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5. Kapittel - Myndighetsaktørene og datamaterialet

5.4 Klima og forurensningsdirektoratet (Klif)

No salão da casa de campo, enquanto o celerado dorme, a cortesã dispõe as três virgens que arranjara para a noite nuas como as Três Graças, contrastadas pela família de Cloris acorrentada, cujos ferros molestavam a pele despida, coberta apenas por um tecido negro. Delcour, o executor, fantasiado de demônio do inferno e armado de uma espada, segurava a ponta da corrente e a puxava de tempos em tempos para dilacerar as partes carnudas por ela envolvidas. Quatro mulheres de Juliette (que a serviam nas lubricidades do dia-a-dia) posavam como Vênus Calipígia, adornadas por uma gaze preta e branca, oferecendo as nádegas a Saint-Fond150 ainda adormecido. Para finalizar o quadro, dois criados

nus e abraçados beijavam-se e masturbavam-se.

O ministro acorda e se encanta pela cena galante montada por sua amante. Ele separa o

149 Id., ibid., p. 43, (itálico do autor). 150 H.J., p. 466.

pai da esposa e da filha, condenadas a sofrerem sob os olhos do patriarca, atado a um poste, todas as luxúrias desejadas pelo libertino. Este violenta primeiro a mulher, depois a filha, enquanto é sodomizado. Considerando tudo pouco violento, arma-se de um estilete para amplificar os suplícios: o sangue escorre. Parte então para a violação do senhor Cloris, continuando com os golpes de estilete, de forma que o sangue das damas caia na cabeça do cavalheiro. Sem conseguir ejacular, o libertino pede que uma das Vênus limpe com a boca os excrementos que cobriam seu caralho. Demonstrando repugnância, a jovem é açoitada até decidir obedecer.

Saint-Fond sodomiza mãe e filha sem, contudo, conseguir gozar. Parte para as chibatadas, imprimindo centenas de golpes nas vítimas. Juliette solta o pai e promete-lhe a vida caso sodomize o ministro. A esperança convence o miserável que, coagido a ser incestuoso para não ser assassinado, faz o mesmo com a filha. Para terminar essa primeira cena, Saint-Fond enraba a senhorita Cloris enquanto Delcour corta-lhe o pescoço lentamente com uma navalha. A cabeça tomba, o pai desmaia. A mesma operação recomeça, agora com a mãe. Mais uma cabeça rola. Por fim, o pai sofre a degolação e o terrível celerado finalmente ejacula. Juliette descreve a desordem do amante: “Oh, Céu! Se Lúcifer gozasse, ele faria, acredito, menos barulho; ele caluniaria menos, dirigiria aos deuses blasfêmias e imprecações menos abomináveis”151.

A trupe passa para uma nova sala onde a aprendiz reúne as sete mulheres e os dois empregados. A decoração é macabra: nossa narradora expõe estrategicamente os membros amputados das vítimas nas paredes do recinto mobiliado com vários instrumentos de tortura. A nova sessão é iniciada com as já conhecidas manias escatológicas de Saint-Fond: as mulheres devem evacuar uma por vez em sua boca. Dos excrementos, ele parte às fustigações e aos suplícios sangrentos, entretendo, em seguida, cada vítima privativamente num gabinete. Era nessa medonha entrevista que, secretamente, o celerado anunciava a morte de cada uma delas. Todas as três virgens expiram nas abomináveis máquinas de tortura: a sala é banhada de sangue. O libertino por fim ejacula num delírio tal que é levado à cama quase desfalecido, mas ainda assim com forças para desejar Juliette ao seu lado durante toda a noite152. A heroína

não deixa de assinalar a frieza de seu mestre: “Esse notável libertino, tão calmo como se ele tivesse acabado de fazer a ação mais meritória, dormiu dez horas sem acordar e sem a mais

151 “Oh Ciel ! si Lucifer se mêlait de décharger, il ferait, je crois, moins de bruit ; il écumerait moins, il adresserait aux dieux des blasphèmes et des imprécations moins épouvantables” (H.J., p. 474).

152 Para ler a narrativa do massacre da família de Cloris e das torturas que se seguem a ele na íntegra, ver H.J., pp. 466-480.

leve marca da agitação”153.

2. Introdução

Ao despertar, “para provar que é ‘o maior celerado da terra’, Saint-Fond faz suceder às suas crueldades práticas uma dissertação sobre a transgressão”154. Nesta, ensina a sua pupila o

processo pelo qual ela deve elevar as sensações ao grau de maior intensidade possível. É importante ressaltar que a teoria do ministro funciona como uma continuação ou uma reelaboração da dissertação de Delbène sobre o crime e da dissertação metafísica de Noirceuil sobre a dor. O tema é o mesmo, a diferença está na abordagem do personagem. Saint-Fond dá novos desdobramentos às ideias de intensivismo já abordadas pelos primeiros mentores de Juliette e enfatiza que o gozo é, sobretudo, um “fenômeno de eletrização”155 maximizado com

o auxílio da imaginação.

Vimos que a transgressão no deboche é uma forma de amplificar as percepções físicas por meio de um abalo energético exponencialmente maior. Para agitar de tal maneira as partículas elétricas que circulam dentro dos nervos, é fundamental executar ações fora do ordinário que proporcionem, por meio do contraste com o habitual, um choque no libertino. Logo, o sucesso dessa operação depende em boa parte do trabalho inventivo da imaginação. As chamadas “bizarrices da mente”156 aclamadas pelo ministro são necessárias para conceber

perversões que quebrem as regras sociais, produzindo enormes desvios de conduta. É por esse motivo que Saint-Fond vive sob o imperativo de transgredir, primeiro, as normas da sociedade, depois e cada vez mais, suas próprias atitudes, acentuando progressivamente seu comportamento excêntrico e violento.

É claro que a transgressão é imprescindível a todo devasso, mas o preceptor tirano é o único vilão cujas ações e princípios são em todos os aspectos surpreendentes, principalmente para seus comparsas. A transgressão do herói, exemplificada com suas cores mais vivas na teoria do Ser supremo em maldade, extrapola os sistemas lógicos e os limites da matéria, subvertendo os pressupostos libertinos e as bases mais sólidas do ateísmo. Isso posto, vamos à

153 “Cet insigne libertin, aussi calme que s'il fût venu de faire l'action la plus méritoire, dormit dix heures sans s'éveiller, et sans la plus légère marque d'agitation” (H.J., p. 481).

154 “Pour prouver qu'il est « le plus grand scélérat de la terre », Saint-Fond fait succéder à ses cruautés pratiques une dissertation sur la transgression” (Delon, “Notes de H.J.”, op. cit., p. 1450, nota 1 da p. 481). 155 “[...] phénomène d'électrisation” {Jean Molino, “Sade devant la beauté”, in Centre Aixois d'Études et de

Recherches sur le dix-huitième siècle, Le Marquis de Sade, Actes du Colloque d'Aix-en-Provence (19-20 février 1966), Paris: Armand Colin, 1968, p. 148}.

156 “[...] ces bizarreries de tête qui ne sont connues que de libertins comme moi [...]” (H.J., p. 386), (itálico nosso).

dissertação do celerado.