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Endogeneity

In document Three essays on corporate boards (sider 52-55)

2.4 Statistical tests

2.4.2 Endogeneity

Neste estudo, algumas questões despontam a partir de um deslocamento intersubjetivo (Cf. CRAPANZANO, 2005) e inventivo (Cf. WAGNER, 2010) em campo. Trata-se, portanto, de uma guinada que pretende entender a experiência do “outro” com base na sua própria noção perceptiva de si mesmo (Cf. GEERTZ, 1997). O self policial entrecruza- se a cena do fazer, do ver e do dizer policial, nessa imbricação é que a pesquisa se institui.

A ideia de que não se deve ser fiel totalmente às teorias dos autores, sem desconsiderar o poder analítico dos conceitos, é claro, é uma posição adotada ao longo do presente trabalho. Trata-se do primado de utilizar, heuristicamente, ferramentas conceituais que possam ser retiradas da lógica anterior, estruturada no modelo teórico dos autores, a fim de,

dilatá-las em novas apropriações que permitam ajudar a entender e pensar, da melhor maneira, a vida social. Nesse sentido, não se trata de aplicar teorias, mas de usá-las para compreensão de forma metodológica. Uso similar, para o qual Weber (2001) já chamava atenção quanto ao uso metodológico dos tipos ideais, segundo ele, dever-se-iam ser usados apenas enquanto meios de conhecimento e não como simples explicação da vida social. Dessa forma, tais ferramentas teórico-metodológicas seriam meios de conhecer. Trata-se de um método.

O microcosmo de relações sociais da Zona de Policiamento Noir é um caso possível de relações entre polícia e população. A produção local das práticas policiais, discutida aqui, revela dinâmicas relacionais e interacionais conflituosas de policiais e moradores, revelando a construção intersubjetiva da agência policial e suas formas de gestão do cotidiano na sua atividade profissional.

Como os policiais forjam suas práticas a partir dos contextos locais do policiamento? Quais tipos de transações, envolvendo trocas simbólicas, afetos, formas de punição e acusações, são efetivadas mediante a presença dos policiais cotidianamente nos bairros? Estas podem tornarem-se contribuições analíticas valiosas, interligando dimensões e acontecimentos locais às possibilidades de generalização com base na especificidade. Do microcosmo de relações sociais da Zona de Policiamento Noir, pode-se pensar como acontecem, na prática, as relações cotidianas entre polícia e população, possíveis pela presença da polícia em territórios, por muito tempo, esquecidos pelas políticas de segurança e sociais.

O mapa analítico construído, embasado nas categorizações emergidas durante o trabalho campo, conota uma dimensão interessante: a forma como os acontecimentos dos bairros se transformam em caso de polícia. Esta é uma inferência que atravessa vários aspectos: as possibilidades de comunicação com a polícia e a recepção dos policiais dos problemas dos moradores, por exemplo. A percepção policial in situ, dos aspectos que configuram cada acontecimento como potencial caso de polícia ou não, é negociada entre cada composição de policiais escalada para a realização do patrulhamento e as populações locais engajadas nos processos. Os eventos, todavia, podem tornar-se caso de polícia, com base na mediação dos repertórios de poder de polícia disponíveis para solucioná-los, ou descartá-los, mediante obrigações e escolhas. Tal transação tem como eixo decisivo a interação social e as situações inauguradoras e perpetuadoras das trocas.

Dessa forma, os chamados realizados à polícia, podem dizer muito sobre estas relações. Somado a isto, é preciso explorar as dimensões assumidas pela PM ao permanecer, 24h por dia, circulando em bairros habitados pelas camadas mais pobres da população, de territórios construídos socialmente enquanto violentos. Entendo que, deste processo, resulta o

entrecruzamento de formas de classificação, aproximação e reciprocidade, entre polícia e população.

É preciso levar em consideração como se constroem as formas de interdependência e reciprocidade na produção social das práticas e praticantes no universo estudado. Tais formas estão calcadas, profundamente, por relações conflituosas incessantes no cotidiano da atividade policial. Trata-se de um sistema aberto de relações em processo, que, algumas vezes, pode se reconfigurar e até se desconfigurar, mantido e dissolvido por relações de interdependência dinâmicas, envolvendo, ao mesmo tempo, simultaneidades de aproximação espacial e possibilidades de interação. Esta rede funciona, todavia, sob a demarcação da diferença, polícia e população, policiais e moradores na vida social dos bairros, tornados AOs da PM.

No que diz respeito as possibilidades agentivas da polícia, abordo em que medida os policiais são livres para fazer o que eles fazem, tendo “carta branca” para cometer inclusive ações deliberadas? E, ao contrário, em quais medidas não os são? Trata-se, aqui, da dúvida radical em relação aos esquemas de percepção, pensamento e ação dos policiais (BOURDIEU, 1977).

A despeito do caráter punitivo e preventivo das forças policiais, em suas práticas localizadas, é preciso ter em mente que tipos de economia de punição23 estão atrelados às maneiras de fazer dos PMs do Ronda do Quarteirão em seu cotidiano de trabalho. Tais arrolamentos têm como motor, relações de força e de poder no cotidiano da área nas suas múltiplas possibilidades de envolvimento, descritas no decorrer do estudo.

Ao estudar as relações entre policiais e moradores em uma das áreas de operações do programa em Juazeiro do Norte - CE, realizei a pesquisa estando abordo da viatura com os policiais, patrulhando, conversando, observando e sendo observado pelos policiais, com os policiais e os policiais. Nessa condição, ao mesmo tempo, ocorreram dois processos: por um lado, as questões analíticas surgiram em campo; por outro, esses apontamentos foram levados ao campo de pesquisa para novos confrontos no universo empírico, produzindo achados e novas questões.

Levo em conta, na produção e análise dos dados, a tarefa de produzir “grounded

theory” (GLASER e STRAUSS, 1967). Arriscaria traduzir o termo para “teoria

fundamentada”. Ao discutirem estratégias de pesquisa qualitativa, os autores propõem o

23 Seria a economia da punição tudo aquilo que é simbolicamente construído como prática jurídica na atividade

policial? Ou seria a economia da punição práticas ilegais que orientam e conduzem as ações policiais de acordo com valores compartilhados no cotidiano e no fazer policial? Do ponto de vista descritivo analítico fronteiras entre as duas são exploradas no decorrer da dissertação.

“método comparativo constante na análise qualitativa”. A ideia é agregar dois modus operandis analíticos na pesquisa24 com o intuito de produzir “descobertas de hipóteses” e não simplesmente testá-las. Possibilitando, desta forma, a produção de teorizações mais sistematizadas e fundamentadas nos dados.

Nos estudos sobre polícia são excepcionais as possibilidades de acompanhar, de perto, o trabalho policial. A trajetória em campo permitiu esta preciosa possibilidade da presença do pesquisador na viatura, durante o patrulhamento. Não optei por estudar, empiricamente, a política de segurança pública, atrelada ao programa, nem com isso, a pretensão de conhecer todas as áreas almejando compreender o policiamento da cidade ou do estado.

Não se pode, com isso, negligenciar o potencial generalizante deste estudo. A riqueza empírica dessa área, em particular, desponta e escapa os seus próprios limites espaciais e simbólicos. A não revelação do local coloca em suspenso seu caráter meramente localizado, tornando o localizado algo genérico, parte do campo de possibilidades de relações entre policiais e moradores, um caso possível entre outros casos possíveis.

Como salienta Becker (2007) não se pode estudar todos os casos de tudo. O processo de sinédoque pode ser, algumas vezes, uma armadilha, ou, em outras, um importante instrumento para a produção da complexidade e problematização do objeto de estudo. As questões levantadas ao longo da construção do campo não são tentativas de limitar a análise, mas de estabelecer conexões fundamentadas nos dados, permitindo acessar as capilaridades no campo, fundamentais para compreender as relações entre os moradores e a polícia, não negligenciando nem se desligando de novidades surgidas no decorrer da pesquisa. O recorte estabelecido ao longo da construção do campo, nesse sentido, não é mero isolador do objeto de estudo, mas revela conexões importantes para compreender as problemáticas levantadas e emergidas no e pelo campo.

Dividi em três partes esta dissertação. A Parte I centra-se na construção de um objeto de investigação explicitando as conexões entre o processo de escrita e o trabalho de

24 Os autores pontuam duas formas de análise de dados qualitativos comumente adotadas: 1, torná-los

quantificáveis para testar hipóteses de pesquisa, codificando-os e depois analisando-os; 2. Gerar conceitos, novas categorias e suas propriedades, hipóteses e hipóteses inter-relacionadas “o analista simplesmente inspeciona seus dados para novas propriedades de suas categorias teóricas, acrescendo-as às propriedades antigas.” [tradução minha]. Após discutir a incompletude de ambas as abordagens, propõem um combinado das duas estratégias “fazendo um procedimento analítico de constante comparação, incluindo a codificação explicita da primeira abordagem e o estilo do desenvolvimento teórico da segunda”. [tradução minha] (STRAUSS e GLASSER, p. 101- 102)

campo etnográfico. Nela, trato das relações de conhecimento construídas com os policiais paralelamente a minha inserção no trabalho de campo. Busco, além disso, explicitar os recortes produzidos no decorrer do processo até a escrita desta versão final do trabalho. Reflito sobre a condição do pesquisador homem e sua influência na produção dos dados etnográficos. Faço uma breve introdução ao universo de categorizações simbólicas dos PMs e seu ofício, no qual, busquei me engajar. Revelo o descontrole prévio do pesquisador sobre o uso das ferramentas metodológicas no decorrer de um empreendimento etnográfico. Discuto as desconfianças dos interlocutores e as estratégias de interação durante os processos de engajamento de face. Por fim, pontuo a grande chave encontrada para a produção do presente estudo: as economias de alteridade de policiais e moradores e suas relações com a produção de práticas policiais construídas localmente.

A Parte II é uma imersão etnográfica através da descrição das camadas envolvidas na produção de reciprocidades entre policiais e moradores. Discuto, no Capítulo II, os processos de classificação simbólica realizados pelos policiais no seu fazer cotidiano. Exploro como as classificações da figura de morador são redimensionadas pelas contingências situacionais e interacionais do patrulhamento cotidiano. Relaciono, ainda, como esses processos são chaves analíticas para as formas de reciprocidade, envolvendo obrigações e escolhas nas relações de dar, receber e retribuir. Descrevo situações, nas quais, a figura do morador é manejada a partir de estigmas, envolvendo status e estaturas morais e as dinâmicas relacionais decorrentes do processo. Articulo as dinâmicas táticas e estratégicas da agência da polícia com a realização do “teatro de operações”. Discuto, além disso, as relações de gratidão em torno de “servir” e ser “reconhecido” na percepção dos policiais. Discorro sobre como as paqueras com as mulheres, da área patrulhada, relacionam-se a redimensionamentos das aproximações entre polícia e população.

No capítulo III, abordo as tensões entre a busca e a fuga do fazer policial a partir de suas categorizações simbólicas e práticas cotidianas. Descrevo como se procedem as formas de elaborar índices de suspeição dos moradores. Analiso como as abordagens policiais são encontros cotidianos entre polícia e população entrevendo, ou não, o contexto criminal. Exponho como as tensões entre buscar e fugir da ação tem como interface as relações entre os policiais e a área patrulhada envolvendo suas populações locais.

No capítulo IV, trato das negociações travadas entre polícia e população para a produção da ocorrência policial nos contextos locais. Busco compreender, a partir dos casos conhecidos, como os acontecimentos dos bairros tornam-se caso de polícia, elucidando seus diferentes graus de complexidade. Debato como ocorre a participação da polícia nos conflitos

interpessoais da população. Procuro refletir sobre o papel dos chamados realizados à polícia, com a produção local de acusações e seu sentido sociológico. Discuto, ainda, um modelo actancial das denúncias realizadas à polícia.

A Parte III é destinada a discussão em torno da categorização nativa “enrolar” e seus desdobramentos. Busco uma imersão nas categorias e seus significados e implicações na carreira moral dos PMs. Discorro como as acusações e contra acusações, desculpas e justificações conectam reciprocamente os PMs e moradores no cotidiano da área. Por fim, realizo um apanhado dos dados produzidos e os principais apontamentos realizados nesta dissertação.

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