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3. RELATIONAL CAPITAL AND SECTORS

3.3 D ESCRIPTION AND ANALYSIS OF THE SECTORS

3.3.2. T HE SPECIALIZED SUPPLIERS SECTOR

5.3.3.1 A história contatada pela mulher

Ao iniciar o relato sobre si mesma, M. registra que “se fosse pra falar de quando eu

tava na ativa, eu diria que eu era uma pessoa triste, amargurada, raivosa, estressada, mas hoje eu mudei muito.” Atualmente, depois de parar o uso de álcool e/ou outras drogas, e

iniciar o tratamento, M, acredita que se conhece melhor e acredita que pode ser feliz com poucas coisas, em lugares diferentes, como a área rural onde se encontra internada.

Descreve a si mesma como uma pessoa dependente, não das drogas, mas de pessoas, que não sabe viver só. As vezes mesmo em meio a muitas pessoas sente-se sozinha. Acredita que ainda não sabe como lidar com o ser humano, o que por vezes a faz ser grosseira e aparentemente agressiva, e por isso as vezes prefere ficar só. Diz que, quanto a este aspecto de sua personalidade, aprendeu muito depois que iniciou o tratamento na Comunidade terapêutica.

M. é filha adotiva, do primeiro casamento de sua mãe, em uma família que foi composta pelo casal, ela e mais dois irmãos também adotivos. É solteira, tem 34 anos e dois filhos: o menino tem onze anos e a menina tem nove anos. Ambos moram com sua mãe em São Paulo. O irmão do meio tem 32 anos e o mais novo 24. Antes da internação morava com sua companheira, que também era usuária de álcool e/ou outras drogas.

M. acredita que tem muitas habilidades, pois sabe fazer muitas coisas difíceis, como dobraduras, mas não pratica por preguiça. Aprendeu a tocar teclado e fez curso de informática, chocolate e culinária. Também iniciou curso de bijuterias, mas não quis terminar. Reconhece que perdeu um bom tempo de sua vida se recusando a usar o que aprendeu, porque queria pirraçar seu pai. Entretanto, M. trabalhou como auxiliar de secretária em uma firma de segurança, estagiou em um Ministério, trabalhou na empresa de sua mãe como secretária e no escritório do pai também como secretária.

Em sua adolescência, se considerava uma pessoa normal, mas começou a sentir dificuldade para aprender. Parou de estudar e não acredita que vai voltar porque se sente burra, pelo fato de acreditar ter um Q.I. mais baixo que de outras pessoas. Não se recorda de ter feito teste para quantificar seu Q.I., mas sabe que tem dificuldade para aprender porque quando mais jovem, esta informação foi passada a ela pelo pai, depois de conversar com uma psicopedagoga. M. afirma que sabe ler e escrever, apesar da afirmação da psicopedagoga no sentido de que ela não iria conseguir tais habilidades.

Em sua família o uso de álcool pode ser observado somente em tios, tanto paternos como maternos. Entretanto, M. observa que sua mãe não bebe porque passa mal, enquanto que seu pai bebe quando está estressado, mas acredita que ele não bebe mais porque sabe que não pode fazê-lo devido a diabetes. Apesar disso, M. registra que quando seu pai quer beber, “ele bebe demais”.

Seus pais e irmãos, mudaram-se para São Paulo devido ao trabalho de seu pai e, devido ao uso de drogas de M. levaram com eles seus dois filhos com eles. M. diz que não foi junto com seus familiares para poder ficar com sua companheira.

Descreve seu relacionamento com seu pai como “um pouco conturbado”, devido às constantes brigas. Acredita que seu comportamento grosseiro e agressivo com as pessoas, foi aprendido por intermédio do comportamento do pai que, embora sem contato físico, sempre foi muito agressivo e hostil com sua mãe, se dirigindo a ela com gritos, xingamentos e gestos de humilhação. No que tange ao relacionamento com sua mãe reconhece que é mais tranqüilo, sendo que em algumas oportunidades M. a agredia verbalmente, mas apesar de reconhecer que a mãe não merecia a grosseria, ainda não consegue pedir desculpas.

Com os irmãos a relação não é de todo ruim, mas já ficaram cerca de um ano sem conversarem. M. acredita que os irmãos deixaram de conversar com ela devido a algum comentário que seu pai fez. Com relação aos relacionamentos afetivos, relata que com o pai de seus filhos o relacionamento foi difícil, porque ele bebia muito e armava muitas brigas em casa e na rua. O segundo relacionamento, com a companheira, também não foi fácil. M. acredita que isso ocorreu porque não era fiel a ela, sempre procurando motivos para brigar e sair de casa em busca de novas aventuras.

Afirma que sua dificuldade para se relacionar com os filhos iniciou a partir do momento que eles começaram a ficar independentes. Acredita que não tem amigos porque, em alguns casos o pai os criticava muito e em outros casos devido ao seu uso de álcool e/ou outras drogas.

Embora freqüentasse uma religião onde, na época, o uso de maconha – que era identificada com outro nome - era permitido, em sua visão M. relata que seu primeiro contato com as drogas foi com a maconha e em casa com seu irmão mais novo. M. considera a primeira vez de uso com o irmão, porque quando usou, por apenas uma vez, no contexto religioso não gostou da experiência, ficou algum tempo sem usar, voltando ao uso junto com o irmão, quando estava com 18 anos.

O primeiro contato com a cocaína foi em julho de 2014, quando sua mãe disse que não poderia ir para São Paulo passar férias com seus filhos, “porque iria arrumar

confusão e dar trabalho lá...”. Ficou com raiva e foi para a rua, usou, mas não gostou do

efeito; em setembro de 2014, depois de brigar com a companheira, saiu de casa, ficou alguns dias na rua e estava desejando morrer porque estava muito gorda. Ao saber que o crack emagrece e mata, julgou haver encontrado uma solução rápida e fácil, e iniciou seu uso.

Relata que já tentou morrer tomando veneno e produtos de limpeza, mas sempre aparecia uma alma caridosa, para ajudar a socorrer e só não tentou morrer usando faca, porque a dor é muito grande. M. fez uso de medicação controlada – anti-psicótico –

durante algum tempo, paralelamente ao uso de drogas. Também fez uso de heroína, durante cerca de nove meses.

Quando ainda se relacionava com o pai de seus filhos, M. foi internada em uma instituição localizada no sul de Minas Gerais, vinculada a uma igreja do Santo Daime. Lá fazia uso do chá e aprendeu a cuidar da casa. M. menciona que, nessa época, era menor de idade e que a internação não teve como objetivo o tratamento para parar de usar drogas, visto que naquela época ela ainda não fazia uso. Para ela, a internação foi uma forma que seus pais encontraram para afastá-la do pai de seus filhos, visto que este não tinha “um passado muito

branquinho”. Ao completar 21 anos, M. deixou a instituição onde estava internada e foi

morar com o pai de seus filhos. Este relacionamento durou seis anos e nove meses.

Para interromper o uso de drogas, M. relata que esta internação foi sua primeira tentativa. Antes de ser internada, tentou controlar o uso não saindo de casa, mas não conseguiu. Sempre escondeu o uso de drogas de sua família, com a intenção de não os fazer sofrer.

Devido ao histórico de depressão, freqüentava hospital-dia em instituição da rede privadaonde fazia psicoterapia, mas não mencionava seu uso de drogas para a psicóloga, com medo que ela contasse para seus pais. Quando finalmente criou coragem e falou sobre o uso de drogas, a psicóloga contou para seus pais e a relação com eles piorou. Seu pai sugeriu nova internação no sul de Minas Gerais, mas M. não aceitou.

Na seqüência, M. foi presa por portar drogas. Ficou pouco mais de dois meses presa e depois da audiência, sua psicóloga sugeriu a internação em Comunidade terapêutica. M. aceitou a internação porque seu pai disse que seria melhor para ela, devido a sua situação jurídica, uma vez que poderia aliviar a sentença judicial, além do fato de que seria uma oportunidade para tratamento. Com relação aos tratamentos anteriores, M. não relata nenhuma expectativa específica, visto que em sua opinião, os tratamentos não estavam relacionados ao uso de drogas.

Apesar de não estar relacionado ao uso de drogas, M. acredita que o processo terapêutico vivenciado antes da internação na Comunidade terapêutica, permitiu que ela percebesse que estava vivendo em um mundo paralelo, onde a fantasia era mais presente que a realidade. Além disso, sente que a psicoterapia a ajudou a superar algumas das dificuldades nas relações familiares.

Ao internar-se na Comunidade terapêutica, M. não foi informada sobre como seria o tratamento. Imaginava que seria semelhante ao período que passou na Comunidade do Daime,

mas com o tempo descobriu que era muito diferente. Já sentiu vontade de interromper o tratamento porque em algumas oportunidades tem que enfrentar lembranças que a fazem sofrer, mas durante este tratamento descobriu que um dos motivos que a levavam ao uso de drogas era a dificuldade de enfrentar essas lembranças.

M. trouxe consigo para a internação a expectativa de tratar-se com relação ao uso de álcool e/ou outras drogas, além de conhecer-se melhor para deixar de ser amargurada e azeda, transformando-se em uma pessoa melhor, e está gostando do tratamento porque além de estar aprendendo a se conhecer melhor, tem vivido menos momentos de raiva, está conseguindo olhar-se no espelho e percebendo que é uma pessoa bonita, e principalmente que é possível resolver os problemas sem usar drogas. Acredita que mudou depois que aprendeu a rir e a sorrir, pois está conseguindo sentir felicidade. Além disso, apesar de todas as dificuldades, está aprendendo a dar valor à família à qual pertencia.

Imagina que quando chegar o dia de sair da Comunidade terapêutica será muito triste e diz que gostaria de ficar morando na Comunidade, mas ao mesmo tempo pensa em fazer muitas coisas quando esse dia chegar. Pensa que poderia voltar a estudar, a fazer chocolate, dobradura e continuar a escrever as poesias que começou durante a internação. Não quer fazer muitos planos porque não sabe se irá ficar em Brasília ou se irá morar com a família em São Paulo.

Não pensou sobre quem poderá apoiá-la quando deixar a Comunidade terapêutica, mas espera continuar forte para manter-se sem o uso de drogas, porque sabe que turbulências acontecem na vida de todas as pessoas, e ela espera que possa utilizar o aprendizado conquistado durante a internação, para conseguir lidar com essas turbulências quando estiver fora da Comunidade. Espera poder contar com o incentivo da família para dar continuidade em sua vida, uma vez que, depois de Deus, os considera como sendo sua fortaleza.

5.3.3.2 A história contata pela família

A Sra. S. mãe adotiva de M., tem 58 anos, divorciada, produtora cultural e atualmente está desempregada. Está cursando faculdade de Gestão Pública e pretende fazer concurso público. Reside em São Paulo com o filho caçula e dois netos, filhos de M.. Paga aluguel e a renda familiar é oriunda de seu ex-marido. Não participa de programas sociais. Seu ex- marido, pai adotivo de M. é da área de saúde e já trabalhou é órgão público da área. Atualmente é psicanalista.

A Sra. S. diz que somente tomou conhecimento acerca do uso de drogas de M. em 2013. Acredita que antes de ir morar com o pai de seus filhos, M. não usava drogas, nem mesmo quando foi internada na comunidade do Daime. A Sra. S. diz que o maior problema de M. não é o uso de drogas, e sim o transtorno mental, registrando que talvez preferisse que fosse só esse o problema dela.

Relata que em São Paulo, M. esteve vinculada a um programa de inserção social para jovens com deficiência mental, apesar de M. ser “o quadro mais leve” existente e apoiado pelo programa. Quando ainda moravam em São Paulo, a Sra. S. relata que M. apresentava temperamento deprimido, chupava o dedo, e ficava olhando o horizonte, razão pela qual consultaram um psiquiatra e M. foi medicada com anti-psicótico.

Em 2012, vieram para Brasília – a Sra. S., M. e os dois filhos de M. Nessa oportunidade, a Sra. S. observou que o comportamento de M. começou a ficar diferente. M. não queria fazer mais nada em casa, não ia a escola, demorava muito tempo no trajeto entre a escola e sua residência, falando muitas mentiras. A Sra. S. pediu ajuda ao ex-marido sobre o que fazer, e ele a atendeu dizendo que a Sra. S. ficasse atenta porque M. ficaria louca.

A Sra. S. relata que M. sempre esteve com ela, e que eventualmente observava comportamento sexualmente transgressor, até que finalmente descobriu “esse negócio do

homossexualismo”. Nessa época, a Sra. S. entendendo esse comportamento como um

comportamento grave, decidiu que não seria saudável para os filhos de M. continuarem morando perto dela, razão pela qual, M. passou a morar com o pai. A Sra. S. relata que na tentativa de controlar o comportamento de M. seu pai adotivo fez algumas restrições e exigências, mas ele ficou muito estressado com os pequenos furtos que M. praticava em sua casa, que acabou levando-a para consultar um psiquiatra.

Este psiquiatra recomendou que M. fosse tratada em hospital-dia, onde teria atividades regulares que ocupariam sua mente. O relato da Sra. S. foi confuso. Ora disse que acredita que foi no hospital-dia que M. conheceu uma moça que fazia tratamento para dependência química e elas começaram a namorar, ora disse que acredita que M. começou a roubar para financiar o uso de drogas da namorada e por isso começou a usar drogas também.

O tratamento em hospital-dia teve duração de cerca de 06 meses, mas foi interrompido devido a um acontecimento desagradável envolvendo M. e outros pacientes. Além disso, a instituição rescindiu o convênio com o plano de saúde, e continuar o tratamento iria acarretar uma despesa que a família não poderia honrar. A Sra. S. acredita que os profissionais que atendiam M. não tinham conhecimento que M. fazia uso de álcool e outras drogas.

A Sra. S. relata que o tratamento no hospital-dia deixou a desejar porque os pacientes não eram agrupados de acordo com o nível de comprometimento mental, além do fato de que a equipe deveria “fazer algum tipo de encaminhamento” tendo em vista que M. possui características muito específicas e que no hospital-dia tem pessoas muito comprometidas que precisam de atendimento diferenciado. Entretanto, relata que tanto a psicóloga quanto o psiquiatra que acompanhavam M. fizeram seus trabalhos corretamente.

Novamente seu relato se confunde quando afirma que, no hospital dia, esperava que M. parasse de usar drogas, e que foi um susto muito grande para todos receber a notícia que M. havia sido presa. Foi nessa oportunidade que a Sra. S. admitiu a possibilidade de M. estar usando crack.

Após a prisão de M. a psicóloga do hospital-dia recomendou a internação. Por desconhecer a metodologia de trabalho em Comunidade Terapêutica, a Sra. S. relata que sua expectativa no momento da internação era apenas que M. interrompesse o uso de álcool e outras drogas, mas com o tempo, tem observado que o trabalho da instituição vai além disso, em especial depois de ter a oportunidade de conversar com M. e verificar que ela está mais amadurecida e adulta. A Sra. S. faz ainda a observação de que não esperava esse resultado em especial porque, durante a internação M. não está fazendo uso de medicação controlada.

Com relação a saída de M. do tratamento em regime de internação, a Sra. S. diz estar preocupada porque M. não tem para onde ir. O irmão não a quer em casa; ela teme levá-la para perto dos filhos devido ao seu comportamento transgressor e seu ex-marido diz que não a quer por perto também. Disse que seu ex-marido está pensando, e providenciando, para colocá-la em uma “Moradia Assistida”, localizada em uma cidade do interior de São Paulo, tão logo ela conclua o tratamento na Comunidade Terapêutica, porque está convencido que M. é “tecnicamente” louca, e tem “um traço esquizóide” além de um retardo, que não tem jeito e, portanto, não pode conviver com o restante do grupo familiar.

A Sra. S. diz que com ela M. não pode ir morar quando sair da Comunidade Terapêutica, porque não confia mais nela, mas como mãe deve cuidar de M. pelo resto de sua vida, então sua esperança é que seu ex-marido utilize sua rede de relacionamentos e consiga logo a moradia assistida para que M. possa ser transferida.