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Robustness checks

In document Three essays on corporate boards (sider 91-95)

dificuldades do campo

A Companhia de Batalhão é subdivida em segmentos da polícia, cada qual com seu comando, e todos com um comando centralizado do coronel, comandante do batalhão. Um capitão e um tenente eram, no período da realização da pesquisa, os oficiais responsáveis pela unidade sul do programa Ronda do Quarteirão. Através do capitão obtive permissão para participar, na viatura, do patrulhamento durante a pesquisa. Dos comandantes sempre ouvi a negativa de conseguir utilizar o colete à prova de balas durante o acompanhamento, argumentando indisponibilidade do equipamento.

Inversamente, o constante questionamento da permissão de estar lá, na viatura, geralmente questionada por alguns PMs de serviço, no início do trabalho de campo, tinha como álibi a autorização do capitão, instância maior dentro da hierarquia do comando do programa. “Ele é autorizado pelo capitão”, não importava a hora do dia ou da noite, essa fala era a carta branca para estar na viatura, sem produzir questionamentos sobre a natureza da ordem53. A realização da pesquisa era uma questão de ordem de superiores inquestionável, quanto a sua aceitação, pelos subalternos.

Contudo, na continuidade do trabalho de campo, os documentos da minha solicitação ao capitão estavam nas mãos dos cabos e sargentos responsáveis pela chamada que precede o início dos turnos. Entre a papelada, encontrava-se a solicitação do colete por ofício. Apesar da negativa do tenente, alguns dos praças, contaram-me que na sala de armamentos haviam inúmeros coletes disponíveis. Um dos fiscais apontou a solução num dos fins de semana de trabalho: Cautelar o colete em nome dos policiais que tirariam serviço no turno. Era possível conseguir um colete através dos praças, mas não através dos oficiais54.

53 Sá (2002) já havia observado esse aspecto da obediência às ordens de superiores no modo de vida da PMCE em

seu estudo sobre a formação do oficialato. Quando Weber (1999, p. 140) discute a crença na legitimidade nos modos de dominação, diz da obediência “[...] a ação de quem obedece ocorre substancialmente como se esse tivesse feito do conteúdo da ordem e em nome dela a máxima de sua conduta, e isso unicamente em virtude da relação formal de obediência, sem tomar em consideração a opinião própria sobre o valor ou desvalor da ordem como tal. ”.

54 A “Praça” constituí uma das divisões administrativas da corporação militar a partir de um ingresso específico

na carreira, tendo possibilidades de graduação, ascendente, correspondente a posições hierárquicas e salariais demarcadas sob graduações: soldado/cabo/sargento/subtenente. Embora a “Praça” seja uma expressão definida no feminino, nos usos linguais dos PMs o termo é empregado como substantivo masculino. A outra divisão, os “oficiais”, corresponde a elite política militar, é fruto de outro ingresso e formação, ocupando cargos

Essa foi a deixa para irromper as barreiras simbólicas das formas de hierarquia da polícia militar e conseguir o colete para acompanhar as visitas protegendo-me de qualquer intempérie. O colete é um objeto de consumo restrito, oficialmente, para as polícias (militar, civil e federal), o exército nacional e empresas de segurança privada. Há um significado simbólico empregado no colete vestido sobre a farda e o distintivo. É uma marca imagética, dentre outras, de diferenciação simbólica. Já havia vestido o colete, em outra oportunidade, por sugestão do SD Dário, segundo ele o colete era pesado e quente. Quando o vesti pela primeira vez, senti dificuldade em me mover.

Boa parte do trabalho de campo com os PMs realizei sem o uso de colete balístico. Eram constantes, porém, as sugestões do seu uso, alertando, na maioria dos casos, para minha integridade física. Alguns policiais sugeriram, inclusive, que eu não fosse realizar a pesquisa de “cara limpa”, recomendando-me o uso de óculos escuros acompanhado de um boné. Aceitei a dica dos policiais, cautelando o colete por meio dos PMs em serviço, porém, não me sentia à vontade utilizando óculos escuros nem boné, optei por realizar a pesquisa de “cara limpa”.

Quando vestia o colete alguns PMs brincavam, pronunciando atos de fala como: “agora você está operacional”. O colete acabou funcionando como um indexador de maior proximidade com o universo pesquisado. Vesti-lo significava, dentre sua polissemia, estar sentido na pele um dos aspectos do trabalho policial comum aos interlocutores. Alguns PMs, ao longo das interações de conhecimento na etnografia, ofereceram-me armas e oportunidades para realização de revista em moradores.

Os PMs encaram algumas áreas específicas da cidade como locais de construção de conhecimento sobre seu oficio prático. Realizar abordagens, manusear armas e aprimorar sua agência cotidiana são objetos desta condição. Como passei a me engajar no universo da área e me vinculei gradativamente ao universo pesquisado, alguns policiais, tornaram seus próprios passos de construção da carreira (aprender a abordar, manusear armas de fogo, vestir o colete balístico etc.), algo que eu deveria também fazer, no decorrer da minha pesquisa. De modo que, em alguns casos sugeriram que fossemos procurar suspeitos para que eu aprendesse a abordar ou pediram para carregar armas para “já ir me acostumando”. Apesar de gostar do que estava

administrativos relacionados ao comando de segmentos da PM, ascendendo, hierarquicamente, também: tenente/capitão/major/tenente-coronel. Há uma relação de subalternidade dos praças, cujo ciclo de ascensão profissional hierárquica é descontínuo em relação aos oficiais (Cf. SÁ, 2002). Alguns praças, porém, podem fazer o curso de oficiais mudando de divisão administrativa desde que atendam alguns pré-requisitos (grau de instrução, ausência de pendencias judiciais são alguns deles) outros podem vir a ser oficiais sem antes terem sido Praças, iniciando a carreira na PM como Tenente. Estas relações mantêm reciprocidades obrigatórias acionadas como ordenamentos.

acontecer, pois via estas interações como conquista de confiança dos interlocutores, neguei, prontamente, tais oportunidades, pelas consequências negativas que poderiam ser produzidas, tanto para eles quanto para mim.

Alguns policiais inclusive me sugeriram “entrar para o ronda” através do concurso público, pois “tu já está aqui direto, é como se fosse um estágio...”. Para alguns policiais interlocutores, que tornaram-se meus amigos pessoais, provavelmente, pela minha disciplina durante a pesquisa “queria ser um deles”, e teria de aprender o que aprenderam nas ruas. Me atentei a esses processos como possíveis forças de captura do campo e uma forma especial de “sedução do objeto”.

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