3. Kapittel - STS-feltet og Becks risikosamfunnsteori
3.2 Ulrich Beck og risikosamfunnsteorien
3.2.4 Statens rolle i risikosamfunnet
Essa atenção direcionada ao sentimento de existência, muito longe de ser uma ideia particular de Sade, é “uma das originalidades da segunda metade do século XVIII”179 que
culminou em duas correntes opostas. De acordo com Delon, uma procurava o sentimento da existência no repouso, por meio da limitação da sensação e propunha uma existência mínima, isto é, uma recusa da energia. A outra (é esta que nos interessa) buscava o sentimento da existência na atividade, celebrava a sensação “através dos objetos externos e do eco interior que eles despertam”180. Optava assim por uma existência extremada, cujo principal objetivo
era a busca e o aumento progressivo da energia. O “doce” Saint-Lambert ‒ como o adjetiva Deprun ‒, nos comentários sobre seu próprio poema, Les Saisons (1769), explica esse imperativo de vivacidade:
“O primeiro instinto do homem [...] é a necessidade de sentir sua existência, de ter o usufruto de suas forças, de seus sentidos, de sua alma, de sua vida; nós recebemos da natureza uma abundância de faculdades e de órgãos e o homem é feliz quando o livre uso de seus órgãos e de suas faculdades lhe proporciona um sentimento vivo de seu ser”181.
Como as sensações agudas pressupõem inevitavelmente uma dose indeterminada de violência, uma existência máxima confunde os limites entre prazer e dor. No Discours sur la
nature des animaux, Buffon demonstra que as sensações distinguem-se apenas pela
intensidade da comoção que causam:
177 “[...] la théorie électrique du système nerveux pour lequel le plaisir équivaut au choc le plus violent [...]” (id., ibid.).
178 Deprun, “Sade et le rationalisme”, op. cit., pp. 82-83.
179 “[...] l'une des originalités de la seconde moitié du XVIIIe siècle” (Delon, L'idée d'énergie, op. cit., p. 281). 180 “[...] à travers les objets extérieurs et l'écho intérieur qu'ils éveillent” (id., ibid.).
181 “Le premier instinct de l'homme [...] c'est le besoin de sentir son existence, d'avoir la jouissance de ses forces, de ses sens, de son âme, de sa vie ; nous avons reçu de la nature une multitude de facultés et d'organes et l'homme est heureux que le libre usage de ses organes et de ses facultés lui donne un sentiment vif de son être” (Saint-Lambert, Les Saisons, citado por Deprun, “Sade et le rationalisme”, op. cit., pp. 85- 86).
“Tudo aquilo que afeta debilmente por esses órgãos (os nervos), tudo o que os abala delicadamente é uma causa de prazer; tudo o que os excita violentamente, tudo o que os agita fortemente é uma causa de dor. Todas as sensações são portanto fontes de prazer enquanto suaves, temperadas e naturais; mas ao se tornarem fortes demais, elas produzem dor”182
.
Ao fugir da letargia que limita a potência da sensação, com o tempo, o homem que busca a existência máxima se acostuma com uma impressão forte que lhe era outrora desagradável. Assim, a dor adquire uma nova conotação: é valorizada como um estímulo mais enérgico, capaz de proporcionar um sentimento vivo da existência. O prazer, depreciado por sua suavidade, ganha sentido de apatia e de inércia. D'Holbach, no capítulo XV do Système de
la Nature, primeiro nega a relação entre dor e sentimento de existência. Mas ele próprio se dá
conta do tamanho da sede do homem por comoções impactantes e anula sua restrição inicial:
“O homem quer sempre ser lembrado de sua existência o quanto mais vivamente lhe é possível sem sentir dor. [...] [Mas] O que eu digo [?], ele prefere frequentemente sofrer a não sentir nada e se acostuma a mil coisas que na origem deviam tê-lo afetado de uma forma desagradável e muitas vezes acabam por se transformar em necessidades ou por nem mais afetá-lo”183.
Se o barão hesita em proferir com todas as letras uma constatação demasiadamente polêmica, o “doce” Saint-Lambert se incumbe da tarefa e enuncia o que poderia ser uma teoria do masoquismo. Com a dor, argumenta, o homem passa do nada ao ser, ele volta a sentir-se vivo e livra-se da indolência:
“Ousemos dizer uma verdade que parecerá a princípio um paradoxo, é que às vezes encontramos em nós mesmos a necessidade de sentir dor. Num estado de apatia e fraqueza, existimos pouco, a vida nos parece escapar, a alma parece gasta; esse estado de languidez é para nós a passagem do ser ao nada e nós amamos sair dele pela dor, que nos lembra mais fortemente da vida”184.
182 “Tout ce qui agit mollement par ces organes (les nerfs), tout ce qui les remue délicatement, est une cause de plaisir ; tout ce qui les ébranle violemment, tout ce qui les agite fortement est une cause de douleur. Toutes les sensations sont donc des sources de plaisir tant qu'elles sont douces, tempérées et naturelles ; mais dès qu'elles deviennent trop fortes, elles produisent la douleur” (Buffon, Discours sur la nature des animaux, citado por Delon, L'idée d'énergie, op. cit., pp. 298-299).
183 “L'homme veut toujours être averti de son existence le plus vivement qu'il est possible tant qu'il peut l'être sans douleur. [...] Que dis-je, il consent souvent à souffrir plutôt que de ne point sentir et s'accoutume à mille choses qui dans l'origine ont dû l'affecter d'une façon désagréable et souvent finissent par se changer en des besoins ou par ne plus l'affecter du tout” (D'Holbach, Système de la Nature, cap. XV, citado por Deprun, “Sade et le rationalisme”, op. cit., p. 86).
184 “Osons dire une vérité qui paraîtra d'abord un paradoxe, c'est que nous trouvons quelquefois en nous le besoin de sentir la douleur. Dans un état d'apathie ou de faiblesse nous existons peu, la vie semble nous échapper, l'âme paraît usée ; cet état de langueur est pour nous le passage de l'être au néant et nous aimons à en sortir par la douleur qui nous avertit plus fortement de la vie” (Saint Lambert, citado por Deprun, ibid.).
A substituição do par prazer/dor pelo par energia/apatia não é meramente uma escolha determinada por um pico de exaltação ou de tédio: é um processo racional elaborado através da argumentação da noção de energia185. Quando vinculado à moleza e à delicadeza
efeminada, o prazer é sempre anti-enérgico, não basta àquele que deseja sentir-se vivo mediante a ação. A dor, aqui, é mais a maximização do prazer, sua versão ativa, do que seu exato oposto186. Como “o gozo nasce de uma certa intensidade, no bem ou no mal, na
felicidade ou no infortúnio”187, o sujeito que quer viver intensamente sempre buscará as
situações de energia, repudiando os estados de inércia. Essa “escolha intensivista”188 pode
inclusive ser benéfica se controlada e resguardada ao âmbito pessoal. Mas a partir do momento em que tais limites são ultrapassados, “a energia abre ao indivíduo uma rota vertiginosa”189: ela o precipita a excessos cada vez mais fulminantes, que podem lançá-lo
rapidamente do pico da existência à morte. Buffon bem observou que “a intensidade da existência diminui sua duração”190. De fato, Delon não deixa de notar que o “amante das
sensações fortes joga com sua vida e tira seu prazer dos riscos que corre”191.
O herói sadiano invocaria, pois, o fim dos seus dias para clamar a superioridade energética do gozo sexual sobre os prazeres morais192 e focar-se na dor cruciante para garantir
o pleno alcance dessa energia. Dizemos invocaria, pois o contexto ficcional do romance possibilita uma solução: deslocando toda a sua violência para o corpo da vítima, o libertino consegue sobreviver praticamente ileso193. Se por um lado o celerado pode exagerar nas
volúpias agressivas, porque é um gênero de super-herói cuja “saúde sobrenatural” repara “integralmente suas forças”194 após cada deboche; por outro, quando lhe interessa realmente
chegar ao ápice da ferocidade, ele simplesmente “desvia para o outro essa dor, de forma a
185 Ver Delon, L'idée d'énergie, op. cit., p. 301: “Le choix de la douleur n'est pas le fait du seul être passioné, entraîné par la vertige et l'exaltation, la raison peut le comprendre et l'approuver. Le couple Energie/apathie tend à remplacer celui du plaisir et de la douleur”.
186 Ver id., ibid., p. 299.
187 “La jouissance naît d'une certaine intensité, en bien comme en mal, dans le bonheur comme le malheur” (id., ibid., p. 303).
188 “[...] choix intensiviste [...]” (id., ibid.).
189 “[...] l'énergie ouvre à l'individu une route vertigineuse” (id., ibid.).
190 “[...] l'intensité de l'existence en diminue la durée” (Buffon citado por Deprun, “Sade et le rationalisme”, op. cit., p. 86).
191 “L'amateur de sensations fortes joue avec sa vie et tire son plaisir des risques qu'il prend” (Delon, L'idée
d'énergie, op. cit., p. 304).
192 Ver id., ibid., p. 307: “L'argumentation libertine se fonde du moins sur la supériorité énergétique de la jouissance sexuelle par rapport au plaisir moral”.
193 Ver id., ibid.: “[...] le déplacement de la violence sur le corps de l'autre permet au libertin de survivre”. 194 “Ses héros jouissent d'une santé véritablement surnaturelle, et peuvent après chaque orgie réparer
beneficiar-se de sua intensidade, sem ter que suportar seus dissabores”195. A vítima encarna
então o “paroxismo do sofrimento”196 para que o libertino reclame e celebre, de todas as
maneiras que ele puder imaginar, o paroxismo da existência.
Por mais chocante que possa parecer a argumentação fisiológica de Noirceuil para o prazer malicioso da máxima de La Rochefoucauld, é preciso frisar, como constata Delon, que “Sade não é um autor aberrante em seu tempo, um meteorito da nossa modernidade perdido entre os contemporâneos de Rousseau e de Chateaubriand”197. Não podemos esquecer que o
intensivismo dissemina-se na Ilustração, tornando-se um lugar comum. E de modo geral, pode-se dizer que aqueles que o rejeitam, fazem-no por razões bem superficiais, afirma Deprun198. É a partir mesmo desse intensivismo, continua o especialista, que Sade poderia ser
considerado um homem das Luzes. Nesse aspecto, ele só se separa de seus colegas ilustrados por dar um prolongamento imprevisto ao sentimento de existência199. Desenvolvimento
perfeitamente cabível dentro do contexto da ficção, cujos limites dependem da verossimilhança interna e do alcance da imaginação. A energia da natureza, assim como a do homem, extrapola todos os obstáculos, seja dos moralistas, das regras das artes ou mesmo das realidades insuportáveis.