• No results found

Summary and conclusions

In document Three essays on corporate boards (sider 57-64)

Na condição de aluno de iniciação científica, em meados de 2010, cabia-me a tarefa de desenvolver o estudo sobre a implantação da Polícia da Boa Vizinhança em Juazeiro do Norte - CE. Meu orientador, Dr. Antonio dos Santos Pinheiro, da Universidade Regional do Cariri e eu, traçamos a tática metodológica de conhecer as Lideranças Comunitárias à frente dos CCDS da cidade. Através de conversações, mantidas com as lideranças comunitárias, descobrimos a mudança ocorrida na administração local do programa, novos comandantes haviam sido nomeados para coordenar a Célula Sul do Ronda do Quarteirão.

Agendamos uma visita com o Oficial da PM Capitão Gomes, então novo comandante, apresentando um pequeno resumo do projeto de pesquisa, explicitando o interesse em estudar a relação entre polícia e comunidade. O comandante demonstrou grande entusiasmo com a pesquisa, sentindo-se, também, envaidecido com o interesse sobre o programa de policiamento por ele coordenado. Durante a conversa, nos ofereceu a oportunidade de conhecer as AOs da cidade, através de suas viaturas, e selecionar policiais do programa para entrevistas. O Capitão nos convidou, também, a participar de reuniões mensais ocorridas no quartel com a participação das lideranças comunitárias e dos comandantes do programa. Durante o ano de 2010, alternei a participação das reuniões do quartel, a interlocução com as

lideranças comunitárias nos CCDS e o acompanhamento do patrulhamento ostensivo nas diferentes AOs da cidade25.

Já no primeiro encontro, nos deslocamos do Quartel até uma delas. Fomos apresentados aos PMs responsáveis pelo controle das viaturas que cobrem todas às áreas operacionais. O Tenente Bruno, a pedido do Capitão Gomes, solicitou aos policiais que nos dessem cobertura e proteção. Nos deslocamos entre o quartel e a área através da viatura fiscalizadora. Ao chegarmos no local combinado, nos foram apresentados os policiais do turno A de uma das RDs da cidade.

Ao adentrarmos o veículo e circular pelo bairro começamos a observar e ouvir os policiais a respeito de sua atuação no local. Nesta oportunidade observávamos as interações entre polícia e população durante a realização do patrulhamento. Conversávamos, também, sobre as percepções dos PMs a respeito da área.

No período inicial da pesquisa, dos PMs era exigida a realização de visitas comunitárias26 no interior dos bairros por determinação do comando geral do programa. Através desta prática participamos de encontros entre policiais e moradores.

A conquista do acesso, autorizado pela rede de hierarquia local da corporação policial, rendeu a possibilidade de participação no patrulhamento de outras AOs da cidade. Semanalmente, passei a visitar outras localidades da cidade na viatura, conhecendo policiais e o fazer da PM nas ruas. Aos poucos, a participação do patrulhamento, abordo da viatura, foi se tornando especialmente mais interessante para investigar as relações entre policiais e moradores.

Assim, tabus e desconfianças, envolvendo tramas conflituosas entre pesquisadores e policiais, foram elementos negociados na construção da pesquisa. A proposta de estudar a relação entre polícia e comunidade, autorizada pelo comando local, abriu novos caminhos para a pesquisa. A aceitação transfixou interditos permitindo a minha participação, como pesquisador, em atividades resguardadas ao oficio prático dos PMs. A viatura, lugar móvel e

25 Com a iminência das eleições, do ano de 2010, os CCDS e suas lideranças passaram a se engajar no processo

eleitoral da cidade, principalmente, atuando como cabos eleitorais para deputados da região. As reuniões no quartel foram suspensas, e, consequentemente a pesquisa empírica destas relações esgotou-se no decorrer da pesquisa.

26 A visita comunitária consiste, simplificadamente, na apresentação dos policiais aos moradores durante visitas

regulares. Nesta interação, os policiais tentam extrair dos moradores informações acerca do bairro. Ao final da visita, os policiais passam aos moradores o número do telefone móvel da viatura e solicitam um telefone para contato do morador.

objeto central do patrulhamento motorizado, ganharia cada vez mais centralidade na pesquisa empírica sobre o programa.

A constante presença no quartel, paulatinamente, me tornou conhecido entre os policiais do programa. Ao mesmo tempo, construí uma vinculação de admiração e amizade com um dos coordenadores do programa. Participando das reuniões mensais sempre conversava com os oficiais responsáveis pelo programa. O Capitão Gomes mostrou-se um homem de bom humor e extremamente disponível. Repassou-me seu contato pessoal e seu endereço de e-mail. Avisava-me com antecedência as reuniões do quartel e jamais cobrou direta ou indiretamente e algo em troca da permissão. Sua personalidade extrovertida permitiu nossa aproximação. Depois de solicitá-lo ouvia o capitão explicar para seus subordinados: “Esse rapaz já faz uma pesquisa de longa data conosco, leve ele até a viatura para acompanhar as visitas comunitárias”. Demonstrando extrema boa vontade em todas as vezes que nos encontrávamos, a figura humana do Capitão Gomes foi decisiva para a realização da pesquisa. A sua autorização tornara a pesquisa um ordenamento aos seus subalternos, revelando algumas das relações de poder atravessantes do quartel e da atividade policial ostensiva e viabilizando a presença de um não policial na PMCE.

A possibilidade conquistada durante a realização da pesquisa, todavia, agrega ganhos e perdas. A centralidade da participação do patrulhamento ostensivo com PMs revela os sentidos construídos, intersubjetivamente, com base em suas lógicas perceptivas, agregando, também, percepções de moradores produzidas sob a mediação da interação deles com policiais. Não pude dar conta da interface revertida a partir dos moradores do bairro com profundidade. Nesse sentido, o estudo das práticas policiais é construído, aqui, com base nas dinâmicas relacionais elaboradas a partir das tramas e disputas em torno da definição legítima do real dos PMs.

In document Three essays on corporate boards (sider 57-64)