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Nærhet og sensitivitet

Os primeiros psicólogos a tratar da intervenção comunitária tinham a comunidade como lugar de intervenção e não como um objeto de estudo, conforme já citamos. Entretanto, não se isentavam de assinalar a situação conflituosa a respeito da vida dos grupos que viviam em situação de falta de direitos sociais, como educação, saúde, informações. Newbrough (1973); Rappaport (1997) nos Estados Unidos da América são exemplos claros dessas primeiras conceitualizações.

Na América-latina, Fals Borda (1959; 1978); Freire (1969; 1983; 1989; 1992),

Montero (1984) e Serrano-García (1986) construíam seus primeiros conceitos não só na Psicologia Comunitária, como nas novas formas de metodologias participativas e intervenções militantes de conscientização popular.

Assim como todo conceito é construído em cima de uma práxis, o conceito de Psicologia Comunitária e mais adiante o de Psicologia Social Comunitária sofrerão mudanças, conforme a evolução de suas intervenções e da própria evolução das teorias advindas do campo. Optaremos em apresentar o resultado da evolução da área até a presente data.

Montero (1984) define a Psicologia Comunitária6 como a área da Psicologia, cujo objeto é o estudo dos fatores psicossociais que permitem fomentar, desenvolver e manter o poder dos indivíduos. Estes podem exercer o controle sobre seu ambiente individual e social, para solucionar problemas advindos de sua vida e da vida de sua comunidade, promovendo mudanças nesse ambiente e na estrutura social.

Para melhor clarificar esta área de pesquisa e de campo profissional, esclarecemos suas implicações teórico-práticas, ontológicas, epistemológicas, metodológicass, éticas e políticas, baseadas em um paradigma de construção e transformação crítica, conforme Montero (1984; 2000; 2004a):

• Teórico-práticos: ocupam-se de construir um corpo de conhecimentos intimamente relacionados, cujo conteúdo explicita o produto de uma práxis que gera ação, modos de intervenção, explicações e interpretações da comunidade. Como vemos o modelo paradigmático da “construção e transformação crítica” (MONTERO, 2004a, p.90), gerado em países da América Latina que viam nas metodologias participativas um novo fazer ciência, voltadaa às necessidades específicas que viviam as populações dos países subdesenvolvidos que refletem o momento de seu surgimento, nos anos de 1970 e 1980. Entretanto, não há só um modelo paradigmático para a área. Alguns países desenvolvem intervenções sociais baseadas em um paradigma clínico e de análise individual dos processos psicossociais.

6 A autora opta, nesta data, pelo nome mais utilizado na bibliografia produzida, mas no ano de 2003a optou

fazer uma distinção entre o tal termo e a Psicologia Social Comunitária, que é predominantemente latino- americana e caracteriza-se pela intervenção coletiva com enfoque autogestionário das comunidades e suas transformações nas relações de poder que suscitariam transformações sociais.

• Ontológicos: definem a natureza ativa do sujeito cognoscente, tanto o sujeito pesquisador como os sujeitos ‘objeto’ da pesquisa de campo. Estes são concebidos como: atores sociais, agentes de transformação pessoal e social. Os sujeitos pesquisadores/interventores não são neutros de valores e sentidos sociais, não se vêem como especialistas que garantem o sucesso da intervenção. Concebem-se como investigadores de um campo teórico/prático que co-construirá em interdependência com os atores sociais da comunidade uma intervenção libertadora e includente.

Os moradores/participantes de uma comunidade/movimentos

sociais/associações também têm papel ativo e não só reativo. Produzem realidade e protagonizam sua vida cotidiana, seja para alterá-la ou mantê- la. Então, mesmo que passivos ou alienados, estão dando sua contribuição na construção social, com base em suas ações e discursos. (SANTIAGO et al., 1983)

• Epistemológico: busca definir que a produção do conhecimento entre sujeito cognoscente e sujeito cogniscível que, em um novo paradigma de ciência, tanto o pesquisador como a comunidade são cognoscentes e cogniscíveis. Esta é feita em relação com o objeto historicamente construído ‘comunidade’ e é complexo na medida que existem vários sentidos sociais e históricos em conflito e em negociação de poder e uma produção teórico/prática é resultado das negociações com o contexto cultural, histórico e social, no qual o pesquisador e os participantes da pesquisa estão inseridos.

• Ético: busca definir a natureza da relação pesquisador-interventor com as pessoas que vivem nas comunidades, aquelas que tradicionalmente são

chamadas de sujeitos de uma pesquisa, concebidas a priori, como objetos do conhecimento e sujeitas à ação do pesquisador. Na Psicologia Comunitária, as pessoas de uma comunidade são consideradas ativas na produção do conhecimento. Assim, define sua participação na autoria e na propriedade do conhecimento produzido. Podemos dizer também que é ética em sua dimensão includente, libertadora e reflexiva das intervenções comunitárias. Na possibilidade de construir, com base na ação interventiva, um espaço de respeito às diferenças.

• Político: a comunidade é espaço de publicização das formas de opressão vividas no mundo cotidiano privado. É lugar de libertação, de desnaturalização e de participação política. É lugar síntese de expressão das diferentes vozes sociais e da negociação advinda da experiência de participação. A produção teórico-prática é uma das sínteses desta negociação entre moradores (ou participantes de tal comunidade - nos novos movimentos sociais) e entre moradores e pesquisadores. Montero (2000, 2002) defende que a ética relacional, na qual o conhecimento e a intervenção são co-produzidos, está a serviço de um paradigma coletivista de politização do espaço público:

Uma ética fundamentada na relação supõe uma forma de expressão da retidão que vai além dos direitos a afirmação dos próprios interesses, para passar a considerar os interesses comuns, acima do bem estar individual (...) o Outro não é uma becha, uma diferença, ou algo que é dissonante , que separa. É parte de mim. Compreende analisar que cada um é Outro e cada Outro sou eu. (MONTERO, 2000, p. 23)

• Metodológico: trata das metodologias participativas na produção do conhecimento e do enriquecimento das próprias intervenções em âmbito comunitário. A grande questão que se apresenta no sentido método da pesquisa é que seja desenvolvida com intervenções transformadoras no

plano coletivo, a comunidade e, no plano individual, o ator social, protagonista deste coletivo. Busca-se construir uma metodologia dialógica, dinâmica e transformadora. Desta forma, é inconcebível uma intervenção previamente construída, sem conhecimento das necessidades e objetivos da comunidade (MONTERO, 1994).

No entanto, é importante elucidar que existem outras formas de intervenção, baseadas no assistencialismo e na manutenção das relações de poder desiguais em uma comunidade ou sociedade.

Com base no que já vimos neste texto, é possível também levantar os principais fundamentos da Psicologia Social Comunitária, no intuito de promover uma aproximação do leitor com a área. Faremos isso com o apoio do quadro de características de Montero: (2004a, p. 73) e de Martín-González (1998); Freitas (1996); Guareschi (1996); Martin-González (1998) e Montero (2004 a) e outros:

1. É necessariamente multidisciplinar, e transdisciplinares, no sentido de que o tema que ‘atravessa’ as disciplinas é a construção da cidadania e da transformação social.

2. Detém-se nos fenômenos psicossociais produzidos em relação com a comunidade, levando em consideração o contexto cultural, histórico e social que determinaram seus processos;

3. Debruça-se nos processos de produção e reprodução das relações de poder que são desiguais e opressoras no intuito, não de eliminá-las, o que seria impossível, mas transformá-las em ações coletivas para o bem comum (MARTIN-BARÓ, 1989; GUARESCHI, 1996).

4. Concebe a comunidade como construída por atores sociais dinâmicos e interdependentes (FREITAS,1996)

5. A ênfase do olhar do psicólogo é dada às capacidades e habilidades dos atores sociais, não aS suas carências e debilidades;

6. Leva em conta a relatividade cultural e a diversidade (WIESENFELD, 1994);

7. Tem orientação para a transformação social a partir da ação participativa e política (MONTERO, 1995);

8. Intenta que a comunidade controle seus recursos e tenha poder de transformar seus determinantes histórico-sociais de vitimização (FREIRE,1983; 1989);

9. Tem uma dupla função: a ação interventiva com finalidade de transformação social e a produção científica desta ação;

10. Busca construir e despertar a cidadania apoiado no fortalecimento da comunidade e no concomitante fortalecimento da sociedade civil;

11. Tem caráter predominantemente preventivo (LANE, 1996);

3.4 Fundamentos metodológicos para intervenções/transformações sociais