• No results found

Humanitarian Organisations of Personal Interest?

4. Internal Dynamics of the Organisations: Power, Money and Humanitarianism 77

4.2. Humanitarian Organisations of Personal Interest?

Machado de Assis, um dos mais ilustres romancistas e contistas do Brasil, foi durante toda sua vida pública crítico teatral. Atuou ativamente nessa área colocando sempre em evidencia suas opiniões acerca do que é e de como deveria ser o teatro, ao que ele se presta, e de que o gênero dramático é o que mais contribui para atingir esse objetivo. Além disso, Machado de Assis escreveu peças que foram e são representadas até hoje, traduzidas para

várias línguas, inclusive o esperanto222. Também foi membro do órgão censor da dramaturgia, o Conservatório Dramático Brasileiro entre 1862 e 1864223 e entre 1886 e 1887224.

A crítica teatral no Brasil começou de forma incipiente, vinte e dois anos após a chegada da família real na capital, Rio de Janeiro. Através de uma reivindicação de José Justiniano da Rocha, em 1830, no jornal O Cronista, a qual asseverava a necessidade de se comentar as produções teatrais brasileiras nos jornais locais, tomando como referência os dramaturgos franceses, com o objetivo de apontar os defeitos e qualidades das peças que seriam apresentadas nos palcos brasileiros225. Naquele momento da história teatral do Brasil, os dramas e melodramas românticos começaram a ser encenados, tendo João Caetano como o ator de maior destaque226.

As primeiras impressões sobre teatro vindas de Machado foram apresentadas em um texto intitulado: O Passado, o Presente e o Futuro da Literatura. Publicado, em abril de 1858, pelo jornal A Marmota, Machado nele registra sua inquietação acerca da função do teatro, seu desagrado pelos gêneros vigentes (o drama e o melodrama). Ele cultua os grandes mestres da dramaturgia francesa, destacando Molière, e expõe seus anseios quanto ao futuro dos palcos brasileiros.

222 Cf. MASSA, Jean Michel. Bibliographie descriptive, analytique et critique de Machado de Assis: 1957-

1958. Coleção Ensaios. Rio de Janeiro : Livraria São José, 1963, p. 104.

223 Machado de Assis foi convidado a ser membro e censor do Conservatório Dramático Brasileiro. Teve seu

primeiro parecer realizado em 1882 emitindo 23 pareceres até 1864. Cf. JOBIM, José Luis. Machado de Assis, membro do Conservatório Dramático Brasileiro e leitor do teatro francês. In. A Biblioteca de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2001, p. 375.

224 Em 1886 Machado de Assis foi novamente convidado a ser censor do Conservatório Dramático Brasileiro, desta vez emitiu 19 pareceres. Cf. FARIA. João Roberto Machado de Assis Do teatro: crítico e textos diversos. Coleção de textos 23. São Paulo: Perspectiva, 2008, p. 582

225 FARIA. João Roberto. Ideias teatrais: o século XIX no Brasil. Coleção de textos 15. São Paulo:

Perspectiva/FAPESP, 2001. p. 19

Machado de Assis foi leitor de Molière, apesar de não haver obras do comediógrafo francês em seu acervo particular que se encontra na Academia Brasileira de Letras227. Segundo Massa (2001), que realizou o inventário da biblioteca de Machado de Assis:

[...] Molière é o único ausente da lista. O exemplar deve ter-se perdido, pois o profundo conhecimento deste autor é atestado por numerosas referências. [...]. Não esqueçamos, entretanto, que a ausência de um livro das prateleiras desta biblioteca não significa que Machado não o tenha lido e, mesmo, não o tenha possuído nas prateleiras de sua biblioteca quando estava completa. Dessa forma, sua presença não prova nada além de um eco, uma reminiscência, uma pista, um ar familiar que vem confirmar sua presença ou sua lembrança na obra de Machado de Assis. [...]228.

Massa (2001) expõe que após a morte de Machado duzentos títulos foram doados e até aquela data não se tinha conhecimento de seu paradeiro. Também ressalta que algumas brochuras deterioraram-se devido ao acondicionamento inadequado. Por causa destes fatos a biblioteca de Machado achava-se incompleta, o que pode justificar a ausência de obras de Molière, um dramaturgo que lhe era tão caro.

Machado sempre cita Molière em suas críticas como representante da comédia de referência. Em carta do dia 22 de novembro de 1864, destinada a Teixeira de Melo, que foi viver longe da corte do Rio de Janeiro, Machado faz uma alusão a Alcestes, personagem principal da peça de Molière, Le Misanthrope (1666), caracterizado por ser de uma franqueza tal que o forçou a se afastar da sociedade:

Mas repara bem, se te invejo o isolamento a que te condenaste, não aplaudo o silêncio da tua musa, da tua musa loura e pensativa, de quem eu já andei tão namorado outrora.

É que, se podes tomar uma resolução de Alcestes, é só com a condição de não deixares no caminho a inspiração, como se fora bagagem inútil. Graças a Deus, é ela a maior consolação e a maior gloria das almas destinadas a serem os interpretes da natureza do criador. [...]229.

227 Pesquisa realizada em outubro de 2010 no acervo particular de Machado de Assis, com o auxílio do

Bibliotecário responsável Sr. Luiz Antônio de Souza.

228 MASSA, Jean-Michel. A biblioteca de Machado de Assis. In: A Biblioteca de Machado de Assis. Trad.

Claúdia Maria Pereira de Almeida. Org. José Luis Jobim. Rio de Janeiro, Academia Brasileira de Letras/TOPBOOKS, 2001, p. 32.

229 MACHADO DE ASSIS, José. Revista da Semana. Ao acaso. Folhetim. Edição 321. Diário do Rio de Janeiro,

22 de novembro de 1864. p.1.

Na coluna Ao acaso, do jornal Diário do Rio de Janeiro, de 31 de janeiro de 1865, Machado de Assis tece comentários sobre as peças encenadas naquele tempo e o esquecimento das grandes obras da dramaturgia. No trecho abaixo Machado coloca a peça carro-chefe de Molière, Le Misanthrope (1666) e outra peça de sua autoria, Tartuffe (1669), entre as peças que considera sérias e de excelente qualidade:

[...] Tivemos domingo uma ressurreição literária. Foi à cena no teatro de S. Januário o Ângelo, de Victor Hugo. Mais de vinte anos antes conquistara o mesmo drama nas mesmas tábuas os aplausos de um público, muito mais feliz que o de hoje, um público a quem se dava o Ângelo, o Hamleto, o Misantropo e o Tartufo.

Parece que obras sérias da arte ficaram proscritas do nosso teatro. No meio de muita coisa boa, de algumas excelentes, avultam as enxugadas que nos vêm de Paris. É o tempo das quinquilharias. [...]230.

Na Revista Brasileira em 1879, Machado de Assis faz uma análise da peça do dramaturgo português Antônio José (1705-1739), Amphytrião (1736) e a peça de mesmo título da peça de Molière (Anphitryon-1668). Nessa análise, Machado faz um cotejo das duas peças com o objetivo de verificar em que aspectos Antonio José imitou diretamente Molière,

em sua peça231. No trecho abaixo Machado discorre acerca de sua análise:

Trata-se, como vê, de um caráter e de uma situação integralmente transcriptos, embora de outro jeito, cedendo o poeta aos seus hábitos litterarios, à sua índole e ao seu meio. Nem é somente na introducção do caracter de Cornucópia, e na situação dous personagens, que Antônio José revela ter deante de si ou na memória a peça de Molière; [...]232

A comédia é o gênero dramático que mais se adéqua às ideias que Machado tem acerca da função do teatro. Ele admira Molière, principalmente as suas grandes comédias

Acessado em: 30/01/2012.

230 MACHADO DE ASSIS, José. Revista da Semana. Ao acaso. Folhetim. Edição 321. Diário do Rio de Janeiro,

26 de janeiro de 1865. p.1.

Disponível em: http://memoria.bn.br/pdfs/rmhb/_pdf/094170/per094170_1865_00026.pdf Acessado em: 30/01/2012.

231 Cf. MACHADO DE ASSIS, José. Crítica theatral. Rio de Janeiro: W.M. Jackson inc, 1946, p. 309.

232 MACHADO DE ASSIS, José.Antônio José e Molière. Revista Brasileira 1° ano, TOMO 1 Rio de Janeiro,

como Le malade imaginaire e Le Misanthrope, nas quais o dramaturgo francês utiliza a ironia e não recorre aos exageros para abordar os vícios sociais233.

Na primeira crítica teatral, em 11 de setembro de 1859, publicada no jornal semanário

O Espelho, feita à peça O Asno Morto, adaptação de um romance francês de autoria de Jules Janin, L’Âne Mort et la Femme Guillotinée (1827), por Théodore Barbiere e Adolphe Jaime, Machado de Assis começa filosofando acerca da morte, em seguida descreve a tragédia de cinco atos com prólogo e epílogo. Comenta a boa qualidade da tradução e a ousadia em se apresentar este gênero em um palco como o do Ginásio Dramático, no qual a comédia realista estava sempre em cena. Na sequência, Machado de Assis se declara filiado à estética realista francesa e justifica sua opção: “Pertenço a esta por mais sensata, mais natural e de mais iniciativa moralizadora e civilizadora.” 234 Acerca da peça O Asno Morto, Machado de Assis não tece grandes considerações, além de contar o enredo e comentar a atuação dos atores, que julgou muito boa, a principal contribuição dessa crítica para o presente estudo é a declaração que faz acerca de seu posicionamento estético.

Machado criticava os exageros de expressões, gestos e tom de voz, dos dramas e melodramas. Ele os declarava alienantes, pois não representavam a fala natural e a realidade da sociedade burguesa e fugiam do propósito educacional básico do teatro235. A harmonia, para Machado, era primordial na dramaturgia, isso para que a contextualização da cena fosse o mais fiel possível à realidade que se deveria propor236. O teatro seria, então, uma escola de arte, língua e civilização.

233 Cf. FARIA, 2008, p. 111.

234 MACHADO DE ASSIS, José. Ginásio Dramático: Reflexões filosóficas a propósito de um Asno Morto.

Revista de Theatros. O Espelho. Edição 02. Rio De Janeiro: Typographia de F. de Paula Brito,1859, p. 7. Disponível em:

http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_periodicos/per700037_contente/P20.html. Acessado em: 28/10/2011.

235 Cf. FARIA, 2001, p. 110. 236 Cf FARIA, 2008, p.312.

Na comédia, a verossimilhança seria o traço mais forte para que o teatro surgisse como meio transformador da sociedade. A essa representação ele chamava de alta comédia e, para ele, a sátira burlesca e a farsa só faziam distrair a atenção dos vícios sociais. Machado chegou a ressaltar que Molière é reconhecido como um gênio da comédia, justamente por destacar os vícios da sociedade francesa do século XVII utilizando, sobretudo, a ironia em comédias como O Misantropo237. Isso pode ser observado em uma crítica feita acerca da peça

À procura de casamento, de Reis Montenegro, em 22 de novembro de 1864, na coluna Ao

acaso do jornal Diário do Rio de Janeiro:

[...] O que desejo é que, a par do estudo que fizer, faça o autor todo esforço para fugir ao elemento burlesco. A cena do ovo incorre nessa censura, como a declaração de amor à criada. É certo que nosso teatro não escasseiam, antes sobram os sucessos devido ao burlesco; mas, se esse elemento dá a vida de algumas noites à luz da rampa não pode fazer mais do que isso.

Falo com franqueza ao Sr. Reis Montenegro, moço de talento e que me parece sinceramente modesto; não se deixe aludir pelo gênero a que aludi o que faz estimar Molière, não é o caso de Scapim, nem a seringa de Pourceaugnac É o profundo estudo das suas admiráveis criações cômicas, os Alcestes, as Filamintas e os Harpagons238.

O ethos discursivo da comédia de Machado pode ser observado a partir de suas críticas publicadas nos jornais semanais. Através delas percebe-se qual o gênero teatral eleito por Machado e sua visão da grande qualidade do teatro, seu caráter transformador. Ele seria um meio de educação e moralização social. Machado apoiou as comédias realistas tecendo elogios e críticas construtivas ao ator que mais protagonizou peças desse gênero no Ginásio Dramático, o português Furtado Coelho (1821-1900). Este, em Lisboa, tivera contato com a encenações de peças adaptadas dos romances de Emile Augier (1820-1889) e Alexandre Dumas Filho (1824-1895), e as trouxe para o Brasil, destacando-se que A Dama das Camélias

237 Cf.FARIA, 2008, p. 328.

(1848) e O Mundo Equívoco (1865), tradução portuguesa para Le Demi-monde (1855), foram umas das primeiras peças representadas no Ginásio Dramático, em 1856239.

Os dois principais teatros no Rio de Janeiro, em 1855, eram o Teatro São Pedro de Alcântara, subsidiado pelo governo e gerenciado por João Caetano (1808-1863) que se dedicava a apresentar dramas e melodramas traduzidos, principalmente, do teatro francês e o Ginásio Dramático fundado em 1855, por Joaquim Heleodoro Gomes dos Santos. Este, diferentemente, inaugurou no Brasil a interpretação da comédia realista francesa240. Machado de Assis não escondia sua predileção por este ultimo, como o fez no artigo publicado pelo semanário O Espelho, de 25 de setembro de 1859, na seção Revista de Theatros:

[...] em sua vida laboriosa ele nos tem dado, horas aprazíveis, acontecimentos notáveis para a arte. Iniciou ao público da capital, então sufocado na poeira do romantismo, a nova transformação da arte – que invadia então a esfera social 241.

O posicionamento discursivo de Machado está relacionado com o gênero que ele elegeu, a comédia teatral, mas especificamente a comédia teatral francesa, a qual tem um papel importante na civilização da sociedade bem como na construção de uma identidade, um

ethos discursivo que vai sendo percebido ao longo de sua vida literária242.

A comédia realista francesa é caracterizada por instituir uma lição moralizadora segundo os valores burgueses, que se fundamentam no casamento, na família, tal como vistos pela religião católica apostólica romana. O riso era secundário e somente era considerado de alto nível o que proviesse da ironia e do chiste. As personagens, geralmente representando membros da sociedade burguesa, tinham suas ações comentadas por um elemento típico do teatro realista, o raisonneur. A essa personagem específica cabia a responsabilidade de,

239 Cf. FARIA, 2001, p. 88. 240 Cf. FARIA, 2001, p. 84.

241 MACHADO DE ASSIS. Revista de Theatros: Ginásio Dramático. O Espelho. Edição 04. Rio De Janeiro:

Typographia de F. de Paula Brito, 1859. p. 7.

Disponível em: http://objdigital.bn.br/acervo_digital/div_periodicos/per700037_contente/P45.html. Acessado em: 28/10/2011.

através de suas falas, destacar os valores morais burgueses, e assim educar o público para adotar esse estilo de vida. Era chamada Grande Comédia, quando era composta por três atos243:

O teatro, na mão dos dramaturgos realistas, transformou-se numa tribuna destinada aos valores de ações sociais do interesse da burguesia. O objetivo deste debate: regenerar, educar e moralizar a sociedade. 244.

Em 1860, Machado de Assis foi convidado pelo amigo e critico teatral Quintino Bocaiúva (1836-1912) a escrever no Jornal O Diário do Rio de Janeiro, no qual publicou várias críticas de teatro, cartas, poemas, contos; apresentava novos talentos da literatura à sociedade e criticava algumas ações do governo. Ambos compartilhavam a simpatia pela estética da comédia realista francesa. Quintino Bocaiúva, em 1857, publicara no Correio

Mercantil, em forma de fascículos, um livro chamado Estudos Críticos e Literários: Lance

D'Olhos sobre a Comédia e sua Crítica. Bocaiúva faz uma analogia da grande comédia como fonte de instrução moral e cívica à sociedade com a germinação de uma semente que começa pequena, mas vai se desenvolvendo e acaba gerando bons frutos. Uma comédia para chegar ao estatuto de grande, de acordo com Bocaiúva, deveria utilizar a ironia, para privilegiar a inteligência do publico e facilitar o entendimento do que é primordial se apreender nos espetáculos245.

Junto com Quintino Bocaiúva, outros críticos de teatro partilhavam com Machado de Assis a preferência pela comédia realista nos palcos brasileiros, como foi o caso de Henrique César Muzzio, Souza Ferreira e Joaquim Manoel de Macedo246. Não só na capital como em São Paulo; Machado tinha contatos com autores e tradutores da dramaturgia paulista, como seu amigo Luís Guimarães Júnior. Este, em carta, solicitava-lhe o encaminhamento de peças

243 Cf. FARIA, 2001, p. 87.

244 FARIA, 2011, p. 87. 245 Cf. FARIA, 2001, p. 93. 246 Cf. FARIA, 2001, p. 121.

de Dumas Filho e Émile Augier, a fim de serem traduzidas e representadas nos palcos de São Paulo, como se verifica no trecho da carta enviada a Machado de Assis:

Agora nós. Quero ou peço-te, peço-te que me mandes, no primeiro correio se for possível as seguintes composições dramáticas em francês para eu traduzir para o teatro: Papillone do Sardou, L’aveugle do Auguste Bourgeois – Recordações da Mocidade (no original, entenda-se), Lionnes Pauvres do Augier, Les Grands Vassaux de Victor Séjour e alguma coisa excelente do Barrière. Pelo mesmo correio mandá-me dizer a importância; de outra forma não quero. Não te esqueças, dá-te a esse trabalho, manda-mas já, eu ficarei com mais um imenso favor a dever-te. Espero? 247

A bandeira do teatro como escolha civilizadora foi levantada inúmeras vezes por Machado. Ele apoiou um grupo de literatos composto por José de Alencar, Joaquim Manoel de Macedo e Cardoso Mendes e Souza, que tinham por incumbência fazer um estudo sobre o Teatro Nacional e traçar estratégias para implementá-lo. A propósito disto, Machado escreve um artigo no dia 13 de fevereiro de 1866, chamado O Teatro Nacional, na coluna Semana Literária do jornal Diário do Rio de janeiro. No artigo, Machado apresenta sua visão de como deveria ser o teatro no Brasil e afirma que ao governo caberia a responsabilidade de subsidiar e selecionar peças que estejam em acordo com a moral, mas também, zelar pela boa qualidade estética das peças. Destacou a importância de se investir em talentos nacionais, pois a dramaturgia estava viciada nas traduções estrangeiras e não refletia a cor local, o que tornava infactível a função moralizadora. E fala do seu desalento em relação às qualidades das peças que subiam aos palcos em comparação com aquelas de algumas décadas atrás.

Ha uns bons trinta annos o Misanthropo e o Tartuffo faziam as delicias da sociedade fluminense; hoje seria difficil ressuscitar as duas immortaes comédias. Quererá isto dizer que, abandonando os modelos clássicos, a estima do publico favorece a reforma romantica ou a reforma realista? Tambem não; Molière, Victor Hugo, Dumas Filho, tudo passou da moda; não ha preferencias nem sympathias. O que ha é um resto de habito que ainda reune nas platéas alguns espectadores; nada mais. Que os poetas dramáticos, ja desilludidos da scena, comtemplem attentamente este fúnebre espectaculo; não os aconselhamos, mas é talvez agora que tinha cabimento a resolução do autor das Asas de um anjo: “quebrar a penna e fazer dos pedaços uma cruz.”248

247 Carta enviada a Machado de Assis, em abril de 1863, Cf. ROUANET (Org.), 2008, p.33-34.

248 MACHADO DE ASSIS, José. Semana Literária. Edição 38. Diário do Rio de Janeiro, 13 de fevereiro de

1866. p.2. Disponível em: http://memoria.bn.br/pdfs/rmhb/_pdf/094170/per094170_1866_00038.pdf. Acessado em: 30/01/2012.

Esse artigo, segundo Faria (2008), colocaria Machado de Assis em destaque no campo literário brasileiro como o maior crítico teatral em atividade, firmando sua posição no meio intelectual249.

Em 1862, aos 23 anos, Machado de Assis foi convidado para ser membro do

Conservatório Dramático, órgão que desde 1848, assessorava a polícia, emitindo pareceres para que esta liberasse a encenação das peças. O Conservatório possuía a diretriz máxima de conduzir o Teatro Nacional no que tange ao estimulo à criação, produção e encenação de peças que visassem “corrigir os vícios da cena brasileira”. Apesar de aceitar o encargo e emitir dezesseis pareceres entre 1862 e 1864, Machado queria ir além da censura moral. Ele pretendia que o Conservatório emitisse opiniões sobre a qualidade estética da peça, e que tivesse o poder de proibir sua encenação caso não estivesse de acordo com a boa estética. Segundo seu posicionamento, usava o parecer para registrar suas críticas, mesmo quando aprovava uma peça que estava em acordo com a moralidade, não com certo padrão estético250. Pena é que nossos teatros se alimentem de composições tais, sem a menor sombra de mérito, destinadas a perverter o gosto e a contrariar a verdadeira missão do teatro. Compunge deveras um tal estado de coisas a que o governo podia e devia pôr termo iniciando uma reforma que assinalasse ao teatro o seu verdadeiro lugar.

[...]

Sinto deveras ter de dar meu assenso a esta composição por que entendo que contribuo para a perversão do gosto público e para a supressão daquelas regras que devem presidir ao teatro de um país de modo a torná-lo uma força de civilização. Mas como ela não peca contra os preceitos de nossa lei, não embaraçarei a exibição cênica de Clermont ou A mulher do Artista, lavrando-lhe todavia condenação literária e obrigando pelas custas autor e tradutor251 .

Três anos antes de ingressar como censor no Conservatório Dramático, Machado de Assis já se posicionava em favor das ações de proteção à qualidade literária das peças que iam ao palco. Segundo Machado: “Julgar do valor literário de composição, é exercer uma função

249 Cf. FARIA, 2008, p.395.