5. Kapittel - Myndighetsaktørene og datamaterialet
5.2 Statens institutt for forbruksforskning
5.2.2 Nanoprodukter og forbrukerrettigheter
1. A prisão de Juliette
Um ano se passa, durante o qual Juliette permanece instalada na casa do preceptor como sua amante e discípula. Entre roubos e bacanais arranjados por Duvergier, nossa heroína acumulou uma renda de doze mil libras francesas133, além dos vinte e quatro mil francos
pagos por ano pelo libertino. Para seu deleite particular, Juliette mantinha consigo duas mulheres. Conhecendo as ligações de Noirceuil com o ministro, uma delas pede a ajuda da heroína em favor do parente de uma amiga. Apesar da natureza pouco piedosa da nossa protagonista, ela aceita ver o homem. Contra qualquer expectativa, ela depara-se com Lubin, o criado do duque de Dennemar, de quem a cortesã havia roubado para compensar o tratamento atroz recebido num bacanal134. O encontro não traria bons frutos: alguns dias
depois, na saída do teatro da Comédie-Italienne135, seis homens prendem-na no hospital136. No
meio do segundo dia de cárcere, o professor aparece. Antes de soltá-la, ele elucida que não o fará por sentimento ou comiseração, ambos sabem que não há amor na sociedade que os une. A estima do educador deve-se unicamente à mente da aluna, cujos extravios são análogos aos seus. Como prefere o prazer que Juliette pode lhe oferecer enquanto viva ao produzido pela
131 H.J., p. 349. 132 H.J., p. 350.
133 Uma das várias moedas da época. 134 H.J., p. 357.
135 Delon esclarece que a Comédie-Italienne ou Opéra-Comique, junto com a Comédie-Française e o Opéra, era uma das três salas oficiais de espetáculo em Paris (Delon, “Notes de H.J.”, op. cit., p. 1431, nota 1 da p. 358).
136 Delon explica que, no Antigo Regime, o hospital é concomitantemente uma instituição médica, de caridade e de repressão. Aqui, ele serve como prisão (id., ibid., nota 2).
cena de seu enforcamento, age de modo totalmente egoísta ao desejá-la em liberdade. Por isso, proíbe a pupila de toda e qualquer demonstração de agradecimento. Como a aprendiz não resiste aos impulsos do reconhecimento, seu mestre impede que ela saia da prisão enquanto ele não provar o absurdo do sentimento de gratidão. Com isso, orientador e discípula sentam e uma nova dissertação filosófica tem início137.
2. Crítica do reconhecimento
Chama-se reconhecimento o sentimento de retribuição suscitado por uma boa ação, informa o libertino, que contesta a gratidão em duas direções diferentes. Por um lado, é um sentimento absurdo, porque um benfeitor não age pela felicidade do próximo, mas sim para adular o próprio orgulho: ou ele encontra um prazer intelectual maior ao doar um bem do que em conservá-lo para si, ou imagina que a publicidade da caridade lhe trará boa reputação. Nos dois casos, ele é movido apenas pelo egoísmo. Uma ação desinteressada é impossível, pois há sempre algum prazer secreto na boa ação que diminui o valor do ato. Desse modo, não devemos nada a uma pessoa que trabalhou somente para si mesma.
Por outro lado, supondo que seja possível haver um desinteresse completo, ainda assim não deverá ser jamais caso de gratidão. O poder que o benfeitor manifesta ao agir pelo próximo, longe de suscitar o reconhecimento, engendra inveja ou rivalidade. Elevando-se acima do favorecido, o caridoso fustiga-lhe o orgulho e causa-lhe mortificações. Desse momento em diante, o beneficiado adquire o direito à perpétua antipatia para com seu benfeitor. Aquele fará bom proveito da generosidade deste, mas o detestará138 a tal ponto que,
ao matá-lo, estará proporcionando a si mesmo um verdadeiro alívio. Ficará, assim, livre de um ser sob cujos olhos não poderia mostrar-se sem experimentar um sentimento de vergonha e servidão. Ao destruir seu benfeitor, esse sentimento se transformará necessariamente em prazer. Logo, o obséquio, ao invés de criar uma amizade, produz um ódio implacável. Essa reflexão comprova o ridículo e o perigo de fazer favores aos homens. A dissertação acaba e eles partem.
No tribunal, Juliette consegue inocentar-se do roubo incriminando uma das jovens com a qual compartilhou os excessos na casa do duque de Dennemar. Sua atitude é amplamente parabenizada. O instrutor só chama a atenção da estudante para as orgias de Duvergier, não para proibi-la de frequentá-las, mas para adverti-la de que a alcoviteira só arranja libertinos
137 H.J., pp. 359-360. 138 H.J., p. 360.
cujas paixões cruéis levarão a aprendiz à ruína. Tudo poderia ter sido evitado se a adolescente houvesse confiado seus gostos ao mestre que, incentivando cada um deles, daria festas mais prazerosas e menos perigosas. Por fim, ele informa que é ao ministro de Saint-Fond que a principiante deve sua liberação e que ele deseja conhecê-la naquela mesma noite. Para fechar o episódio com chave de ouro, a perversa mocinha duplamente culpada é, justamente por isso, duplamente recompensada: Noirceuil lhe promete uma indenização de dez mil libras pelas trinta e seis horas de prisão, além de uma comissão do ministro de mil escudos (verba que este deveria ter repassado aos hospitais)139.
3. Elogio do parricídio
A narração do jantar com Saint-Fond e de todos os acontecimentos que a ele se seguem serão guardados para o próximo capítulo, já que dizem respeito ao ministro em particular. Para continuar a argumentação de Noirceuil, adiantaremos nosso estudo à segunda parte do romance, na qual Juliette passa a morar sozinha, mas sob as ordens do ministro. Ela mantém, entretanto, uma forte amizade com seu segundo professor. Num dado dia, Saint- Fond anuncia que ela será encarregada de um crime no ministério: matar seu pai, respeitável funcionário de sessenta e seis anos que criava entraves às torpezas do filho. Noirceuil é incumbido de explicar à pequena devassa todos os detalhes do homicídio. Ao notar que a ideia do parricídio a alarmava, enuncia um discurso para dirimir a atrocidade que ela supunha haver no crime do qual a incumbiam140.
Segundo o libertino, o parricídio é uma ação legítima, pois não há ligação entre um ser humano e a pessoa que o colocou no mundo por meio do ato sexual. Consequentemente, não há diferença entre o parricídio e o homicídio. É a opinião pública que confere àquele uma gravidade maior do que a este. Contudo, a opinião é baseada no preconceito e não na natureza, pois esta não indica a filiação de ninguém nem o tipo de sentimento que um filho deve nutrir por seu pai141. Se a natureza jamais nos aponta nossa procedência, é porque ela
deseja que sejamos indiferentes para com nosso genitor. No ato da progenitura, o homem ocupa-se de seu próprio regozijo e nunca pensa no fruto do coito. O cuidado que ele dá à criança tampouco é desinteressado, pois um pai apenas segue os costumes do país no qual habita e adula seu próprio orgulho pela obra que fez142. Se o interesse é a medida geral de
139 H.J., pp. 362-364. 140 H.J., pp. 399-400. 141 H.J., p. 400. 142 H.J., p. 401.
todas as ações do homem, há menos mal em matar um pai que outro indivíduo: um filho pode ter razões pessoais mais fortes contra seu pai do que contra qualquer outra pessoa.
Para Noirceuil, há ainda outra consideração metafísica que não podemos perder de vista: se a velhice é a rota da morte, a natureza aproxima o homem de seu fim ao envelhecê- lo. Logo, aquele que mata um idoso apenas realiza as intenções naturais. A existência do velho é inútil à terra, pois ele consome o alimento que fará falta ao jovem ou que aumentará de preço devido ao grande número de consumidores.
Finalmente, o parricídio não é crime, mas uma ação excelente: meritória com relação a si mesmo, pois serve ao homicida; louvável para com à natureza, pois a descarrega de um peso oneroso; e digna de elogio, visto que pressupõe um homem suficientemente enérgico e filósofo para preferir a si mesmo a seu pai. No que diz respeito a Juliette, Noirceuil garante que é uma ação ainda mais primorosa, pois destruirá o inimigo de seu amante, conservará o homem graças a quem ela desfruta uma posição bastante próspera e aumentará sua renda com o pagamento de duzentos mil escudos143! A resposta da cortesã não surpreende: “Que Saint-
Fond se apresse a me enviar seu pai, ele estará morto duas horas depois de entrar na minha casa”144.
4. Crítica do ciúme
Noirceuil e Juliette começam a discutir os procedimentos para o assassinato do pai do ministro. A conversa divaga e nossa heroína aproveita para pedir alguns conselhos ao amigo, perguntando se Saint-Fond ficaria enciumado dos excessos que ela pratica em sua ausência. O libertino assegura que isso jamais ocorreria, pois não apenas o ministro diverte-se com as devassidões da aprendiz, mas ressente que elas não sejam mais intensas. A ocasião pede outra dissertação.
O libertino esclarece à jovem que o ciúme é um movimento pessoal puramente egoísta, em nada favorável à mulher. O homem não sente ciúmes porque a ama, mas sim porque tem medo da humilhação caso uma traição seja descoberta. A prova disso é que todo amante prefere ver seu objeto de afeto morto a infiel: a inconstância aflige mais do que a perda. O celerado conclui que, depois de se apaixonar, ficar enciumado é a segunda maior extravagância que um homem pode cometer. Esse sentimento é desonesto para com a mulher,
143 H.J., p. 402.
144 “Que Saint-Fond se hâte de m'envoyer son père, il est mort deux heures après son entré chez moi” (H.J., p. 403).
pois prova que o homem não a estima, aflitivo para si próprio e sempre inútil, já que expor o medo da traição é um meio certo para provocar no outro a vontade de trair145.
Ciúme e medo da infidelidade são preconceitos produzidos pelo costume de vincular o moral ao físico146. Afinal, tanto é possível dormir com uma mulher sem amá-la, como amá-la
sem dormir com ela. O coração não deve tomar parte numa situação que só diz respeito ao corpo, já que amor e sexo são dois desejos ou necessidades bem diferentes. Não é preciso amar para gozar e, sobretudo, é suficiente gozar para não amar. Sentimentos de ternura funcionam conforme os humores e as conveniências, e não estabelecem relações com o corpo. As belas formas de uma jovem podem, segundo o gosto, excitar vivamente as comoções físicas sem produzir o mesmo efeito nas morais. O herói frisa que tal explicação não é válida para as infidelidades que Saint-Fond permite à Juliette. A questão nesse caso é outra, há um sentimento de libertinagem que determina o comportamento do ministro. Ele goza ao saber que sua amante está nos braços de outro e se excita ao vê-la prostituir-se147.
5. Da necessidade da hipocrisia
Todavia, se entre os libertinos não existe ciúmes e o desejo em si é estimulado pela multiplicação dos deboches e dos parceiros, o mesmo não ocorre com o resto da sociedade. Noirceuil adverte a adolescente que, embora suas transgressões causem excitamento nele e em Saint-Fond, com os outros homens é preciso ter um pouco de hipocrisia, um vício essencial àquele que tem a felicidade de possuir todos os outros. Com arte e falsidade é possível conseguir tudo o que desejamos, uma vez que o mundo não precisa da virtude, mas apenas da aparência de virtude. Porém, o professor ressalva: as mulheres debochadas devem portar a máscara de virtuosas sem nunca se deixar levar pelo entusiasmo desse caminho. É importante esconder aquilo que amamos, mas não a ponto de demonstrar uma afetação exageradamente pudica. A indiferença deve, portanto, ser cultivada para não chamar a atenção dos outros.
Se todos os homens assumissem seus vícios, a hipocrisia não seria necessária. Falsamente persuadidos de que a virtude tem vantagens, eles a defendem com unhas e dentes. Nesse contexto, o melhor é agir como eles: expor uma falsa virtude e dissimular todos os vícios. Além disso, a hipocrisia, ensinando-nos a lograr o outro, facilita uma infinidade de crimes: um ar desinteressado promove a confiança do próximo, que se deixa usar
145 H.J., p. 405. 146 H.J., pp. 405-406. 147 H.J., p. 406.
ingenuamente. E essa maneira secreta e misteriosa de satisfazer as paixões torna o gozo infinitamente mais vivo148.
A hipocrisia pregada por Noirceuil também parece ter sido uma lição tirada do
Examen du matérialisme do abade Bergier. Como o antifilósofo não tinha confiança na força
de dissuasão das leis, ele previu que, fazendo bom uso da habilidade e da hipocrisia, o homem mais torpe poderia ser facilmente reconhecido como o mais honesto:
“As leis ameaçam qualquer um que ouse infringi-las; e o que importa suas ameaças, se estamos protegidos da punição? [...] O homem mais astuto, mais pérfido, mais hipócrita, o mais hábil em esquivar-se das leis, evitar o desprezo e a cólera de seus associados, é por consequência o mais virtuoso”149.