1. Method and Theory
1.3. Some additional theoretical reflections
Com o objetivo de pensar sobre a figura do intelectual no momento pós-ditatorial no Uruguai, figura que representa um grupo no qual se insere Baccino, convém que façamos um breve apanhado sobre algumas questões referentes ao grupo constituído por aqueles que são denominados de intelectuais.
De acordo com as críticas de Jean-François Sirinelli a respeito do “campo intelectual” proposto por Pierre Bourdieu55, o qual segundo tais críticas, priorizaria a determinação e a
55
Para “campo” e mais especificamente “campo intelectual” em Pierre Bourdieu, ver BOURDIEU, Pierre.
Coisas ditas. São Paulo: Brasiliense, 1990. De acordo com Adriane Vidal Costa, em sua tese de doutorado
“Intelectuais, política e literatura na América Latina”, a noção de "campo", seja ele intelectual, religioso, literário, político, filosófico, artístico, etc., pressupõe um espaço social dotado de dominação, conflitos, estratégias, relações de força, poder e capital simbólico. O campo tem uma autonomia relativa em relação à economia, à política e à religião, que quase sempre corresponde à sua situação histórica. Cada campo possui suas próprias regras de organização e de hierarquia social, onde os agentes sociais ocupam posições bem determinadas que correspondem à sua situação social e ao seu capital social. No interior de um campo intelectual (de uma sociedade intelectual) as relações de poder têm uma existência dual, pois ao mesmo tempo em que se supõem relações de força, constituem um fenômeno que implica a construção de legitimidade. Por isso, relações de poder são realizadas através de um processo que se realiza concreta e simbolicamente. O conceito de "campo" deve ser operacionalizado juntamente com o conceito de "habitus", compreendido como um sistema de disposições socialmente adquiridas e constituídas de um grupo de agentes. A grosso modo, "habitus" é concebido como um sistema socialmente constituído de disposições estruturadas (no social) e estruturantes (nas mentes), adquirido nas e pelas experiências práticas (em condições sociais específicas de existência), constantemente orientado para funções e ações do agir cotidiano.
estratégia, e acabando por não deixar espaço para a contingência, o inesperado e o fortuito. Nas próprias palavras de Sirinelli, temos
[d]uas objeções, pelo menos, [que] se impõem. De um lado, e trata-se de um problema de fundo que ultrapassa os intelectuais apenas, não se poderia, entre as chaves legitimamente diversas utilizadas pelos pesquisadores, deixar espaço para a contingência, para o inesperado, o fortuito? De outro, as engrenagens complexas do meio intelectual são redutíveis a um simples mecanismo, cuja mola seria a “estratégia”? Todo grupo de intelectuais organiza-se também em torno de uma sensibilidade ideológica ou cultural comum e de afinidades mais difusas igualmente determinantes, que fundam uma vontade e um gosto de conviver. São estruturas de sociabilidade difíceis de apreender, mas que o historiador não pode ignorar ou subestimar. (SIRINELLI, 1996, p. 248)
Para pensar uma história intelectual, deve-se privilegiar “as características de um momento histórico e conjuntural que impõem visões de mundo, esquemas de percepção e apreciação”, isto é, “modalidades específicas de pensar e agir por parte dos intelectuais” (SILVA, 2002, p. 12). Neste caso, trabalharemos com o momento pós-ditatorial no Uruguai, o que pressupõe uma não-assimilação do vivenciado durante a ditadura neste país, e também que o efeito que isto segue provocando em sua sociedade é duradouro e age diretamente sobre as representações culturais contemporâneas a partir deste período. Assim, há uma necessidade de privilegiar a leitura de um texto em relação a seu contexto, articulando a obra com a formação social e cultural de seu autor e com a conjuntura histórica em que ela foi produzida. Para além de uma abordagem que prima pela relação entre a análise dos acontecimentos históricos, políticos e sociais e a análise interna da obra, considera-se ao mesmo tempo, a “dimensão diacrônica (histórica) e sincrônica (‘os aspectos diferentes de um mesmo conjunto em um mesmo momento de evolução’)”. Dessa forma, é preciso reconhecer que a articulação do texto com seu contexto gera tensões que podem ser identificadas quando a isto se somam os paradigmas intelectuais que interferem direta ou indiretamente nas representações que condicionam os sistemas de percepção (SILVA, 2003, 19).
Assim, quando se analisa um texto buscando perceber o rol do intelectual que o escreve, aí haverá articulações gerais com as problemáticas do momento vivido, e também
uma tendência ao deslocamento das questões parciais para as perspectivas globais, instalando- se na esfera pública e ali construindo a sua interlocução, que não se dá apenas no âmbito de seus pares, mas sim, nas palavras de Beatriz Sarlo, é interessante que se pense no
interlocutor imaginário dos discursos intelectuais: o povo, o proletário, o país, o partido, conforme as linhas de fratura política e programática. Esse interlocutor tensionava o discurso para que ocupasse um lugar público e desempenhasse uma função ativa justamente nesse espaço. (SARLO, 2005, p. 146)
No caso de Baccino, seu “interlocutor imaginário” também possui uma representação alegórica muito forte em Maluco: Carlos V é o destinatário com quem o narrador conversa, e a quem se dirige diretamente, prevendo inclusive suas reações ao longo da leitura de seu texto. A escolha da modalidade textual epístola facilita a presença deste “interlocutor imaginário” no âmbito do próprio romance. No entanto, para além das fronteiras do estritamente escrito, e pensando-se no contexto da escrita do romance, pode-se dizer que este monarca representa não apenas toda uma esfera do poder oficial no âmbito do real, mas que esta carta também dirige-se à sociedade que busca, como seu narrador, entender seu novo papel após as mudanças ocorridas devido à experiência traumática da ditadura.
Segundo Adriane Vidal Costa, os intelectuais constituem um grupo social no qual elaboram-se interpretações sobre a realidade sempre que se julgue conveniente e necessário. Ao compartilharem experiências coletivas, como por exemplo as experiências e uma vida sob ditadura, os intelectuais sofrem os efeitos diretos ou indiretos dos acontecimentos contemporâneos, podem adquirir uma versão semelhante de mundo e uma vivência com denominadores comuns. Isto no entanto, não implica em uma unidade de ideias e de comportamentos, pois os diferentes indivíduos podem viver e responder aos acontecimentos de diversas formas, dependendo dos interesses e da ideologia de cada um dos grupos.
Jean-François Sirinelli destaca o caráter múltiplo do termo intelectual e propõe duas definições: a primeira, sociológica e cultural, que engloba os criadores e mediadores culturais,
como jornalistas, escritores, professores; a segunda, uma definição política com base no engajamento, direto ou indireto, na vida pública, como ator, testemunha ou consciência (SIRINELLI, 1996, pp. 242-243). O intelectual é aquele que intervém com seu discurso e sua ação no espaço público, assumindo a defesa dos valores universais (como a justiça, verdade, liberdade) e ao mesmo tempo, uma transgressão à ordem vigente (CHAUI, 2006, p. 61). Segundo Norberto Bobbio (1997) e Edward Said (1996), também espera-se quase sempre que o intelectual, que pode ser um escritor, historiador, filósofo, cineasta, artista ou político, seja ouvido e que na prática, deva gerar um debate, desde que ele represente e articule uma mensagem, um ponto de vista, uma atitude, filosofia ou opinião para (e também por) um público.
Pensemos então, no intelectual da forma que sugere Edward Said, como
una figura representativa que importa: alguien que representa visiblemente un determinado punto de vista, y alguien que ofrece representaciones articuladas a su público superando todo tipo de barreras. Lo que yo defiendo es que los intelectuales son individuos con vocación para el arte de representar, ya sea hablando, escribiendo, enseñando o apareciendo en televisión. Esa vocación es importante en la medida en que resulta reconocible públicamente e implica a la vez entrega y riesgo, audacia y vulnerabilidad. (SAID, 1996, p. 31)
Ainda segundo Said, cada região do mundo produz seus intelectuais, o que confirma de certa forma o que já havia sido dito: o intelectual está inserido em uma realidade sócio- cultural específica e está relacionado ao seu contexto histórico, ou seja,
hablar hoy de los intelectuales significa hablar especificamente de las variaciones nacionales, religiosas e incluso continentales del tema, porque cada una de dichas variaciones parece requerir una consideración independiente.(SAID, 1996, p. 41)
Assim, as representações do intelectual ou o que ele representa, e a maneira como estas ideias são apresentadas ao público estão intrinsecamente ligadas à realidade sócio-cultural a que este intelectual pertence.
Então, voltando um pouco na linha do tempo, assinalemos alguns pontos relevantes para esta pesquisa sobre a geração intelectual latino-americana de esquerda, que se formou na
década de 60, sendo em boa medida ligada à Revolução Cubana. Foi neste contexto que se fortaleceu na América Latina a percepção de que intelectual engajado era sinônimo de intelectual de esquerda.56 “No seu sentido próprio, engajar-se significa tomar uma direção”. De modo figurado, é “praticar uma ação, voluntária e efetiva, que manifesta e materializa a escolha efetuada conscientemente” (DENIS apud COSTA, 2009, p. 30). Então, o engajamento pode estar vinculado a distintos princípios políticos. Por exemplo: Vargas Llosa rompeu com a Revolução Cubana e com os ideias socialistas abraçando concepções políticas liberais, mas não deixou de ser um intelectual engajado por isso.
Uma vez que acreditamos que o intelectual latino-americano no momento pós- ditatorial está alegoricamente representado em Maluco, convém que se entenda o rol que este grupo tinha antes da ditadura. Diante de tão extensa literatura a este respeito, escolhemos (por razões metodológicas) voltar o olhar para a instituição Casa de las Américas, uma vez que o romance foi vencedor deste prêmio.57
A instituição Casa de las Américas foi estruturada em 1959. Sua diretora até 1980 foi Haydée Santamaría, que deu à instituição grande peso político devido a seu acesso ao centro do poder guerrilheiro.58 Sua presença garantiu a intervenção da esfera política na cultura, reforçando a imagem da instituição como “filha” da revolução. A Casa de las Américas congregava a seu redor uma ampla estrutura com biblioteca, prêmio literário anual, editora, revista, departamentos dedicados à pesquisa literária, e promovia a música, o teatro e as artes plásticas.
56O compromisso politico dos intelectuais na América Latina situa-se em períodos anteriores à Revolução
Cubana, como, por exemplo, na década de 1920 em relação a temas como revolução, socialismo, comunismo, e antiimperialismo. Ver: FUNES, Patricia. Salvar la nación: intelectuales, cultura y política en los años veite latino-americanos. Buenos Aires: Prometeo Libros, 2006.
57
Sobre Casa de las Américas ver: MOREJÓN ARNAIZ, Idalia. Política e polémica na América Latina: Casa de las Américas e Mundo Nuevo. 326 f. Tese. Programa de Integração da América Latina, USP, São Paulo, 2004.
58Haydée Santamaría dirigiu a Casa de las Américas até seu suicídio em 1980. Ela participou do assalto ao
quartel Moncada em 1953, em Santiago de Cuba e foi considerado na época a segunda maior fortaleza do exército cubano em número de homens e arsenal bélico e foi alvo do assalto em 26 de julho de 1953 por um grupo de revolucionários liderados por Fidel Castro. O assalto foi um fracasso, sendo que alguns guerrilheiros foram torturados até a morte, inclusive o irmão de Haydée Santamaría.
Agrupar os intelectuais latino-americanos em torno da Revista Casa de las Américas obedecia a uma política de Estado de Cuba, usando mecanismos diversos para articular esta rede intelectual. Os escritores estrangeiros eram convidados para ir à Havana participar de conferências, diálogos em mesas-redondas com escritores cubanos e jurados do prêmio. Dessa forma foram a Cuba Miguel Ángel Asturias, Ezequiel Martínez Estrada, Carlos Fuentes, Pablo Neruda, Julio Cortázar, Ángel Rama, Mario Vargas Llosa, os quais eram recebidos por grandes escritores cubanos como Alejo Carpentier, Roberto Fernández Retamar, José Lezama Lima e Guillermo Cabrera Infante (antes do exílio em 1965). Outro mecanismo foi promover encontros de escritores articulados em torno de congressos, simpósios e assembleias. Alguns escritores passaram a viver em Cuba, como Mario Benedetti. No início dos anos 60, Havana foi a sede de uma intensa sociabilidade intelectual.
Outro forte componente para a formação de uma rede intelectual latino-americana de esquerda foram as revistas culturais. Em julho de 1960 foi publicado o primeiro número da revista Casa de las Américas, de forte cunho político, de acordo com a sua auto-definição no sentido de ser uma instituição cultural organizada para servir a todos os povos do continente em sua luta pela liberdade. Roberto Fernández Retamar assumiu a direção da revista de 1965 a 1989, e retomou-a em 1991. Entre seus grandes colaboradores estão José Lezama Lima, Juan Gelman, Carlos Drummond de Andrade, Ernesto Cardenal, Ítalo Calvino e José María Arguedas. No Conselho de Redação, que se reunia periodicamente para a discussão de temas atuais, participaram Mario Benedetti, Mario Vargas Llosa, Julio Cortázar, Ángel Rama, entre outros.
Participar do concurso literário promovido pela Casa de las Américas era mais uma razão político-cultural para viajar a Cuba, consolidando a formação desta rede. Ser jurado ou agraciado no concurso fortalecia o vínculo desta comunidade.
Muitos intelectuais já renomados faziam questão de ter seus nomes vinculados à revista da Casa, como forma de expressar sua posição política. Por exemplo, entre outros, assinaram o manifesto contra a invasão na Baía dos Porcos em maio de 1961: Jorge Icaza, Ernesto Sábato, Juan Carlos Onetti, Arturo Ardao e Ángel Rama.
A Casa de las Américas viabilizou um amplo debate sobre o papel do intelectual latino-americano. Entre 1965 e 1968 a discussão focou-se em “intelectual como consciência crítica da sociedade” e “intelectual como organizador da sociedade” (LIE apud COSTA, 2009, p. 56) e no caso da América Latina, pode-se dizer que estes foram os eixos que guiaram o pensamento intelectual pelo menos até a última década do século XX, quando a economia de mercado consolidou-se de forma a transformar novamente o papel do intelectual na sociedade.
Voltando à realidade do Uruguai ditatorial e pensando-se em seus intelectuais neste período, houve principalmente duas situações: os que foram para o exílio (ou insílio) e os que foram presos. Segundo Alfredo Alzugarat em Trincheras de Papel (2007), tanto o exílio quanto o insílio foram extremamente produtivos em termos literários. As prisões da ditadura foram sistemas pensados para a destruição do indivíduo, porém, a resistência cultural existiu. Sobre a literatura “surgida en la cárcel y como resultado de la cárcel, en el interior de ella y después de ella”, Alzugarat afirma que
[s]i las cárceles de la dictadura fueron uno de los mayores emblemas de la peor época de este país, también es posible afirmar que en ellas la dignidad humana libró una dura batalla que, entre sus múltiples consecuencias, dejó obras artísticas y literarias de inapreciable valor. (ALZUGARAT, 2007, p. 5)
E segue dizendo que
la escritura de la cárcel fue un universo de valiosos matices que […] [g]eneró escritores que jamás pensaron serlo. Maduró a otros en ciernes, donde solo había una aparición a largo plazo lejos de ser practicada. Modificó sustantivamente a quienes ya habían iniciado su vida literaria, madurando y enriqueciendo su expresión. En total más de setenta escritores: cuarenta y cuatro obras editadas elaboradas con escritos realizados en el interior de la cárcel y más de un centenar realizadas a
posteriori por autores que conocieron e integraron a sus trayectorias esa intransferible realidad. [...]Tengo la convicción de que esa resistencia cultural librada en las prisiones de la dictadura permitió a estos autores definirse o redefinirse como miembros de una generación de capacidad transformadora, mutante, con los anticuerpos necesarios para sobrevivir y avanzar. (ALZUGARAT, 2007, p. 5-7)
Destacam-se em Trincheras de Papel muitos autores que produziram dentro das cadeias no período ditatorial, ou já na pós-ditadura, mas como um efeito de continuidade do que foi vivenciado dentro da prisão. Entre participantes diretos do MLN-T podemos citar Mauricio Rosencof, Eleuterio Fernández Huidobro e Samuel Blixen. Entre outros, estão Carlos Liscano, Hiber Conteris, Carlos María Gutiérrez, Raúl Orestes Gaeda, Lucía Fabbri, Ángel Turudí Cawen, Iris Sclavo, Ariel Poloni, Ademar Alves, Nelson Marra, Gladys Castelvechi.
Em relação ao exílio, Edward Said acredita que o exilado
existe, pues, en un estado intermedio, ni completamente integrado en el nuevo ambiente, ni plenamente desembarazado del antiguo, acosado con complicaciones a medias y con desprendimientos a medias, nostálgico y sentimental en cierto plano, mímico efectivo y paria secreto en otro. Aprender a sobrevivir se convierte en el principal imperativo, con el peligro de que instalarse en el confort y la seguridad excesivos constituye una amenaza frente a la cual hay que mantenerse en constante guardia. (SAID, 1996, p. 60)
Nesta situação encontraram-se grandes intelectuais uruguaios. Ángel Rama, por exemplo, deixou o Uruguai em 1974 e até sua morte em 1983 não voltou a viver em seu país. Eduardo Galeano foi preso em 1973 e obrigado a sair do Uruguai, para onde só voltou em 1985. Emir Rodríguez Monegal passa a trabalhar permanentemente para a Universidade de Yale nos Estados Unidos em 1969, e com a prisão de sua filha em 1972, envolvida com o MLN-T, não pode voltar ao Uruguai até o fim da ditadura em 1985, onde de toda forma jamais voltou a viver. Alzugarat também destaca como desterrados Sergio Altesor, Graciela Taddey, Ana Luisa Valdés, Leo Harari, Aníbal Sampayo, Juan Baladán e José Alanís.
Baccino não foi exilado para o exterior, mas optou por um auto-insílio em Punta del Diablo, uma colônia de pescadores dentro do próprio país, onde viveu os últimos anos da
ditadura junto de sua mulher e seus três filhos pequenos. Foi nestas circunstâncias que Baccino escreveu Maluco, como vimos anteriormente.
Neste contexto, o fato de Baccino ter escrito Maluco em seu insílio durante os últimos anos da ditadura no Uruguai e tê-lo submetido ao concurso Casa de las Américas em Cuba é de relevância significativa no que diz respeito à alegoria central que aqui se discute. De acordo com o panorama traçado, acredita-se que o autor tinha o desejo de inserir-se neste círculo intelectual de esquerda consolidado a partir da década de 60, buscando afirmar seu papel como intelectual não apenas em seu próprio país, mas de forma mais ampla, na sociedade latino-americana. Maluco é publicado pela Seix-Barral (Barcelona) por conta da vitória no Casa de las Américas, deslocando o professor universitário para dentro da rede intelectual latino-americana, como alguém que está pensando criticamente a sociedade contemporânea. É desta forma que lemos e interpretamos Maluco: como uma obra que representa alegoricamente a tomada de consciência crítica a respeito do lugar que ocupa o intelectual na sociedade latino-americana no momento em que a ditadura está recém terminada, porém deve assimilar seus afeitos para seguir adiante.
Retomando a análise do “novo romance latino-americano”, direcionemos nosso estudo para a literatura do continente nas últimas décadas do século XX. Para Eduardo Galeano (1986) neste período apareceu uma literatura que se estende como uma "nueva conciencia de la realidad" e cujos principais expoentes são os escritores jovens de uma classe média participativa tanto do âmbito cultural quanto do político. Ainda que grande parte da crítica continue insistindo na chamada “revolução da linguagem”, para Galeano, são os críticos que privilegiam estes aspectos da narrativa contemporânea latino-americana, pois os verdadeiros protagonistas desta nova narrativa "no son los pronombres y los adjetivos, sino hombres y mujeres de carne y hueso". Ele também chama a atenção para que a literatura atual da América Latina é necessariamente política e social pelas simples razões de que tudo o que é
humano é social e que toda letra impressa implica uma certa participação na vida política do mundo, ou seja, a identificação política e ideológica estará presente e manifestada dentro da maioria destas expressões. Seria impossível falar da literatura latino-americana atual sem lembrar do contexto histórico, social e político da América do Sul nos últimos anos do século XX: por terem sofrido todo o tipo de vexames, os narradores rio-platenses projetam um cenário permeado pelas agitações revolucionárias, represálias, torturas, exílios e crises econômicas(GALEANO, 1986, pp. 42-43, passim).
Quien haya creído que la literatura argentina había llegado a su apogeo y término finalcon Borges y Cortázar, la uruguaya con Onetti y la paraguaya con Roa Bastos,