Nos discursos sobre a extensão das universidades, observamos que não existe uma política direcionada a projetos sociais, suas falas remetem a um discurso instituído pelos saberes produzidos na universidade pública – já que a tradição de estudar e dar importância à extensão vem do ensino público.
Como vemos na fala a seguir: “A extensão tem a exata função de
articulação de saberes acadêmicos e saberes populares, a partir de uma conceituação contextualizada contemporânea de extensa”.
Ainda dentro desta perspectiva, outro entrevistado disse: “Ela é vista e
Interessante que, na universidade referida a extensão não produz nenhum
tipo de pesquisa ou artigo ou publica suas ações em algum espaço institucional ou não.
Um entrevistado, inclusive, situa historicamente a construção do discurso sobre extensão, definindo suas características iniciais de assistencialismo e, posteriormente, o caráter de transformação social. É interessante observar que este sentido de transformação social não está na fala a seguir, relacionado com habilitar a comunidade(ou mesmo o espaço assistido) para que este possa se transformar, mas tem a ver somente com a formação do alunado, que teria sua formação profissional mais crítica e cidadã:
Na metade do séc. XIX onde alguns estudantes perceberam que grande parte da população era excluída dos benefícios da universidade, da riqueza que vinha desse saber cientifico. Ela continua fiel a isso, mas ela trabalha essa intervenção numa construção dialógica em que a universidade abandona um pouco sua postura bem arrogante da inventora, [da produtora] das verdades, [e pode ser] vista hoje como uma incrível ferramenta de formação da cidadania de quem vai exercer uma profissão ou varias profissões.
O conceito e o sentido de extensão estão bem articulados no discurso também de outro depoente:
A extensão é o lugar da crítica dos saberes produzidos pela universidade, no qual a sociedade debate com este saber por meio das ações de extensão, é a porta por onde a sociedade se manifesta sobre a relevância do trabalho realizado na universidade.
Foi incrível notar que, investigando suas ações, verificamos que seus fazeres estão situados entre o interesse da instituição utilizar seu espaço para desenvolver ações de promoção da universidade e realizar algum trabalho de relevância social, como cursos de alfabetização de adultos, universidade da terceira idade, ações isoladas de atendimento à população carente, etc.
A exemplo da discrepância entre discurso e prática, na entrevista que situa o espaço da extensão como construtor de “saberes dialogados”, ou ainda, o espaço de “dialogia da universidade” não há um espaço de publicação em suas revistas institucionais, dedicado às ações da extensão. Não nos foram fornecidos nenhum relatório, dado ou cronograma de execução das atividades da extensão, a não ser os cadernos de cursos de extensão, que vão desde os cursos de complementação curricular até os de culinária e dança do ventre. Estes, por sua vez, são promovidos no jornal da instituição que é doado à comunidade próxima à instituição, reinterando o que um outro entrevistado cita:
“A extensão é aquele que vai fixar a imagem da instituição na comunidade”.
Nas entrevistas com professores de Psicologia Social e correlatas das universidades que não desenvolvem projetos sociais, como podemos ver no Quadro 1 (nas duas próximas páginas), a resposta sobre sua utilidade era mais teórica, como:
em tese, no discurso filosófico e missão, para efetuar a articulação entre o ensino e a pesquisa desenvolvidos na graduação e na pós- graduação, além de implementar políticas voltadas ao planejamento e cuidado do entorno no qual a instituição se insere”, ou então, “Ela serve para complementar a formação por exigências de mercado e do próprio avanço e da diversificação de conhecimento e das demandas da comunidade, que por sua vez são dinamizadas pelas questões de mercado.
Outro professor entrevistado disse que a extensão “garante a integração
universidade e comunidade e através da troca de saberes possibilita ampliação do pensamento dos alunos”.
Nessas falas, é interessante perceber como os discursos dos professores são consonantes com o dos gestores da extensão.
Busca tanto o desenvolvimento e aprimoramento de práticas de pesquisa e de intervenção, como o crescimento e a autonomia de grupos e segmentos sociais onde estes projetos acontecem
ou então, é também local para se desenvolver/criar “tecnologia” social, oferece dados de pesquisa”.
Observamos que os professores associam atividades de extensão com oportunidade de pesquisa, fato raro no discurso dos gestores.
Por outro lado, as universidades que desenvolvem em suas ações projetos sociais, têm uma crítica maior de seus sentidos e finalidades, pois seus discursos estão mais ligados com exemplos do dia-a-dia institucional do que à teoria produzida pela área:
A extensão dentro dessa universidade, que começou há 34 anos atrás, começou principalmente na área de saúde e humanas. Então, ela sempre foi ligada à prestação de serviço na área da saúde, por isso preserva ainda muito do seu caráter assistencial, lidar com essa população bem carente aqui da região X.(...) Todo o pedido que eu recebo das instituições [pública, (por exemplo, a Sabesp) e privadas] eu divulgo para os diretores dos cursos para ver no que eles podem ajudar a comunidade.
Esta entrevistada o tempo todo trouxe, para exemplificar sua fala, uma prática que a universidade está desenvolvendo. Sejam elas assistencialistas ou não, as práticas são citadas sempre com o sentido de atribuir importância e relevância social ao trabalho de extensão, mesmo que seja nos cursos de extensão:
nós temos cursos de informática que funcionam dentro do hospital para população e cursos de extensão que são todos aqueles cursos profissionalizantes para a área hospitalar, inclusive para que o próprio hospital possa assimilar a mão de obra local no próprio hospital. Porque existe um desemprego muito grande na região, não só desemprego, mas a falta de emprego.
a extensão é justamente aquilo que a universidade produz no ensino e na pesquisa se transformando em ação especializada ou uma prestação de serviço especializada à comunidade. Mas isso também volta pra universidade na formação de nossos alunos. Então o médico que não atende a população, o dentista que não atende a população ele não é bem formado, ele não tem uma formação adequada, uma formação mais humanizada e também crítica.
Nestas duas universidades, foi possível diferenciar que uma tem suas atividades voltadas à área da saúde, e outra, a inúmeros projetos de ações sociais, sobretudo na área da educação, seja em instituições ou na própria universidade. Esta última conceitua a extensão como,
a extensão é o lugar da formação crítica do alunado, se o aluno é
bem formado, conhecendo as diversas realidades que em que pode atuar, ou mesmo se preocupar em sua atuação, ele sairá da universidade mais consciente, mais vivo, ganha o aluno e a sociedade (...) é mais do que essa questão pragmática da formação do aluno, ela tem todo esse embasamento dos educadores de não concentrar o saber na universidade.