4. RELATIONAL CAPITAL AND INTERNATIONALIZATION OF ORGANIZATIONS 58
4.2. C HALLENGES TOWARDS INTERNATIONALIZATION
Nesta Zona de Sentido, discutiremos as estratégias de saída da comunidade terapêutica, das mulheres que estiveram em tratamento, e suas famílias, com relação a reorganização de suas vidas após o tratamento.
Com o objetivo de facilitar a compreensão dos diferentes pontos discutidos nesta Zona de Sentido, assim como na anterior, foi feita uma divisão de acordo com os principais eixos e seus respectivos indicadores.
1 - As estratégias de saída da comunidade terapêutica, na perspectiva das mulheres internadas
A conclusão do tratamento em regime de internação caracteriza um marco na trajetória das mulheres internadas. Para T. e M. F., o retorno ao convívio com seus familiares e as conseqüentes implicações desse convívio, são vistos com medo e incertezas:
T.: "eu tenho medo de sair daqui ".
M. F.: "eu num gosto de pensar não, porque eu tenho medo. O dia de sair vai ser triste".
A esse respeito, Moraes, Braga, Souza, e Oriá, (2009), afirmam que algumas mulheres da sua pesquisa, apesar de estarem felizes com a mudança no estilo de vida, tinham medo de viver essa nova vida mesmo não conseguindo identificar que sentiam esse medo. As mulheres entrevistadas para a atual pesquisa foram capazes de identificar o medo que sentiam da saída da comunidade terapêutica.
No caso de I. este momento também se apresenta revestido de medo e incertezas. Entretanto, esta participante se percebe em processo de preparar-se para este evento, e parece ter encontrado na sua relação com os aspectos espirituais do processo terapêutico, um referencial no qual pretende apoiar-se nesta nova fase de sua vida.
I.: "lógico que não vou mentir, assusta um pouco mas eu to me preparando pra isso e quem me ajuda é Deus".
Com a certeza de que a vida fora da comunidade terapêutica deverá ser diferente tanto daquela vivida antes e durante a internação, I. se fortalece na fé para enfrentar esse novo momento de sua vida, uma vez que tem consciência de que só pode contar consigo mesma:
I.: "porque eu rezo, eu não tinha esse hábito de rezar, de ir pra Capela e pedir serenidade, pedir sabedoria, pedir as coisas que eu necessito pra dar continuidade na minha vida. Porque eu num, posso contar com mais ninguém a não ser Deus e o apoio que eu to tendo aqui".
C., por sua vez, vislumbra mudanças gerais em sua vida:
C.: "eu sei que quando eu sair daqui eu vou ter que mudar tudo... até os lugares e pessoas".
A colocação de C. vai ao encontro dos resultados encontrados por Oliveira et al., (2014) em sua pesquisa, em que evidenciou-se que as mulheres utilizam como estratégia para manterem-se afastadas do uso de álcool e/ou outras drogas, o distanciamento de locais considerados como sendo "área de risco". Para isso, além de andar com pouca quantidade de dinheiro e evitar consumir outra substância que possa desencadear a vontade de usar sua droga de preferência, elas também procuram se afastar dos amigos com os quais usavam drogas e dos locais que costumavam freqüentar para esse uso. A exposição da pessoa a fatores ambientais que estão associados ao uso de drogas pode produzir uma resposta condicionada que incite o sujeito ao uso (Colle, 2001; Oliveira et al., 2014).
A conclusão do tratamento em regime de internação aponta para a mudança nos paradigmas até então vigentes nos contextos de origem das mulheres, gerando a certeza de mudança nos próprios padrões de comportamento e de estabelecimento de novos projetos:
C.: "eu num coloquei essas metas ainda pra mim não, metas assim a longo prazo não né? porque assim, eu quero começar tudo novo na minha vida, sabe? a única coisa que eu sei é que eu preciso começar tudo novo na minha vida".
Enquanto M. acredita que ao sair da comunidade a vida será diferente, T. se preocupa com o retorno ao mesmo contexto, pois reconhece que sua família continua sendo a mesma:
M.: "as vezes eu falo assim: “não vou planejar porque quando a gente sai daqui é tão diferente do que a gente planeja".
T.: "eu tenho medo de sair daqui, lá em casa não mudou nada, quem mudou fui eu".
O pensamento de T. vai ao encontro dos resultados apresentados em estudo realizado com o objetivo de conhecer a percepção dos familiares de usuários de álcool e/ou outras drogas em relação ao tratamento realizado em uma comunidade terapêutica localizada na cidade de Cascavel - PR, os quais apontam para modificações no ambiente familiar que ocorrem com a presença do usuário, visto que as relações com a família sofrem alterações,
assim como as relações com o mundo externo de forma geral. (Silva, Pinto, & Machineski, 2013).
Considerado que o uso abusivo de álcool e/ou outras drogas é uma problemática complexa, Silva (2011), recomenda que a oferta de atendimento e suporte a esse usuário, deve ser realizado por intermédio de uma “rede saudável”, que se inicia na família, passando pela comunidade na qual essa família está inserida.
Desse modo, o tratamento para usuários abusivos de álcool e/outras drogas deve necessariamente ser realizado sob a perspectiva da integralidade, ratificando a impossibilidade de tratar somente o usuário, sem incluir o sistema familiar, uma vez que, por tratar-se de um sistema, todos são atingidos pelos efeitos e conseqüências do uso de álcool e/ou outras drogas por qualquer de seus membros. (Orth & Moré, 2008; Penso, 2001)
C. acredita e espera contar com o apoio de seu irmão, ainda que este não tenha acompanhado e participado do seu tratamento, uma vez que este, devido a morte de sua mãe, é o familiar mais próximo dela:
C.: "meu irmão mais novo vai me apoiar, a minha cunhada né?, apesar de todas as adversidades que já existiu né? entre nós, mas eu acredito que isso aí é uma coisa que, que já passou".
Além disso, por ser a única das mulheres internadas que possuía vínculo empregatício antes de ser internada, C. planeja retornar ao seu emprego para dar continuidade a sua vida junto com seus filhos:
C.: "eu sei que eu vou retornar pro meu serviço né?, e vou, resgatar os meus filhos né?, pra morar comigo".
Parece que estes depoimentos de C. vão ao encontro do resultado obtido por Carbonera, Gonçalves-Silva, Nascimento-André e Legal (2013), que aponta como aspecto essencial na vida de mulheres que estão em tratamento em comunidade terapêutica, o resgate dos laços familiares tanto da família ascendente quanto da família descente, visto que "quando as mulheres relatam o desejo de resgate familiar, é porque este vinculo está rompido ou prejudicado". (p. 111)
Por outro lado M. F., apesar de não estar formalmente empregada, possui muita disposição para o trabalho e espera poder voltar a estudar para trabalhar em uma comunidade terapêutica, preferencialmente naquela que no momento está internada:
M, F.: "Mas eu quero trabalhar, e o que mais me motiva é a minha vontade de, de trabalhar, porque eu gosto, por enquanto eu vou trabalhar com ela lá né? Mas depois, se eu pudesse, fizesse meus curso eu queria trabalhar aqui ajudando o povo".
2 - As estratégias de saída da comunidade terapêutica, na perspectiva dos familiares das mulheres internadas.
Da mesma forma que as mulheres internadas, os familiares demonstram apreensão quando se referem a saída do contexto de internação para retornar ao convívio da família. Ainda inseguros sobre que comportamento adotar com relação a sua familiar que sairá da internação, uma das preocupações dos familiares também diz respeito a duvida sobre como será o comportamento dela ao retornar ao mesmo contexto, tendo em vista inclusive a necessidade de trabalhar pela própria subsistência:
Irmão de I.: "tenho receio de saber como é que vai ser, porque além do problema da droga ela tem um temperamento explosivo. Eles, discutem muito, gritam muito, falam muito, então eu num sei se isso pode até mesmo ser amenizado com todo esse tratamento. ... "E assim, a preocupação é só nisso né?, ela vai sair, aí como ela é mãe de família, ela tem, o menino tá trabalhando, mas ela tem uma filha de quinze anos, então ela tem que sustentar essa filha né? e tem que trabalhar".
A esse respeito, Silva, Pinto e Machineski (2013), registram que, diante da perspectiva de retorno ao convívio familiar após o tratamento em regime de internação, sentimentos de medo e insegurança além da expectativa de convivência difícil, também estão presentes entre familiares de usuários abusivos de álcool e/ou outras drogas.
Para Moraes, Braga, Souza e Oriá (2009), ao experimentar outra vivência diferente da co-dependência, os familiares ficam com medo de que tudo não passe de uma sonho ou fantasia, e que a qualquer momento tudo pode voltar a ser como antes da internação. Permanecendo na expectativa de que algo ruim pode acontecer com seu familiar recém-saído do tratamento, a família teme a recaída, e esse temor se transforma em medo do futuro.
A família tem sido foco de atenção em diversas modalidades de tratamento de saúde, sendo que com relação ao tratamento de usuários de álcool e/ou outras drogas, participação da família nesse tratamento é importante, uma vez que os problemas decorrentes do uso abusivo de álcool e/ou outras drogas atinge todo o sistema familiar, onde algumas vezes se encontram mais de uma pessoa usuária. Em algumas famílias ocorre a alternância do comportamento de
uso abusivo de álcool e/ou outras drogas entre a pessoa em tratamento e outros membros do grupo familiar (Moreira, 2004).
A reflexão acima, vai ao encontro da preocupação do familiar, que reside na dificuldade em saber como lidar com o problema de uso abusivo de álcool e/ou outras drogas com outro membro da família:
Irmão de I.: "e também o enfrentamento com o filho né? sobre essa questão da droga como é que vai ser, se ele é usuário".
Segundo Figlie, Milagres e Crowe (2009), a capacidade de lidar com o uso abusivo de álcool e/ou outras drogas, assim como a assunção ou não da responsabilidade pela estabilidade familiar, está relacionada com o nível de informação que a família possui sobre esse uso e com o grau de fortalecimento dessa família para o convívio com o usuário de álcool e/ou outras drogas.
Além disso, o medo e a dúvida sobre a efetiva mudança de comportamento de sua familiar, geram ansiedade levando a família a procurar outras alternativas para manter sua familiar sob controle:
Mãe de M.: "É esse o meu medo, não sei, tenho discutido isso no grupo. Porque comigo num dá pra morar, eu não tenho confiança que ela, não vá fazer coisas...."ele (o pai) tem uma, uma rede de conhecimento e tal, e ele talvez consegue uma moradia assistida, eu num sei bem como é que funciona isso, é, pra que ela tenha um ambiente pra que ela possa né?, que a gente possa de alguma forma ter um controle, e que ela tenha atividades né? que eles fazem e tal e tenha uma certa contenção".
A desconfiança e o medo dificultam as relações familiares, em especial quando a inserção e a participação desses familiares no processo terapêutico da pessoa internada, ocorre de modo superficial. Como conseqüência disso, aparece a insegurança, em geral oriunda do desconhecimento acerca das mudanças ocorridas com o sujeito, a qual na maioria das vezes pode ser decorrente do pouco ou nenhum envolvimento efetivo da família com o processo de tratamento da pessoa internada (Silva, Pinto, & Machineski, 2013). Assim, esses autores apontam que é importante esclarecer aos familiares o compromisso que eles tem com a pessoa em tratamento tendo em vista que muitas vezes os familiares apresentam-se acomodados diante da realidade indicando falta de atenção para as mudanças no ambiente familiar necessárias para que o tratamento tenha resultados positivos.
Figlie, Payá, Krulikowski, e Laranjeira (2002), apontam que a terapia familiar deve ser um quesito a ser considerado dentro do tratamento uma vez que durante o processo terapêutico decorrente da terapia familiar, espera-se que a família consiga incluir em seu
repertório, novas formas de lidar com a problemática do uso abusivo de álcool e/ou outras drogas.
Por outro lado, algumas famílias acreditam que sua familiar ao sair da comunidade terapêutica estará em condições de dar continuidade a sua vida e estão dispostas a ajudar nesse novo momento de suas vidas, inclusive dando continuidade ao tratamento:
Mãe de T.: "eu ainda confio que ela vai sair dessa, continuar o tratamento, continuar. Se pudesse ser aqui pra mim melhor. Porque aqui ela pode passar pra outras pessoas que tão chegando agora algo que ela viveu".
Cunhada de M. F.: "Eu acho que vai ter sucesso, eu acho ela firme, confiante, eu acho ela assim, obediente. A gente percebe que ela vai continuar participando das reuniões, vai continuar fazendo os livro, a escritinha dela, lendo livro, ela disse que vai dar continuidade".
Outro aspecto observado é que enquanto a mãe de T, se dispõe a ajudá-la, a Cunhada de M. F. transfere a responsabilidade para pessoas amigas, e o irmão de I. sente-se sacrificado:
Mãe de T.: "No meu ponto de vista, se ela precisar de ajuda, eu jamais vou negar ajuda pra ela, porque foi uma pessoa que nunca me deixou faltar nada"
Cunhada de M. F.: "Ela tá entregue à uma família muito boa, família que essa já participa de grupos Nar-anon há muito tempo, é, família que tá dando muito apoio à ela, que ficou sendo madrinha dela lá no grupo. Então essa família tá disposta a ajudar ela, a encontrar colégio, dar a apoio, a sair com ela, a participar mais das reuniões junto com ela e acompanhar os dia-a-dia dela também".
Irmão de I.: " se depois que ela sair eu também ter que tá aqui né? tudo bem, mas vai ser um sacrifício pra mim, entendeu?".
Nesta Zona de Sentido, foi possível observar que as mulheres usuárias de álcool e/ou outras drogas, ao se encontrar na eminência de concluir tratamento em regime de internação na comunidade terapêutica, e deixar este contexto para retornar ao contexto familiar encontram-se amedrontadas e inseguras. Isso ocorre porque reconhecem que diante do novo contexto, ocorrerá uma inevitável exposição aos riscos inerentes ao uso de álcool e/ou outras drogas, já mencionado no estudo da Zona de Sentido 01, além da inevitável readaptação ao novo padrão de relacionamento que terá que vivenciar, visto que as mudanças mais significativas ocorreram em si e não em seus familiares. Por outro lado, apesar de terem observado mudanças significativas com relação a sua familiar tratada na comunidade terapêutica, os familiares dessas mulheres demonstram estar divididos entre o medo e a confiança nestas mudanças.
Vale ressaltar aqui, que a instituição disponibiliza para as famílias das mulheres que são internadas para tratamento, grupo de apoio com o objetivo de orientar esses familiares com relação ao processo terapêutico ao qual as mulheres estarão submetidas durante o período de internação. Entretanto, essa atividade deixa a desejar no que diz respeito a realização de processo terapêutico similar também para os familiares, conforme apontado nesta Zona de Sentido.