2. INTELLECTUAL CAPITAL AND RELATIONAL CAPITAL
2.1 I NTELLECTUAL C APITAL AND REPORTING
2.1.1. I MPORTANT ASPECTS OF THE RELATIONAL CAPITAL
A família é o local para receber auxílio, tendo em vista constituir-se do contexto natural para oportunizar o crescimento do indivíduo, garantir o pertencimento e promover a individuação (Sanches, 2012; Penso, Costa & Sudbrack, 2008).
De acordo com Penso, Costa e Sudbrack (2008), problemas relacionados ao uso de drogas estão localizados na esfera da relação do indivíduo com o meio, decorrentes da interação entre variáveis individuais e contextuais. Mulheres usuárias de álcool e/ou outras drogas, são pessoas que se desenvolveram no contexto de um grupo familiar que possui características próprias as quais definem as interações que ocorrem entre seus membros. Partindo dessa afirmação, o uso de drogas passa a ser visto não mais como um problema individual, mas como um sintoma da família, que tem como função denunciar falhas no sistema familiar e social. As interações acima mencionadas estão presentes também nas ações desenvolvidas tanto pelas mulheres usuárias de álcool e/ou outras drogas quanto por seus familiares, no trajeto percorrido em busca de tratamento.
Comportamentos disfuncionais como o uso abusivo de álcool e/ou outras drogas inicialmente negados pelo indivíduo, em geral são mantidos em segredo, primeiramente pelo próprio indivíduo e em segundo nível, pelo grupo familiar. Esconder da família o uso abusivo de álcool e/ou outras drogas, caracteriza uma estrutura defensiva do adicto, que tem por objetivo auxiliá-lo a evitar intimidade com os problemas vivenciados no contexto familiar, assim como com seus próprios sentimentos. Esses comportamentos cedo ou tarde apresentam- se de forma clara diante dos olhos do indivíduo e do grupo familiar que costuma estar paralisado em decorrência do segredo mantido (Krestan, & Bepko, 1994).
Para Silva (2011), levando em consideração que o uso abusivo de álcool e/ou outras drogas é uma problemática complexa, a oferta de atendimento e suporte ao dependente químico, deve ser realizado por intermédio de uma “rede saudável” que tem seu início na família, passando pela comunidade na qual essa família está inserida, além de englobar o contexto social do indivíduo, de forma a atender as demandas que surgem no ciclo da drogadição, algumas dessas imprevisíveis.
Levando em conta esses aspectos, e em especial para vencer a paralisação, é importante que o grupo familiar reconheça a necessidade de sua inclusão no processo
terapêutico. Assim, conhecer a trajetória de mulheres usuárias de álcool e/ou outras drogas, dentro dos serviços de atenção e tratamento, implica em conhecer também a participação da família dessas mulheres tanto na busca pelo tratamento como no tratamento em si.
Segundo Moreira (2004), em algumas famílias ocorre a alternância do comportamento de uso abusivo de álcool e/ou outras drogas entre a pessoa em tratamento e outros membros do grupo familiar. É importante que o tratamento do uso abusivo de álcool e/outras drogas seja necessariamente sob a perspectiva da integralidade, confirmando a impossibilidade de tratar somente o usuário, sem incluir o sistema familiar no tratamento, tendo em vista que todos são atingidos pelos efeitos e conseqüência do uso de drogas por qualquer de seus membros (Orth & Moré, 2008; Penso, 2001)
Figlie, Milagres e Crowe (2009), ao apresentarem sua experiência de prevenção realizada na periferia de São Paulo, consideram que a capacidade de lidar com a dependência química, assim como a responsabilidade pela estabilidade familiar, está relacionada com o nível de informação que a família possui sobre a dependência química e com o grau de fortalecimento dessa família para o convívio com o usuário de álcool e/ou outras drogas.
Ao investigar a percepção dos familiares de usuários de álcool e/ou outras drogas em relação ao tratamento em comunidade terapêutica, Silva, Pinto e Machineski (2013) relatam que, em muitas das vezes, é importante esclarecer aos familiares o compromisso que eles tem com a pessoa em tratamento tendo em vista que os familiares demonstram acomodação diante da realidade denotando falta de interação para as mudanças no ambiente familiar necessárias para o sucesso da recuperação da pessoa em tratamento. Por outro lado, a família muitas vezes desconhece as mudanças ocorridas na pessoa durante, e em conseqüência do tratamento, devido a falta de seu envolvimento efetivo. Neste contexto a família apresenta-se temerosa diante do retorno da pessoa ao convívio familiar.
Da mesma forma Figlie, Payá, Krulikowski, e Laranjeira (2002), observam que a terapia familiar deve ser considerada como parte do tratamento - sem prescindir de um programa de prevenção de recaídas - tendo em vista que durante o tratamento é esperado que a família aprenda novas formas de lidar com a problemática do uso abusivo de álcool e/ou outras drogas.
Partindo do princípio que o usuário de álcool e/ou outras drogas é um ser em relação, Zampieri (2004) afirma que trabalhos na área de tratamento ou prevenção não podem prescindir da família. Essa afirmação está ancorada na observação da autora de que pessoas que convivem de forma direta ou indireta com alguém que apresenta algum tipo de
dependência de álcool e/ou outras drogas, em geral, apresentam comportamentos mal adaptativos e compulsivos aprendidos e desenvolvidos na convivência familiar, com o objetivo de sobreviver quando se encontrarem em situações de grande estresse ou dor prolongada. Além disso, a autora ressalta que muitas vezes comportamentos aprendidos são repassados no convívio familiar e tendem a manter-se, mesmo quando já destoam das demandas mais recentes, como comportamentos resistentes à mudança.
Para Moreira (2004), a família é foco de atenção em diversas modalidades de tratamento de saúde. No que tange ao tratamento de usuários de álcool e/ou outras drogas, a autora ressalta a importância da participação da família nesse tratamento tendo em vista a concepção de que a dependência atinge todo o sistema familiar onde se encontram pessoas usuárias de álcool e/ou outras drogas. Em estudo realizado com familiares de usuários abusivos de drogas internados em hospital do Município de São José dos Campos, Wenzel e Paula (2010) observaram que diante da importância da família na vida do dependente químico e ainda, das interações que se estabelecem entre família e dependente, é importante estar atento para os sinais e sintomas da co-dependência, tornando necessário que o tratamento dispensado a este seja extensivo aos familiares.
Stempliuk e Bursztein (1999), também vão ressaltar a importância da participação da família no tratamento para provocar uma mudança efetiva no comportamento do dependente químico. Para o autor conhecer “quem é essa família” é tão esclarecedor sobre os usuários em tratamento quanto as entrevistas e anamneses clínicas realizadas com os próprios usuários.
Acerca da abordagem da família no tratamento da dependência química, Aleluia (2010) observa que é fundamental incluir a família desde a abordagem inicial do problema até a manutenção do tratamento e a prevenção da recaída. Nesse contexto, a abordagem terapêutica para essa clientela, deve levar em conta:1) a ausência de informação da família acerca do problema e sobre o adoecimento familiar, 2) a necessidade imediata da mudança dos padrões do relacionamento familiar disfuncional e 3) a importância da manutenção das mudanças efetivadas, geradoras de padrões mais saudáveis para o grupo familiar.
Para Seadi e Oliveira (2009), a família é uma instância protetora no caso de uso e/ou abuso de substâncias. Deste modo, recomendam que, o quanto antes, deve ser oportunizado tratamento para o usuário e para sua família, em especial quando a dependência química já for um fato. Moreira (2004) ao discutir a participação dos familiares no tratamento de dependentes químicos, assim como a eficácia de instrumentos grupais para intervenção no grupo familiar, conclui que considerando a complexidade da dependência familiar, esta
também merece atenção na busca constante de aprimoramento. Assim sendo, a participação da família no tratamento é fundamental (Kalina, 1999; Penso, Costa & Sudbrack, 2008).
Kalina e Kovadloff (1988), consideram que o processo de tratamento do usuário abusivo de álcool e/ou outras drogas, está ligado à transformação das estruturas do sistema social em que ele está inserido e onde teve início o uso de drogas. Dessa forma, para tornar possível o tratamento dessa pessoa, assim como para apoiá-la no processo de mudança de comportamento na busca por uma vida sem o uso de álcool e/ou outras drogas, é necessário que aconteça mudanças não apenas para o usuário, mas também no contexto no qual ele está inserido, que elimine, até onde seja possível, a possibilidade de proliferação do uso de drogas. Como afirma Kalina (1991) os grupos de orientação dos familiares e amigos, podem ajudá-los a modificarem-se e por conseqüência, colaborarem com o membro da família em tratamento. Desde modo, o autor, em sua pratica clínica recomenda sessões de terapia familiar para todos.
Esta postura de valorização da inclusão da família no tratamento não é apenas de pesquisadores e autores individuais, mas também de organizações que tratam do assunto como o National Institute of Drug Abuse - NIDA. A orientação do referido instituto é que o tratamento a usuários de drogas deve abordar as diversas necessidades de uma pessoa, e não apenas o seu abuso de drogas. Isso que dizer que, o tratamento para ser abrangente, deve ter em conta idade, gênero, etnia e cultura, além da gravidade da dependência e os esforços anteriores de parar de usar drogas, que também podem influenciar no tratamento. Além disso, o NIDA ressalta que a combinação entre ambiente de tratamento, programa e serviços, específicos para o nivel de necessidade da pessoa é a chave para o seu sucesso no momento de voltar a uma vida produtiva (NIDA, 2012).
Silva, Macedo, Derntl e Bergami (2007), também afirmam que as famílias necessitam de tratamento multi e interdisciplinar muitas vezes de urgência clínica, por vivenciarem situações consideradas pelos autores como muito graves. Essa conclusão é reforçada pela constatação dos autores de que o dependente de drogas muitas vezes assume, no contexto familiar, a posição de elo entre os membros, assim como o papel de algoz do grupo.
Para Moraes, Braga, Souza, e Oriá, (2009), é importante considerar, além do adoecimento, as dificuldades e necessidades do grupo familiar, tendo em vista que esses aspectos podem influenciar diretamente na evolução do problema vivenciado pelo grupo. Na vivência do grupo familiar, os membros influenciam e são influenciados entre si. O co- dependente exerce influência sobre a pessoa em tratamento, razão pela qual deve ser chamado
a participar desse tratamento. Dessa forma, integrar a família na dinâmica de atenção a pessoa em tratamento pode facilitar sua recuperação.
Neste sentido, Magalhães e Féres-Carneiro, (2005), afirmam que a organização da família ocorre a partir do material psíquico transmitido coletivamente, transformando-o a partir de sua própria herança geracional, ou seja, cada indivíduo acrescenta sua marca ao tempo em que recebe as transmissões dos demais. Surgindo a partir da sua inscrição no contexto familiar e no social, o indivíduo é alvo do investimento do grupo tanto para protegê- lo quanto para apoiá-lo nas dificuldades decorrentes da imaturidade humana.
No que diz respeito especificamente ao tratamento de mulheres usuárias de álcool e outras drogas, um estudo realizado por Nóbrega e Oliveira (2005) com mulheres usuárias de álcool em instituição de tratamento especializada, registra que as mulheres raramente comparecem para o atendimento, seja individual ou em atividades grupais, acompanhadas por algum familiar. Além disso, o estudo registra que essas mulheres em geral solicitam que seus familiares não sejam informados sobre a busca pelo tratamento, devido ao medo de fracassarem nessa busca e à vergonha caso isso ocorra.
Durante o processo de resgate do indivíduo, a família pode ser uma grande aliada. Entretanto, no desempenho dos papéis de co-dependentes, os familiares podem, por vezes, colocar a pessoa que está em tratamento em situações consideradas de risco, mediante comportamentos não adequados à recuperação da pessoa, tais como existência de um contexto familiar caótico, monitoramento parental ineficiente, falta de vinculação mútua, entre outros. (Seadi, 2007). Para a autora, não são raros os casos em que os familiares boicotam o tratamento mediante atitudes extremistas ou com comportamentos negativos para a pessoa em tratamento, evidenciando assim a importância da participação da família, inclusive no processo terapêutico sob a forma de terapia sistêmica.
De acordo com Aleluia (2010), a abordagem da família pode ser realizada de várias formas, sendo importante conhecer os motivos que levaram a família a buscar ajuda ou tratamento, assim como observar como essa família está se relacionando com a problemática do uso abusivo de álcool e/ou outras drogas, uma vez que essas informações podem sugerir pistas importantes acerca das dificuldades e/ou entraves sistêmicos que atuam como mantenedores da dependência química.
Mesmo sendo muito importante o envolvimento da família no tratamento, Seadi e Oliveira (2009) afirmam que apesar de nossa sociedade estar convivendo com o aumento de problemas relacionados ao uso abusivo de álcool e outras drogas, acarretando o
envolvimento de muitas famílias, ainda existem poucas pesquisas que tratem de intervenções focadas na família.
Na tentativa de melhor compreender as famílias de usuários abusivos de álcool e/ou outras drogas, Matos, Pinto, e Jorge (2008), realizaram pesquisa com o objetivo de analisar a percepção dos familiares de um grupo de orientação familiar em dependência química, comparando o comportamento dos participantes antes e após o término das sessões, no que se refere a: conduta familiar, expectativas, sentimentos, motivos e conceitos acerca do problema. Como resultado dessa pesquisa, os autores observam que a família deve ser vista e tratada como um dos fatores considerados “peças-chave” no processo de recuperação do dependente químico, sendo que a realização de grupos de orientação familiar com caráter informativo e educativo pode apresentar bons resultados não apenas por responder às demandas dos familiares com relação ao uso de álcool e/ou outras drogas, mas também como recurso que poderá contribuir para a melhoria das relações familiares influenciando na possibilidade do usuário motivar-se para iniciar e/ou manter-se em tratamento. Para estes autores apesar de estar sendo bastante estudada, as várias propostas para a inclusão da família no tratamento de usuários abusivos de álcool e/ou outras drogas, ainda não apresentam consenso sobre o tipo de abordagem a ser utilizado.