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The synergy narrative

Chapter 5: The narratives

5.2 The synergy narrative

Os conflitos bélicos pós-guerra fria, são sobretudo conflitos internos que afetam principalmente a população civil. Contudo, chama-se a atenção para o facto de estes conflitos de carácter interno terem ferido com particular violência o segmento mais débil e desprotegido da sociedade – as crianças. Claro está que a guerra afeta as crianças de muitas formas, diversas maneiras e níveis distintos, mas a pior e a mais preocupante é a sua participação como soldados. Durante a década de noventa, dois milhões de crianças morreram em conflitos armados, mais de seis milhões ficaram gravemente feridos ou mutilados e mais de um milhão ficaram órfãos. Milhares de crianças viram-se obrigadas a contemplar atos terrivelmente bárbaros e a participar neles de forma ativa172. A respeito do genocídio de Ruanda, um estudo feito junto dos jovens

ruandeses, em 1996, revelou que 90% das crianças tinha visto alguém a ser espancado ou morto durante o genocídio. Dos três mil menores entre os oito e os 19 anos que

169 Peter Singer, Crianças em Armas, cit., pág.44.

170 Nora Marés García, La acción de las Naciones Unidas en Relación a la Participación de los Niños en los

Conflictos Armados, cit., pág.35.

171Graça Machel, Repercusiones de los conflictos armados en los niños: algunos puntos destacados, cit.,

pág.36.

172 Carlos Teijo García, La protección jurídica internacional de los derechos del niño en situaciones de

conflicto armado, con atención particular à la problemática de los niños soldado, in El Derecho Internacional Humanitario en una Sociedad en Transición, Jorge Pueyo Losa / Julio Jorge Urbina (coords.), Santiago de Compostela, Tórculos Edicións, 2002, pág.319.

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foram entrevistados173, 80% tinham sido afetados pela morte de um elemento da família mais direta.

É difícil encontrar respostas razoáveis para o porquê das crianças se terem tornado nas últimas décadas vítimas como protagonistas dos conflitos armados.

Estima-se que por esse mundo fora uma em cada duzentas crianças sofra de uma patologia do foro psicológico relacionada com a guerra174. As consequências da guerra no desenvolvimento da criança são de facto muito abrangentes, afetando atitudes, relacionamentos, valores morais e a forma como encaram o quotidiano, a sociedade e a própria vida. Os atos de violência a que são sujeitas são tão extremos que ao fim de pouco tempo passam a encará-los como algo normal175. Essa é a primeira consequência: passam a encarar a violência com normalidade, algo que faz parte do seu dia-a-dia, do seu quotidiano, da sua vida. Faz parte da realidade que os rodeia e combatem como se brincassem às “guerras”, muitas vezes consequência daquilo que veem na televisão. Lutar por comida, vestuário ou um lugar para dormir é resolvido a tiro e esta é a única forma que encontram para obter alguma segurança e o único meio para sobreviver. Para alguém tão vulnerável e frágil como as crianças, cuja sua personalidade não está totalmente formada, a presença e participação nestes atos tem repercussões diretas para o seu desenvolvimento futuro, influenciando as suas escolhas, opiniões e perspetivas ao longo da vida.

A nível comunitário a guerra destrói a infraestrutura politica, económica, social e jurídica da sociedade. Os efeitos da guerra sobre as crianças são medonhos e afetam não só o seu desenvolvimento pessoal como tem repercussões a nível social, económico e politico no país onde residem, pois estes são um elemento essencial à reconciliação e reconstrução da sociedade.

Perdem pontos de referência como a família, a comunidade onde vivem, a escola, os amigos, as brincadeiras. A criança fica completamente só, sem modelos da sociedade tradicional que o possam orientar. Vêem-se desprotegidos diante de um mundo novo, com valores totalmente contrários àqueles que se vivem no meio da selva. Utilizam a violência como forma de expressão. Sentem medo e ansiedade e sem uma

173 Que eram todos menores à data do genocídio ruandês que teve lugar no ano de 1994. 174 Peter Singer, Crianças em Armas, cit. pág.55.

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arma sentem-se desprotegidos. Caem numa tristeza profunda, misturada com raiva, sentido de culpa, ressentimento e desejam vingar-se de tudo o que já sofreram e de todos aqueles que lhe fizeram mal. Chegam a pensar que todo o mundo lhes deseja mal, que todos o odeiam, gerando uma revolta interior contra tudo e todos. São frequentes as insónias, os pesadelos, o atormento noturno que os impede de dormir e esquecer por algumas horas qual é o seu papel naquele momento e o porquê de estarem ali.

Além de todas as carências afetivas e traumas que vivem as crianças-soldado, as patologias são diversas e arrastam-se no tempo. São alvo de feridas, lesões graves e incapacitantes como a cegueira, surdez, perda de membros, mutilações, má nutrição, sida, deformações ósseas por acarretar armas de grande porte, hérnias devido ao peso excessivo das armas em contraste com o seu pequeno tamanho, doenças sexualmente transmissíveis como a sida, entre outros. Estes danos acompanham a criança ao longo da vida originando problemas emocionais e psicológicos que podem representar obstáculos ao seu desenvolvimento social, educacional e uma perturbação a longo prazo da sua personalidade, sobretudo em comunidades mal preparadas para a reintegração social. A assistência médica às crianças-soldado feridas é sempre muito difícil já que nestes países onde se travam guerras bélicas raramente possuem serviços médicos de qualidade sendo que, a medicina popular é a única alternativa possível.

A acrescentar a tudo isto, perderam a possibilidade de frequentar a escola, de aprender um ofício e sobretudo não tiveram um crescimento físico e psicológico que decorresse na normalidade, o que pode incentivá-los à violência e a ingressar em estruturas orgânicas alternativas, como os grupos militares176. No Sudão, as crianças acabam mesmo por se tornar soldados regulares177, o afastamento prematuro das escolas faz com que não possuam competências além de saber matar e desmontar uma arma. Por outro lado, é difícil fazê-las abandonar os padrões de violência que adotaram enquanto crianças-soldado. A transformação que sofreram bem como a doutrinação a que estiveram sujeitos faz com que estejam mais predispostas a cometer atrocidades durante e após os conflitos.

Os conflitos armados provocam uma rutura com os sistemas de apoio familiar que são essenciais para a sobrevivência e desenvolvimento da criança. Foi-lhes roubada

176 Ilene Cohn y Guy Goodwin-Gill, Los Niños Soldado: un estudio para el Instituto Henry Dunant, Madrid,

1997, págs. 129 e 130.

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a infância, a meninice, a inocência numa fase da vida em que a identidade se forma e numa fase em que as relações familiares são fulcrais para a sua inserção social e orientação educacional.

A propósito do Genocídio de Ruanda, onde as crianças foram alvo e autores de violência, Jimmie Briggs comenta: “A noção de “infância” foi tão atacada como as instituições formais da sociedade e os sistemas judiciais, de saúde e de educação, por exemplo – também eles completamente arrasados durante o genocídio”178. Há outros sistemas de apoio que desaparecem, os sistemas de apoio do governo e da comunidade. A militarização infantil com fins políticos viola os seus direitos fundamentais colocando-as à mercê dos perigos da guerra, onde matar é fácil. Nega-se a proteção que é conferida à criança através de normas internacionais como a Convenção dos Direitos da Criança, nega-se todos os direitos que estão subjacentes como o direito à vida, o direito a viver com a família e comunidade, o direito à saúde, o direito ao desenvolvimento da sua personalidade, o direito à alimentação e o direito à proteção. Milhares de crianças-soldado morrem derivado às consequências indiretas da guerra, resultado da falta de alimentos, da destruição dos sistemas de saúde, falta de água e saneamento.

Há inúmeros casos onde a família da criança-soldado bem como a sua comunidade, o rejeitam e o sancionam por ter participado em assassinatos, violações e torturas, às vezes contra a própria família, em particular se participou na destruição das suas casas e das aldeias onde viviam. Por exemplo, em algumas comunidades indígenas considera-se que o espirito da criança-soldado é impuro e por isso são repudiados pelas suas próprias comunidades. Isto aumenta ainda mais a tristeza, a frustração e sentimento de culpa que a criança acarreta. Mesmo depois de a paz imperar nas comunidades há crianças incapazes de se reintegrar e voltar à vida que levavam antes de serem militarizadas, e devido ao seu estado débil e ao misto de emoções ainda por resolver recorrem novamente à violência e adotam comportamentos antissociais.

A somar a isto, não nos podemos esquecer do stress traumático e pós-traumático e os demais danos psicológicos que acompanham a generalidade delas para o resto da vida, resultado da separação da sua família e da exposição e violência a que estão

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sujeitos. Quando falamos de trauma psíquico como consequência da guerra, referimo- nos às experiências específicas que pelo seu carácter especialmente bárbaro deixam sequelas que os incapacita de pensar, sentir e atuar de uma forma dita normal179.

A presença da mãe é determinante para a estabilidade da criança e a sua separação tem um efeito dramático sobre o seu equilíbrio emocional, pois a mãe oferece segurança. Uma das medidas preventivas destinadas às crianças-soldado para evitar o transtorno psicológico é falar-lhes da guerra num ambiente franco e de sinceridade adaptado à sua idade caso contrário, o menor sente-se ainda mais inseguro e aterrorizado.

As ex-crianças-soldado correm riscos de desenvolverem todo o tipo de doenças. O vício da droga é igualmente problemático e os tratamentos de desintoxicação a que estão sujeitos podem ser muito dolorosos.

Muitos são incapazes de diferenciar a realidade e o imaginário, em contraste com os tempos de paz a imaginação e a tragédia real confundem-se. Um dos efeitos provocados pela guerra especialmente nas crianças é a regressão. Isto é, é frequente que depois do término das hostilidades têm atitudes supostamente superadas como urinar na cama, chupar no dedo, fazer birras e comunicar como uma criança pequena pois, provavelmente era nesta etapa que se encontrava quando foi recrutado para as fileiras de exército e o seu processo de evolução foi interrompido180. Deste modo, a criança retoma os hábitos que tinha antes do conflito aos quais associa uma fase da sua vida em que estava seguro e estável.

Como diz Jéhane Sedky-Lavandero, “as formas de relação entre o individuo e a sociedade em tempos de guerra são geralmente consideradas «patológicas» em tempos de paz”181.

As ex-crianças-soldado encontram-se numa posição mais delicada que as crianças civis pois, participaram diretamente na brutalidade da guerra que os fez cometer assassinatos bárbaros daí o processo de recuperação ser muito mais lento e difícil e com resultados que, na generalidade dos casos, não se traduzem numa recuperação completa.

179 Jéhane Sedky-Lavandero, Ni un Solo Niño en la Guerra: Infancia y Conflictos Armados, cit., pág. 60 e

61.

180 Jéhane Sedky-Lavandero, Ni un Solo Niño en la Guerra: Infancia y Conflictos Armados, cit., pág.61. 181 Jéhane Sedky-Lavandero, Ni un Solo Niño en la Guerra: Infancia y Conflictos Armados, cit., pág.61

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Torna-se, por isso, absolutamente necessário que, terminado o conflito, seja prestado um significativo apoio psicológico às crianças, o que, na maioria dos casos não se verifica. E esse apoio psicológico deverá ser prestado por quem conheça devidamente a cultura da região em caída. Efetivamente, no caso do Ruanda, nas zonas mais afetadas pelo conflito, os programas relacionados com questões de saúde mental das crianças que maiores êxitos obtiveram foram aqueles que se mostraram culturalmente mais sensíveis182.

A par disto, pode haver consequências menos negativas segundo Ilen Cohn. É certo que as experiências vividas com a guerra e a forma como cada qual lida com elas varia de criança para criança, por isso é possível que a mesma experiência afete as crianças de maneiras distintas. O regresso a casa pode ser acolhedor ou frustrante, podem ter famílias que os amem e comunidades que os amparem, ou ser rejeitados e carecer de família e identidade.

Desta forma, é possível que para uma criança as consequências do seu recrutamento podem ser positivas na medida em que, dentro de um grupo ou força armada ela encontra mais apoio social e autonomia, aprovação e respeito da família, encontra mais segurança, auxílio, estabilidade, lealdade, disciplina, orgulho, respeito e aí consiga desenvolver melhor e mais competências psicossociais183. Na medida em que, nada nem as suas comunidades mais próximas podem prestar-lhes apoio social e entender as suas necessidades materiais.