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O Vale de Santa Clara, na Califórnia, encontra-se entre as planícies de São José e São Francisco. Ali estão as cidades de Los Gatos, Santa Clara, Sunnyvale, Mountain View, Los Altos, Palo Alto, Menlo Park, Redwood City, Hiollsborough, Burlingame e South San Francisco.
A cidade de South San Francisco orgulhava-se de seu conjunto de siderúrgicas, fundições, refinarias e fábricas de madeira, vangloriava-se com o slogan ―South San Francisco, a cidade industrial‖ (MORITZ, 2011).
Para Sturgeon, pesquisador do MIT, o investimento no então Vale de Santa Clara possui procedências já na Primeira Guerra Mundial, por volta de 1906, com o advento do rádio. A região da baia de São Francisco era estratégica por sua proximidade ao Oceano Pacífico.
A primeira estação de rádio com programação regular foi fundada em San Jose, por Charles David, em 1909. Nesse período e na mesma cidade, também fundou a College of Enginnering and Wireless que, durante a guerra, treinou mais de 1000 operadores de telefonia móvel (STURGEON, 2000).
Os investimentos na região se deram principalmente por contratos com projetos da marinha estadunidense, que se mantiveram após a guerra. O Vale também seria alvo de investimentos de empresas de tecnologia, principalmente com o lançamento do Sputnik, em 1957, pela ex-URSS. Como a Shocley, de William Shocley, que ganhou o Nobel em 1956 pela invenção do transistor21; a Hewllet Packard (HP), que começou em uma garagem, já estava em Palo Alto desde 1939, quando vendeu equipamentos de engenharia eletrônica até para a Walt Disney Studios para a realização do filme
Fantasia.
Nesse período de investimentos no Vale, chegou também a Lockheed, onde trabalhou o pai de Wozniak, implantada em Sunnyvale. Máquinas de asfalto começavam a cortar a cidade, os folhetos de Sunnyvale a caracterizavam como ―a cidade com o futuro embutido‖ (IDEM).
Jerry Wozniak foi transferido para lá ao final da década de 1950. Do outro lado da península, Paul e Clara Jobs haviam adotado Steve Jobs e passeavam com seu filho pelos trilhos de bonde que ainda restavam no Sunset District de San Francisco (Wozniak, 2011).
Essas modificações no espaço demarcam a emergência de um investimento na região que viria a ficar conhecida como Vale do Silício. Não é um investimento ao acaso, expressa relações de forças e demarca mutações no capitalismo. Essa transformação, em uma análise histórico-política, apresenta modificações no discurso e de relações de poder. ―A descrição espacializante dos fatos discursivos desemboca na análise dos efeitos de poder que lhe estão ligados‖ (FOUCAULT, 1996, 159).
A análise das relações de poder em termos de táticas e estratégias apresenta os recortes, as distribuições e os controles no espaço também. Foucault utiliza termos espaciais como território, campo e posição não enquanto metáfora, mas para apresentar essas modificações e relações de poder que se inserem em um espaço e o modificam; a implantação de um saber que tem sua expressão no espaço, nas relações. É na ―demarcação das implementações, das delimitações, dos recortes dos objetos, das classificações, das organizações de domínios, o que se faziam aflorar era processos – históricos certamente – de poder‖ (IDEM).
21 Este componente eletrônico, de silício e germânio, é uma das procedências do microchip e passou a ser
mais usado neste período como amplificador e interruptor de sinais elétricos, apesar de sua invenção datar do final da década de 1940. Foi inventado nos laboratórios da Bell Telephone com o objetivo de baratear as válvulas usadas nos sistemas telefônicos da época.
Assim, o investimento no vale-tecnologia não era uma mutação do espaço físico, simplesmente; não dissociava-se de uma nova educação. As crianças entravam em contato com kits de eletrônica para montar brinquedos logo cedo, como Wozniak, que projetou um jogo da velha a partir desse kits quando estava no ensino fundamental22.
Steve Jobs, que se matriculou em uma classe de eletrônica popular da
Homestead High Scholl, ganhou de seu pai um Heathkits, kits populares usados para construir aparelhos eletrônicos como rádios e amplificadores e, assim, passou a entender o funcionamento interno dos equipamentos: ―Aquelas coisas não eram mais misteriosas […] Ficou muito mais óbvio que eram os resultados da criação humana, e não algum tipo de magia‖ (JOBS apud KAHNEY, 2008, 8).
O Vale do Silício ganharia esse nome com o desenvolvimento pela Intel, em 1971, do microchip. Este possui uma vantagem sobre o transistor: as correntes elétricas são conduzidas com mais velocidade de um bit para o outro, o que possibilita isso é o silício.
A Intel foi fundada em 1968, e trouxe não apenas o silício, mas o estilo de trabalho no Vale. Todos os funcionários eram chamados pelo primeiro nome e não existiam vagas de estacionamento reservadas, portas entre salas ou um escritório exclusivo para o chefe. Apenas cubículos de divisórias para cada grupo de pessoas (Triunfo dos Nerds 1, 1996).
Ao adotar uma distribuição horizontal do espaço, substituindo as grandes paredes por divisórias, a Intel não abre mão da hierarquia. Redimensionada, ainda há a repartição do chefe e dos funcionários. Não se trata de um contraposicionamento: ―mas, o que me interessa são, entre todos esses posicionamentos, alguns dentre deles que têm a curiosa propriedade de estar em relação com todos os outros posicionamentos, mas de um tal modo que eles suspendem, neutralizam ou invertem o conjunto de relações que se encontram por eles designadas, refletidas ou pensadas‖ (FOUCAULT, 2006, 414). Busca-se nessa organização aumentar a produtividade e estimular a criação de novos
22 Vale destacar, ainda, que neste período, nas televisões estadunidenses, era possível assistir aos
episódios de Star Trek e aos filmes de Star Wars. O primeiro apresentava, no século XXIII, as aventuras do Capitão James Tiberius Kirk (humano) e do Comandante Spock (metade humano e metade vulcano; também ficou conhecido pela saudação ―vida longa e próspera‖) a bordo da U.S.S. Enterprise. Em suas viagens, providos de tecnologia de ponta e de supercomputadores, patrulhavam os planetas para garantir a paz na galáxia. Os filmes de Star Wars apresentavam as tentativas do Império, liderado por Lord Darth Vader, de sufocar os rebeldes republicanos, que tinham apoio dos Jedis – que se cumprimentavam com ―que a força esteja com você‖. Estes últimos queriam restabelecer a república com um senado interplanetário. Tanto a série de televisão quanto o filme faziam referência ao contexto da Guerra Fria e da disputa entre URSS e EUA.
produtos, não mais como no passado quando um funcionário-padrão criava um equipamento mais produtivo. Não se trata mais da iniciativa individual, mas de provocar em grupos as possibilidades de criações produtivas em grande escala para produção e não mais para uma específica indústria. Agora é a empresa que substitui a fábrica.
Gilles Deleuze, em seus apontamentos sobre a sociedade de controle, mostrou que não se trata mais do confinamento, como na sociedade disciplinar, mas ―numa sociedade de controle a empresa substitui a fábrica, e a empresa é uma alma, um gás. Sem dúvida a fábrica já conhecia o sistema de prêmios, mas a empresa se esforça mais profundamente em impor uma modulação para cada salário, num estado de perpétua metaestabilidade, que passa por desafios, concursos e colóquios extremamente cômicos‖ (DELEUZE, 2010, 225).
Steve Wozniak, em entrevista ao documentário Triunfo dos Nerds, afirmou: ―Eu sentava no chão do meu quarto, cercado de folhas por todos os lados enquanto desenvolvia o meu computador. E tudo que pude perceber é que já era tarde da noite e eu tinha bebido um montão de coca-cola. É assim mesmo... Faz parte desse tipo de vida...‖. Não está mais em jogo cumprir uma jornada de trabalho, mas alcançar o melhor desempenho e realizar um objetivo. No mesmo documentário, Doug Muise, um jovem desenvolvedor de softwares, detalhou um pouco mais desse tipo de vida mencionado por Wozniak: ―Comer, sair, ter uma namorada, ter uma vida social, é uma coisa que acontece acidentalmente, ou somente quando dá... Nosso objetivo primordial é com a programação. Qualquer coisa que venha interromper isso pode ser considerada desperdício...‖ (Triunfo dos Nerds 1, 1996).
Richard Sennett, em A corrosão do caráter (2010), aponta que nessas novas empresas não se trata mais da hierarquia apresentada por Max Weber, mas em um
capitalismo flexível, como denomina o autor, pede-se que trabalhador seja ágil, esteja aberto à modificações e se desvencilhe de procedimentos formais.
Os procedimentos formais delimitados por uma série de regras estáveis precisa ser superado para que o trabalhador seja modular e não cause entraves diante de modificações ou imprevistos. Assim, os procedimentos formais dão lugar aos protocolos, um trabalhador precisa seguir os protocolos, mais flexíveis. Os protocolos trabalham com possibilidades que determinam um trajeto e novas possibilidades podem ser incorporadas, os procedimentos formais delimitam um caminho apenas.
Sennett entrevistou funcionários da IBM que acreditavam na hierarquia da empresa e que teriam uma longa carreira nesta. Na administração de Thomas Watson, exercia-se um ―capitalismo paternal com força total‖ (SENNETT, 2010, 146), como era expresso em músicas cantadas para vangloriar Watson, como foi mostrado anteriormente. Mesmo quando Thomas Watson Jr. assumiu o cargo de seu pai, a IBM mantinha seu padrão, com empregos vitalícios, seguro social e benefícios de aposentadoria. E isso era possível por ter um monopólio do mercado de computação.
Entretanto, na emergência desse novo estilo de vida dos jovens do Vale do Silício e a não adaptação da IBM, causariam rombos financeiros na empresa. ―Em 1992, a empresa sofreu uma enorme perda (6,6 bilhões de dólares), quando oito antes amealhara o maior lucro empresarial americano já registrado. Uma complexa burocracia interna revelou-se paralisante quando a empresa foi driblada pela Microsoft de Bill Gates‖ (IDEM, 147).
As entrevistas de Sennett mostraram que os funcionários da IBM passaram a se sentir traídos, como se tivessem sido passados para trás. Aqueles que permaneciam nos empregos sentiam-se como se estivessem lá por empréstimo.
- Há muita tensão, violência doméstica e necessidade de assistência psiquiátrica... diretamente ligadas às demissões. Mesmo dentro da IBM, o ambiente mudou radicalmente: há muito nervosismo, sem a segurança. [...] - Que respeito? ... A IBM é uma empresa muito incoerente, fazendo declarações bombásticas sobre respeito, sinceridade e sensibilidade, e praticando ao mesmo tempo uma administração opressiva e discriminatória num nível mais baixo.
- A lealdade à empresa morreu – declarou sem rodeios um consulto administrativo (IBIDEM, 149-150).
A IBM voltaria a ser uma máquina empresarial competitiva apenas quando Louis Gerstner assumiu a presidência, após a queda de vários outros presidentes. Gerstner substituiu as estruturas hierárquicas por formas flexíveis de organização, orientadas pela rapidez e introdução de produtos no mercado (IBIDEM).
Uma comparação dessa nova lógica, afimaria Sennett em A cultura do novo
capitalismo (2006), seria com o tocador MP3. O aparelho – que lê músicas transformadas em bits e comprimidas no formato MP3 – possui um centro de processamento que orienta o funcionamento do objeto, é possível acessar o material aleatoriamente, ―a flexibilidade de reprodução só é possível porque a unidade central de processamento controla o conjunto‖ (SENNETT, 2006, 52). É como uma empresa de organização flexível, ―o desenvolvimento linear é substituído por uma predisposição
mental capaz de permitir a livre circulação [...]. A unidade central de processamento da instituição estabelece as tarefas, avalia os resultados, promove a expansão ou o encolhimento da empresa‖ (IDEM, 50;52).
Este novo tipo de vida, atravessado pela obsessão em produzir o computador ou o software mais avançado, transpõe a organização da fábrica e os lugares delimitados presentes nela para que um programador crie a todo momento; crie não como uma obrigação ou somente por uma premiação, mas também como uma meta pessoal que o satisfaz e, como mostrou Sennett, há sempre um centro de comando. Trata-se de absorver esses jovens obcecados por tecnologia e seus jogos para lançar rapidamente novos produtos no mercado.
Gilles Deleuze afirma que, na sociedade de controle, as empresas introduziram um tempo de rivalidade, excelente motivação que contrapõe os indivíduos entre si e atravessa cada um.
Atualmente o capitalismo não é mais dirigido para a produção, relegada com frequência à periferia do Terceiro Mundo, mesmo sob as formas complexas do têxtil, da metalurgia ou do petróleo. É um capitalismo de sobreprodução. Não compra mais matéria-prima e já não vende produtos acabados: compra produtos acabados, ou monta peças destacadas. O que ele quer vender são serviços, e o que quer comprar são ações. Já não é um capitalismo dirigido para a produção, mas para o produto, isto é, para a venda ou para o mercado. Por isso ele é essencialmente dispersivo, e a fábrica cedeu lugar à empresa (DELEUZE, 2010, 227-8).
Foucault, ao analisar a racionalidade neoliberal estadunidense em O nascimento
da biopolítica, mostrou a incursão das análises econômicas num campo restrito apenas à quantidade, o trabalho. Não se trata mais, como nos economistas clássicos, de entender os processos do capital, do investimento, da máquina e do produto, mas de não ver mais o trabalho de maneira abstrata.
Ao conceber a economia como uma ciência do comportamento humano, os neoliberais estão diante da programação estratégica da atividade dos indivíduos. A partir desse deslocamento, interessa saber como quem trabalha utiliza os recursos que dispõe. O trabalhador é um sujeito econômico ativo e possui uma prática, uma conduta econômica racionalizada.
Theodore Schultz e Gary Becker, ao responderem a um momento histórico estadunidense, as soluções dadas à crise da década de 1920 e seus desdobramentos, desenvolveram a teoria do capital humano entre as décadas de 1950 e 1960. Para estes, o trabalhador é portador de um capital, uma aptidão. Sendo assim, há um investimento
em cada um para melhorar seu capital, composto tanto por fatores inatos, como a genética, como adquiridos com educação e especializações. Assim, aponta Foucault, não se trata de uma concepção de força de trabalho, mas de capital-competência, que será remunerada de acordo com uma série de variáveis de que o sujeito é portador, ―é o próprio trabalhador que aparece como uma espécie de empresa para si mesmo‖ (FOUCAULT, 2008, 310).
Não se está mais diante da separação entre trabalho manual e intelectual como na sociedade disciplinar, em que o trabalho intelectual era exercido por alguém em uma posição superior na hierarquia da fábrica e o trabalho manual destinado para os inferiores. Mas agora são fluxos de inteligências em que cada acoplamento de instruções e melhoras em uma pessoa, compõe o capital humano desta. ―Não está mais em jogo como conter energias políticas de um corpo útil exaurido pela mecânica, mas como expandir suas energias inteligentes dedicadas a provocar inventividades pragmáticas‖ (PASSETTI, 2011, 133)
Os jovens do Vale do Silício nas décadas de 1970 e 1980, obcecados em novas tecnologias, misturavam diversão e descobertas como investimento em seu próprio conhecimento para desenvolver um hardware ou um software mais eficiente. Captaram rapidamente que tal atividade responderia a um mercado e buscaram fundar suas empresas, com uma estrutura horizontal que não abre mão de uma hierarquia que não fosse marcada pelos moldes anteriores.
Portanto, para as novas empresas, trata-se de atrelar o tipo de vida desses jovens interessados em tecnologia computo-informacional com produção e investimento no estudo para desenvolvimento de outros produtos. Absorve-se uma habilidade desenvolvida desde criança, como Wozniak que, quando pequeno, já tinha interesse no funcionamento de eletrônicos, para ser parte constituinte de um capital que qualifica a pessoa para exercer uma certa função. Interessam jovens dispostos a investimentos pessoais para um futuro próspero individual e da empresa.