• No results found

Stortingsmeldinger og rapporter

In document Master_Træland_v12.pdf (1.802Mb) (sider 22-30)

Em 13 de junho de 1971, o jornal The New York Times publicou algumas partes de documentos secretos do governo dos Estados Unidos sobre a Guerra no Vietnã. Foram reveladas 7.000 páginas de documentos encomendados pelo Secretário de Defesa Robert S. McNamara e que cobriram a ação estadunidense no sudeste da Ásia pós- Segunda Guerra Mundial. Os documentos referiam-se a meados de 1968, quando o então presidente Lyndon Bainess Johnson, que assumiu após o assassinato de John

Kennedy em 1963, iniciou uma conversa de paz em Paris e afirmou que haveria outros compromissos militares14.

A publicação destes documentos levou Errol Morris, diretor de cinema estadunidense, em 2003, a realizar Sob a névoa da Guerra: onze lições da vida de

Robert S. McNamara, um documentário marcado pela troca do barril de pólvora pela bomba nuclear, em que também mostra ações no Japão na Segunda Guerra Mundial ao Vietnã.

O filme apresenta 11 lições de McNamara sobre a guerra e é atravessado pelo seu lema: ―Tente aprender, entender o que aconteceu. Tire as lições e passe-as adiante‖ (MORRIS, 2003). McNamara participou da Segunda Guerra ensinando em Harvard, onde também realizou sua MBA sobre abordagens estratégicas na Força Aérea estadunidense. Depois, foi convidado a integrá-la em 1943 e fez uma seleção de homens para a criação de uma escola da Força Aérea chamada Controle Estatístico. Ali foram usados os cartões IBM para identificar e selecionar características de cada um dos concorrentes, e interessava os que tivessem capacidade de liderança.

O filme ainda redime McNamara ao apresentar seus esforços para evitar uma guerra nuclear durante a ofensiva ao Vietnã, quando saiu do governo Johson e se posicionou contra a guerra.

O título do documentário faz referência ao conceito de névoa da guerra do general prussiano Carl von Clausewitz, demonstrado no livro Da Guerra, de 1832. Ali, o general apresenta o conceito de névoa da guerra em relação ao momento em que não se sabe o que o inimigo irá fazer, ou ao momento em que as tropas interpretam errado uma ordem. Clausewitz também é conhecido por compreender que a guerra também é a continuação da política.

Michel Foucault, no curso Em defesa da sociedade (1999), ao se afastar de uma análise econômica ou contratual do poder, entende-o como uma relação de forças e que existe em ato. Assim, inverte a proposição de Clausewitz de que a ―guerra é a política continuada por outros meios‖ para afirmar que a ―política é a guerra continuada por outros meios‖. A paz que as guerras fazem reinar não suspende os efeitos da guerra, não neutraliza nenhum desequilíbrio, mas reinsere uma relação de força, nas instituições, na linguagem, nas desigualdades econômicas, até nos corpos de uns e de outros (IDEM). A

14 As matérias estão disponíveis no arquivo do jornal The New York Times:

política enquanto guerra continuada por outros meios é a recondução do desequilíbrio de forças despontados na guerra.

Assim, o poder é uma relação de força, se exerce. Não é simplesmente o que reprime a natureza, a classe, os indivíduos. Foucault expõe uma análise que escapa aos mecanismos de repressão, ―em vez de conceber um privilégio à lei como manifestação de poder, é preferível tentar localizar as diferentes técnicas de coerção por eles empregadas‖ (IBIDEM, 320).

Pierre-Joseph Prouhon também realizou uma análise da guerra, cerca de um século antes de Michel Foucault, e apontou que paz e guerra não são excludentes, mas correlativas. Estes dois termos se evocam, a ―paz demonstra e confirma a guerra; a guerra por sua vez é uma reivindicação da paz‖ (PROUDHON, 2011, 24).

Proudhon, apartado da superação da guerra com a prevalência da paz, apontou a política como uma pequena guerra enquanto uma situação do homem e, portanto, insuperável pela política. Essa pequena guerra é um embate entre vivos que jamais deixaria de existir, infindável e cotidiana, e não teria a ver com a guerra conduzida pelo Estado que gera mortes e miséria (RODRIGUES, 2011). A guerra seria o meio de efetivação do direito da força de onde partem todos os outros direitos e a sua primeira ramificação seria o direito da guerra, ou seja, Proudhon inverte os autores que caracteriza de metafísicos ao colocar o direito pessoal que derivaria no direito civil (PROUDHON, 2011).

A vitória, afirma Proudhon, prova que o ganhador é digno de um direito que requisitava. Portanto, Proudhon aponta a violência enquanto fundadora do Estado e a guerra como produtora e aplicadora do direito. Esse direito só poderá ser mantido pelo exercício dessa violência fundadora, que também é a mantenedora do Estado. Não se trata de análise contratualista, como o mostrou Rodrigues, em que se renuncia às vontades e impulsos individuais para a manutenção da paz, mas de uma violência ―amparada cotidianamente [...], numa tensão sem fim, necessária para que o Estado se mantenha uno, para que o soberano se mantenha príncipe, para que o proprietário preserve suas posses‖ (RODRIGUES, 2010, 209).

A publicação no The New York Times a respeito dos documentos secretos do governo intensificou protestos antiguerra que ocorriam pelas universidades estadunidenses. A Universidade de Berkeley, na década de 1960, foi revirada por jovens estadunidenses em protestos contra a guerra do Vietnã e antimilitaristas. Um de seus alvos era McNamara, que era secretário de Defesa.

Entretanto, nas universidades estadunidenses também havia jovens apartados dessas movimentações. Em Berkeley, Steve Wozniak, um estudante de engenharia, e Steve Jobs, que ainda cursava o ensino médio, mas frequentava o campus, interessavam-se somente por tecnologia, mesmo tendo tomado contato com essas movimentações. Wozniak e Jobs viriam anos mais tarde a fundar a empresa de computadores Apple.

A exposição dos referidos arquivos pelo The New York Times, em 1971, foi importante para que Steve Wozniak, aos 19 anos, deslocasse sua visão sobre o governo estadunidense. Wozniak aprendera com seu pai, engenheiro que trabalhou no final da década de 1950 e início da de 1960 em um programa de mísseis na Lockheed, uma companhia estadunidense aeroespacial, não apenas a manejar eletrônicos, mas a amar incondicionalmente o governo dos EUA.

Não fui criado para acreditar que uma democracia como a nossa espalharia esse tipo de mentiras. Por que o governo dos EUA tratava o povo americano e o enganava propositadamente? Eu não via sentido nisso.

Depois desse episódio, o pior, para mim, não foi a Guerra do Vietnã em si, mas a dor e o sofrimento que ela causou às pessoas. É por isso que enquanto me tornava adulto, comecei a adquirir uma nova ética: uma profunda preocupação com a felicidade e o bem-estar das pessoas. Eu estava apenas começando a entender que o segredo da vida – e isso ainda é verdade para mim – reside em encontrar uma maneira de ser feliz e de se sentir satisfeito com a própria vida, e também de fazer as outras pessoas felizes e satisfeitas com a vida delas (WOZNIAK, 2011, 59-60).

Apesar de seu posicionamento contra a Guerra, Wozniak nunca tomou parte do movimento hippie, mas tentou se entrosar, com uma faixa indígena na cabeça e com o cabelo e a barba enormes. Afirma que, mesmo acreditando na mesma coisa que os

hippies, um ―mundo sem estruturas, leis, organização ou política‖ (IDEM, 64), não o aceitavam por não usar drogas.

Os jovens hippies se recusavam ao alistamento e preocupavam-se com experimentações pacifistas, desde a vida em comunidades apartadas das cidades em busca do equilíbrio com a natureza a manifestações antiguerra.

Para Michel Foucault (1996), 1968 possibilitou analisar a mecânica do poder que até então havia se restringido a uma instância econômica. Ali foram escancaradas as lutas cotidianas nas malhas mais finas do exercício do poder em internamento psiquiátrico, instituições penais, escolas...

Edson Passetti apontou que a primeira grande resistência planetária à sociedade de controle veio de 68, com a reintrodução das práticas libertárias e a invenção de

liberações. Até 68 as práticas de liberdade se davam por posicionamentos e contraposicionamentos. Entretanto, essas liberações conheceriam seu reverso e ficariam à espera de regulamentações de direitos, o contraposicionamento acabou capturado pelo pluralismo, multiculturalismo e convocação à participação (PASSETTI, 2008).

Não havia por que crer, assim pensavam os jovens ativistas, em socialismo como ultrapassagem do capitalismo ou meio para o comunismo ou sociedade igualitária. Tudo fora de ordem e de lugar. Era o espaço da rua, da universidade, escola, fábrica, prisões para fazer liberdades alheias ao mercado de consumo ou ao centro geofísico da consciência. O Estado não tardou em responder em nome da restauração da liberdade. Qual liberdade? Decerto no Ocidente, uma tal e qual a imitar Roma fizesse germinar ditaduras capazes de substituir ditaduras ideológicas para fincar as bases da democracia, a preparação da república democrática (PASSETTI, 2003, 46- 47).

Beatriz Carneiro retoma suas experiências em 1968, nos EUA, e mostra como os jornais, revistas, rádio, televisão, exposições de arte e cinema daquele ano vibraram para retirá-la de uma infância tediosa e repercutem até hoje, ―o mundo estava lá fora, estava fora dos muros da escola e da família‖. Aponta ainda que a explosão rebelde nos EUA foi desencadeada com a Guerra do Vietnã, o alistamento obrigatório atirou jovens da classe média em um matadouro.

Nos EUA, entre outros grupos atuantes, hippies pacifistas desacreditaram os militares, a polícia, as escolas, os empregos. A onda hippie se ampliava pelas ruas, pela mídia, entrando nos lares, abalando os ‗clean-cults‘ (‗enquadrados‘) envolvendo até jovens dos estados americanos mais conservadores que escapavam de seus ranchos e subúrbios para os grandes centros em que tudo acontecia. Lá ficavam na rua, em albergues, em acampamentos. Sem contar os grandes shows de rock e os grandes conjuntos que se formaram, fornecendo a trilha sonora das andanças pelas ruas (CARNEIRO, 2008, 21- 2).

Mesmo afetado pela Guerra do Vietnã, Wozniak distanciava-se desses jovens que Carneiro mostra, não se permitia experimentar um estilo de vida hippie, mesmo tendo várias vezes se deparado com ele. Wozniak, em sua biografia, faz questão de deixar claro que nunca fez uso de drogas e que para ele estava em jogo ser bem- sucedido na vida apenas por ele mesmo e por sua mente. Em relação ao alistamento militar, Wozniak não o recusou e relata, com muito alívio, que após ficar dois anos na lista, não foi recrutado.

In document Master_Træland_v12.pdf (1.802Mb) (sider 22-30)