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3. Kapittel - STS-feltet og Becks risikosamfunnsteori

3.2 Ulrich Beck og risikosamfunnsteorien

3.2.3 Becks forståelse av risikobegrepet

Noirceuil argumenta que, uma vez admitida sua hipótese, fica evidente que “o costume do homem, nos seus prazeres, é procurar comover os objetos que servem ao seu gozo da mesma maneira que ele próprio é comovido, e que tais procedimentos são o que chamamos, na metafísica do prazer, de efeitos de sua delicadeza”161. Roland Barthes nos indica um trecho

divertidíssimo de uma carta de Sade a sua esposa, na qual ele responde ironicamente o pedido

156 “[...] une espèce de plante absolument matérielle [...]” (ibid.). Delon indica que La Mettrie havia publicado o L’Homme Plante em 1748 (“Notes de H.J.”, op. cit., p. 1439, nota 3 da p. 412). Na obra, La Mettrie faz uma analogia entre o homem e o reino vegetal. Aproximando o ser supostamente mais dotado de alma daquele que não deve ter nenhum respingo de tal substância etérea, o filósofo refuta a existência da mesma. 157 “[...] du peu de rapport [...]” (H.J., p. 412). Segundo o Trévoux, “em Química, entende-se por relação

[rapport] ou afinidade, a disposição que certas substâncias têm a se unir quimicamente a outras substâncias por preferência. O ácido e o álcali têm entre eles relação e afinidade” (itálico do autor), (op. cit., tomo 7, p. 153).

158 “[...] la douleur est une suite du peu de rapport des objets étrangers avec les molécules organiques qui nous composent ; en sorte qu'au lieu que les atomes émanés de ces objets étrangers s'accrochent avec ceux de notre fluide nerval, comme ils le font dans la commotion du plaisir, ils leur présentent ici des angles, les piquent, les repoussent, et ne s'enchaînent jamais [...]” (H.J., p. 412).

159 Ibid..

160 H.J., pp. 412-413.

161 “[...] l'usage de l'homme, dans ses plaisirs, est de chercher à émouvoir les objets qui servent à sa jouissance, de la même manière dont lui-même est ému, et que ces procédés sont ce qu'on appelle, dans la métaphysique de la jouissance, des effets de sa délicatesse” (itálico do autor), (H.J., p. 413).

da cônjuge para mandar sua roupa suja e usa o termo delicadeza162:

“Criatura charmosa, você quer minha roupa suja, minha roupa velha? Você sabe que isso é de uma delicadeza perfeita? Veja como eu sinto o valor das coisas. Escuta, meu anjo, tenho toda a vontade do mundo de satisfazê-la nisso, pois você sabe que eu respeito os gostos, as fantasias: por mais barrocas que sejam, eu as considero todas respeitáveis, porque não somos delas senhores e porque a mais singular e a mais bizarra de todas, se bem analisada, remonta sempre a um princípio de

delicadeza”163.

Para Barthes, a delicadeza sadiana subverte ‒ na acepção de fragmentar, pluralizar e pulverizar ‒ o sentido do gozo. É uma forma de reunir o poder de análise às possibilidades do prazer e assim potencializá-lo164. Para Annie Le Brun, o princípio de delicadeza é um

mecanismo que ressalta a singularidade, que libera o olhar erótico das escolhas estéticas da maioria. Ele supõe portanto uma relação indissociável entre desejo e excentricidade e ilustra o paradoxo entre os anseios mais bizarros do homem e sua sociedade repressora165:

“Através dele, Sade evidencia uma sorte de dandismo erótico que está longe de nos ser indiferente. Pois se poucos têm a audácia e os meios para satisfazer seus gostos mais singulares, quantos não sonham realizar as extravagâncias? O gênio de Sade é partir desse paradoxo para fazer um princípio de representação que coloca ao alcance de cada um [...] um modo de visão capaz de exaltar cada uma das singularidades, dando-lhes todo o espaço para se desenvolverem”166

.

162 No Dicionário de Trévoux, entre os vários sentidos da palavra “delicado” (délicat), encontramos: “[...] parece ter uma relação particular com o órgão do gosto e dos outros sentidos, e se diz geralmente de tudo aquilo que produz impressões doces e agradáveis. Comidas delicadas, vinho delicado, cozinha delicada, mesa delicada, delicadamente servida de modo que os alimentos sejam sofisticados e de um gosto primoroso. Perfume delicado, cujas partes, nem muito sutis nem muito grosseiras, excitam o órgão sem ofendê-lo. Música delicada, que adula agradavelmente a orelha” (op. cit., tomo 3, p. 192), (itálico do autor). Entre os significados do verbete “delicadeza” (délicatesse), há uma conotação positiva e outra negativa: “[...] com referência ao órgão do gosto. Qualidade do que adula agradavelmente o órgão. A

delicadeza do vinho, das carnes, dos alimentos consiste em ... No início dos tempos, os homens não

conheciam essa grande diversidade de alimentos e essa delicadeza perniciosa [...] que conhecemos demais no presente” (ibid., p. 193), (itálico do autor).

163 “Charmante créature, vous voulez mon linge sale, mon vieux linge ? Savez-vous que c'est d'une délicatesse achevée ? Vous voyez comme je sens le prix des choses. Ecoutez, mon ange, j'ai toute l'envie du monde de vous satisfaire sur cela, car vous savez que je respecte les goûts, les fantaisies : quelque baroques qu'elles soient, je les trouve toutes respectables, et parce qu'on n'en est pas le maître, et parce que la plus singulière et la plus bizarre de toutes, bien analysée, remonte toujours à un principe de délicatesse” (Carta de Sade de 23-24 de novembro de 1783, in Marquis de Sade, Lettres à sa femme, choix, préf. et notes de Marc Buffat, Arles: Actes Sud, 1997, p. 417).

164 Roland Barthes, Sade, Fourier et Loyola, Paris: Seuil, p. 174: “C'est une puissance d'analyse et un pouvoir de jouissance [...]”.

165 Ver Annie Le Brun, Soudain un bloc d'abîme, Sade, Paris: Gallimard, 1986, pp. 146-147.

166 “A travers lui, Sade met, en effet, en lumière une sorte de dandysme érotique qui est loin de nous être indifférent. Car si peu ont l'audace et les moyens de satisfaire leurs goûts les plus singuliers, combiens ne rêvent-ils pas d'en réaliser les extravagances ? Le génie de Sade est de partir de ce paradoxe pour en faire un principe de représentation qui met à la portée de chacun [...] un mode de vision capable d'exalter chacune de ces singularités en leur donnant tout l'espace de se développer” (id., ibid.), (itálico da autora).

Partindo das interpretações de Barthes e Le Brun, é possível entender a palavra

delicadeza em três conotações diferentes. Num primeiro momento, o termo é neutro e remete

às preferências sexuais particulares de cada um. Quer o sujeito mais sentimental, quer o celerado cruel, todos possuem seus princípios de delicadeza, ou seja, desejos específicos que, sendo bizarros ou não, conduzem ao orgasmo se realizados. Noirceuil explica que, embora a satisfação de cada gosto resulte num efeito diferente, o homem violento e o afável agem por um motivo idêntico, que é empregar no objeto do prazer os mesmos meios que utilizam em si próprios para alcançar o gozo: “constrangendo você às minhas volúpias duras e brutais, ajo pelos mesmos princípios de delicadeza que o amante efeminado, que conhece somente as rosas de um sentimento do qual eu só admito os espinhos”167. A delicadeza seria então uma

espécie de identidade, uma assinatura erótica, sempre revelada na maneira pessoal de estimular o outro sexualmente.

Num segundo momento, o termo é qualificado e abarca dois sentidos, um positivo e outro negativo. Dependendo do contexto, evoca o refinamento e a intensificação das paixões ou a inapetência destas. Há portanto uma oposição entre a delicadeza do libertino (pesquisada e enérgica) e a do sujeito sentimental (simples e inerte). Esta passa a ser depreciada a favor daquela. Noirceuil, devido à sua organização corporal resistente, prefere a brutalidade, rejeitando toda sensação que esteja vinculada à ternura e ao sentimentalismo: “mas eu dispenso essa delicadeza efeminada, porque é impossível que ela possa comover órgãos construídos tão fortemente quanto os meus”168. O devasso esclarece que “o ser

verdadeiramente apaixonado pelas volúpias da luxúria”169 jamais mistura a lascívia com a delicadeza. Esta é na verdade o veneno dos prazeres, pois ela diminui a fruição ao pressupor

uma partilha inconcebível a quem quer gozar. Como não há paixão mais egoísta que a lubricidade, é preciso ocupar-se unicamente de si.

O herói enfatiza que a vítima não deve experimentar prazeres, mas sim impressões vivas. Como a dor é uma sensação mais viva do que o prazer, ela causa maior comoção nos nervos. Isso explica por que muitos libertinos só conseguem manter a ereção e ejacular quando cometem atos da crueldade mais atroz170. Consequentemente, quanto mais bela, mais

virtuosa, mais inocente e desafortunada for a vítima, maior será a força do abalo. Lágrimas e

167 “[..] en vous contraignant à mes voluptés dures et brutales […], j'agis par les mêmes principes de

délicatesse que l'amant efféminé qui ne connaît que les roses d'un sentiment dont je n'admets que les épines

[...]” (H.J., p. 414), (itálico nosso).

168 “[...] mais cette délicatesse efféminée je la lui laisse ; parce qu'il est impossible qu'elle puisse émouvoir des organes construits aussi fortement que les miens [...]” (ibid.), (itálico nosso).

169 “[...] l'être véritablement passionné pour les voluptés de la luxure [...]” (ibid.). 170 Ibid..

pedidos de misericórdia não atenuam a agressividade do crápula. Muito pelo contrário, tais apelos inflamam ainda mais o facínora, pois quanto maior o contraste entre a doçura da vítima e a violência do carrasco, maior será a intensidade do choque produzido. Uma vítima inerte, que nada sente, não causa impacto. No entanto, se não é possível ter sempre belos objetos para servir de veículo ao prazer, o vilão aconselha seus comparsas a compensar essa falta com outros pequenos deleites, como apreciar o espetáculo do infortúnio alheio171.