3. RELATIONAL CAPITAL AND SECTORS
3.3 D ESCRIPTION AND ANALYSIS OF THE SECTORS
3.3.1. T HE SUPPLIER - DOMINATED SECTOR
5.3.2.1 A história contatada pela mulher
T. considera que é difícil falar sobre si, pois até aquele momento não havia sido questionada a esse respeito, assim responde afirmando "num sei.". Entretanto disse que acredita que tem problemas de nervosismo e intolerância. Apesar disso, faz amizades com facilidade porque é comunicativa. Acredita que já possui experiência de vida suficiente para passar para outras pessoas.
T. é solteira, vinte e três anos, nasceu no Distrito Federal, tem dois filhos menores que estão sob a tutela de sua irmã mais velha. Antes da internação morava apenas com sua mãe, porque sua irmã mais nova saiu de casa com o namorado; não pagava aluguel porque a casa pertence a sua mãe. No momento não participa de Programa Social. Concluiu ensino médio e
fez curso de espanhol, mas não concluiu. Os cursos profissionalizantes que concluiu foram: panificação, horticultura, oleicultura e artesanato, os quais foram oferecidos durante sua internação. Além destes, antes da internação, T. iniciou os cursos de informática, operador de telemarketing e recepcionista, porém devido ao uso de drogas não concluiu nenhum deles.
No dia-a-dia, quando dispõe de tempo gosta de ler. A renda da família é oriunda da pensão deixada pelo padrasto que já faleceu. Acredita que engravidou por causa do uso de droga, uma vez que os relacionamentos com os homens nunca foram sérios. Tem dois filhos, o mais velho com quatro anos e o mais novo com dois anos. Conviveu pouco tempo com os filhos, uma vez que quando o mais novo completou 15 dias de nascido, ambos foram levados para um abrigo pelo Conselho Tutelar, onde ficaram durante um ano, até a irmã mais velha conseguir a guarda provisória.
T. acredita que os filhos foram levados para o abrigo e não ficaram, sob a guarda de sua mãe, porque esta faz uso de medicação controlada de forma abusiva, o que poderia colocar as crianças em risco. Reconhece que não se relacionou com os filhos, quando menciona que estes não a chamavam de mãe, fato que passou a ocorrer depois desta internação.
Apesar de conhecê-lo, porque ele sempre pagou a pensão, não conviveu com o pai biológico. Exceto sua mãe, todas as pessoas de sua família fazem ou fizeram uso de álcool e/ou drogas. T. observa que todos os relacionamentos de sua mãe foram com alcoólatras. Tem duas irmãs por parte da mãe e uma por parte do pai com a qual não conviveu. A mais velha tem 33 anos e a mais nova tem 19 anos.
Considerando que "tudo é droga", T. inicia seu relato dizendo que iniciou o uso de drogas pelo cigarro aos treze anos. Entretanto, T. relatou episódio de embriagues aos sete anos, que ocorreu em casa, com sua mãe e o padrasto, que a flagraram bebendo escondido, durante um churrasco em sua residência, e que como forma de punição, a obrigaram a beber algumas doses de 51. Posteriormente, aos 14 anos, começou a beber com regularidade. Aos quinze anos experimentou maconha e chá de beladona, na seqüência iniciou o uso de cocaína, passando para o haxixe e em seguida para o crack, quando fumava um baseado junto com um rapaz, que na época era seu amigo.
Sua primeira internação para parar de usar drogas, realizada em uma Casa de Recuperação Evangélica localizada em Planaltina-DF, ocorreu porque ia perder a guarda dos filhos depois de denúncia feita pelos vizinhos. T. relatou que antes desta internação, já havia sido internada por várias vezes, incluindo a Comunidade terapêutica na qual se encontra
internada no momento de realização da pesquisa, entretanto em nenhuma dessas oportunidades T. estava disposta a parar de usar drogas, "queria só engordar um pouquinho". T. já esteve presa devido a denúncia de agressões feita por sua mãe (Lei Maria da Penha), entretanto T. afirma que nunca a agrediu.
Quando saiu da primeira prisão, T. foi encaminhada para uma instituição de acolhimento para mulheres que sofreram violência doméstica, e considerando o uso de drogas, a instituição a encaminhou para tratamento, o que ocorreu no período de 08 a 24 de dezembro. Nesse período residia no abrigo e era atendida no CAPS, mas como estava próximo do natal e havia descoberto que sua mãe estava doente, desistiu do tratamento, saiu do abrigo e voltou para a casa da mãe.
Posteriormente, depois de abordada pela equipe do consultório de rua, ficou internada no CAPS durante quatorze dias, com a expectativa de ir para uma internação em Comunidade terapêutica, mas antes de internar resolveu usar mais um pouco, então saiu, usou droga durante alguns dias e retornou a sua casa. Sua mãe a levou novamente ao CAPS, ela foi novamente internada mas fugiu do tratamento.
A internação atual, é decorrente de sentença judicial. T afirma que não estava traficando quando foi presa, estava com uma pedra na mão e alguns objetos roubados na mochila, e que o policial colocou a pedra que estava na sua mão dentro de sua mochila e disseram que era tráfico. T. acredita que a prisão foi efetivada porque já haviam outros mandatos de prisão devido a denúncias de agressão física que sua mãe havia feito contra ela. T. Não relatou suas expectativas quanto aos tratamentos realizados.
Considerando que nas tentativas de tratamento realizadas anteriormente, na modalidade de internação T. não estava disposta a parar de usar drogas, visto que em suas palavras T. "queria só engordar um pouquinho", não há como identificar possíveis resultados uma vez que não houve adesão ao tratamento. Entretanto, no que se refere ao tratamento ambulatorial realizado no CAPS, para ela não foi possível identificar resultados, tendo em vista que nessa metodologia a utilização de medicamentos dificulta a reflexão sobre si mesma e sobre sua realidade.
T. disse que quando chegou estava com a "mesma cabeça que saí do presídio...”; imaginava que iria passar somente uma semana internada e iria fugir novamente. Mas depois da abordagem feita pela equipe da instituição, conseguiu entender a importância de parar de usar drogas e quer concluir o tratamento.
5.3.2.2 A história contata pela família
A Sra. A., mãe de T., não se recorda a idade de T. quando percebeu pela primeira vez que ela estava usando drogas. Disse que desconfiou primeiro do rapaz que morava com a filha mais velha, depois de uma briga entre T. e essa irmã. Disse que entrou em desespero e começou a procurar tratamento para T. A primeira tentativa foi uma internação em Goiânia, mas T. fugiu no mesmo dia, tendo retornado a Brasília e chegado em casa primeiro que sua mãe.
Apesar disso, a Sra. A. insistiu em tratá-la, mediante outras internações as quais totalizaram seis tentativas, sendo que T. fugiu de todas elas. Devido à idade de T. na época, a Sra. A. conseguiu as internações por intermédio do Conselho Tutelar. Informou ainda que a família não recebeu nenhum tipo de orientação ou tratamento por ocasião das outras internações.
Para conseguir que T. fosse internada novamente, a Sra. A. relata que, com auxílio de alguns conhecidos, preparou uma armadilha para que T. fosse presa como se estivesse portando droga em quantidade suficiente para ser considerada traficante. Após a prisão, a Sra. A. conseguiu, também com a ajuda de algumas pessoas conhecidas que T. fosse transferida para uma instituição de tratamento, que é a Comunidade terapêutica na qual estava internada no momento da realização desta pesquisa.
No que diz respeito às expectativas acerca da atual internação, A. relatou que foi tranqüilizada pela promotora de justiça, que lhe disse "lá dentro ela estaria sendo tratada
como ser humano, não como bicho como acontece na rua...", e, ressaltando que irá apoiá-la
no que for necessário e possível, espera que ao concluir o tratamento T. esteja disposta a procurar um emprego para trabalhar e cuidar dos filhos.