A Grounded Theory foi desenvolvida Bernad Glaser e Anselm Strauss e apresentada em 1967 com a publicação de um trabalho elaborado por estes autores. Embora tenha sido inicialmente utilizada como um método de investigação sociológica, tem vindo progressivamente a ser aplicada como método de investigação em outras disciplinas, como a psicologia, a educação e a gestão (Goulding, 2002).
A Grounded Theory caracteriza-se pelo contacto directo com a realidade das situações a serem estudadas, conjugada com a rejeição inicial de condicionamentos teóricos. Metodologicamente, a utilização da Grounded Theory implica que o investigador contacte directamente com o ambiente em análise, ou seja, o contexto onde os sujeitos da investigação desenvolvem o seu trabalho. Assim, o investigador tem que interpretar as interacções entre os sujeitos no próprio ambiente onde estas ocorrem. Este facto obriga a que o conhecimento resultante da investigação seja construído de forma activa. As conclusões e significados apenas se apresentam como relevantes no ambiente da investigação e incidem na forma como as pessoas actuam dentro de um contexto individual e social (Creswell, 2003; Goulding, 2002; Strati, 2000).
A recusa da utilização inicial de teorias prende-se com o facto de se procurar evitar condicionamentos teóricos traduzidos em ideias ou constructos pré-concebidos, assim como em hipóteses de investigação pré-estabelecidas, que restrinjam a recolha e a análise dos dados. Contudo, este facto não se deverá traduzir no total desconhecimento relativo à área de estudo que está a ser investigada (e.g., gestão ou teoria
organizacional), ou por qualquer rumo de investigação geral fornecido por alguma orientação teórica no início do trabalho de campo (Locke, 2001).
Deste modo, a utilização da Grounded Theory dá lugar à aferição de novas perspectivas que permitam fazer o levantamento ou aprofundamento do conhecimento relativo aos processos sociais que ocorrem num determinado contexto, sem o condicionalismo dos contextos teóricos elaborados na revisão de literatura desvirtuarem ou moldarem os dados recolhidos (Cassel e Symon, 2004). Para garantir o correcto desenvolvimento conceptual e a manutenção da profundidade da investigação, a Grounded Theory é aplicada através da comparação contínua entre os dados recolhidos, e da sua codificação através de regras bastante específicas.
O processo de elaboração de teoria resulta das relações estabelecidas entre os conceitos e/ou entre os conjuntos de conceitos que derivam da análise comparativa dos dados, sendo posteriormente testada através da amostragem teórica, que se operacionaliza por meio de “recolha de dados para produzir teoria onde o investigador faz o levantamento, codifica e analisa os dados e decide que informação irá recolher em seguida e onde a encontrar” (Glaser e Strauss, 1967, p. 45), de modo a aperfeiçoar, refinar e aumentar a robustez do quadro teórico que vai emergindo com este sistema de análise (Dey, 1999; Locke, 2001).
Consequentemente, a teoria irá manifestar-se ao longo do processo de investigação, através da utilização de um processo iteractivo que se desenvolve entre a recolha e análise dos dados e a reformulação do problema (Creswell, 2003; Goulding, 2002). A Grounded Theory é um método poderoso que enfatiza a importância dos dados
resultantes da investigação e que obriga os investigadores a tomarem consciência da forma como observam as manifestações de padrões. Embora a sua aplicação não seja simples, é um modo de desenvolver e elaborar uma teoria robusta e conceptualmente rica, que seja aplicável directamente à área em estudo (Miller e Brewer, 2003).
Segundo os procedimentos da Grounded Theory, os indicadores empíricos relativos aos dados recolhidos, sejam eles formas de actuação e acontecimentos observados, registados ou que constam em documentos e/ou em entrevistas ou questionários, são sucessivamente comparados, de modo a encontrar-se as diferenças e as semelhanças entre eles. Este processo permite que o investigador identifique consistências nos indicadores e produza um conceito ou categoria codificada (Schwandt, 2001).
No decorrer da aplicação da Grounded Theory é efectuada a selecção da amostra adicional de incidentes, eventos, actividades e populações, a qual é orientada pelo desenvolvimento progressivo dos construtos teóricos, até ser obtida a saturação teórica. Assim, quando o processo de recolha dos dados não adiciona quaisquer informações que permitam o aperfeiçoamento das categorias de dados, das propriedades que as caracterizam, ou das suas relações com outras categorias, diz-se ter sido alcançada a saturação teórica é dá-se por concluída a recolha de informação (Locke, 2001; Schwandt, 2001).
A Grounded Theory procura fundamentalmente o desenvolvimento indutivo de teoria mas não exclui a utilização, ao longo da investigação, de processos dedutivos (Creswell, 2003; Miller e Brewer, 2003), sendo essencialmente, o método mais utilizado para gerar teoria em áreas ainda pouco investigadas, ou para desenvolver novas
perspectivas sobre o conhecimento já existente (Sutton e Staw, 1999). Como consequência, é ao investigador que cabe construir a sua própria teoria de base, cuja perspectiva de análise e interpretação será condicionada pela sua formação académica, o seu papel no processo e a suas características pessoais, devendo, no entanto ter consciência destas condicionantes (enviesamentos, valores e interesses) (Creswell, 2003; Goulding, 2002).
Embora a Grounded Theory se apresente como um método apelativo a aplicar na construção e desenvolvimento da uma teoria, a sua utilização coloca diversas questões fundamentais tanto de natureza prática como conceptual. Quando este método de investigação é utilizado é geralmente considerado uma estratégia de investigação difícil de executar (Suddaby, 2006) e que se prolonga no tempo (Lee, 1999), pelo facto de não se encontrar limitada por hipóteses a testar e porque a saturação teórica pode ocorrer decorrido um prazo bastante alargado da investigação
A Grounded Theory é concretizada através da utilização do método geral de análise comparativa, ou de análise orientada por matrizes, de modo a passar-se de factos empíricos para uma visão conceptual mais generalizada que interliga fenómenos observáveis com fenómenos não-observáveis (Strati, 2000). É um processo que envolve diversas fases de recolha de informação e o refinamento e interrelacionamento de categorias de informação (Strauss e Corbin, 1998).