Chapter 6: Comparing the narratives
6.4 Local participation and bureaucracy
O processo de transformação de uma criança em soldado é composto essencialmente por três fases: doutrinação, treino e combate.
4.1. Doutrinação
Doutrinação é o processo através do qual se incute na criança a visão do mundo de um soldado. Esta primeira fase é essencial para o processo de transformação, para que com ela nasça uma motivação para se manter no grupo armado e uma motivação para o combate, ou seja, um conjunto de fatores que não o levem a querer abandonar o campo de batalha.
Por norma, os grupos armados recorrem a três tipos de motivação: motivação coerciva, baseando-se no castigo físico, motivação remuneratória, com base na promessa de recompensas materiais e motivação normativa, que se baseia na oferta ou recusa de recompensas psicológicas, como homenagens ou aceitação no seio de um grupo124. Estas motivações têm como objetivo a permanência da criança no grupo,
influenciando-a a praticar atos de violência ou ações perigosas, a que ele não se arriscaria se não existissem tais motivações. São poucas as forças que utilizam a recompensa material para obter os seus serviços. Na maior parte das vezes, o processo de doutrinação, seja um grupo rebelde ou um exército governamental, recorre à utilização do medo, da brutalidade, da violência, da manipulação psicológica para que os menores se tornem verdadeiramente obedientes e não questionem, recebendo o mesmo tratamento que os recrutas adultos.
122 http://www.unric.org/pt/actualidade/5436 123 http://www.unric.org/pt/actualidade/5436 124 Peter Singer, Crianças em Armas, cit., pág. 82.
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O tipo de doutrinação varia consoante o grupo e ocorre em etapas da vida em que a criança se sente bastante desprotegida e debilitada psicologicamente, porque foi afastada da família e do meio onde vivia, ou nos momentos em que perde o controlo e o trauma que sofre se revela significativamente125. Com isto, os instrutores querem que a criança se torne completamente insensível à violência futura que vai presenciar durante o combate e àquela que eles querem que ela exerça, fomentando nela a irresponsabilidade pelas atrocidades que irá cometer. Para isso, desumanizam o inimigo estimulando sentimentos de raiva que despertem na criança a vontade de destruir o outro, quase como se fosse um sentimento inato. Por exemplo, aos Tigres Tamiles é- lhes recordado constantemente que o inimigo é um alvo a abater, e para isso, são-lhes mostrados vídeos de mulheres e crianças mortas, com o intuito de os familiarizar com atos de violência e de provocar neles um sentimento de vingança e justiça pelas mortes visionadas. Muitos destes jovens, devido à dificuldade que têm em sentir remorsos vivem apenas obcecados com a violência126.
Nos processo de doutrinação é comum alterar-se o sentido de lealdade aos olhos da criança, quer através de métodos propagandistas, quer através daquilo que apelidam de “lavagem cerebral”127. Passam a encarar o líder do grupo como um pai e a tratá-lo
como tal. Este pode ainda ser equiparado a Jesus ou a um Profeta.
Outra das táticas utilizadas é a adulteração da identidade dos menores, apelidando-os de outros nomes que não o deles, com o intuito de minimizar os impactos dos atos antissociais que são obrigados a cometer. Por outro lado, a mudança de nome visa desprover a criança de qualquer sentimento de culpa e fazê-la desligar-se totalmente do seu passado. Na Serra de Leoa, as crianças-soldado pertencentes a alguns grupos chegam mesmo a era apelidadas de “ciborgues”, o nome que se dá a máquinas assassinas que carecem de sentimentos128. Além da alteração identitária a que estão sujeitos, a mudança física acaba também por ser um fator determinante no corte radical que tem de ser feito com o passado. Assim, rapam o cabelo às crianças e frequentemente utilizam objetos cortantes para gravarem no corpo tatuagens que
125 Peter Singer, Crianças em Armas, cit., pág. 83. 126 Peter Singer, Crianças em Armas, cit., pág. 83. 127 Peter Singer, Crianças em Armas, cit., pág. 83. 128 Peter Singer, Crianças em Armas, cit., pág.84.
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expressam o nome do grupo ao qual pertencem, impedindo as crianças de regressar às comunidades onde a milícia da qual fazem parte é mal vista129.
Quando pensamos que o método de doutrinação não pode ser mais atroz que isto, deparamo-nos com atos ainda mais abomináveis como obrigar as crianças-soldado a participar na execução ritualizada de outras crianças, ou até mesmo em atos canibalescos ritualizados como ingerir o coração de um inimigo morto. As vítimas podem ser prisioneiros, crianças raptadas exclusivamente para o efeito, e pior que isso, pais, familiares e vizinhos. As atrocidades cometidas são quase sempre feitas em público, para que a comunidade da criança que matou tenha a possibilidade de ver, dificultando a sua posterior reintegração130. Claro está que estes acontecimentos alteram para sempre a vida das crianças, acabando não só por aterrorizá-la como por implicá-la em atos de violência inexplicáveis. As crianças ficam mais dependentes das forças que as acolhe e apenas conseguem encontrar algum alento nas armas que carregam e nos companheiros combatentes. Depois disto, a obediência passa a ser absoluta.
O processo de doutrinação consegue criar na criança um desequilíbrio psicológico tal que lhe permite praticar atos verdadeiramente assustadores. Para isto também contribui o facto de a maior parte destas crianças crescerem e serem educadas num ambiente de guerra, o que facilita a prática de atos violentos. Os pontos orientadores positivos são quase inexistentes: nunca viveram num ambiente familiar são, nem nunca foram estimuladas a ter um comportamento socialmente correto, com base em princípios morais e respeitadores.
4.2. Treino
O regime de treino passa geralmente por uma introdução às competências básicas de um soldado de infantaria: como disparar e limpar uma arma, colocar minas, montar emboscadas – são alguns dos ensinamentos. São obrigadas a participar em
129 Peter Singer, Crianças em Armas, cit., pág. 84. 130 Peter Singer, Crianças em Armas, cit., pág. 85.
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paradas e marchas militares com o objetivo de lhes incutir disciplina e espirito de corpo131.
O treino pode ter a duração de um dia a onze meses. Pode acontecer só uma vez, logo após o recrutamento, ser interrompido após um período inicial e ser retomado para uma aprendizagem mais persistente, depois de ser adquirida experiência em combate. A duração e o tipo de treino podem variar consoante o contexto. No Sudão, quando ainda possuía campos de treino, o LRA submetia os recrutas a um programa de treino formal e de longa duração. No entanto, em 2002, o exército ugandês pôs o grupo em retirada e o treino passou a ser muito mais irregular132. Ainda assim, o treino a que as crianças são sujeitas fica aquém, tanto em duração como no que diz respeito às competências administradas, dos padrões que regem os exércitos profissionais do Ocidente.
O treino das crianças-soldado por parte de um Estado é por regra extremamente institucionalizado, os programas que lhes são aplicados são semelhantes ao dos adultos, inclusive recebem uma farda igual, rações regulares e um soldo133.
Tomemos como exemplo o treino a que as crianças-soldado durante o regime de Saddam Hussein estavam sujeitas. A partir dos anos noventa, foram organizadas anualmente pelo governo iraquiano “colónias de férias” com cariz militar, destinadas a rapazes iraquianos menores, alguns com apenas dez anos de idade, onde eram submetidos a exercícios militares e ensinados a manusear armas ligeiras.
O abandono da atividade de treino, ou a recusa em participar em determinadas tarefas é sentenciado com espancamentos ou trabalhos pesados. Por exemplo, entre os Tigres Tamiles, a criança que manifestar vontade de regressar a casa é espancada diante das restantes, com o intuito de inibir as demais de pensar sequer em ter intenções semelhantes134.
131 Peter Singer, Crianças em Armas, cit., pág. 88. 132 Peter Singer, Crianças em Armas, cit., pág. 88. 133 Peter Singer, Crianças em Armas, cit., pág. 89. 134 Peter Singer, Crianças em Armas, cit., pág., 91.
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4.3. Combate
Quando minimamente preparadas, as crianças são enviadas para o campo de batalha e a sua participação em operações militares faz com que os laços que os ligam aos grupos onde estão inseridos sejam reforçados.
Apesar da preparação frouxa recebida, as crianças podem revelar-se verdadeiramente ferozes devido aos violentos programas de treino e doutrinação a que são submetidos. A sua insegurança e instabilidade psicológica fazem-os obedecer impiedosamente às ordens dos seus superiores, tornando-se assassinos perigos capazes de executar as missões mais cruéis e terríficas. A imaturidade e o pouco discernimento que têm para avaliar as suas ações faz com que não tenham medo de enfrentar o inimigo e de correr riscos muito elevados, sendo totalmente inconscientes das consequências que advém de tais comportamentos.
A tática mais comum utilizada pelas forças para os combates protagonizados por crianças-soldado é agrupá-las por idade. Os seus alvos principais são grupos de civis e unidades, revelando-se os seus ataques avassaladores.
Quando enfrentam grupos de guerrilha, os exércitos integram as crianças em unidades de soldados adultos, de forma a ter algum controlo sobre elas. Numa guerra convencional, as crianças são enviadas impiedosamente para a frente de batalha “servindo de carne para canhão ou como obstáculo ao progresso das tropas inimigas”135.
As crianças-soldado podem ser tão ou mais eficazes que soldados adultos no confronto com tropas militares adultas. Como diz Peter Singer, “A sua audácia, superioridade numérica e poder de fogo conseguem por vezes compensar o que lhes falta em tamanho, experiência e treino militar formal”136. Muitos dos soldados que estas
crianças enfrentam estão menos preparados e são menos capazes que elas próprias.
135 Peter Singer, Crianças em Armas, cit., pág. 95. 136 Peter Singer, Crianças em Armas, cit., pág. 96.
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De realçar que a violência empregue não é só dirigida aos inimigos como também aos colegas militares, prisioneiros de guerra, às próprias crianças, à família e comunidade da qual fazem parte, com o objetivo de as censurar, envolvê-las na violência e sobretudo transformá-las em verdadeiros soldados.