4. Kapittel – Metodisk tilnærming
4.2 Tekstanalyse og datamaterialet
Para Juliette, o programa em nove pontos de seu amante merece uma leve explicação: “Eu gostaria que o senhor me provasse que não existe realmente nenhuma diferença entre o homem escravo e a besta”125. Saint-Fond explica que, quanto à formação dos homens, há uma
extrema diferença entre aqueles nascidos na primeira classe e aqueles que nasceram na segunda. Embora o libertino não use o termo “sociedade de castas”, ele enuncia indiferentemente as palavras “casta” e “classe” para identificar uma “escala” (échelon) de valor evolutivo entre os seres. Para designar a elite que tudo pode, utiliza “primeira casta” ou “primeira classe”, enquanto aqueles que devem ser explorados são a “casta escrava” ou a “classe dos homens na escravidão”126.
O ministro não acredita que as diferenças sejam estabelecidas pelo luxo e pela
123 “[...] sage éloigné des illusions du monde, soucieux de se préserver l'espace d'une liberté privée qui est ici liberté de penser, de parler et de vivre sa sexualité” (id., ibid.).
124 Leo Strauss, “On a forgotten kind of writing”, in What is political philosophy?, Chicago: University of Chicago Press, 1988, pp. 221-232.
125 “Je voudrais que vous me prouvassiez qu'il n'existe réellement aucune différence entre l'homme esclave et la bête” (H.J., p. 464).
educação nem que todos sejam iguais no estado de natureza. Para ele, não há semelhança alguma entre pessoas nascidas em classes divergentes. A natureza impõe uma gradação na formação dos seres de modo que haja uma escala natural de evolução. Nesta escala, a primeira casta ocupa o pico e o homem do povo ‒ originário do macaco e similar a ele ‒ a base. Seguindo seu raciocínio, se a natureza observa gradações com tanto rigor em todas as suas criações, não seria lógico que ela negligenciasse, nesse sentido, a espécie humana. Por isso, o herói propõe uma sociedade na qual os indivíduos sejam classificados por meio de uma escala de valor evolutivo, justificando dessa maneira a superioridade de uns em relação a outros127.
Na sua argumentação, Saint-Fond retoma o Le Bon Sens de d'Holbach, nota Delon128.
Nesta obra, o filósofo defende a diversidade, assim como a superioridade entre os seres humanos. Ele compara a dessemelhança entre indivíduos com a que existe entre o homem e o cavalo ou o cachorro. O ministro, como vimos, faz a mesma analogia, mas opta pelo exemplo do macaco. Com a referência indireta a d'Holbach, ele dá por provada a desigualdade natural, atribuindo ao déspota e à sua elite uma posição naturalmente privilegiada e, consequentemente, o direito adquirido de gozar com o usufruto totalitário do outro:
“Portanto, não duvide mais, Juliette, dessas desigualdades; e já que elas existem, não hesitemos em delas aproveitar e em nos convencer de que, se a natureza quis nos fazer nascer na primeira dessas classes de homens, é para gozarmos à vontade o prazer de acorrentar o outro e de fazê-lo despoticamente servir a todas as nossas paixões e a todas as nossas necessidades”129
.
Dessa forma, o Estado idealizado por Saint-Fond é indiferente ao público subalterno: trata-se de máquinas de trabalho ou de objetos sexuais, sem voz nem vontade reconhecida, descartados tão logo deixem de ser funcionais. O domínio dessa massa de vítimas baseia-se na força, no terror, no jugo religioso e na falta de conhecimento. Para o libertino, um povo amedrontado, crente e ignorante dificilmente se rebelará. Não há, portanto, contradição entre a escravidão extrema do povo e os princípios da natureza no discurso do devasso. A desigualdade natural sustentada pelo celerado retoma Hobbes, refletindo a teoria da diversidade das organizações individuais130 e o estado de guerra gerado pelo conflito dos
127 Ibid..
128 Delon, “Notes de H.J.”, op. cit., p. 1448, nota 1 da p. 465.
129 “Ne doutez donc plus, Juliette, de ces inégalités ; et dès qu'elles existent, ne balançons pas à en profiter, et à nous convaincre que si la nature a bien voulu nous faire naître dans la première de ces classes d'hommes, c'est pour jouir, à notre gré, du plaisir d'enchaîner l'autre, et de la faire despotiquement servir à toutes nos passions et à tous nos besoins” (H.J., p. 465).
130 Ver Luiz Roberto Monzani, Desejo e Prazer na Idade Moderna, Campinas, SP: Editora da Unicamp, 1995, p. 85: “Essa teoria de Hobbes sobre a diversidade das constituições individuais nos diferentes sujeitos e, no próprio sujeito (que, na falta de uma melhor expressão, podemos denominar de ‘teoria das organizações
interesses particulares. Na natureza, a sobrevivência é sempre precária e depende unicamente de capacidades como força, riqueza, influência, etc. Nesse aspecto, o crápula compartilha os argumentos de seu amigo íntimo: o conflito natural de interesses justifica o imperativo de deleitar-se não importa às custas de quem131.
Aliás, o déspota imaginado pelo ministro personifica e enfatiza todas as críticas de Noirceuil acerca da legislação: o governante é justamente o crápula que se enriquece subjugando tolos por meio de leis arbitrárias. Se já é difícil prevalecer no estado de natureza, tão mais o será no estado civil, onde as correntes são legalmente impostas à maioria para o regozijo da minoria. Dentro de um governo que só quer punir e gozar e uma sociedade conivente e predatória, os desfavorecidos são lançados aos leões. O rico é sempre o vencedor, enquanto o pobre está fadado a perder desde o nascimento:
“Se o materialismo unifica todos os seres que são meramente animais do ponto de vista da natureza, o elitismo libertino reconstitui um dualismo entre corpos consumidores e gozadores e seus escravos, seus colonizados, reduzidos a trabalhar e a sofrer. Uma economia produtiva é imposta a estes para melhor assegurar àqueles luxo, preguiça e prazer.
“Os corpos escravos, animalizados, mecanizados, inscrevem-se ainda numa economia: eles fornecem sua força de trabalho, sua produção de sangue, de esperma, de merda, seu poder genesíaco, sua própria carne, aos corpos dos soberanos que invertem essa economia e só consomem para não produzir, só copulam para não procriar, só vivem para impedir os outros de sobreviver”132.
Por fim, convém assinalar que o marquês, como mostra Lever, deixa claro em suas cartas seu preconceito pelo povo e a incompreensão a respeito da classe que ele próprio julga extremamente inferior: “O decreto da Assembleia nacional iguala os homens, mas ele não assimila, ele não reúne o homem à besta, e Conil [o tabelião de Mazan], depois disso, na obrigação de sentir essas distâncias que ele esquece, deveria, ao invés de me escrever,
retornar ao estábulo, pedir aveia e se calar [...]”133. Lever explica que Sade olha com horror
individuais’), assim como a respeito do relativismo do bem e do mal, levando-se em consideração os homens na sua ‘condição natural’, exercerão uma prodigiosa e maciça influência em todo pensamento materialista do século XVIII”.
131 É o que foi dito a respeito de Noirceuil, na análise do estado de descivilização.
132 “Si le matérialisme unifie tous les êtres humains qui ne sont que des animaux du point de vue de la nature, l'élitisme libertin reconstitue un dualisme entre les corps consommateurs et jouissifs et leurs esclaves, leurs colonisés, réduits à travailler et souffrir. Une économie productive est imposé à ceux-ci pour mieux assurer à ceux-là luxe, paresse et plaisir. Les corps esclaves, animalisés, mécanisés, s'inscrivent encore dans une économie : ils fournissent leur force de travail, leur production de sang, de sperme, de merde, leur pouvoir génésique, leur chair même, à des corps souverains qui inversent cette économie, ne consomment que pour ne pas produire, ne copulent que pour ne pas procréer, ne vivent que pour empêcher les autres de survivre” (Michel Delon, “Le corps sadien”, in Europe, revue littéraire mensuelle, Sade / Le Grand Guignol, 76e année, nº 835-836, Paris: Europe et les Auteurs, nov.-dec. 1998, p. 30).
133 “Le décret de l'Assemblée nationale égalise les hommes, mais il n'assimile point, il ne réunit point l'homme à la bête, et Conil [le notaire de Mazan], d'après cela, devant sentir ses distances qu'il oublie, devrait, au
os movimentos revolucionários, pois, como todo aristocrata, foi habituado a considerar o povo como uma criança irresponsável, temendo a imprevisibilidade de seus atos e o risco em que colocam a existência de sua classe134. Entretanto, nada disso impede o cidadão Louis Sade de
manter a aparência de bom republicano, reforçada pelos anos de cárcere na Bastilha, para poupar o pescoço da guilhotina e tentar lucrar ‒ hipótese nada impossível para Lever135 ‒ com
o movimento.
Com a conclusão desse discurso, Saint-Fond, embalado pelos vapores do jantar, dorme profundamente. Juliette aproveita o sono do amante para organizar a cena do deboche com a família de Cloris. A descrição dessa terrível orgia será, porém, adiada por um momento para permitir o término do estudo da teoria política do ministro.