• No results found

Conclusion

In document Three essays on corporate boards (sider 95-119)

A forma de alteridade imediata de uma incursão etnográfica é a do pesquisador com seus interlocutores. É a alteridade como próprio método do fazer pesquisa. Trata-se de um processo repleto de pontos de referência numa alteridade espelhada do outro. Não se trata de pensar “não sou policial”, no sentido de “não sou esse daí”, mas os pontos de referência estão lá a todo o momento. “O policial age assim, pois...” o que pode substituir as reticências são raciocínios derivados dessa experiência de alteridade de si e do outro.

Foucault (2012) argumenta que práticas totalizadoras da razão na era clássica, por muito tempo, não conferiram a loucura e ao louco a condição de subjetivação e de sujeito. Ele encara esse processo como uma série de descontinuidades históricas nas quais a figura do louco funcionou como objeto e sujeito de alteridade para a razão. Ao dizer isto, o autor suscita que a forma de produzir uma alteridade é imediatamente um processo de produção de subjetividade e sujeição. Desse modo, as formas de alteridade são uma chave para adentrar os processos totalizadores e individualizantes atravessadores das produções discursivas e relações de poder entre polícia-população e pesquisador.

Não se trata de uma relação de empatia, enrustida na observação participante, mas da própria lógica de relação e experiência etnográfica (CLIFFORD, 2011). Não apenas como escrita, mas como interação para entrada no campo de relações e dos esquemas perceptivos do “nativo”. A alteridade é a grande chave, tão importante quanto compreender a concepção de

quais formas de alteridade marcam as relações entre policiais e moradores; quais corporeidades e subjetividades estão em jogo demarcando diferenças: nós-eles, eu-outro, policial-morador.

O esquema de alteridade precede a própria rede de policiais, demarcando uma interação entre os próprios policiais. Existem policiais que estão de corpo e alma engajados na profissão e os que esperam o tempo do serviço passar fazendo pausas nas sombras das árvores. Existem, além disso, os policiais “moitas” e os policiais “matadores” ou “vibradores”. A marcação de diferença, sob pontos de referência, é imprescindível para o entendimento e manejo metodológico das interações etnográficas. O etnógrafo tem de estar, ao mesmo tempo, atento aos esquemas do self e de alteridade.

Ao se dar conta disso é possível explorar um campo social aberto de relações. Mesmo geograficamente delimitada, a área é um sistema aberto de relações. As fronteiras mágicas da área são construídas pelo saber policial e produzem novas delimitações e vinculações entre territorialidades dividas em bairros, unidas agora sob o termo técnico: AO. Esta condição acaba objetivando o controle da presença física da viatura através de dispositivos como o GPS (Quando saem dos limites geográficos os policiais podem recebem avisos via TMD e rádio transmissor dos controladores). Todavia, não há uma muralha de concreto cercando-a, impedindo o trânsito de pessoas, objetos e veículos, além do mais, existem maneiras de burlar os limites da área, dentro ou fora da viatura, nas maneiras de fazer dos policiais, seja por obediência a ordens, seja por atividades pessoais no dia-a-dia profissional dos PMs55.

Por outro lado, a AO é a inauguração de uma espacialidade especifica. Os policiais passaram a fazer parte do cotidiano dos bairros de uma maneira mais incisiva, permanecendo vinte e quatro horas por dia em três composições diferentes no local.

São interessantíssimas as fronteiras simbólicas das AOs da PM. Na Zona de Policiamento Noir, existe o “miolo” e as “beiradas”. As fronteiras intra-áreas são demarcadas mediante classificações dos policiais. Existem “áreas críticas” associadas ao tráfico de drogas, pontos de execução e locais de violência doméstica. Essas fronteiras se dão numa demarcação classificatória muito importante. A partir da separação dessas dimensões, misturando espaços físicos e simbólicos, ocorre uma organização etnocêntrica da “aldeia”, empreendida pelos

55 Posso citar aqui dois casos exemplares. Um deles aconteceu, quando sob ordens do comandante do Ronda do

Quarteirão local, certa quantidade de maconha apreendida foi buscada em outra área pela viatura designada, afastando-a, autorizadamente, dos seus limites geográficos definidos. Outra ocasião, também presenciada por mim, deu-se em razão de um dos policiais ter acompanhado sua companheira durante o patrulhamento, quando ela saia do trabalho seguindo-a até as proximidades da sua morada, já fora dos limites da área.

policiais, com base na sua experiência acumulada em saber, dissolvida nos repertórios de práticas policiais.

As formas de alteridade são uma porta de entrada, um portal. Elas se expandem diluindo-se na percepção da própria formação dos bairros enquanto área. A territorialidade que a delimita, a população que lá habita, as composições de policiais deslocadas para lá para fazer o policiamento. Os locais onde a viatura passa com mais frequência, as formas e fórmulas de como se relacionar com os moradores. Os escolhidos dos policiais para a abordagem e revista pessoal. As garotas escolhidas para investidas afetivas. Os alvos da violência policial nos bairros. Qual a relação com os criminosos, qual a relação com o “cidadão”. São apontamentos metodológicos, também, nesta direção.

Além disso, a própria geografia dos bairros, o tipo de veículo que faz o policiamento, os recursos56 utilizados pelos policiais, são elementos que devem ser considerados ao empreender tal análise. A estrutura urbana da AO etnografada é marcada pela pobreza dos moradores e precariedade dos serviços mais básicos não oferecidos pelo poder público à população: vias não calçadas, ausência de saneamento etc. A tudo isto, soma-se o estigma de local violento imputado ao lugar. Essas alteridades são indexações da própria cena em movimento da etnografia. Dentro da multivocalidade encontrada na etnografia, existem experiências clarificadoras das conexões entre tais elementos e relações no cotidiano do patrulhamento das ruas realizado pela polícia, sobretudo, no que diz respeito as relações que se estabelecem entre policiais e moradores, como veremos, mais detalhadamente, da Parte II em diante.

56 Há uma dilatação metodológica da compreensão dos recursos policiais. A recursividade como elemento teórico-

metodológico, envolve a experiência policial acumulada em suas performances cotidianas, às quais poderão recorrer em dadas ocasiões de patrulhamento — atendimento a ocorrências, procedimento de revista corporal, paquera a moradoras e formas de não se “enrolar”, estão inclusas nesses processos — comportando-se de maneira mais ou menos agressiva, usando do diálogo — alternando estilos de “policial bonzinho”, “policial padrão”, “policial mal” entre outras possibilidades. As performances, por sua vez, englobam elementos físicos e simbólicos (armamentos, equipamentos eletrônicos, fardamento etc.) mobilizados nas suas práticas cotidianas, para possivelmente solucionar os “casos de polícia”, podendo, como efeito colateral, agravar sua complexidade.

In document Three essays on corporate boards (sider 95-119)