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Hvordan defineres risiko, og hva identifiserer myndighetsaktørene som risiko?

6. Kapittel - Myndighetsaktørenes håndtering av nanoteknologi i lys av

6.1 Hvordan ønsker myndighetsaktørene å kontrollere risiko knyttet til bruk av nanoteknologi?

6.1.1. Hvordan defineres risiko, og hva identifiserer myndighetsaktørene som risiko?

Segundo as indicações de Delon183, a expressão “Ser supremo” tem uma dupla

tradição: é um nome clássico, ortodoxo para Deus, e uma expressão de sentido deísta para os iluministas. Durante o Terror, Maximilien de Robespierre mostra ser herdeiro dessa dupla tradição ao propor o culto do Ser supremo por meio de um sistema de festas nacionais religiosas. Seu objetivo era “unir os patriotas católicos e os filósofos patriotas numa mesma adoração da República e de Deus”184, livre das antigas disputas. Inicialmente, o movimento de

descristianização (lançado na Convenção Nacional em 5 de novembro de 1793) baniu os ritos católicos e protestantes em prol da celebração de divindades como a Razão, a Moral e a Virtude. Mas logo em 21 de novembro, temeroso com os avanços do ateísmo, Robespierre dá fim à campanha anticristã, substituindo-a pela condenação dos ateus185. Para Delon, a teologia

de Saint-Fond, além de remeter ao maniqueismo, funciona como uma paródia do credo recomendado pelo Incorruptível.

Jean Deprun esclarece que, a princípio, o rito do presidente do Comitê da Salvação Pública tinha uma função também dupla: “consagrar o sucesso da descristianização, mas oferecer às massas que eram antes católicas uma rede de cerimônias próprias para satisfazer suas aspirações religiosas sob formas isentas de qualquer superstição”186. De acordo com o

especialista, ao substituir aquilo que desejava destruir, o novo culto anticlerical reconstituía a unidade e a coesão dos republicanos no plano espiritual.

Mais precisamente, Deprun187 aponta que na festa do 20 prairial (8 de junho de 1794)

um ritual dramatizado colocava fogo no “Ateísmo” (um monstro de papel), oferecendo-o como sacrifício ao Ser supremo. O pontífice-sacrificador era, claro, Robespierre. O “Ateísmo” ‒ entendido como aristocrático, antissocial e contrarrevolucionário ‒ estava cercado por sua corte maldita: representações de estopa da “Ambição”, do “Egoísmo”, da “Discórdia” e da falsa “Simplicidade”, também sacrificadas. Das cinzas do monstro surge a “Sabedoria”: a

183 Delon, “Notes de H.J.”, op. cit., pp. 1458-1459, nota 1 da p. 536.

184 “[...] rallier les catholiques patriotes et les patriotes philosophes dans une même adoration de la République et de Dieu” (Albert Mathiez, “Robespierre et le culte de l'Être suprême”, citado por Jean Deprun, “A la Fête de l'Être suprême : les ‘noms divins’ dans deux discours de Robespierre”, in De Descartes au Romantisme:

études historiques et thématiques, Paris: Vrin, 1987, p. 157).

185 Ver Lever, op.cit., pp. 510-511.

186 “[...] consacrer le succès de la déchristianisation, mais offrir aux masses hier encore catholiques un réseau de cérémonies propres à satisfaire leurs aspirations religieuses sous des formes dégagées de toute superstition” (Jean Deprun, “A la fête de l'Être suprême”, op. cit., p. 157).

187 Jean Deprun, “Robespierre, pontife de l'Être suprême : note sur les aspects sacrificiels d'une fête (1794)”, in

filha do Ser supremo “consola o homem de bem que o Ateísmo queria reduzir ao desespero”188. Por fim, o Ser Supremo se incarna simbolicamente, delega sua filha aos

homens e Paris é sacralizada.

Deprun afirma que “Ser supremo” é um conceito originário do teólogo francês Pierre de Bérulle (1575-1629)189. Mais que um fim, o termo designa Deus como uma “deidade

fontal”190, ou seja, o princípio de tudo, a fonte inesgotável da existência. É, pois, o “sintoma

lexical de uma espiritualidade ontológica”191. Para Robespierre, a ideia do Ser Supremo e da

imortalidade da alma era essencialmente social e republicana, “um chamado contínuo à justiça”192. Deprun frisa, porém, que os atos ritualísticos do Incorruptível não eram tão

inofensivos como poderiam aparentar. No seu primeiro discurso-sermão, há a pregação de uma guerra santa, na qual o Ser supremo confere aos franceses a missão de destruir os inimigos divinos, que eram os mesmos da nação e da revolução. A eliminação dos ateus reforçaria a República e a crença no Ser supremo. Com efeito, de imolação em potencial, o Grande Terror mostrou que o sacrifício simbólico da festa do 20 prairial tornar-se-ia imolação em ato193.

Durante a Revolução, embora Sade tenha feito de tudo para provar seu patriotismo e mascarar sua origem nobre com uma imagem de cidadão jacobino em luta contra o despotismo, sabemos que tais atos eram somente uma forma de se adequar às circunstâncias: “Muito cético sobre o valor dos homens, muito pessimista, muito estranho à ilusão de uma moral política, Sade não acredita mais no ideal revolucionário do que acreditava antes no ideal cristão. A única verdadeira revolução que conta para ele [...] é a da escrita”194. Não

obstante, alguns dos poucos momentos revolucionários que coincidem de fato com os ideais por ele defendidos em suas cartas são, além da monarquia constitucional no início do movimento, a descristianização, observa Maurice Lever195. E tais períodos, frisa o biógrafo,

foram poucos e curtos, pois o primeiro resultou no Terror e o segundo, no Ser supremo.

188 “[...] console l'homme de bien que l'Athéisme voulait réduire au désespoir” (Plan de la fête à Être suprême,

qui doit être célébrée le 20 prairial, proposé par David, et décrété par la Convention nationale , citado por

Deprun, “Robespierre, pontife de l'Être suprême”, op. cit., p. 180). 189 Deprun, “A la fête de l'Être suprême”, op. cit., p. 168.

190 “[...] « déité fontale » [...]” (id., ibid., p. 169).

191 “[...] symptôme lexical d'une spiritualité ontologique [...]” (id., ibid.).

192 “L'idée de l'Être suprême et de l'immortalité de l'âme est le rappel continuel à la justice ; elle est donc sociale et républicaine” (Robespierre, citado por Deprun, “Robespierre, pontife de l'Être suprême”, op. cit., p. 182, nota 19).

193 Deprun, “Robespierre, pontife de l'Être suprême”, op. cit., pp. 181-183.

194 “Trop sceptique sur ce que valent les hommes, trop pessimiste, trop étranger à l'illusion d'une morale politique, Sade ne croit pas plus à l'ideal révolutionnaire qu'il ne croyait hier à l'ideal chrétien. La seul vraie révolution qui pour lui [...] c'est celle de l'écriture” (Maurice Lever, op. cit., pp. 474-475).

Quanto ao Terror, informa Lever, Sade tinha horror à morte institucional provocada pela guilhotina: para ele, uma “odiosa expressão de princípios abstratos”196. E, no que diz

respeito aos ritos de Robespierre, nosso romancista nutria tanta aversão por cultos pagãos ou deístas quanto pelos cristãos197. Sua repulsa torna-se certamente ainda maior quando, em 8 de

dezembro de 1793, é preso devido à arbitrária lei dos suspeitos. Esta rezava que todos os inimigos da revolução, confessos ou presumidos, ficariam presos até a paz. Denunciado provavelmente por um de seus colegas da seção de Piques, as acusações consistiam de casos prescritos de libertinagem e de uma candidatura à guarda real em 1791. Na verdade, é evidente que os colegas da seção não ficaram nada convencidos com a atuação de sans-

cullote do marquês198.

Lever observa que Robespierre, também cidadão da seção de Piques, não apenas conhecia Sade, como nutria-lhe grande antipatia e até possível ódio. O Incorruptível desprezava a libertinagem e o ateísmo, julgando ambos reveladores da decadência aristocrática. Na época em que a Convenção Nacional havia formalizado a descristianização (5 de novembro de 1793), Sade é encarregado por sua seção de redigir e pronunciar a petição que renegava todos os cultos salvo o da liberdade (15 de novembro de 1793). Uma semana depois do pronunciamento do cidadão Sade, Maximilien toma conhecimento da petição e responde a ele e a todos aqueles que pensavam que Deus estava morto: o ateísmo era aristocrático e a ideia de um grande Ser, popular. No 18 floréal (7 de maio de 1794), Robespierre funda o culto do Ser supremo como religião de Estado e o ateísmo passa a ser ilegal199.

Lever assinala que, nas semanas próximas à festa do 20 prairial, o Terror tomava “proporções neronianas”. Dois dias depois, em 10 de junho de 1794, Robespierre apertava o cerco com uma reformulação ainda mais severa e mais arbitrária da lei dos suspeitos, acabando com interrogatórios, testemunhas e defesas. O veredito era simples: absolvição ou morte. Na época, depois de várias transferências, Sade era mantido prisioneiro na casa de Picpus. Em 14 de junho, descobriu-se que uma misteriosa fossa cavada na frente da casa seria destinada a receber corpos decapitados. Um dia antes, a guilhotina havia sido instalada a dois passos da prisão. A partir daí, todo crepúsculo era marcado pela chegada de cadáveres que, amontoados nas fossas, emanavam o cheiro de sangue por todo o recinto carcerário, em

196 “[...] odieuse expression de principes abstraits” (id., ibid., p. 503). 197 Ver id., ibid., p. 510.

198 Id., ibid., pp. 515-521. 199 Id., ibid., pp. 523-524.

conjunto com os vapores do tomilho e do zimbro, queimados para atenuar o fedor200.

O destino do marquês jazia nessas covas fétidas. Delas, livrou-se graças à sua companheira, Marie-Constance Quesnet, que arranjou os empréstimos necessários para salvar-lhe o pescoço. Em 27 de julho, Sade deveria ter sido conduzido à guilhotina, mas não foi encontrado ou não o procuraram, não se sabe ao certo. Ironicamente, no dia seguinte, enquanto a cabeça do marquês está sã e salva, a do Incorruptível rola sob as lâminas sagradas da República. Com o fim do Terror e reconhecido pela seção de Piques como um cidadão exemplar, Sade foi liberado na metade de outubro201.

Dentro de todo esse contexto, o sarcasmo sadiano na teologia de Saint-Fond evidencia, em termos gerais, o mal intrínseco à humanidade, que exalta o terror sob a hipócrita alegação de fazer o bem; e, de modo mais particular, o gosto amargo da “justiça” do Irrepreensível pontífice do Ser supremo. Afinal, para aquele que sentiu nos olhos, no nariz, e quase na carne os efeitos sagrados do 20 prairial, a deidade de Robespierre não podia ser repensada senão como um Ser Supremo em maldade. Morbidez à parte, é preciso admirar o humor denunciador do nosso romancista: “na retaguarda, silencioso, visível somente quando conhecemos as entrelinhas do caso”202. Debrucemo-nos, finalmente, sobre a singular

dissertação do ministro.