No ano de 1969 – quando os Estados Unidos acirraram a disputa com a URSS pela ocupação do espaço sideral levando, a bordo da nave Columbia, Neil Armstrong e Buzz Aldrin a pisarem na lua –, começava a ser desenvolvido no Departamento de Defesa dos Estados Unidos um sistema de comunicação entre computadores que pudesse resistir a bombardeios.
O projeto foi realizado pelo departamento Information Processing Techniques Office (IPTO), vinculado à Advanced Research Projects Agency (Arpa) – órgão responsável pelas pesquisas tecnológicas para fins militares do governo estadunidense – que também foi a financiadora do projeto. O sistema foi nomeado de Arpanet.
Entretanto, sua realização só seria possível três anos depois, quando o IPTO passou a utilizar o sistema de computação desenvolvido pelo estadunidense Paul Baran e pelo inglês Donald Davies15. Este sistema foi apresentado ao Departamento de Defesa estadunidense para a construção de uma conexão entre computadores que resistisse a ataques nucleares. O IPTO "cortava" uma mensagem em várias partes; ela não circulava inteira, entretanto todos os pedaços possuíam um computador de destino. Quando as partes chegavam, o computador receptor a remontava (Breve história da internet, s/d).
A conexão funcionou pela primeira vez, interligando quatro computadores em diferentes locais por meio de cabos subterrâneos de telecomunicação. As máquinas estavam em universidades que realizavam pesquisas científicas com objetivos militares, e localizavam-se na costa oeste dos Estados Unidos: Universidade da Califórnia em Los Angeles (UCLA), de onde saiu a mensagem inicial transmitida aos outros computadores; Instituto de Pesquisa de Stanford; Universidade da Califórnia em Santa Bárbara e Universidade de Utah, em Nevada (VIEIRA, 2003).
O sucesso da Arpanet ocorreu quando esta foi apresentada, por Robert Kahn, na
International Conference on Computer Comunication, realizada em Washington, no ano de 1972 e que contou com a presença de representantes do Japão, Canadá, França, Noruega, Suécia, Reino Unido e EUA (UFPA, 2011).
A conexão se expandiu e interconectou outras universidades. Operava como protocolo16 NCP (Network Control Protocol), que designava uma série de regras de
15 Paul Baran trabalhava na Rand Corporation, um centro de pesquisas localizado na Califórnia e que
prestava serviços ao Pentágono. Donald Davies trabalhava no British National Physical Laboratory.
16 Para definir o que é protocolo, utiliza-se a definição de Alexander Galloway: ―Um protocolo de
linguagem para que as informações fossem trocadas entre computadores (IDEM). Entretanto, a NCP começou a apresentar problemas com esse crescimento da rede. Assim, o protocolo foi reformulado e lançado um novo: o TCP/IP (Transmission
Control Protocol/Internet Protocol). No ano de 1975, a Arpanet passou ao controle da
Defense Comunication Agency (DCA), que tinha como objetivo disponibilizar a comunicação para diferentes campos das forças armadas e era administrada pelo programador Robert Kahn. Alguns anos mais tarde, o Departamento de Defesa, preocupado com possíveis ataques ao sistema, o dividiu em duas partes: a Milnet (para comunicação militar) e a Arpanet (para o uso em pesquisas) (PACITTI, 2000).
Gustavo Steinberg (2004) faz uma analogia entre o TCP, que divide uma informação em várias partes para que possam ser transmitidas e remontadas quando chegam ao computador destinatário, e a adoção de containeres na marinha mercante. Anteriormente, os navios precisavam ser adequados a um tipo de específico de carga; com os containeres, não interessa mais o conteúdo. Na lógica do TCP todas as informações repartidas em várias partes são como containeres em que não importa o que cada parte carrega, mas que a informação seja dividida em partes iguais para que possa ser transmitida. Entretanto, o uso do IP possibilita que essas informações sejam mapeadas e se saiba geograficamente de onde saiu e qual o seu destino.
A popularização da internet, entretanto, só foi possível por meio da World Wide
Web (WWW), criada pelo físico inglês Tim Berns-Lee no Laboratório Europeu de Partículas Físicas. A Web era apenas um espaço de armazenamento de informações que estavam em todos os computadores que compunham a internet e este material podia ser acessado por qualquer um, por conta do uso de hipertexto, ou seja, blocos de textos que se ligavam a outros textos17. Cada um desses documentos que estavam ligados entre si, recebeu um endereço denominado Uniform Transfer Protocol ou URL (Uniform
Resource Lacator), composto por um identificador de hipertextos, o HTTP (Hypertext protocolos que regem grande parte da Internet estão contidos nos chamados documentos RFC (Request for Comments). Conhecidos como a ‗documentação primária da Internet‘, estes memorandos técnicos detalham a grande maioria das normas e protocolos que regem a Internet hoje. [...] [Os] regulamentos sempre funcionam no nível da codificação – codificam pacotes de dados para que possam ser transportados; codificam documentos para que possam ser analisados; codificam a comunicação para que dispositivos locais possam comunicar-se com dispositivos externos. Protocolos são altamente formais, isto é, eles envolvem a informação dentro de um invólucro técnico, mantendo-se relativamente indiferente ao conteúdo da informação. Visto como um todo, o protocolo é um sistema de gestão distribuída que permite o controle de um meio material heterogêneo. [...] O protocolo é como o controle tecnológico existe depois da descentralização‖ (GALLOWAY, 2004, 6-8).
17 O termo hipertexto foi criado por Theodor H. Nelson na década de 1960, referia-se a ligação de um
Transfer Protocol) e, a partir daí, passou-se a investir na visualização desses arquivos, já que antes era apenas uma tela preta com letras verdes (VIEIRA, 2003).
No Brasil, a internet chegou por volta de 1988. Um ano antes, Edmundo Albuquerque de Souza e Silva18 e Paulo Henrique Aguiar Rodrigues19 estudaram na UCLA e conseguiram autorização da NSF (National Science Foundation) para que universidades brasileiras pudessem se conectar à NSF-NET, que era uma variação da Arpanet, sem acesso à Milnet (PACITTI, 2000).
Entretanto, o NCE-UFRJ (Núcleo de Computação Eletrônica da Universidade Federal do Rio de Janeiro), onde o projeto passou a ser desenvolvido, optou por iniciar a conexão com a Bitnet (Because It’s Time Network), rede que interligava universidades
dos Estados Unidos, Canadá e Europa e que utilizava linguagem de programação desenvolvida pela IBM. Essa era uma alternativa para as instituições de ensino e pesquisa que não tinham contratos com o Departamento de Defesa dos Estados Unidos (IDEM).
Para que a conexão fosse realizada, foi necessária a criação de uma rede acadêmica, a ANSP (Academic Network de São Paulo). O órgão fundador e mantenedor desta rede foi a FAPESP (Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado de São Paulo) que, por meio da ANSP, pretendia suprir a comunicação eletrônica entre as principais instituições de ensino e pesquisa paulistas (OLIVEIRA, 2011).
A ANSP operava com a rede Decnet e, por meio de softwares de conversão, fazia uma máquina se comunicar com a outra. Com o crescimento das redes no meio acadêmico, a FERMILAB (Fermi National Accelerator Laboratory)20 passou a integrar essas conexões. Em 1994, quando a internet passou a ter um uso comercial no país, a FERMILAB provia as conexões do Brasil com o exterior (IDEM; VIEIRA, 2003).
18 Graduado em Engenharia Elétrica pela Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, em 1975 ,
mestre em Engenharia Elétrica pela mesma universidade em 1978 e doutorado em Ciência da Computação pela UCLA em 1984. Realizou pós-doutorado pela Watson Research Center e pela UCLA. Hoje é professor na UFRJ. (ver: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=H2329. Acesso em 16/05/2012).
19 Graduado em Engenharia Eletrônica pelo ITA, mestre em Sistemas e Ciência da Computação pela
Coppe/UFRJ, e doutor e pós-doutor em Ciência da Computação pela UCLA. Atualmente é professor do departamento de computação da UFRJ. (ver: http://buscatextual.cnpq.br/buscatextual/visualizacv.do?id=S18867. Acesso em 16/05/2012).
20 Laboratório de física de altas energias especializado no estudo de partículas atômicas, com sede na
cidade de Batavia, Illinois, nos Estados Unidos (OLIVEIRA, 2011). Foi fundado em 1967 e hoje é conhecido por seu acelerador de partículas Tevatron, o segundo maior do planeta.