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Board control and timing

In document Three essays on corporate boards (sider 120-123)

4.2 Former empirical literature

4.3.1 Board control and timing

Não se pode desconsiderar que, ao criar uma rede de relações durante a realização de uma etnografia, acabam se estabelecendo pertencimentos e amizades implicadas em formas de afetações no sentido atribuído por Favret-Saada (1977) e Goldman (2005). Alguns dos dados produzidos, se não fossem maleados ficcionalmente, prejudicariam os policiais envolvidos ao longo da interação de conhecimento junto à instituição da Polícia Militar, dependendo das interpretações produzidas do presente estudo.

Atravessar esses impasses é um desafio. Naturalmente, ao longo do trabalho de campo e no desenvolver da pesquisa, pontos cegos surgem e questões importantes podem passar despercebidas. Apesar de justificar o recorte do trabalho e as considerações levantadas ao longo da construção das relações de pesquisa, não se pode desconsiderar as dimensões mais amplas, generalizantes, nem escapar da especificidade do campo. Em geral, os estudos sobre a polícia — que tematizaram os aspectos do trabalho policial, o policiamento, entre outras questões —, em raros casos, têm como possibilidade a incursão etnográfica na viatura junto aos policiais.

Não é possível resolver os impasses de campo com o estalar dos dedos. Logo, não se pode transformar quaisquer dificuldades, surgidas no percurso, numa perdição labiríntica de caminhos possíveis de traçar. Um problema de pesquisa emergido em campo é a solução para esse impasse, desviar-se, deliberadamente, pode transformar a pesquisa em outra experiência que não seja a de interconhecimento, resumindo a interação de conhecimento numa aventura puramente pessoal.

Inicialmente, pretendia estar na área com e sem a presença da polícia em momentos diferentes, entretanto, estar na viatura com os policiais, vestindo colete, explicitou fragilidades para o deslocamento entre as duas possíveis entradas em campo: dentro da viatura e fora da viatura.

Em alguns casos, estando na viatura, poderia ser identificado como possível vítima indicando abordagens, procurando suspeitos, denunciando criminosos, aguçando muitas

possibilidades do significado da presença do pesquisador no patrulhamento. Ao participar de inúmeras operações contra o tráfico de drogas na área, alguns traficantes e moradores que se sentiram preocupados com minha participação, nas mais variadas situações do patrulhamento, esquadrinharam minha figura, se referiam a mim como alguém já conhecido, de acordo com as apresentações dos PMs de minha persona.

Por contas de jogos de encenação dos policiais, fui apresentado, assumindo facetas diferentes. Para alguns “traficantes” e “aviões do tráfico”, fui apresentando como “Delegado”, tentaram fazer o mesmo para com alguns repórteres. Para moradores com mais intimidade com a polícia, era apresentado como “Repórter do Polícia 24 horas”57, nem sempre, porém, o papel era desfeito e a pesquisa revelada. Os jogos aconteciam entre os próprios policiais, apresentando, também, a figura desconhecida a outras composições usando da criatividade marcada pelo imaginário policial:

—Este aqui é um agente do CIOPS” ele vai fiscalizar a realização dos Pontos Bases. — Conheçam aqui o capitão da PM, do serviço reservado.

Assim, algumas interações eram produzidas e revelavam dados mediante a ficção de papéis imaginários atribuídos e desempenhados.

A recorrência das apresentações do pesquisador pelos policiais nas interações de conhecimento, por vezes, não produzia desempenhos sinceros, e sim cínicos (GOFFMAN, 1985). Trata-se da dimensão do poder de apresentar alguém performaticamente. O papel de pesquisador foi atravessado por demarcações de posição, decisivamente presentes na produção dos dados. Isto, no entanto, se deu sob plena consciência. Irromper tais apresentações, poderia provocar desgastes em campo. Foi, de certo modo, a maneira de jogar o jogo, conhecer as regras e estabelecer elos.

Por vezes fui questionado por policiais, recém-conhecidos, a opinar sobre minhas valorações sobre a polícia, a ponto de caso ocorressem esquivas e deslizamentos poder-se-ia comprometer o clima favorável à conversação e incitação da desconfiança que pesasse sobre as intenções da pesquisa. O SD Pires me questionou de forma direta: “Você acha que nós policiais podemos agir dentro da legalidade? ”. Ele insistiu tanto em sua questão, objetivando entender a dimensão valorativa, do pesquisador sobre a polícia, que respondi: “não”. Ele ficou feliz com a posição e passou a relatar sua apreensão. No dia anterior, o PM agredira um morador durante o atendimento a uma ocorrência e temia a representação judicial da vítima contra ele.

57 Programa transmitido por uma famosa emissora de TV, cujo conteúdo apresenta cenas do patrulhamento de

Após o critical moment (Cf. BOLTANSKI e THÉVENOT, 1999) o clima da cena etnográfica mudou de tom, em situação semelhante a narrada por Crapanzano (2005), a interação passara a ser mais dinâmica e receptiva e menos seca e mecânica, modificando seu tom de inquérito sob as desconfianças sobre mim. As cobranças por respostas cessaram, abrindo uma fresta clareadora de horizontes imaginários das tensões às quais os policiais estão atravessados na sua atividade: agir normativamente ou deliberadamente, de maneira legal e ilegal. Tais impasses aconteceram repetidas vezes. Não participar ante esses momentos poderia desfazer parcialmente o campo de pesquisa e descartar possíveis interlocutores.

Estas interações revelam que os engajamentos de face Goffman (2010, p. 135), em alguns contextos, necessitam não só de uma razão de ser, ou seja, a dimensão de uma interação interessada da pesquisa, mediada por redes de relação de hierarquia autorizadoras. Quando dissolvidos às relações in situ, encontros como o descrito, requerem a cobrança de pontos de equivalência entre estranhos. Uma vez encontrados, a interação passa a ser menos assimétrica reduzindo o desengajamento de faces estranhas, ou de outra maneira, evita-se o surgimento de uma razão para a rejeição do pesquisador.

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