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A empresa alemã que havia comprado as patentes de Hollerith, a Dehomag, encontrava-se em uma situação financeiramente frágil no começo da década de 1920. A moeda alemã estava desvalorizada, tornando impossível à Dehomag pagar royalties e outras dívidas à CTR de Watson.

Propaganda da Dehomag. Fonte: http://www.tempt.ee/topic.php?topic=1571. Acesso em 15/02/2012.

Watson fez uma viagem ao país para oferecer um acordo a Willy Heidinger, o proprietário. A proposta inicial era de que a CTR deteria 51% das ações da Dehomag, no entanto, quando a situação piorou, Watson fez uma nova proposta de 90%. Diante da pressão, Heindinger cedeu, restando-lhe 10% das ações, sendo, com isso, possível alegar a participação do capital alemão na Dehomag (BLACK, 2001).

A Alemanha adotou os cartões perfurados gerando lucros exorbitantes a Watson, sendo que, em 1933, apresentou um desempenho de 237% da cota (IDEM).

Neste mesmo ano o Terceiro Reich assumia na Alemanha. Uma de suas primeiras medidas foi realizar o censo, pois era preciso contar a população, principalmente devido ao fluxo imigratório iniciado desde a Grande Guerra. Em 12 de abril daquele ano foi anunciado o recenseamento de todos os alemães. Devido a imigração, principalmente de judeus oriundos da Polônia, os censos realizados anteriormente tornaram-se inúteis aos propósitos de governo, já que demoravam cerca de 5 anos para que seus resultados fossem apresentados. O objetivo do governo nazista era de que pelo menos a Prússia, o maior estado da Alemanha, conseguisse coletar os dados dos 41 milhões de alemães que ali viviam, apresentando os resultados em 4 meses (IBIDEM).

A empresa responsável por todo o projeto foi a Dehomag. Contratou novos empregados e os instruiu; ao governo, coube definir as categorias a serem coletadas sobre a população. Em 16 de junho de 1933, 500.000 recenseadores foram às ruas, acompanhados de oficiais da SS e de milicianos nazistas.

Quadros de milicianos nazistas e de oficiais da SS também se juntaram ao empreendimento constituindo um verdadeiro exército censitário. Em algumas localidades, quando o recrutamento se mostrava insatisfatório, as pessoas eram arregimentadas à força. As entrevistas abrangiam perguntas diretas sobre religião do chefe de família e se no caso o casamento era misto (IBIDEM, 62).

Os cartões eram constituídos de 60 colunas, com 10 linhas para cada uma destas, perfazendo 600 possibilidades de perfuração. Cada coluna interseccionada com um furo dizia respeito a um dado. Entre essas informações estavam: local de residência, comunidade, sexo, idade, religião, língua materna, quantidade de filhos, ocupação atual e, caso houvesse, o segundo emprego (IBIDEM).

Cartão perfurado utilizado no censo alemão em 1933. Fonte:

http://digitalassets.ushmm.org/photoarchives/detail.aspx?id=1145190. Acesso em 15/02/2012.

Entretanto, segundo Black, não foi possível identificar todos os judeus por meio do censo e só foram localizados os judeus praticantes. Por meio da análise dos dados estatísticos do Reich, concluiu-se que havia mais judeus de sangue, que haviam abandonado a prática religiosa. Um documento do departamento de estatística, em 1934,

apontou: ―A infiltração judaica em nossa vida cultural provavelmente é muito maior do que indicam os números referentes aos judeus praticantes‖ (DER DEUTSCHE apud IBIDEM, 105). Passou-se, então, a rastrear os descendentes de judeus.

Assim, os dados sobre a população passaram a ser recolhidos não somente por meio do censo, mas foram coletadas informações em clínicas, hospitais, consultórios médicos e seguradoras do país, assim como eram aceitas cartas manuscritas e denúncias. As igrejas também eram alvos, tanto para apontar os judeus como para comprovação do cristianismo. Todos esses dados passaram a ser transcritos para cartões perfurados Hollerith (IBIDEM).

Os censos de 1933 e 1939 não foram os únicos registros do nazismo: ―The Labor Book‖ – Livro do trabalho – (1935); ―The Health Pedigree Book‖ – Livro da saúde da raça – (1936); ―Duty to Register‖ – Dever de registrar – (1938); ―Volkskarten‖ – registro da população – 10 (1939) e ―The Personal Identification Number‖ – Número

pessoas de identificação – (1944). Esses livros forneciam números e dados para a seleção das pessoas (ALY e ROTH, 2004).

Esses registros, junto com os dos censos, foram armazenados no Ministério de Saúde e da Previdência Social, que ficava sob direção da polícia. Essa catalogação das pessoas levou, em 1940, à criação de quatro categorias referentes ao sangue: qualidade superior; média; aceitável e de inferior ou baixa qualidade (IDEM).

Essa polícia tem como objeto a vida em sociedade e os indivíduos vivos. Foucault retoma J. H. Gottobs von Justi para mostrar esse papel da polícia, ―a polícia, explica ele, é o que permite ao Estado aumentar seu poder e exercer sua potência em toda sua amplidão. Por outro lado, a polícia deve manter as pessoas felizes – a felicidade compreendida como uma sobrevida, a vida e uma vida melhorada‖ (FOUCAULT, 2003, 383). Von Justi denomina essa tarefa, como mostra Foucault, de

Polizei, distinta da Die Politik que é negativa e consiste, para o Estado, em se defrontar tanto com os inimigos internos como com os externos. A Polizei, portanto, é positiva, ―ela consiste em favorecer ao mesmo tempo a vida dos cidadãos e o vigor do Estado‖ (IDEM).

A obra de von Justi, Élements de Police, segundo Foucault, está dividida em 4 partes: na primeira, estuda o território do Estado, focalizando como este é povoado

10O ―Volkskarten‖ foi realizado a partir dos dados dos censos, entretanto, não possuía os dados de toda a

população, mas apenas de não arianos. Entre as informações estavam: nome, data e local de nascimento, endereço, ocupação, e a porcentagem de sangue misturado (ALY e ROTH, 2004).

(cidades e campo); em seguida, quem são seus habitantes (número, crescimento); depois analisa os ―bens e objetos de uso‖, os produtos manufaturados, sua circulação e seu custo; a última e quarta parte é destinada à conduta dos habitantes deste território. Ao realizar este trabalho, von Justi estabelece o objetivo da arte de governar moderna: desenvolver os elementos constitutivos da vida dos indivíduos de tal maneira que seu desenvolvimento reforce também a potência do Estado (IBIDEM). Assim, as ações dessa polícia não são possíveis sem o saber específico de medição e levantamento de dados sobre a população em seu território: a estatística.

Por meio da estatística é possível saber qual é a população, quais são os recursos naturais, qual é a circulação monetária (FOUCAULT, 2006, 134). O nazismo articulou esse saber estatístico a essa polícia para esmiuçar a população enquanto uma identificação dos impuros. Essa identificação não era somente um grande negócio para empresa e Estado. A certificação da linhagem ariana só era possível por meio de um saber biológico, que posteriormente era catalogado nos cartões Hollerith11. Os dados eram cruzados para não deixar escapar ninguém e os traços físicos também passaram a ser indicadores de raça (ALY e ROTH, 2004).

Michel Foucault pergunta-se como esse poder de aumentar a vida, que emerge no século XVIII, pode matar e pedir a morte. ―Como esse poder que tem essencialmente o objetivo de fazer viver pode deixar morrer?‖ (FOUCAULT, 2005, 304). É aí que intervém o racismo, que não aparece neste momento, mas agora passa a funcionar nos mecanismos do Estado.

É a biopolítica que permite essa entrada do racismo, e a nova delimitação do que deve viver e do que deve morrer. Os estudos biológicos de desqualificação de raças vão defasar uma parcela da população em relação à outra. Essa fragmentação permite ao Estado tratar uma população também como uma mistura de raças, e definir que a raça inferior precisa ser exterminada por uma questão biológica. A morte do outro, da raça ruim, garantirá a outra espécie mais pura, mais sadia (IDEM). E para todo restante a confirmação dos cidadãos a serem privilegiados como expressão de maiorias.

11 Vale ressaltar que, em 1935, após o 7º Congresso anual do Partido Nacional Socialista, são adotadas as

Leis de Nuremberg. Estas leis de proteção ao sangue ariano previam a proibição de relações conjugais entre judeus e alemães; os judeus eram proibidos de terem como funcionários cidadãos alemães; os judeus eram proibidos de içar a bandeira do terceiro Reich. Aquele que infligisse essas leis era passível de condenação a multas, prisões e trabalhos forçados. (Ver: http://www.pucsp.br/ecopolitica/documentos/docs_especiais/docs/nuremerg/tres_leis_de_nuremberg.pdf. Acesso em 05/04/2012).

A função assassina do Estado só pode ser garantida pela articulação da biopolítica ao racismo. A condição para poder matar exige a reativação do antigo poder soberano. Não se trata de só eliminar economicamente, com perda de privilégios, mas de matar.

A especificidade do racismo moderno, o que faz sua especificidade, não está ligado a mentalidades, a ideologias, a mentiras do poder. Está ligado à técnica do poder, à tecnologia do poder. [...] O racismo é ligado ao funcionamento de um Estado que é obrigado a utilizar a raça, a eliminação das raças e a purificação da raça para exercer seu poder soberano (IBIDEM, 309).

Os nazistas levaram ao limite esse racismo normalizador: a sociedade generaliza a biopolítica e, ao mesmo tempo, pede a acata o direito soberano de matar. Entretanto, Foucault destaca que esse poder de matar que perpassa as relações sociais, não é um poder de matar restrito somente ao Estado, mas é exercido por uma série de pessoas, tanto no alistamento a uma organização militar, como a SS, ou por meio do exercício da denúncia do vizinho, garantindo a colaboração entre sociedade civil e Estado.

Em meados de 1934 foram promulgadas duas leis na Alemanha: a Lei de Simplificação do Sistema de Saúde, pela qual os médicos e outros profissionais deveriam aplicar um questionário a seus pacientes sobre suas condições de saúde e ascendência genética; e a Lei para a Prevenção de Prole com Doenças Genéticas baseada nas teorias de eugenia alemã, que determinava quais linhagens deveriam ser liquidadas com base na probabilidade de serem portadores de genes defeituosos. Seus primeiros mapeamentos são de insanos, retardados, epilépticos e loucos (ALY e ROTH, 2004).

Outras leis referentes a genética dos não judeus seriam promulgadas em 1935, após as Leis de Nuremberg. A primeira foi A Lei de Proteção de Saúde Hereditária do Povo Alemão, que previa o registro das ―raças estrangeiras‖, ou de grupos ―racialmente menos valiosos‖ e que obrigava a obtenção de uma licença de casamento, certificando que os parceiros eram ―racialmente compatíveis para o casamento‖. Na Lei de Proteção do Sangue e da Honra Alemã proibia-se os alemães de casarem-se ou ter relações sexuais com pessoas de ―sangue estrangeiro‖ além dos judeus, algum tempo depois, o Ministério do interior determinou quem seriam as pessoas de sangue estrangeiro: ―os ciganos, os negros e seus bastardos‖ (FRIEDLÄNDER, 2012, 212).

Saul Friedländer afirma que para uma pessoa ser contratada no ano de 1935 era necessário que esta certificasse que não havia ascendência judia. Para isso, haviam

registro no Ministério do Trabalho e a este eram encaminhadas solicitações de verificação de ascendência. Caso ainda restassem dúvidas, os dados poderiam ser confirmados no Ministério do Interior, em que os especialistas em ―pesquisa de linhagem‖ realizavam relatórios detalhados sobre a pessoa em questão.

As denúncias e pesquisas genéticas eram julgadas pelas Cortes de Saúde Genética, inauguradas em 1934. Todos os dados eram verificados nos cartões Hollerith. Os acusados eram pais que tiveram filhos com alguma característica que fugisse dos padrões de normalidade eugênicos, loucos, e qualquer suspeito de ser um risco à raça (MONTFORT, 2005).

Entretanto, mesmo com a ascensão do nazismo, Watson estreitava suas relações com o regime. Em 1937 ocorreu o congresso da Câmara de Comércio Internacional (CCI) em Berlim. A CCI era tida como um braço comercial da Liga das Nações12, e seu slogan para aquele encontro era ―A Paz Mundial através do Comércio‖, criado por Watson.

Apesar das inúmeras publicações no New York Times, Watson Jr. em seu esforço de redimir o Watson pai, afirma que este não compreendia o que estava acontecendo na Alemanha, restringindo-se a possíveis bons negócios empresariais e bons lucros.

O otimismo de papai o impediu de ver com clareza o que se passava na Alemanha. Embora tivessem acolhido o congresso, os alemães não estavam interessados em estimular contatos comerciais entre as nações. A todo o momento ouviam-se comentários no sentido de que um comércio internacional intenso poderia comprometer a auto-suficiência da Alemanha, tão importante em caso de guerra. Mas meu pai acreditou em seus amigos, industriais e grandes comerciantes alemães, que garantiam ter pleno controle sobre os passos de Hitler. Um erro que muitos cometeram (WATSON JR., 1990, 62).

No encerramento do congresso, Watson foi condecorado com a Medalha da Águia Alemã, uma condecoração que homenageava personalidades estrangeiras que prestaram serviços ao Reich. A medalha era uma cruz branca, enquadrada em ouro e rodeada de suásticas.

12 A Liga das Nações foi criada a partir do estímulo do presidente estadunidense Thomas Woodrow

Wilson nas negociações de paz em Paris entre 1918 e 1919, sob efeito das disputas entre Estados na Primeira Guerra Mundial. Tinha como objetivo defender um projeto de organização política do mundo sob o princípio de cooperação dos Estados, reforço do direito internacional e a superação da prática da guerra pelo conceito de solução pacífica de controvérsias. Mostrou-se, também, como precursora da ONU e tanto esta como a própria Liga respondem às pacificações liberais da guerra em nome da paz e atualizou a literatura política internacional cuja a referência era o projeto de paz perpétua de Immanuel Kant (RODRIGUES, 2010).

Um ano após o congresso e a condecoração de Watson, a Áustria foi anexada ao terceiro Reich, formando a grande Alemanha. Novamente um censo foi realizado pela Dehomag, cobrindo 73 milhões de habitantes, e as igrejas entregaram os registros de batismos para que judeus não pudessem ocultar suas identidades por meio de conversões (BLACK, 2001).

A Tchecoslováquia foi o país seguinte. Após o Pacto de Munique (1938) – assinado pela Alemanha (Adolf Hitler), Itália (Benito Mussolini), França (Édouard Daladier) e Inglaterra (Neville Chamberlain) –, que garantia apenas que a região dos sudetas seria anexada à Alemanha e que após isto nenhum outro território europeu poderia ser invadido pela Alemanha, a Tchecoslováquia foi agregada em sua totalidade, tornando-se um país protegido pela Alemanha13.

A IBM já estava na Tchecoslováquia. Em 1935, mesmo ano em que são promulgadas as leis de Nuremberg, foi inaugurada a primeira escola para vendedores tchecos. Em 1939 foi construída a primeira fábrica de cartões em uma cidade próxima à Praga. Isso facilitaria o novo censo, com 750.000 recenseadores, em sua maior parte voluntários, e 22 milhões de domicílios, 3,5 milhões de imóveis rurais e 5,5 milhões de lojas e fábricas foram vasculhadas. Cerca de 80 milhões de pessoas seriam classificadas de acordo com sua ancestralidade (IDEM).

A Dehomag cumpriu o censo entre 17 de maio de 1939 e 10 de novembro de 1939. O resultado deste trabalho de 5 meses foi a localização de 330.539 ―judeus raciais‖, ou seja, tanto os residentes na Alemanha como os judeus residentes nos territórios ampliados do Reich. Era um resultado bem inferior aos 1,5 milhões de judeus localizados anteriormente, entretanto, já não estavam em território alemão 502.000 judeus devido a execução direta, emigração, morte em prisão, etc.. Cerca de 80 milhões de pessoas foram catalogadas, abrangendo as regiões da Alemanha, Áustria, região dos sudetos e Saar, todas seriam classificadas de acordo com sua ancestralidade (IBIDEM).

É neste período, especificamente em setembro de 1939, que a Polônia é invadida e eclode a Segunda Guerra Mundial, com a declaração da Inglaterra e da França de guerra à Alemanha. O Terceiro Reich também começava a se interessar não apenas em localizar judeus que estavam em seu território, mas em achar alemães imigrantes em outros países, que poderiam ser grandes aliados (IBIDEM).

13 Sobre o Pacto de Munique: http://pt.worldwar-two.net/eventos/pacto_de_munique/. Acesso em

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