Na obra “Factos Usos e Costumes” 59 de Leonardo Batista, é explicada como era a vida de moleiro, à qual é confirmada pela avó do autor (Filomena Tacheiro) esses mesmos factos, pois participou também ela nas ajudas ao falecido marido (Marcelo Tacheiro), principalmente na difícil tarefa de movimentar e “picar as mós".
O moleiro normalmente dedicava-se a tempo inteiro à moagem, nas tarefas inerentes à atividade molinológica, no picar das mós, na manutenção ou substituição de toda as engrenagens e peças que com o tempo sofriam desgaste, no ensacar da farinha e nas deslocações para efetuar as entregas aos fregueses, sendo que, na maior parte das vezes, eram auxiliados por uma mula, burro ou macho. Os caminhos eram de terra batida, que lhes causavam grandes dificuldades nas épocas das chuvas, enlameados e de difícil acesso. O moleiro que tivesse um macho era sinal de ultrapassar mais facilmente as condições adversas dos caminhos, animal de grande robustez e que mais facilmente rebocava uma carga maior, mas estes, eram só para os moleiros de maior poder económico.
Confirmando-se o que é sabido, relativamente ao modo de vida rural e tradicional, e tomando por base as conversas que o autor tinha com o seu avô, a arte de ser moleiro era geralmente transmitida aos filhos homens, ou aos familiares. Por norma, logo em tenra idade, com oito ou nove anos, os filhos começavam a ajudar nas tarefas do moinho, tal eram as dificuldades económicas, e a partir dos catorze anos já se encontravam em condições de poder executar a maior parte das tarefas, algumas das mais complicadas. O moinho ficava a moer durante as frescas noites de Verão à luz de uma candeia, uma vez que havia cortes de água para as regas durante o dia, e servia de alojamento, já que embora todos tivessem casa na aldeia, a verdade é que a maior parte da vida familiar dos moleiros era passada nos moinhos, sobretudo nesta época.
Durante o dia, o moleiro aproveitava o tempo para se dedicar à agricultura de subsistência e às regas, como nos confirma também o Senho Manuel Pedro (guia e moleiro da visita aos moinhos de Sanfins), e muitas das vezes, quando o trabalho apertava, a família era chamada a ajudar nas tarefas de moagem, principalmente, na entrega mais urgente do saco da farinha ao freguês ou, ficando estes a ensacar farinha, enquanto o moleiro se ausentava para a distribuição no porta a porta pela freguesia ou noutras aldeias.
A principal vantagem era o facto de ser uma profissão liberal, a atividade do moleiro era considerada uma profissão limpa, muito digna e responsável, no entanto, às vezes, duvidosa, devido à desconfiança que os fregueses lhes atribuíam pelas taleigas60 mal medidas (medidas em alqueires, um alqueire corresponde a 12 quilos); alguns dos quais apontavam o moleiro, como aquele que gostava de por a mão no saco alheio, porque aquando da entrega da farinha, o saco era entregue com a maquia em défice. A justificação que dava ao freguês é que a farinha depois de moída acamava melhor e não existia ar dentro do saco, não acontecendo o mesmo com o grão.
O cereal mais usado na moagem na freguesia de Sanfins era o centeio e o trigo, o milho pouco e menos ainda a cevada. A limpeza do sistema de moagem era realizada pelas próprias mós, o rodar das mós acabava por expelir a farinha de menor qualidade (cevada) e assim estavam prontas a receber o grão para a farinha de melhor qualidade e portanto mais usada no uso doméstico (cevada e trigo). Os moleiros cobravam dos fregueses, pela transformação do cereal em farinha, valores que oscilavam entre 10 e os 15% de maquia61, e conseguiam deter à época uma posição socioeconómica superior à dos demais trabalhadores, muitos dos quais sem garantia de trabalho anual permanente. Assim, como os restantes ofícios, esta profissão estava sujeita a pagamentos anuais de contribuição industrial e a um aferimento, também anual, dos pesos, medidas e balanças utilizados.
Os fregueses utilizavam expressões, menos abonatórias para os moleiros mas, que não passavam de uma “reinação”. Apenas ditados populares que não iam de encontro com a realidade, afinal os moleiros eram pessoas de confiança, exemplo disso, ao procederem à entrega da farinha, os fregueses diziam-lhes onde se encontrava a chave escondida de suas casas, para que abrissem a porta aquando da distribuição da farinha, isso acontecia quando os fregueses se encontravam ausentes nas tarefas agrícolas, comprovando assim a confiança neles depositada.
Os moleiros mais antigos chegaram a matar a fome a muita gente pobre, quando não havia nada para comer, os fregueses iam buscar farinha ao moinho e só devolviam o cereal aquando da próxima ceifa, outras vezes houve, em que nunca mais tiveram retorno, foram muitos os que ficaram a dever aos moleiros. Poucos possuíam engenhos próprios, comprados ou herdados de familiares, sendo que eram arrendados, aos quais a forma de pagamento era cobrado em farinha, dependendo da dimensão e número de casais de mós do moinho.
60 Taleiga é um saco pequeno para transporte de cereais e de farinha.
Com a vida do moleiro e da família em comunhão a cingir-se à volta do moinho, houve a necessidade de criar palheiros para os animais e num ou noutro caso, capoeiras, uma pocilga, hortas e pomares, bem como, em alguns casos, fornos para a cozedura do pão. Os moleiros mais antigos que existiram e que há memória em Sanfins foram o Sr. Alípio Teixeira, o Sr. António Salvador e o Sr. António Tacheiro (bisavô do autor).