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The Second “Log Revolution”

3. Veterans against the Government

3.3. The Second “Log Revolution”

Molière elegeu a comédia como gênero teatral de suas principais peças, pois ela se utiliza da razão e das questões sociais em seu desenho genérico161. Bergson (1983, p 8-9) declara que “O riso castiga os costumes. Obriga-nos a cuidar imediatamente de parecer o que

158 Cf. LA GRANGE. Registre de La Grange (1658-1685). Archives de la Comédie Française. Édouard Thierry

(Org.). Paris : Les soins de la Comédie Française, 1876, p.3. Disponível em: http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k1462449.r=Registre+de+La+Grange.langPT. Acessado em: 13/02/2012.

159 Cf. REY, 2010, p.103. 160 Cf. REY, 2010, p.194.

161 Cf. BERGSON, Henri. O riso: ensaio sobre a significação do cômico. 2ª Ed. Trad. Nathanael C. Caixeiro.

deveríamos ser, o que um dia acabaremos por ser verdadeiramente”. Esta definição coloca a comédia a favor do posicionamento crítico e social de Molière.

Dentre os elementos da comicidade que permeiam a obra molieresca, a farsa e a sátira são facilmente identificadas. A farsa provoca o riso pela relação apelativa entre gestos, movimentos e hábitos de quem se quer disfarçar162. Essa valorização exacerbada da forma relacionada a uma determinada profissão médica é fórmula recorrente em várias peças de Molière, como é o caso de Le médecin malgré lui (1665). Incorporados à farsa, nas comédias, estão inseridos os bufões. Este tipo de personagem faz uso da palavra enfática aliado ao recurso da repetição, o que gera o riso163. A sátira através da ironia é outro recurso cômico característico das comédias de Molière. Na ironia se ratifica o que foi proferido, mas apenas aparentando concordar. Há uma sutileza no tom da enunciação que permite ao leitor ou espectador identificar que essa aquiescência é apenas um disfarce diferente do que realmente o enunciador pensa ou acredita164.

O século XVII é tomado pelo ideal racionalista. O avanço das ciências tanto no meio tecnológico quanto ideológico impulsionou outros campos dos saberes e das artes, sobretudo o literário, a propósito da utilização de um formato específico cuja eficácia é tida através de um conhecimento científico.

Teóricos da dramaturgia francesa como La Mesnardière, Chapelain, Scudéry e D’Aubignac, reverenciadores de Aristóteles, compunham um grupo de pensadores que se dedicavam a atentar se as regras do teatro antigo estavam sendo observadas nas obras dos dramaturgos clássicos da França. Ainda no reinado de Luís XIII, em 1635 a Academia Francesa foi fundada com o apoio do Primeiro Ministro, o Cardeal Richelieu, esse grupo de acadêmicos recebeu a incumbência de esquematizar as regras teatrais e garantir o

162 Cf. BERGSON, 1983, p.29. 163 Cf. BERGSON, 1983, p.37. 164 Cf. BERGSON, 1983, p.61.

cumprimento da estética francesa, isto é de regulamentar a gramática, a ortografia e a literatura francesas165.

A Arte Poética (334-330 AC) de Aristóteles estava para o campo literário como o

Discurso do método científico (1637) de René Descartes estava para o campo das ciências naturais, surgindo assim, na França o elitismo intelectual da “casta dos eruditos”. A opinião do grande público ficava à margem desse circuito classificativo de probidades, visto que aquele não obtinha a iluminação advinda do conhecimento das regras, sendo assim não poderia emitir um julgamento legitimado pela doxa (regras)166. A “casta de eruditos”, chamados então de doutos, detinha o capital cultural, social e simbólico, nenhuma companhia teatral recebia incentivo régio se não obtivesse o seu aval167.

Além da proteção de príncipes e do rei Luís XIV, Molière tinha vários admiradores e aliados. Dentre eles se destaca Nicolas Despréaux Boileau, crítico, poeta e satírico, douto da Academia Francesa. Boileau era membro de uma família tradicional de advogados e escrivães do Parlamento Francês. Dois de seus irmãos eram muito conhecidos por sua veia crítica e satírica, Gilles Boileau era advogado e foi membro da Academia Francesa e Jacques Boileau era abade e foi decano da Faculdade de Teologia. Os dois irmãos mais velhos abriram caminho para que a Nicolas Boileau fosse conferido o estatuto de crítico por excelência. Em 1683, Boileau recebeu o convite para ser membro da Academia Francesa de Letras e assim fazer jus à reputação de sua família. Esse status de imortal atribuído a Boileau o colocou no mesmo patamar histórico que Aristóteles (384 a.C. -322 a.C.) e Horácio (65 a.C. -8 a.C.) 168.

165 Cf. ROUBINE, 2003, p. 25-26. 166 Cf. ROUBINE, 2003,p. 28. 167 Cf. ROUBINE, 2003, p. 29-30

168 Cf. BOILEAU, Nicolas. Oeuvres de Boileau: précédés d'une notice sur la vie et les ouvrages de Boileau.

Paris: Frères Garnier, 1860. p.VI-VII.

Disponível em: http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k5508611j.r=Oeuvres+de+Boileau+Garnier.langPT. Acessado em: 29/01/2012.

Boileau, além de amigo, era um aliado de Molière, visitava sua residência assiduamente, lia sua obras e dava conselhos ao dramaturgo169. Na peça L’amour médecin foi Boileau quem escolheu os nomes gregos das personagens dos médicos a pedido do próprio Molière170 Essa aliança é percebida em vários momentos por toda a obra de Boileau que o cita diversas vezes. Em 1662, Boileau publicou uma crítica versificada, que era sua marca registrada, na qual defendia Molière das censuras recebidas a sua peça École des femmes (1662). Boileau atribuía a censura lançada a peça de Molière produto de espíritos invejosos e que a peça era uma das mais belas do comediógrafo francês caracterizada por uma charmosa ingenuidade 171.

Boileau aconselha Molière a não dar ouvidos aos invejosos, pois sua peça era agradável, fazia rir e mesmo nas palavras onde a erudição não estaria bem observada havia uma sábia critica. Boileau recomenda que Molière tenha paciência com seus inimigos do mesmo modo que o Império Romano teve ao sitiar por 20 anos Numância, ao norte da Espanha, em 153 a.C., para, por fim, conquistar a cidade e fazer valer a sua arte.

Em 1664, Boileau publicou Satire II e a dedicou a Molière. Nesse poema, Boileau exalta o dramaturgo atribuindo a este um raro espírito de veia poética e fértil. Boileau confere a Molière o estatuto de mestre da versificação pedindo que lhe ensine a arte de rimar, pois Boileau cultuava a forma destacando o trabalho penoso que é o de rimar172.

Dez anos após Satire II, Boileau publicou L’art poetique (1674)173 composta de quatro cantos, nos quais o terceiro e o quarto cantos são dedicados à comédia. No terceiro canto,

169 LARROUMET, Gustave. La comédie de Molière: l’auteur et le milieu. Paris: Hachette, 1887. Disponível em:

http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k5789551q.r=La+com%C3%A9die+de+Moli%C3% A8re.langPT. Acessado em: 12/11/2011.

170 MONVAL, Georges. Notice sur L’amour médecin. In: MOLIÈRE. L’amour médecin: comedie em trois actes.

Paris: Librarie E. Flammarion, 1892, p. IV.

Disponível em: http://gallica.bnf.fr/ark:/12148/bpt6k61402964.r=Georges+Monval++Moli%C3%A8re.langPT. Acessado em: 19/ 11/2011.

171 Cf. BOILEAU, 1860, p. 267-268. 172BOILEAU, 1860, p. 30.

Boileau faz uma menção direta a Molière quando pede que os dramaturgos sigam seu exemplo. Ao compor as obras, os dramaturgos deveriam observar sempre os fatos da natureza, ou seja, os fatos da realidade urbana e da corte e que fugissem do burlesco, visto que a comédia não admitia suspiros e lágrimas, muito menos palavras sujas e de baixo encanto popular. Por esse exato motivo Boileau diz não reconhecer o mesmo Molière que escreveu Le

Misanthrope (1666), uma obra considerada por Boileau como da mais alta comédia francesa, em comparação ao Molière que escreveu na peça Les fourberies de Scapin (1671), considerada burlesca pelo crítico.

Um fiel aliado de Molière foi Charles Varlet de La Grange. Ele entrou para a companhia de Molière em 1659 e a partir desse momento começou a registrar a vida artística da trupe, incluindo locais, renda, datas e diversas outras anotações de seu interesse deixando gravadas na história essas informações174. O ator representava papéis de jovens e logo se destacou na companhia. La Grange sempre esteve ao lado de Molière quando o hábito entre os artistas era transitar de companhia em companhia. Após a morte de Molière foi La Grange quem deu continuidade a sua obra tanto como diretor da então nomeada La Comédie

Française e como ator nas peças de Molière175.

Dentre os parceiros de Molière estava Jean-Baptiste Lully (1633-1687), militar e amigo do rei Luís XIV, que se aliou a Molière na composição de obras primas da comédia francesa. Juntos, Molière e Lulli, em 1664, criaram Les comédies-ballet, um espetáculo com dança e interpretação especialmente formatado para agradar a Luís XIV176. A parceria entre os dois artistas continuou até a morte de Molière, quando Lully retirou suas composições das

174 Cf. LARROUMET, 1887, p.183-184. 175 Cf. LARROUMET, 1887, p.273. 176 Cf. LARROUMET, 1887, p.291.

peças de Molière que continuaram sendo representadas sob a direção de La Grange, para se dedicar às óperas177.