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5.6.1 Relação da universidade com a sociedade e a comunidade.

Esta relação pode revelar de que modo as atividades de extensão estão presentes na sociedade, quais as finalidades dessas intervenções, como

entendem a recíproca entre o saber institucionalizado pela ciência e o saber produzido pela comunidade externa.

Desse modo, buscaremos articular alguns princípios metodológicos das intervenções em Psicologia Social Comunitária com os discursos dos gestores da extensão e os exemplos das práticas citadas nas entrevistas. Nós conseguimos captar algumas esferas de análise: relações de dependência (e poder) entre instituição e comunidade local ou de intervenção; a questão do agente interno e externo que poderia favorecer o desenvolvimento de práticas transformadoras do local de intervenção; valores transformadores ou conservadores das desigualdades sociais.

A todos os entrevistados, parece comum que a extensão não tenha caráter assistencialista, o que já representa um avanço das idéias de extensão dos anos 1950 e 1960. Na fala de um entrevistado, percebemos como ele entende esse discurso:

Infelizmente tem gente que ainda acha que a extensão é aquela coisa que você vai voluntariado e a solidariedade [risos] aquela que você vai lá fora distribuir cesta básica, com uma visão bem assistencialista.

Em contrapartida, notamos no discurso das universidades que não desenvolvem intencionalmente projetos de intervenção social, que a finalidade da intervenção extencionista é promoção do nome da universidade no contexto mercadológico de competição por alunos.

Assim, “promover o nome da instituição”, “construir a imagem da

instituição” no bairro onde reside, “divulgar a importância da universidade” são

falas recorrentes nas entrevistas.

Embora tenham claro que a finalidade da extensão não é filantrópica, estas universidades não sabem bem ao certo qual é a função da universidade nas

atividades extencionistas ou se seus discursos sabem, suas práticas mostram-se confusas:

Para mim, a universidade não podia ficar como estava, fechada nos seus muros, então eu comecei a fazer um trabalho com a comunidade externa, por isso minha dissertação foi sobre a imagem da instituição e como fixá-la no bairro onde está.

É certo que os entrevistados entendem que o conhecimento gerado na instituição universitária pode ajudar uma instituição/comunidade a evoluir, e, ao mesmo tempo, sua prática propriciará conhecimentos novos à universidade: “os

alunos têm que pensar que a extensão tem que fazer ações que ajudem a escola [local exemplificado de intervenção] crescer e, também, que elas têm que aprender com suas ações no local, porque filantropia qualquer um pode fazer”

Ou outra fala: “a função das atividades de extensão não é fazer um

trabalho por filantropia e, sim, para produzir conhecimento”(nesta universidade,

não há espaço para a divulgação dos saberes construídos nas práticas extensionistas).

Nesse sentido, outro discurso reforça a finalidade das atividades de extensão serem produtoras de conhecimento e formadoras de alunos cidadãos:

Ela [a extensão], de uma certa forma, abre as portas, ou melhor, ela derruba as paredes da sala de aula, permitindo ações multi e intradisciplinares e a oportunidade de interagir com comunidades que vivenciam uma experiência completamente diferente da dele [aluno] (...)Então, nesse caso eu acredito que você começa a trabalhar muito uma coisa que nós discutimos hoje que é chamada de formação cidadã. Você trabalha habilidades de comunicação, objetividade, você trabalha aquele ensino que foi alimentado da graduação, para resolução de problemas. Então de uma certa forma, hoje nós temos percebido a extensão como um principio pedagógico fortíssimo.

Novamente, esclarecemos que a instituição referida não publica seus

reitor estiveram sempre associadas com ações pontuais de oferecimento de serviços à comunidade.

Outro entrevistado, que não tinha em seu plano de gestão a inclusão de projetos sociais, na afirmação, a seguir, deixa absolutamente confuso o sentido da “multifunção” que ele agregou à extensão: “A extensão abre seu horizonte para

os diferentes cenários da realidade brasileira. Então a extensão tem essa multifunção: ela leva a sociedade, ela retorna aquele principio de sua criação no início”

Baseados nas incongruências entre o discurso e as práticas citadas dos entrevistados, concluímos que eles sabem que o papel da universidade não é filantrópico – porque o discurso já se consolidou até no senso comum e conseguem perceber os ganhos múltiplos que teriam com estas intervenções. Entretanto, supomos que haja uma dupla relação de poder entre comunidade externa e comunidade universitária, que se configura diferente das universidades públicas.

Nas universidades públicas, por serem mais elitizadas, a população atendida nunca ou de modo raro poderá freqüentar aquele espaço universitário. A hierarquia de saberes é muito vertical, porque é historicamente construída. Já as universidades privadas, historicamente instituídas às camadas menos elitizadas da população, a possibilidade de acesso ao ensino é mais fácil, o que oferece à universidade um interesse maior em suas intervenções: como um lugar de produção de saberes (como na universidade pública), mas um lugar também de possível captação de clientes.

Assim, nasce o interesse para realizar “boas ações” à comunidade, mesmo sem ter claro como fazer isso, isto é, como colocar o discurso em ação:

porque trabalho comunitário é uma coisa muito vaga, entendeu? Por exemplo, nós trabalhamos na constituição dos canteiros da avenida X, num projeto de jardinagem da arquitetura. È um trabalho comunitário porque serve à comunidade, entendeu?

Com base nisto, poderíamos sugerir que há também uma falha na formação dos gestores que, muitas vezes, são formados na área acadêmica mas, sem nenhuma formação ou experiência com gestão de projetos sociais. Na fala a seguir, buscamos exemplificar nossa defesa: “O problema é que a extensão

sempre acontece de uma forma amadora ou de uma maneira que é só atendimento e você ainda não avalia o impacto disso na população”

Não podemos ser ingênuos a ponto de não considerar que talvez estas instituições que não desenvolvem projetos sociais, na verdade, não se interessam por esse tipo de ação transformadora, já que sua própria instituição foi consolidada em um sistema neoliberal que não vê muitas vantagens em transformar as relações de poder em determinada sociedade.

Quanto às universidades que desenvolvem inúmeros projetos sociais, temos duas vertentes: as que realizam ações de capacitação profissional na área da saúde e auxiliam inúmeros projetos sociais e as que desenvolvem projetos na área da educação e realizam múltiplos programas de atendimento à comunidade.

Nas duas, o discurso da extensão ser a ponte entre universidade e comunidade prevalece, com a diferença de que os exemplos práticos relacionados a essa fala são coerentes com ela. Temos de dizer, também, que a formação das duas profissionais da área é em educação. Isso faz toda a diferença, não só para elaborar o discurso, mas, para justificar a existência das práticas:

Eu sou de uma geração em que existiam os pensadores que faziam. A gente lia alguns educadores e filósofos da educação, brasileiros, principalmente, que fizeram muito a cabeça da gente da geração dos

anos 70, como o Paulo Freire, Darcy Ribeiro, no sentido amplo de educação, e com relação a função da universidade. Eu acho que foi fundamental na minha formação e até na concepção do intercâmbio que precisa existir entre a universidade e a sociedade É que a universidade não pode ficar encastelada e aquele saber sendo produzido para você. A luta toda era que o saber que ela produz, deve ser compartilhado com a sociedade.

A entrevistada justifica sua fala acrescentando que as atividades de extensão publicam, anualmente, uma revista sobre os projetos desenvolvidos.

Já na outra universidade, apesar da relação de complementaridade entre comunidade e universidade ser citada, seus argumentos indicam que o trazer a comunidade para dentro, não é compartilhar saberes e, sim, levar a população para dentro da universidade, identificando como sujeito do saber a universidade e não os dois: “Uma ponte que vai ligar a universidade com a comunidade. Então

essa ponte tem que trazer a comunidade para dentro, levar o conhecimento para fora e fazer esse intercambio”

Em suma, nos dois tipos de instituições, há as que desenvolvem projetos de extensão, como política de gestão e as que não o fazem.O termo comunidade é o lugar ou espaço ou público que vai ser atendido pela universidade, em uma complexa relação de poder, na qual a universidade serve à comunidade e esta veicula esta bemfeitoria ao público-alvo da instituição. Como acontece no uso das novas práticas das empresas, com base no conceito de responsabilidade social que, na verdade, é utilizado pelo setor de Marketing da empresa.

A diferença entre os tipos de gestão: ambas desenvolvem políticas de projetos, têm uma visão menos mercadológica e mais no sentido da formação do alunado mais crítico e potencialmente transformador das relações de desigualdade sociais. Mas, na maioria dos gestores, a transformação social não