sentimento pela humanidade e pela moral.

A partir dos apontamentos de Foucault, entende-se que a execução de Adolf Eichmann trata-se de uma produção de verdade e normalização biopolítica segundo a

época. Nestes termos, não houve banalização do mal, como define Hannah Arendt, apenas a versão da tecnologia de poder biopolítica, paradoxalmente justificada como exercício de soberania. Desta maneira, a biopolítica exerce o que lhe compete como controle e a defesa da população, independentemente do regime político: trata-se de uma tecnologia de governo de Estado com a anuência da própria população como maioria beneficiada.

A banalização do mal é uma leitura negativa do poder diante da positividade do Estado. O regime nazista não ascendeu de forma ditatorial, mas democraticamente por meio de eleições. Foucault mostrou que esta é uma sociedade previdenciária, seguradora, regulamentadora e disciplinar, e que ao mesmo tempo reativa o velho poder soberano de matar. Entretanto, esse poder de matar perpassa todo o corpo social da sociedade nazista, e o poder de vida e morte não está presente apenas no Estado, mas em toda uma série de indivíduos. No limite, todos têm o direito de vida e morte sobre o seu vizinho, seja por meio da denúncia ou do alistamento a organizações paramilitares nazistas (FOUCAULT, 1999).

O consentimento ditatorial não se dá por golpe, mas por normalização biopolítica traduzida em efeito de soberania. O Estado nazista tornou-se coextensivo no campo de uma vida que ele ―organiza, protege, garante, cultiva biologicamente, e, ao mesmo tempo, o direito soberano de matar quem quer que seja‖ (IDEM, 311).

A divulgação do que acontecia nos campos de concentração pressionava Watson. No encontro do ICC, em 1940, ele discursou sobre a necessidade da paz e que era preciso terminar com a guerra e seus horrores. Convocou a imprensa e devolveu a Hitler a medalha que havia recebido. Entretanto, suas relações econômicas com o terceiro Reich não foram abaladas, a IBM era a única que podia fornecer os cartões perfurados e a manutenção das máquinas Hollerith (BLACK, 2001).

A IBM não trabalhou apenas para os nazistas; nos Estados Unidos, sua subsidiária, a Munitions Manufacturing Corporation, produzia armas, máscaras contra gases, miras para bombardeios, entre outros artefatos bélicos. Os cartões perfurados também eram usados para catalogar inimigos capturados, para recrutar pessoas ou localizá-las, para identificar onde estava um soldado (IDEM)

Em maio de 1942, a subsidiária estadunidense da IBM forneceu funcionários ao serviço de criptografia dos EUA. As partes e as mensagens decifradas eram tabuladas em uma série de cartões perfurados. Livros de códigos capturados eram perfurados em

cartões, estes eram classificados e cada palavra decifrada era utilizada para descobrir outra, até aproximar-se a mensagem de um contexto legível (IBIDEM).

A IBM atuou, portanto, como uma aliada em negócios tanto dos EUA como da Alemanha. Esse duplo favorecimento só terminaria em 1944, após milhares de pessoas já terem sido assassinadas. É quando a IBM declara apoio aos aliados e entrega seus documentos ao governo estadunidense. Após uma década de catalogação das pessoas e com a Alemanha nazista e suas câmaras de gás funcionando, Watson declarou seu patriotismo à bandeira estadunidense (IBIDEM).

O uso dos cartões perfurados, entretanto, não para por aqui. Atravessa a história dos computadores, anunciando o que viria a tornar-se o banco de dados, décadas mais tarde, e que estará presente em cada computador pessoal.

Entretanto, não se trata de uma politização de tecnologias. Tecnologias não se politizam, elas estão relacionadas a uma forma de produzir no próprio funcionamento da política. Richard Sennett, em O Artífice, caracteriza o medo da invenção de materiais de autodestruição – câmaras de gás e bombas atômicas – como o mito grego da caixa de Pandora, e as invenções seriam a abertura da caixa espalhando dores e males entre os homens. Sennett alerta que abrir essa caixa não é um ato neutro, a tecnologia trata de uma produção histórica e não de um procedimento maquinal (SENNETT, 2012).

No caso do uso dos cartões perfurados na Alemanha nazista, o aperfeiçoamento desta tecnologia tinha um objetivo, contar pessoas para poder administrá-las, contabilizá-las e separá-las. Por outro lado, há as regulares encenações políticas, como a devolução da medalha de Watson a Hitler, mesmo sem a IBM deixar de manter seus negócios.

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