• No results found

4. Internal Dynamics of the Organisations: Power, Money and Humanitarianism 77

4.3. Internal Divisions

Machado de Assis tinha a intenção de escrever grandes comédias, mas começou sua carreira de dramaturgo com comédias pequenas de um ato. Em uma carta a Quintino Bocaiúva, escrita em dezembro de 1862, anuncia a publicação de suas peças, pela tipografia do Diário do Rio de Janeiro (1863), em volume intitulado O teatro de Machado de Assis265 e pede sua opinião como crítico. A resposta de Quintino Bocaiúva constitui o prefácio do livro, em que o incentiva a publicá-las, pois tal como as de Musset, as de Machado são peças para serem lidas. Bocaiúva comenta que no palco perdem a argúcia devido à sutileza dos argumentos:

O que no teatro podia servir de obstáculo à apreciação da tua obra, favorece-a no gabinete. As tuas comédias são para serem lidas e não representadas. Como elas são um brinco do espírito podem distrair o espírito. Como elas não tem coração não podem pretender sensibilizar a ninguém.266

Machado de Assis escreveu a peça Não consultes médico (1896), comédia em um ato, que foi representada pela primeira vez nos salões do Cassino Fluminense, em virtude do 3° Festival promovido pelas Senhoras Protetoras da Capela do Sagrado Coração de Jesus, em 18 de novembro de 1896. A peça tinha como personagens: DONA LEOCÁDIA, interpretada por Dona Emilia Barros Barreto; DONA CARLOTA, interpretada por Dona Lucina de Andrade Pinto; DONA ADELAIDE, interpretada por Dona Francisca de Saldanha da Gama; MAGALHÃES, interpretado pelo Senhor. F. Barros Barreto; e o médico CAVALCANTE, interpretado pelo Senhor S. Carlos de Carvalho.

264 Cf. ZOLA, 1881, p. 137.

265 Cf. ROUANET, 2008, tomo I, p19-20.

Houve uma segunda encenação da peça em 12 de agosto de 1908, na inauguração do Teatro da Exposição, construído no recinto da Exposição Nacional, na praia vermelha. A peça foi publicada pela primeira vez na Revista Brasileira, Rio de Janeiro, em dezembro de 1896, no vol. VIII, nas páginas 321 a 350. No volume seguinte da revista, Machado escreve uma nota comemorativa alusiva à semana da Comédia no Brasil, na página 64, onde comenta o bom desempenho das Senhoras do Colégio Sagrado Coração de Jesus267. A peça foi também publicada em 1906, no livro Relíquias de Casa Velha. Uma coletânea com transcrição supervisionada pelo autor, de textos, peças e críticas, foi publicada pela editora H. Garnier, no Rio de Janeiro. A peça está localizada nas páginas 167-210.

Em Não Consultes Médico, Machado de Assis apresenta o Rio de Janeiro como pano de fundo de sua peça teatral, cuja ação se passa na casa de Adelaide e Magalhães, casal que mora no bairro da Tijuca. D. Adelaide e Magalhães se conheceram por intermédio da tia de D. Adelaide, D. Leocádia. A tia se vangloriava de ter curado os dois. Ela dizia que antes de casarem D. Adelaide e Magalhães padeciam de uma moléstia moral. Magalhães possuía um nariz bonito, porém solitário e Adelaide era hipocondríaca. Na sequência, Magalhães comenta com Adelaide e Leocádia sobre o Dr. Cavalcante, seu amigo médico. D. Leocádia acredita que Cavalcante possa estar louco. Magalhães lhe explica que o Dr. Cavalcante passou a agir de forma esquisita após uma desilusão amorosa e Dona Leocádia afirma que, por ser médica de moléstias morais, poderia curá-lo. No trecho abaixo extraído da cena II, esse episódio pode ser verificado:

D. LEOCÁDIA

Vou curar o seu amigo Cavalcante. De que é que vocês se espantam? D. ADELAIDE

267

Cf. Bibliografia de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Ministério da Educação e Cultura. Instituto Nacional do Livro, 1955. (Coleção BI. Bibliografia X. J. Golante de Souza EDITOR), p. 578.

De nada. MAGALHÃES De nada, mas... D. LEOCÁDIA Mas quê? MAGALHÃES Parece-me... D. LEOCÁDIA

Não parece nada; vocês são uns ingratos. Pois se confessam que eu curei o nariz de um e a hipocondria do outro, como é que põem em dúvida que eu possa curar a maluquice do Cavalcante? Vou curá-lo. Ele virá hoje?

D. ADELAIDE

Não vem todos os dias; às vezes passa-se uma semana. MAGALHÃES

Mora perto daqui; vou escrever-lhe que venha, e, quando chegar, dir-lhe-ei que a senhora é o maior médico do século, cura o moral... Mas, minha tia, devo avisá-la de uma cousa; não lhe fale em casamento.

D. LEOCÁDIA Oh! não! MAGALHÃES

Fica furioso quando lhe falam em casamento; responde que só se há de casar com a morte... A senhora exponha-lhe...

D. LEOCÁDIA

Ora, meu sobrinho, vá ensinar o padre-nosso ao vigário. Eu sei o que ele precisa, mas quero estudar primeiro o doente e a doença. Já volto.268

Ao encontrar o médico, D. Leocádia fica sabendo de sua decisão de ir a um confinamento religioso a fim de encontrar paz. Ela lhe sugere ir pregar na China, e afirma que num prazo de dez anos estaria curado. Cavalcante se queixa do tempo, mas aceita a medicação proposta pela “médica de doenças morais” e se apressa em aprontar as malas, obedecendo à D. Leocádia e reconhecendo nela autoridade de médico, como se vê no trecho abaixo extraído da cena VII:

CAVALCANTE Vou.

D. LEOCÁDIA

Muito bem. A sua doença é tal que só com remédios fortes. Vá; dez anos passam depressa.

268 ASSIS, Machado de, 1946, p. 318-319.

CAVALCANTE

Obrigado, minha senhora. D. LEOCÁDIA

Até logo. CAVALCANTE

Não, minha senhora, vou já. D. LEOCÁDIA

Já para a China! CAVALCANTE

Vou arranjar as malas, e amanhã embarco para a Europa; vou a Roma, depois sigo imediatamente para a China. Até daqui a dez anos. (Estende-lhe a mão).

D. LEOCÁDIA Fique ainda uns dias... CAVALCANTE Não posso. D. LEOCÁDIA

Gosto de ver essa pressa; mas, enfim, pode esperar ainda uma semana. CAVALCANTE

Não, não devo esperar. Quero ir às pílulas, quanto antes; é preciso obedecer religiosamente ao médico.

D. LEOCÁDIA

Como eu gosto de ver um doente assim! O senhor tem fé no médico. O pior é que daqui a pouco, talvez, não se lembre dele.

CAVALCANTE

Oh! não! Hei de lembrar-me sempre, sempre!269

Dona Leocádia pede que o Dr. Cavalcante retorne antes de partir e quando este volta encontra Dona Carlota, os dois conversam e contam seus dissabores amorosos, e no fim o Dr. Cavalcante pede Dona Carlota em casamento.

A autoridade do médico, como detentor do conhecimento da medicina, é um habitus dominante na cultura ocidental. Esse poder de tratar o ser adoecido é atribuído ao médico e passado de geração em geração; século após século. Contudo, o curandeirismo e misticismo acompanham, até os dias de hoje, a passos curtos, a medicina legalmente constituída pelas instituições da ciência.

Machado de Assis coloca em xeque esse poder absoluto atribuído ao médico na peça

Não consultes médico. Ele apresenta um médico desiludido com a vida, em um estágio de melancolia que o faz querer desistir da medicina e dedicar-se à vida religiosa, com a ilusão de assim não se envolver emocionalmente novamente e esquecer seu antigo amor. Essa abdicação de um poder que lhe é dado pela sociedade e que lhe cabe de direito, dada sua profissão, já causa impacto na comunidade científica. Desistir da ciência em um período onde várias teorias são propostas no mundo para garantir a continuidade do poder do médico, como por exemplo, o positivismo de Augusto Comte (1798-1857), provoca estranheza e inquietações no campo social. Diferentemente, os médicos das comédias de Molière ostentam a sua autoridade e não aceitam interferências nem da própria comunidade científica contemporânea, no que se refere a novas teorias e descobertas que coloquem em xeque as antigas práticas e conhecimentos médicos tão cultuados pela Faculdade de Medicina de Paris.

Embora Molière e Machado critiquem a classe médica e a medicina, Molière busca uma faceta da comédia, a ironia, voltada para a crítica à soberba do discurso médico. Ao passo que Machado procura humanizar o médico tornando-o falível, quando não inútil, ridicularizando não apenas a soberba do discurso da profissão médica e dos profissionais que o certificam, mas, e também, aqueles que aceitam e cultuam a imagem de infalibilidade do médico, nela acreditando (sua “divindade” científica) e, por consequência, da ciência como um todo, afastando-se do discurso naturalista. Isto projeta a função moralizadora do texto machadiano.

D. Leocádia é a representação dos valores morais da sociedade. Mulher religiosa e que valoriza o casamento, ela toma para si a função de curar doenças que ela considera serem oriundas desses valores que lhe são caros. Diante disso, é a representante do curandeirismo.

Há na peça Não consultes médico, o registro de uma mudança de posição dos agentes no campo científico, quando Cavalcante aceita ser tratado por uma pessoa legalmente não

qualificada para a arte de curar. D. Leocádia ganha o estatuto de “autoridade” médica e toma como paciente o próprio médico que lhe outorgou essa autoridade. Com essa ação, Machado propõe que a ciência imparcial e impessoal não é a solução única para todos os males que afligem a humanidade.

Machado já havia questionado o método da ciência médica, em 1882, em outra obra sua, o conto O Alienista. Os métodos de classificação de males a que se propunha o personagem central, e que tiveram justamente suas bases teóricas trazidas da Europa, não deram conta de elaborar uma estratégia de diagnóstico e tratamento eficaz dos males que ele acreditava afligirem a sociedade. Depois de rever seus critérios de diagnóstico, o Dr. Simão Bacamarte recolhe-se ao hospício, chamado casa verde, como sendo o único doente psiquiátrico da cidade. Machado coloca aí aquilo que, em 1896, na peça Não consultes

médico, vai ratificar: a ciência não cura todos os males. E propõe que os valores da imprecisão da realidade humana (ou das realidades humanas), mais do que os da ciência citados por Zola, por exemplo, é que são responsáveis pela cura de moléstias morais.

A estética naturalista, de fundo positivista que Zola propõe, na qual ele compara o médico com o escritor, é o oposto do que Machado recomenda como a melhor forma de educar uma sociedade. Sendo neutra e tendo o objetivo de descrever imparcialmente os fatos, gera um distanciamento e não um resgate do fator humano. Na réplica que Machado faz às recriminações que recebeu por sua crítica à obra de Eça de Queiroz, ele destaca esse lado neutro da estética naturalista:

[...] Se eu tivesse de julgar o livro pelo lado da influencia moral, diria que qualquer que seja o ensinamento, se algum tem, qualquer que seja a extensão da catastrophe, uma e outra cousa são inteiramente destruídas pela pintura dos factos viciosos: essa pintura, esse aroma de alcova, essa descripção minuciosa, quase technica, das relações adulteras, eis o mal. A castidade inadvertida que ler o livro chegará á ultima pagina, sem fechal-o, e tornará atraz para reler outras.270

Para que seja moralizadora, a peça teatral necessita ter um fundo em que os valores morais sejam questionados a partir de um ponto de vista irônico. Zola, utilizando métodos da ciência de seu tempo, como a observação, a experimentação dos fenômenos naturais para a produção literária, na qual as situações reais são reproduzidas exatamente como ocorrem, sem que haja uma preocupação em mostrar os defeitos e os erros da sociedade, não contribui para que a função máxima do teatro, segundo a concepção machadiana, ocorra.

A ruptura que o personagem da peça, o Doutor Cavalcante, inicia ao abdicar dos métodos científicos para sua própria cura, torna possível entrever a provável intenção do autor de demonstrar um posicionamento contrário a uma estética de conceitos naturalistas. Com base em indícios presentes, inclusive no título da peça, Não consultes médico, podemos inferir esse desacordo.

Já de início, Machado, a partir do título, sugere que o médico e a ciência não respondem a todas as perguntas que o homem e a sociedade têm. No fim da peça, não são a ciência, o misticismo ou curandeirismo que curam o Doutor Cavalcante e sim D. Carlota, moça de dezoito anos, também desiludida emocionalmente, que traz saúde ao doente. O subterfúgio utilizado pelo autor, além de desautorizar o discurso da ciência representado pela medicina, desautoriza o discurso mistificador e místico do curandeirismo de Dona Carlota, apontando na direção do acaso e, ao mesmo tempo, justificando o provérbio grego que dá à obra o título “não consultes médico consulta alguém que tenha estado doente”. No caso da peça, D. Carlota padecia do mesmo mal do qual veio a padecer Cavalcante; e é somente através de seu compadecimento mútuo, da identificação entre ambos e da empatia que sentem um pelo outro, que é possível a cura médica, fato que comprova o dito de extração popular (assim como a sabedoria popular) e aniquila o domínio do discurso científico e/ou do discurso místico/mistificador. Machado ratifica que as relações humanas, em toda sua imprevisibilidade não científica, são as verdadeiras responsáveis pela maioria dos fenômenos

que ocorrem no mundo, ironizando o científico que se defronta com fatos fortuitos que a ciência não pode explicar.

A peça Não consultes médico (1898) foi uma das últimas peças escritas por Machado. Pode-se perceber que em toda a sua trajetória dramatúrgica, tanto como crítico, censor e dramaturgo, Machado de Assis sempre manteve o mesmo posicionamento estético. Desde seus primeiros artigos no jornal A Marmota em 1855, nos quais fervorosamente defende a função do teatro e a importância da comédia realista para a sociedade, até a publicação da peça Não consultes médico, em 1896 na Revista Literária, mas aí já com a sutileza e a crítica irônica que lhes são próprias, ele mantém um ethos defensor do teatro brasileiro como escola civilizadora, da qualidade literária dos dramas que sobem aos palcos e da comédia realista francesa como o gênero teatral soberano.

Diante do exposto, pode-se inferir que a personagem do médico na peça Não

consultes médico pode ser considerada como uma arma do autor na defesa de seu ideal estético. A personagem que é apresentada como um ser frágil cheio de dúvidas e incertezas representa o que é do humano. O campo literário, que tem suas próprias regras, é para Machado de Assis o campo do humano, e sobretudo o teatro, nessa concepção, é a escola civilizadora do humano. As leis que movem o campo científico, que foram engendradas para observar fenômenos da natureza não deveriam, de acordo com Machado de Assis, estar a serviço de uma arte que tem por primazia lidar com as fragilidades da sociedade.

7 CONCLUSÃO

Molière foi o grande nome da comédia francesa. Viveu entre príncipes e reis e deixou sua obra registrada na história. Utilizou em suas peças a personagem do médico em várias de suas comédias, como forma de criticar a medicina do século XVII e a soberba inerente à figura do médico. A comédia, como preconizava a exposição dos vícios da sociedade, serviu como instrumento de suas críticas a uma Instituição que era considerada pela sociedade tão digna de “fé” quanto a própria Igreja.

Molière, que viveu na corte, pode conviver com os médicos que serviam à nobreza e recolher dados científicos para, ao usar dos artifícios próprios da comédia como a ironia e a sátira, transpô-los em sua obra dramatúrgica. Essa faceta cômica de Molière, que era também ator e diretor, aliada à sua percepção do mundo, através do olhar das novas correntes filosóficas, as quais usavam como alicerce a razão e a verdade, permitiu que ele dedicasse uma parte de sua obra à construção de uma crítica social que fortaleceu a revolução científica e auxiliou a classe médica a refletir acerca do autoritarismo da Faculdade de Medicina de Paris, que era definitivamente presa às antigas tradições.

A personagem do médico de Molière teve sua referência histórica na Idade Média, através da transposição da máscara do médico da peste negra do campo científico para o campo religioso, no carnaval de Veneza. Esse fato se deu quando o médico, todo equipado e paramentado com suas vestes e a máscara propriamente desenhada para evitar o contágio, tornou-se tão emblemático a ponto de passar a representar o arauto do castigo divino.

A Commedia dell’Arte, que também exercia suas atividades artísticas nas ruas, justapôs a máscara do médico da peste, que representava a medicina, com a personagem do advogado e lançou como personagem unificado Il Dottore. Este representava as duas áreas, direito e medicina, que aliadas à teologia formavam a tríade de áreas dos grandes homens do

saber. O médico e o advogado eram representados pela toga do magistrado, o chapéu de pontas e uma máscara preta que deixava de fora a boca. Molière se baseou nesta representação do médico para elaborar sua personagem do médico, com a diferença de que a máscara foi deixada de lado.

A representação do médico se fez observar em toda a trajetória artística de Molière. As peças Le médecin volant e La jalousie du Barbouillé não têm uma data precisa de criação pois La Grange, ator da companhia de Molière que registrava todas as apresentações da trupe, relata que quando o dramaturgo retornou a Paris, em 1658, depois de passar no interior da França peregrinando com seus espetáculo desde que saiu de Paris em 1645, essas peças foram apresentadas a primeira vez em Paris. Logo, anteriormente ao seu regresso, Molière já lançava, através de sua obra e personagens, a imagem que cultivava sobre os médicos e a medicina de seu tempo.

Como La Troupe de Monsieur Le Frère Unique du Roi, Molière apresenta a peça Le

fetin de pierre (Dom Juan-1665), em dezoito de fevereiro. A primeira cena do Ato 3 é toda dedicada a desacreditar a autoridade da medicina e dos médicos dos setecentos.

Finalmente como La Troupe du Roi, as peças L’amour médecin (1665), Le médecin

malgré lui (1666), Monsieur de Pourceaugnac (1669), Le malade imaginaire (1673) foram meio de críticas cada vez mais virulentas contra a classe dos médicos e a medicina galênica.

As críticas giravam em torno da soberba da fala médica, carregada de expressões em latim, incompreensíveis para os pacientes, o que gerava uma angústia crescente, e da ostentação de uma vestimenta que era considerada símbolo da autoridade médica e por si só exigia respeito e honrarias comparados somente aos que a sociedade francesa do século XVII dedicava à Igreja.

É nesse contexto que Molière configura a personagem do médico. Em quatro peças das supracitadas, La jalousie du Barbouillé, L’amour médecin, Monsieur de Pourceaugnac e

Le malade imaginaire, a personagem do médico está presente com todo o linguajar rebuscado, a ostentação da roupa e um discurso pró galênico que caracteriza sua filiação à Faculdade de Medicina de Paris, logo, contrário às novas teorias que pedem passagem no campo científico.

Em cinco das sete peças apresentadas no estudo, Le médecin volant, Le fetin de pierre (Dom Juan-1665), L’amour médecin (1665), Le médecin malgré lui (1666) e Le malade

imaginaire (1673), Molière vai mais além com suas críticas. Para reforçar seu posicionamento contra uma prática médica que é não baseada na lógica nem na razão, mas sim numa interpretação quase crédula da arte de curar, Molière assevera que a única diferença entre um cidadão comum e os médicos é a vestimenta e que o uso da toga do magistrado é o bastante para outorgar ao seu portador o título de médico e os privilégios oriundos desse título.

O ethos enunciativo de Molière, apoiado em suas escolhas genéricas, é contrário ao

habitus dominante de autoridade suprema do médico e da medicina. O diálogo interdiscursivo da revolução científica em Molière é mostrado através de suas peças. O médico de Molière é a representação do antigo e do retrogrado. Essa representação é percebida desde as primeiras peças de que se tem registro em 1658, La jalousie du Barbouillé, até a sua última peça, Le

malade imaginaire, em 1673.

No quarto capítulo desse estudo, a apresentação das principais teorias científicas emergentes no século XVII e alguns ritos e costumes da Faculdade de Medicina de Paris auxiliaram a compreender o posicionamento enunciativo de Molière acerca da revolução científica e a medicina, na representação da personagem do médico.

Machado de Assis, leitor de Molière, também utilizou a personagem do médico em sua comédia Não consultes médico. Nesta pesquisa foi apresentada a posição privilegiada que

Machado ocupou no campo literário, deixando registrado seu posicionamento enunciativo acerca da função social e moralizadora do teatro. A personagem do médico é apresentada como falível, que deixa a cargo de pessoas leigas a função de curar males sociais. Com essa crítica, Machado ataca seus opositores que se serviam de métodos do campo da ciência para formatar uma nova proposta de teatro na segunda metade do século XIX, fugindo dos