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Econometric evidence

In document Three essays on corporate boards (sider 87-91)

A participação na observação e na conversação é a própria condição que possibilita o presente trabalho. Na viatura com os policiais, caso enviesasse a interação com alguma questão ou problema de pesquisa, a priori, que precedesse o contato na condução da pesquisa, não se poderia acessar toda a riqueza de relações que o campo permite explorar. Estar na viatura circulando nos bairros da área de operações da PM era um verdadeiro passeio etnográfico. Na construção do diário de campo busquei dar conta de descrições de lugares, interações, objetos

e falas. Desde as primeiras incursões na área, devido à perda de alguns lapsos de observações importantes, adotei a medida de não compor o diário de campo no decorrer da observação, por conta dos muitos estímulos e acontecimentos para descrição. Optei, então, por confiar na memória42. No entanto, alguns cuidados devem ser tomados com a finalidade de aguçar a capacidade de observação e memória. Para tanto, antes das visitas, quando nos momentos que precediam as incursões na viatura, usei o diário de campo para anotações sobre as expectativas e horários antes da visita que funcionassem, heuristicamente, na recomposição mnemônica após as observações junto a algumas regularidades já observadas.

Durante as incursões no campo, novas descobertas surgiram a respeito da observação participante43. Algumas vezes, a conversação entre mim e os policiais ou entre eles próprios dentro da viatura se desenrolava de tal forma – entre lembranças e experiências acumuladas ao longo de suas carreiras trazidas em suas falas no movimento do veículo pelos bairros – que as narrativas espontâneas ou a partir de questões dirigidas, se misturavam a ponto dos encontros na viatura tornarem-se verdadeiras entrevistas em profundidade sem a presença do gravador que, dificilmente, viriam à tona numa entrevista formalizada, em outro ambiente. A maleabilidade em tratar os dados e acessá-los não é uma perda metodológica, mas sim um ganho obtido a partir da persistência e da conquista de um lugar privilegiado no campo. Distinguir as formas de obtenção das informações passa a ser uma tarefa extremamente difícil. Nessas entradas etnográficas, entre 2011e 2013, na realização da pesquisa, construí o trabalho de campo em uma das AOs da PM em Juazeiro do Norte - CE, no sentido que (BEAUD e WEBER, 2007. p. 9) atribuem: “o campo é um trabalho, não uma passagem, uma vista ou uma presença. O fieldworker não vai tão somente ao campo, ele fica ali e, acima de tudo, trabalha ali”.

A participação nos primeiros patrulhamentos na viatura durava, aproximadamente, 4h00min, alguns policiais interlocutores passaram a desafiar minha permanência no turno inteiro, somando a duração de 8h00min de observação. Aceitei o desafio passando 8h00min seguidas em trabalho de campo, nos encontros que se sucederam. Iniciava a participação no começo do turno, fosse o turno A, B ou C, e terminava as atividades na “rendição” do turno.

42 Como sugerem Beaud e Weber (2007) em alguns casos específicos de observação. Pinheiro (2008) em seu

estudo, também, adotou estratégia semelhante.

43 Becker (1994) faz algumas considerações importantes em sua preocupação de sistematizar de modo científico a

observação participante. Segundo o autor, ao adotar tal método deve-se distinguir as formas como as informações são colhidas em campo (se através de perguntas dirigidas ou de afirmações espontâneas dos informantes).

Concentrei a participação nos turnos B e C durante o trabalho de campo, por serem os turnos mais agitados em termos da atividade policial, principalmente, no atendimento a ocorrências.

Ao patrulhar na viatura em composição — envolvendo a quantidade de dois ou mais PMs — os policiais, munidos de seus aparatos de comunicação (rádio, celulares pessoais, telefone móvel da viatura e terminal móvel de dados), acionam uma interação coletiva de conhecimento, através, da qual, todos os partícipes se engajam e se interpelem produzindo uma multiplicidade comunicativa. Assim, pude me dar conta da análise combinatória de multivocalidades, em diálogo, nos esquemas de pensamento, percepção e ação dos PMs.

Neste sentido, as conversações funcionam, em algumas ocasiões, enquanto grupos focais44 (BABOUR, 2009) potencializados, também, por vozes arquivadas na memória através de diálogos ulteriores. É preciso ter em mente que as ferramentas metodológicas de acesso aos dados produzidos em campo não são previamente definidas, ou mesmo estão objetivadas claramente sob a intenção prévia do pesquisador. Ao contrário, é necessário entender que há um descontrole positivo em torno das dinâmicas contingenciais da pesquisa, tendo, é claro, a reflexividade metodológica necessária à compreensão de como tais ferramentas são mobilizadas e necessárias durante a experiência de conhecimento para a construção dos dados. Pouco a pouco, algumas das categorizações simbólicas dos PMs surgiram em campo. Entre elas a concepção de “ocorrência policial”, surgia tanto de relatos narrados como nas práticas observadas no desenrolar dos encontros. Esta aparecia, por vezes, como “S13”, termo que, na linguagem operacional45 da polícia, designa ocorrência.

Os códigos do S e do Q46 em particular, são mobilizados durante as ocorrências, mas, também, são evocados em interações descontextualizadas delas. Em algumas ocasiões são utilizadas nas interações conversacionais da própria composição de policiais em serviço.

44 Barbour (2009) observa diferentemente da entrevista de grupo convencional que permite a análise de conteúdo;

o procedimento metodológico grupo focal evidencia, também, as formas como as relações travadas na constituição da atividade repercutem no conteúdo produzido, tal ferramenta, desse modo, permite uma dupla análise.

45 Chama-se, aqui, por linguagem operacional os códigos mobilizados no patrulhamento pelos policiais, seja o

código do “S”, do “Q” e do “T”. As formas de se referir a números e letras de placas de veículos ou de documentos. Para entender melhor, consultar o apêndice I.

46 Ambos fazem parte de uma linguagem operacional internacional, usada para a comunicação via rádio, utilizadas

pelos policiais para promover uma comunicação técnica, pedir informações sobre pessoas, entender de situações específicas do trabalho etc. No entanto, o código do S, em particular, assume significados específicos a partir do contexto local, S 13, por exemplo, pode designar ocorrências policiais, problemas policiais, atividades a serem realizadas de cunho profissional e pessoal, por exemplo.

Constantemente, duas expressões, oriundas do código T: “TAN”47 e “TAJ”48, mediam indexação de estigmas misturando pessoas e objetos.

O termo “TAJ” é mobilizado na patrulha como forma de se referir a acontecimentos, objetos e pessoas “legais e/ou em boas condições”, adicionado do uso para referir-se a mulheres, moradoras, consideradas atraentes e “gostosas”. Ao contrário o termo “TAN” é relativo a algo “ruim e em más condições”, adicionado de um uso especifico em referência aos moradores suspeitos da área, ou com quem os policiais têm relacionamento ruim. Às vezes, os policiais usam o termo se referindo uns aos outros de forma jocosa e/ou pejorativa.

Certa vez, conversava com Falcon sobre a ocorrência na casa de um cabo da corporação, cuja motivação era a agressão física do PM à sua esposa. O policial possuía um histórico de desavença com sua companheira, o que externou seu vício em crack e cocaína para boa parte dos PMs da corporação local. O cabo era um “TAN, cachaceiro, drogado e apanhava da mulher”. No contexto situacional citado, o termo remetia a uma dimensão pejorativa de conversão de atributo de objetos para humanos. Entretanto, nas brincadeiras entre os PMs, no decorrer do patrulhamento, um pode dirigir ao outro a pecha de “TAN” sem produzir os mesmos efeitos. Procuro analisar, na Parte II da dissertação os desdobramentos do uso dessa linguagem operacional nas relações com os moradores

Considero que os dados produzidos em campo, que serão apresentados no decorrer da dissertação permitem detalhar muitos elementos das relações entre polícia e população. Contudo, a observação e escuta não são lineares nem onipresentes. São, sobretudo, situacionais e limitadas. Em jogo está a corporeidade do pesquisador e seus limites subjetivos de ver, ouvir, sentir e escrever, na possível produção intersubjetiva da invenção cognitiva mediadora da compreensão do universo pesquisado.

Na realização da pesquisa me inseri também no quartel, chegando estrategicamente, antes da troca de turnos. Nessas oportunidades aproveitava o intervalo para conversar com interlocutores que chegavam do turno anterior e com aqueles que renderiam seu serviço49.

47 Termo que, a princípio, designaria um aparelho com defeito.

48 Termo que atestaria o bom funcionamento da aparelhagem.

49 Render o serviço de alguém é assumir a posição que outro ocupava no turno anterior. O Patrulheiro B rende o

serviço do Patrulheiro do turno A, cautelando sua arma e munição para o turno seguinte. Os policiais costumavam brincar comigo perguntando quem renderia meu serviço, na prática a posição que ocupava na viatura não poderia ser ocupada tornando a rendição do meu serviço uma zona de indiscernibilidade para os PMs.

Desse modo, os registros de campo foram produzidos incluindo acontecimentos anteriores50 ao embarque na viatura. Nos arredores do quartel, antes mesmo das trocas de turnos para o início do patrulhamento da equipe/composição de policiais designada, ocorrem eventos e interações muito importantes: as escolhas de armamento, as expectativas dos policiais, as conversas sobre o turno anterior e os acontecimentos do dia. Estas são dimensões atravessantes durante a preleção dos policiais, por práticas que corporificam e repassam os “bizus”51. A preleção é realizada pelo responsável do turno, o “Fiscal Ronda”, posto ocupado por sargentos, cabos e subtenentes escalados para a devida tarefa.

Bizus envolvem dinâmicas: “passar o bizu” e “ficar bizurado”. Uma vez passado, o bizu estava corporificado na memória de quem o repassou, passando a estar na de quem o recebeu. Está lá um repertório engatilhado, a metáfora de uma munição em um artefato belicoso é precisa para descrever essas relações. É um repertório engatilhado. É, sobretudo, um código de relações, uma relação de rede social, em alguns momentos, funcionando enquanto rede de trabalho network, em outros, como uma rede de lazer.

Apropriei-me dessas linguagens, não só como forma de compreensão, mas, também, como forma de interação, sem medo de errar. Encarei tal processo, enquanto tarefa de invenção intersubjetiva, para conquista de confiança, conhecimento e proximidade. Deve-se entender que, as relações com a comunidade de interconhecimento (Cf. BEUAD e WEBER) tem brechas, sendo um campo de relações poroso. Não se trata de tornar-se policial, mas de um devir etnográfico na experiência policial, em que o pesquisador é atravessado pelo devir policial52 (Cf. GOLDMAN 2003).

Além dessas, outras conexões entre as categorias, revelaram desdobramentos importantes do funcionamento do policiamento, das práticas da polícia, das interações e relações na área.

50 Pode começar, também, na própria ida a campo e na oportunidade de acompanhar uma ocorrência através de

observações diretas, o que já pude fazer por duas vezes.

51 “Bizu” é a denominação que, a princípio, remetia a um cochicho de pé de ouvido envolvendo dicas e macetes

em quartéis para policiais. Contudo, o “bizu” é mobilizado pelos interlocutores da pesquisa como uma dica ou mensagem, às vezes, informações relacionadas a pessoas suspeitas, modelos e placas de carros suspeitos, formas de usar o colete, formas de segurar a arma, formas de efetuar abordagem. Porém, não remete apenas a isso, o bizu pode ser uma informação totalmente despojada desses caracteres, por exemplo, uma mensagem, SMS enviada por celular que diz “pega o bizu... eu vou ser pai”.

52 “O devir, na verdade, é o movimento através, do qual, um sujeito sai de sua própria condição por meio de uma

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