• No results found

Simultaneity and endogeneity

In document Three essays on corporate boards (sider 78-85)

3.3 Theory and hypotheses

3.3.2 Simultaneity and endogeneity

Quando comecei a pesquisa, ainda na monografia, entre os anos de 2010 e 2011, a aparelhagem das viaturas que viabilizava o patrulhamento ostensivo encontrava-se em perfeito estado de uso. A viatura não apresentava panes mecânicas, o telefone móvel da viatura recebia ligações da população local, o ar-condicionado da viatura e o estofado encontravam-se em excelente estado. Nestas condições, iniciei minha pesquisa, interrompida por menos de um semestre por ocasião das aulas presenciais no mestrado.

Durante os três meses de trabalho de campo, realizado nos meses de Junho, Julho Agosto em 2012, encontrei uma realidade diferente. O telefone móvel da viatura estava quebrado, a viatura estava em más condições, o estofado desgastado, as câmeras, porém, funcionavam normalmente, mas não demorou muito para o ar-condicionado do automóvel apresentar defeitos e, por cerca de dois meses, assim permanecer. Os chamados da população

34 Uma ocasião em particular me fez ser confundido como policial e assumir esse caráter de figura estranha. Ao

adentrar em dado estabelecimento, para comprar a refeição para outro policial, junto com a composição, me dirigi para comprar uma água, um dos seguranças do local aproximou-se de mim para perguntar por que eu vestia o colete, mas não tinha fardamento nem armas. Surpreso com a interpelação do segurança expliquei-lhe tratar-se de uma pesquisa, mas, não pude me alongar na conversa pois já era hora de voltar a viatura.

para a polícia chegavam através do TMD35, pelo rádio, por “baixa frequência”36, ou em interações face-a-face na própria passagem da viatura.

As visitas aos moradores, as chamadas “visitas comunitárias” na área, passaram a não acontecer. Alguns interlocutores explicaram-me serem as visitas um ritual de apresentação que não teria sentido de ser perpetuado, pois a intenção era conhecer os moradores, tornarem- se conhecidos por eles e distribuir o contato do telefone móvel da viatura. Como os aparelhos constantemente estão defeituosos, não haveria sentido em continuar as visitas no mesmo ritmo de outrora. Além disso, enfatizaram que a ocupação da viatura com o atendimento a ocorrências consumia o tempo que seria dedicado para visita aos moradores. Desse modo, durante a maior parte do tempo, a viatura, dependendo de cada composição de policiais escalada, permanecia circulando ou realizando pausas, também, em patrulhamento, os chamados “Pontos Bases”.

As equipes de policiais escaladas37 são marcadas por características que definem a singularidade dos PMs em serviço, por um lado e, por outro, o desdobramento da ação coletiva do patrulhamento. As chamadas “composições” podem ser formadas por policiais considerados mais ou menos operacionais. A produção da distinção dos PMs singulares pelo seu grau de “operacionalidade”38 redefinem como as composições agem com maior ou menor engajamento na produção do patrulhamento ostensivo. Tal condição pode relativizar a maneira como mostram “serviço”39 no decorrer do turno de trabalho para o qual foram designados.

35 Terminal Móvel de Dados é um dispositivo de entrada e saída de mensagens de texto utilizado para contato da

central de informações. Através deles são repassados detalhes das ocorrências para, as quais, os policiais são dirigidos. Após atenderem as ocorrências os PMs devem enviar uma mensagem de texto sobre o desfecho da ocorrência.

36 Expressão remetida à informação da ocorrência diretamente nos telefones celulares pessoais da polícia, pois, até

então a frequência da polícia não é criptografada e outras pessoas tem acesso a transmissão, ainda que, não sejam policiais. A ligação para o telefone é feita para restringir a emissão, receptação e circulação da informação.

37 As composições escaladas para o patrulhamento na viatura podem ter dois ou três policiais. Cada qual é escalado

em sua posição: motorista, comandante e patrulheiro, quando a escalação tem apenas dois, o comandante acumula a posição de patrulheiro.

38 O policial operacional é conotado como aquele que cumpre uma série de pré-requisitos, entre os quais estão o

continuo aprendizado acerca do fazer policial, a dedicação ao trabalho, a “honra à farda”, refletida na disposição de fazer o serviço da polícia, fundar suspeitas, fazer abordagens sempre com pró-atividade. Essa categoria será explorada de uma melhor maneira ao longo do trabalho. O trabalho de Storani (2008) em seu estudo sobre o Batalhão de Operações Especiais (BOPE) do Rio de Janeiro, narra que a condição do “Policial operacional” tem implicações no ethos policial, relacionado ao sucesso do agente de segurança em sua missão de combate à criminalidade.

Observei, ao longo do trabalho de campo, como a rotatividade dos policiais na área passou a ser bem maior. Encontros com desconhecidos, policiais que, raramente, em toda sua carreira haviam sido escalados no local, tornaram-se frequentes. A escalação não era feita com base na familiaridade que os policiais tinham com cada área. Alguns PMs estavam insatisfeitos com tal condição, reivindicando isto para os comandantes do programa. Porém, a solicitação, na maioria dos casos, não surtia efeito algum. Além disso, vários dos PMs que conheci apresentaram-se para eu como “sem área fixa”, estar lá era fruto da aleatoriedade.

Durante a pesquisa não foram escolhidas, prioritariamente, participações na patrulha com policiais já conhecidos, no entanto, os encontros com eles ocorreram durante os três meses. Isto, porém, implicou circular na viatura com vários policiais, ilustres desconhecidos, até então. As presenças de SD Agamenon, CB Ben, SD Cain, SD Dario, SD Élcio, SD Falcon, SD Guálter e SD Garcia, velhos conhecidos difusos em composições escaladas durante o trabalho de campo, mediaram a interação com os policiais desconhecidos, permitindo implodir, parcialmente, a desconfiança em torno da figura do estranho profissional40.

Com base no fato de que os policiais podem realizar o serviço em outras áreas, foi possível entender os acontecimentos da área, construída como campo de pesquisa, é possível apenas quando se considera a multivocalidade (BECKER, 2009) e (CLASTRES, 1995) que envolve realizar a patrulha em outros lugares, ou interagir com policiais e narrativas que atuam e compartilham acontecimentos de outras áreas. Além disto, por iniciativa dos policiais ou solicitação de apoio através do CIOPS é frequente o deslocamento de uma área para outra. De outro modo não é possível entender uma área desconectando-a das demais, haja vista que estas conexões estiveram explicitadas durante todo o trabalho de campo.

Com base nessa constatação registrei nos diários de campo descrições detalhadas da atividade policial. Abordagens policiais, desencadeadas ou não por chamados realizados à polícia. Um suposto “vagabundo”41 deslocando-se de moto ao longe, tornado alvo para cerco policial e realização de revista. Perseguições policiais veiculares contra suspeitos, das quais participei, incluindo, também, acontecimentos ulteriores narrados por meus interlocutores.

40 Wagner (2010) descreve o antropólogo como estranho profissional em sua obra a Invenção da Cultura. Trata-se

do tipo de relação do estranho que se interessa pelo mundo desconhecido do outro criando uma relação intelectual entre universos intersubjetivos distintos numa compreensão que inclua ambos.

41 Termo lingual utilizados pelos policiais para reportarem-se a suspeitos durante a realização do patrulhamento.

As narrativas dos policiais de ocorrências eram incessantes, abrangendo diversas motivações, contextos e surpresas: algemas em motéis; incômodos pelo barulho do balançado da rede do vizinho; explosão de uma casa por um acidente com artefatos juninos; o esposo que “quebrava tudo dentro de casa” quando embriagado; crianças perdidas; nível de som abusivo, propagados de carros e residências; a filha que dava trabalho a mãe; pessoas em atitude suspeita; acidentes de trânsito entre muitos outros casos.

Durante o patrulhamento ostensivo, mesmo em diferentes composições, o Bairro 2, é o local onde a viatura permanece mais tempo circulando. Lá incidiam o maior número de revista a moradores e chamados realizados à polícia. O deslocamento para outros lugares acontecia, geralmente, depois de um ato de fala interrogativo “agora vamos dar um giro lá no Bairro 3? ”. O Bairro 1 é visitado de maneira esporádica, principalmente, quando a viatura contorna os limites da área inteira.

Na construção dos dados, a relação de interconhecimento com os sujeitos da pesquisa, redirecionaram o esforço analítico à dimensão intersubjetiva da produção local das práticas policiais. Pretendo, pois, articular as interações face-to-face, durante os processos de definição da situação, emergidas durante a realização do patrulhamento ostensivo da PM com a produção intersubjetiva da agência policial. É imprescindível, dessa forma, considerar a produção dos contextos que permeiam as ações, relações e interações de/entre polícia e população, com base em suas possibilidades de presença e proximidade física na Zona de Policiamento Noir.

A chave encontrada para a leitura destas relações foram as reciprocidades conflituosas que permeiam e redimensionam a matriz de práticas da polícia, abrangendo as maneiras de ver, fazer e dizer dos PMs.

In document Three essays on corporate boards (sider 78-85)