2. A Game of Numbers: Emergence and Growth of the Veterans’ Organisations 30
2.5. The “Final” number: End of the Controversies?
O curador sempre existiu na sociedade humana. Heródoto (484 - 425 a.C.), historiador grego, relata que na Babilônia e no Egito os doentes eram expostos nas ruas para que os que passassem pudessem se identificar com o adoecido em algum episódio de doença anterior e relatar de que maneira foi estabelecida a cura84
. Assim deram-se os primeiros relatos acerca dos cuidados dados aos pacientes.
Os curadores ocidentais absorveram os primeiros métodos curativos dos egípcios. A divindade conhecida como Thoth era tida como a personificação do conhecimento, a ele é atribuída a invenção da linguagem falada e escrita, da geometria, aritmética, astronomia, dos sons e ritmos, da ginástica, da dança, pintura, a escultura e a arquitetura, os ritos sacros, além da medicina. Thoth era um deus antropozoomórfico, representado por um homem com a cabeça de um pássaro, aparentado da cegonha, chamado Íbis. Esse pássaro possuía um longo bico e acreditava-se que lhe servia para limpar a cloaca como uma espécie de lavagem intestinal.
A partir da observação dos hábitos de higiene do íbis surgiu a prática dos clisteres. Os clisteres eram soluções que continham água, leite, mel e ervas, sendo que uma das mais
84 Cf. CUMSTON, Charles Greene. M.D. Histoire de la Médecine: du temps des pharaons au XVIII e siècle.
comuns era a sene. Outras terapias utilizadas pelos egípcios eram os laxantes, substâncias que produzem evacuação das fezes moles, sem dor e sem irritação intestinal. Também havia os purgantes, parecidos com os laxantes, provocam exoneração intestinal mais intensa.
Os conhecimentos adquiridos das matérias do saber foram registrados em uma coleção de livros, A Hermética, composta por quarenta e dois volumes, dos quais os últimos seis são dedicados à medicina: o trigésimo sétimo é um tratado de anatomia; o trigésimo oitavo aborda as doenças de forma geral; o trigésimo nono enumera e descreve os instrumentais necessários para os tratamentos; o quadragésimo ocupa-se das drogas e medicamentos; o quadragésimo primeiro discorre acerca das doenças oculares; e o quadragésimo segundo apresenta questões relacionadas à saúde das mulheres85
.
A magia, advinda da religiosidade egípcia, e a medicina faziam parte de um só rito. Os sacerdotes eram veículos de cura para os poderes dos deuses e, juntamente com o remédio administrado, orações eram recitadas para que os pacientes as repetissem, a fim de completar o processo curativo. Tomando como exemplo o tratamento de vermes, ao tempo em que era administrada a medicação, o sacerdote e o paciente proferiam a seguinte oração:
Possam essas palavras expulsar a progressão enxameante daquilo que toma conta de minhas entranhas. Um deus criou este inimigo: possa ele o destruir por este encantamento e expulsar as desordens que ele causa no meu ventre86
.
Para que o cuidado dado ao paciente fosse completo havia ainda, junto com a articulação do encantamento, uma série de gestos e movimentos específicos realizados pelo sacerdote, que faziam parte do rito de cura. Datado do reinado de Ramsès I87
, o prefácio de
85 Cf. CUMSTON, 1931, p. 37-39. 86 Cf. CUMSTON, 1931, p. 46.
Livre tradução de: “Puissent ces mots expulser la progression grouillante de celui qui emplit mes entrailles. C'est un dieu qui créa cet ennemi: puisse-t-il le détruire par ce charme et expulser les désordres qu'il cause dans mon ventre »
87 ARAÚJO, Emanuel. Escrito para a eternidade: a literatura no Egito faraônico. Brasília/São Paulo:
UnB/Imprensa Oficial-SP, 2000, p.17.
um tratado médico relata essa estreita relação entre o campo científico e o religioso no antigo Egito:
Eu venho da escola de medicina de Heliópolis, onde os veneráveis mestres do grande templo inculcaram em mim a arte de curar, eu venho também da escola de ginecologia de Saïs, onde as divinas sacerdotisas me ditaram suas prescrições. Eu possuo os encantamentos ditados pelo próprio Osíris e meu guia foi sempre o deus Toth. Toth, o inventor da fala e da escrita, autor de tantas prescrições infalíveis. Toth quem dá a gloria e o poder aos mágicos e aos médicos que seguem seus preceitos. Os encantamentos são excelentes para os medicamentos e os medicamentos são excelentes para os encantamentos88
.
Além da coleção Hermética, existem quatro papiros importantes que tratam da medicina no Egito. O primeiro foi encontrado perto de Lúxor, por Ebers, que o traduziu. O segundo, parcialmente destruído, foi encontrado próximo das ruínas de Saqqara, em Memphis, que durante a primeira dinastia89
foi a capital do Egito. Hoje o papiro está localizado no museu de Berlim e é conhecido como Papiro médico de Berlim, mas originariamente era parte integrante do acervo da biblioteca médica de Imhotep (2655-2600 a.C.), no Templo da deusa Ptah. O terceiro papiro encontra-se no museu de Londres, sendo datado da XVIII dinastia egípcia90
. O quarto papiro foi comprado em 1862 pelo americano Edwin Smith, que o deixou após sua morte para a Sociedade Histórica de Nova Iorque. A especificidade deste papiro está na descrição de setenta casos, com comentários acerca da relação de evolução caso/terapêutica, tornando-o diferente dos outros que apresentam apenas materiais e métodos de tratamento. O papiro de Edwin Smith é datado de 1700 a.C.91
88 Cf. CUMSTON, 1931, p. 43
Livre tradução de: “Je viens de l’École de médecine d’Héliopolis, où les maîtres vénérables du grand temple ont inculqué en moi leur art de guérir, je viens aussi de l’école de gynécologie, de Saïs, où les divines mères m’ont dicté leur prescritions.
J’ai en ma possession les incantations dictées par Osiris lui-même, et mon guide fut toujours le dieu Thot. Thot, l’inventeur de la parole et de l’écriture, l’auteur de tant de prescriptions infaillibles ; Thot, qui donne gloire et pouvoir aux médecins et aux magiciens qui suivent ses préceptes ; les incantations sont excellentes pour les remèdes et les remèdes excellents pour les incantations ! »
89 Cf. ARAÚJO, 2000, p.15.
Primeira dinastia 3.100 a 2.890 a.C. (Faraós: Narmer, Aha, Djer, Djet/Uadji, Mery-Net, Ka).
90 Cf. ARAÚJO, 2000, p.17.
Décima oitava dinastia 1. 550 a 1.323 a.C. (Faraós: Amen-hotep I, Tut-mês III, Hat-shep-sut, Amen-hotep II, Tut-mês IV, Amen-hotep III, Amen-hoteo IV/Akh-em-aton, Tu-ãnkh-Amon, Ay).
No Egito Antigo, havia três classes distintas de cuidadores, de acordo com o papiro de Ebers:
1. O Sa-unu, este não era um sacerdote, ele obtinha seus conhecimentos através dos estudos nos livros ilustrados tratando das doenças, do tratamento e da anatomia, podendo se especializar em várias áreas como ginecologia e obstetrícia, oftalmologias, doenças da cabeça e do abdômen, odontologia, etc.. Ele tinha que seguir as regras da arte de curar prescrita nos papiros, o paciente poderia se curar ou não, mas se o Sa-unu não utilizasse as regras da arte de curar no tratamento e o paciente fosse a óbito o médico seria exposto à pena máxima de acordo com a lei do antigo Egito92
.
2. A Uibu-Sekhet, sacerdotisa da deusa Sekhet, uma deusa muito colérica lançava sua raiva para provocar doenças e mortes. Os seus sacerdotes, por terem um relacionamento espiritual mais íntimo, tinham como missão apaziguar o ódio da deusa e promover o exorcismo das doenças. As sacerdotisas também dominavam a arte da obstetrícia e ginecologia. As sacerdotisas eram as preceptoras dos Sa-unu nos ensinamentos de ginecologia e obstetrícia na escola de Saïs93
.
3. O Sa-U era chamado de exorcista, ele não tinha nem o conhecimento adquirido nos livros acerca da arte de curar dos Sa-unu, nem a inspiração e a intimidade divina que a Uibi-Sekhet possuía. Ele apenas repetia os encantamentos e gestos que foram repassados por seus antepassados, contudo, não entendia os seus significados94
.
As Per Ank, escolas da vida, eram centros de ensino muito famosos no Antigo Egito. O rei do Egito, Khnem-ib-re (570-526 a.C.), da 26ª dinastia, mais conhecido como Amasis,
92 Cf. CUMSTON, 1931, p. 48-49. 93 Idem
em grego, abriu as portas do Egito para os estrangeiros, sobretudo os gregos, que vinham para adquirir o conhecimento dos egípcios acerca das ciências para completar seus estudos na área do saber médico95
. Em Saïs, o destaque era a ginecologia e obstetrícia. Héliopolis, a faculdade de medicina, ensinava acerca das morbidades e seus tratamentos. Em Memphis era a localizada a biblioteca de Imhotep, que foi arquiteto, escriba e médico. Após sua morte, Imhotep foi divinizado. O único papiro restante de seu acervo é o de Berlim96
. Nessas escolas, os estrangeiros só adquiriam os conhecimentos dos papiros, pois os encantamentos concernentes aos sacerdotes eram resguardados aos que seguiriam essa predestinação.
Na Grécia antiga, a medicina estava ligada de certa forma à religião. Os médicos/sacerdotes eram chamados de asclepíades, pois se acreditava que estes eram descendentes diretos do deus gregos Esculápio, filho do deus Apolo e da mortal Corônis, e aclamado como deus da medicina. Para tal utilizavam remédios, sacrifícios e encantamentos97
.
Hipócrates, o mais notório médico da antiguidade grega, viveu em 460 a.C. Seus primeiros contatos com a ciência médica foram feitos através das leituras em estelas localizadas no templo dedicado ao deus Esculápio, na ilha de Cos, local de seu nascimento. Ele viajava muito e acumulou muitos conhecimentos em diversos países. Como todo médico, Hipócrates era membro da sociedade asclepíade, cujos membros eram considerados descendentes, em linhagem direta, do próprio Esculápio de Hércules98. Um dos mais famosos
textos atribuídos a Hipócrates é o Juramento de Hipócrates, proferido pelo estudante de medicina antes de iniciar seus estudos. Este juramento faz parte Coleção Hipocrática ou
95 Cf. CUMSTON, 1931, p. 50.
96 Cf. WALKER, Kenneth. Histoire de la médecine: des pratiques anciennes aux découvertes les plus modernes.
Dirigée Jean-Jacques Schellens et Jacqueline Mayer Trad. Annie Mesritz. Belgique: Bibliothèque Marabout université, 1962, p. 16-17.
97 Cf. RICHARDT, Aimé. Les médecins du Grand Siècle. Paris: François-Xavier de Guibert, 2005, p. 29. 98 Cf. RICHARDT, 2005, p.30.
Corpus hippocraticum, que é um compêndio médico reunido e editado a pedido de Ptolomeu, no começo do século III a.C., por um grupo de eruditos da Alexandria, no Egito:
Eu juro, por Apolo, o grande curador, por Esculápio, Higéia e Panacéia, e tomo por testemunhas todos os deuses e todas as deusas a fim de resguardar na medida em que estiver em meu poder fazê-lo, o juramento que segue: Eu juro considerar como meu pai e minha mãe aquele que me ensinou a arte da medicina, viver em comunidade com ele, e se necessário for, com ele partilhar todos os meus bens; eu juro ter seus filhos como se fossem meus próprios irmãos e minhas irmãs e ensinar- lhes minha arte, se eles o desejarem, sem pagamento nem promessas escritas; eu juro partilhar os preceitos e a ciência que meu mestre me ensinou, com os filhos de meu mestre e com os discípulos inscritos segundo as leis e que aceitam as regras de nossa profissão e eu juro não as ensinar a outros. Minhas prescrições deverão ser conduzidas por meu saber e meu julgamento, sempre para o bem dos meus doentes e jamais para causar dano a alguém; não prescreverei jamais uma droga, nem darei conselhos que possam acarretar em morte para satisfazer a quem quer que seja: eu jamais fornecerei a mulher alguma uma substância abortiva; mas eu preservarei preciosamente a pureza de minha vida e de minha arte; não praticarei, eu mesmo, as incisões da pedra, mas se esta doença se manifestar em um dos meus doentes, deixarei aos práticos a responsabilidade de operá-lo. Só entrarei nos lares para o bem de meus doentes. Eu me protegerei de todo desejo de fazer o mal, de todo projeto de sedução e especialmente de todos os desejos de prazeres do amor com as mulheres ou com os homens, sejam eles escravos ou livres. Tudo que chegar a meu conhecimento pelo exercício de minha profissão no contato diário com os pacientes, e que não deva ser conhecido, juro guardar em segredo e não revelar jamais. Se eu resguardar este juramento com fidelidade, possa eu gozar de uma vida feliz e em todos os tempos praticar a minha arte, respeitado por todos. Mas se eu o violar ou infringir, que o contrário seja minha cota99
.
A medicina, no tempo de Hipócrates, era uma confraria fechada composta pelos médicos e seus familiares, mas todos aqueles que se submetessem ao juramento hipocrático eram aceitos, porém pagando alguns direitos. A cooperação mútua estava presente e seus
99 CUMSTON, 1931, p.103-104.
« Je jure par Apollon, le grand guérisseur, par Aesculapius, par Hygeia et Panacea, et je prends à témoins tous les dieux et toutes le déesses, de garder autant qu’il sera en mon pouvoir de le faire le serment qui suit : Je jure de considérer comme mon père et ma mère celui qui m’a enseigné l’art de la médecine, de vivre en communauté avec lui, et, si c’est nécessaire, de partager tous mes biens avec lui ; je jure de regarder toujours ses enfants comme mes frères et mes soeurs et de leur enseigner mon art, s’ils le désirent, sans paiement ni sans promesses écrites ; je jure de partager les préceptes et la science que mon maître m’a enseignés avec tous les disciples enrôlés sous sa loi et qui acceptent les règles de notre profession, et je jure de ne pas les enseigner à d’autres. Mes prescriptions devront être dictées par mon savoir et mon jugement, toujours pour le bien de mes malades, jamais pour nuire à quinconque ; je ne prescrirai jamais une drogue ni ne donnerai un conseil qui puissent entraîner la mort, pour plaire à qui que ce soit : jamais je ne procurerai à aucune femme un pessaire pour la faire avorter mas je conserverai précieusemente la pureté de ma vie et de mon art, je ne pratiquerai pas moi-même de la taille de la pierre ; mais si cette maladie se manifeste chez un de mes malades, je laisserai aux praticiens le soin de l’opérer. Je ne pénétrerai dans les demeures que pour le bien de mes malades. Je me garderai de tout désir de mal faire, de tout projet de séductions, et spécialment de toute envie des plaisirs de l’amour avec les femmes ou avec les hommes, qu’il soient esclaves ou libres. Tout ce qui parviendra à ma connaissance par l’exercice de ma profession dans mon commerce journalier avec les hommes, et qui ne doit être su, je jure de le garder en secret et de ne le révéler jamais. Si je garde le serment avec fidlité, puissé-je jouir d’une vie heureuse, et dans tous les temps pratiquer mon art respecté de tous. Mais si je le viole ou m’en écarte, que le contraire soit mon lot. »
principais objetivos estariam vinculados ao ensinamento da arte de curar. Apesar da religiosidade presente nas invocações a Apolo, para que estes pudessem exercer a profissão com sucesso, e da associação com a descendência direta de Esculápio por parte dos médicos, havia uma independência entre a cura através de sacrifícios e encantamentos por parte dos sacerdotes e a arte de curar hipocrática, que era baseada na experiência clínica100
.
Nos escritos, estão registradas as teorias que nortearam a concepção fisiológica dos gregos antigos, na qual o organismo, tal qual o universo, era regido pelos elementos fogo, água, terra e ar. Cada elemento tem uma característica que promove o equilíbrio do organismo: quente, frio, seco e úmido. A partir dessa conjectura, foi proposta a Teoria dos Humores, cujos elementos estão associadas a humores orgânicos: o sangue, considerado um humor quente; fleugma ou pituíta, considerada humor frio; a bile amarela, considerada humor seco; e a bile negra, considerada humor úmido101
.
Os temas abordados no Corpus Hippocraticum são bem variados, pois diferentemente dos médicos egípcios, que eram especialistas, na Grécia antiga os médicos eram generalistas102
.
A maior parte dos remédios prescritos pelos médicos gregos tinha por objetivo provocar vômito e evacuações. Os vômitos eram utilizados no inverno, pois se acreditava que esse período era favorável à produção da fleugma, cujos males se alojariam mais frequentemente acima do diafragma (tórax, pescoço e cabeça). Durante o verão, o organismo é mais quente devido à produção de bile e as doenças seriam mais propensas na região do abdômen para baixo, com picos de febre e cólicas no ventre, por essa razão se indicava o uso de clisteres, chás purgativos para provocar evacuações103
. Hipócrates utilizava também
100 Cf. CUMSTON, 1931, p. 107. 101 Cf. RICHARDT, 2005, p.32-33. 102 Cf. RICHARDT, 2005, p. 32-33. 103 Cf. RICHARDT, 2005, p 35.
cataplasmas e sangrias, mas com critério. Ele valorizava uma dieta alimentar equilibrada e incentivava a higiene pessoal, sobretudo os banhos medicinais104
.
As teorias hipocráticas avançaram na história através de Galeno, que viveu entre os anos 130 e 200 da era cristã. Divergindo da recomendação contida no juramento hipocrático, segundo a qual o médico deveria deixar questões pertinentes à cirurgia com os especialistas, Galeno exercia funções relativas à medicina ambulatorial, cirúrgica e farmacêutica105
.
Galeno, baseado nos dogmas hipocráticos e nos estudos de Aristóteles acerca das ciências naturais, começou a propor uma série de hipóteses sobre os sistemas do organismo humano, apoiando-se mais em deduções e menos em observações e experiências casuísticas, e nestas hipóteses se apoiaram os médicos ocidentais, na idade média.
E também, baseado na teoria de Hipócrates, Galeno propôs a composição do corpo como a junção de uma parte sólida, uma líquida e uma imaterial. A parte sólida foi subdividida em mais duas, uma similar e outra orgânica. Como o nome mesmo refere, as partículas similares se assemelham entre si como, por exemplo, ossos/ligamentos, veias/nervos. As partículas orgânicas seriam o conjunto de partículas similares como mãos/estômago/olhos106
.
Os humores, que são a parte líquida, também foram subclassificados. O sangue, além de quente é úmido, a bile amarela quente e seca, a fleugma fria e úmida e a bile negra fria e seca; e as doenças são instaladas no organismo devido a possíveis desarmonias nesses humores, no que concerne a quantidade e a qualidade. Ao comportamento dos humores e suas qualidades, Galeno chama de temperamento. Ele distingue quatro tipos principais (sanguíneo, fleugmático, bilioso e melancólico). Os chama de primários, pois podem ser quente, frio, seco
104 Cf. WALKER, 1962, p. 37-38. 105 Cf. CUMSTON, 1931, p. 184-185. 106 Cf. CUMSTON, 1931, p. 189.
ou úmido, e assevera que resultantes de combinações dessas características podem passar a ser compostos (quente/seco, quente/úmido, frio/seco, frio/úmido).
Galeno também identifica um tipo de temperamento que foge do padrão normal, ao qual ele denomina idiossincrásico, o que não significa doença, mas sim uma predisposição a ela . O espírito, parte imaterial, é subdividido em natural, vital e animal. O espírito natural corresponde a um discreto vapor que se eleva do sangue, cujo órgão de origem é o fígado. O sangue segue da sua origem para o coração, onde, aquecido pelo ar, dá origem ao espírito vital. Este se dirige ao cérebro e se transforma em espírito animal.
A fisiologia sanguínea de Galeno é, então, composta de dois centros, o de origem (fígado) e o de destino (coração). O trânsito sanguíneo é composto de veias que contêm o sangue, o qual leva os nutrientes de que o corpo necessita, e as artérias, onde não há presença de sangue e sim de calor vital. O sangue venoso provém de alimentos que, através da digestão, vai ao fígado que o desdobra para a produção sanguínea. Os resíduos não utilizados na produção sanguínea são eliminados pelas fezes e urina. O sangue segue seu trajeto para o coração, onde parte dele atravessa a veia cava no lado direito do coração, entra na veia arterial que o leva ao pulmão onde é consumido. Outra parte atravessa os poros da porção esquerda do coração, onde o ar inalado é conduzido pela veia pulmonar e armazenado. O ar se mistura ao sangue deixando-o mais escuro e denso. A veia pulmonar também é responsável por conduzir os resíduos provenientes dessa fusão ar/sangue que o deixa “limpo”. A válvula mitral não permite a completa obstrução do ventrículo esquerdo, que permite o duplo trajetodo sangue. Por intermédio da aorta, o sangue claro e quente, chamado de arterial, é distribuído para o cérebro. O sangue venoso e o arterial seguem paralelamente na mesma