• No results found

III. Caracteres de la «economía de las plataformas virtuales»

1. Los sujetos característicos

Em razão da falta de espaço, não caberia aqui retraçar detalhadamente a vida do profeta. Como existem, em vários idiomas, numerosas obras a este respeito, ateremo -nos a indicar os acontecimentos mais marcantes da sua história.

Às vésperas do século VII da era cristã, a Arábia era habitada por um grande número de cabilas, politicamente independentes, que formavam em conjunto uma comunidade linguística e cultural. Elas eram majoritariamente nômades (beduínos); entretanto, no Sul da Arábia, assim como em numerosos oásis, uma população sedentária praticava a agricultura. Ao longo dos itinerários comerciais tradicionais interligando as margens do Oceano Índico às costas mediterrâneas, existiam algumas cidades cujos habitantes dedicavam -se ao comércio, embora conservassem os hábitos e o código moral dos nômades. A Meca era o principal centro comercial e religioso da Arábia. A religião dos árabes pré -islâmicos era em geral de essência tradicionalista e o seu culto endereçava -se a deuses ou espí- ritos que habitavam, acreditava -se, blocos de pedra, rochedos, árvores ou poços. Alguns deuses eram astros, como o Sol ou o planeta Vênus. Havia igualmente a ideia de um ser supremo chamado Alá, porém este último não constituía o objeto de nenhum culto, contrariamente a al -Lāt, “a deusa”, que aparentemente desempenhava um papel mais importante. As representações de alguns destes deuses estavam dispostas em um antigo santuário da Meca, denominado a Ka’ba. De modo geral, os árabes nesta época, fossem eles nômades ou sedentários,

2 É portanto inexato chamar os muçulmanos “maometanos” ou o Islã “maometismo”. Estes termos foram introduzidos nas línguas europeias com base nos modelos do budismo e do cristianismo, religiões cujos fundadores são adorados como seres divinos.

preocupavam -se pouco com a religião, em razão desta última não representar, para eles, senão um elemento a mais entre outros integrantes dos costumes dos seus ancestrais.

Havia igualmente na Arábia importantes estabelecimentos povoados por pessoas de religião judaica; muitos dentre eles eram árabes convertidos, vivendo em sua maioria nos oásis, em cabilas organizadas de acordo com um modelo análogo àquele dos árabes adeptos da religião tradicional. O cristianismo muito cedo abrira caminho na Arábia. Os seus principais centros encontravam -se no Sul da península (Nadjrān) e nos confins do deserto, na Mesopotâmia e na Transjordânia. Havia, em suplemento, cristãos vivendo isoladamente em todas as cidades, além de monges que levavam no deserto a existência solitária dos anacoretas.

Contudo, foi antes de tudo aos árabes de religião tradicional que Maomé foi enviado, portador da mensagem divina. Nascido na Meca, criança póstuma, órfão precoce, ele viveu até os seus quarenta anos uma vida de comerciante. Ele gozava de uma reputação de equidade e probidade nos negócios, porém, dito isso, em nada se distinguia dos seus colegas negociantes. Aproximadamente no ano 610 da era cristã, ele recebeu as primeiras revelações de Deus, por intermé- dio do anjo Gabriel, com a ordem de pregar o islã aos seus irmãos humanos. Estas primeiras revelações eram centradas na unicidade de Deus e no último dia; elas exortavam os homens a não negligenciarem a religião em proveito dos assuntos deste mundo. Elas igualmente refletiam os princípios da igualdade entre todos os homens, sem distinção de posição social ou fortuna.

Quando Maomé começou a sua pregação e reuniu em torno de si uma pequena comunidade de crédulos, a oligarquia dos ricos comerciantes e ban- queiros da Meca não tardou a perceber a natureza revolucionária da mensagem e considerou -o, desde logo, como uma ameaça aos seus privilégios. Estes homens igualmente temiam ver a Meca, centro da religião tradicional árabe com o seu santuário da Ka’ba, perder a sua importância com a chegada da nova religião. Embora a peregrinação anual, fazendo ali convergirem milhares de árabes de toda a península, fosse uma fonte de ganhos consideráveis para os comercian- tes da Meca. Do mesmo modo, conquanto Maomé não tivesse em princípio manifestado nenhuma vontade de exercer influência política na Meca, as suas qualidades morais e intelectuais, reforçadas ainda pela sua missão profética e pela sua comunicação com Deus, faziam -no surgir aos olhos da oligarquia como um perigoso rival. Eis a razão pela qual a história do Profeta e dos seus primeiros partidários foi, até 622, aquela das perseguições por eles enfrentadas, inclusive atentados contra a vida do Profeta. Perante esta situação, o Profeta ordenou a

vários entre os recém -convertidos, dentre os quais uma das suas filhas e o seu marido, que imigrassem para a Etiópia cristã, onde receberam uma amigável acolhida do negus3. A ideia de deixar um país onde se abatiam a injustiça, a

opressão e as perseguições, para se refugiar em um lugar onde os muçulmanos pudessem acumular forças antes de partirem em busca de uma vida conforme aos princípios islâmicos consiste em uma noção essencial do Islã, recorrente no curso da ulterior história de numerosos movimentos de renascimento islâmico.

No auge das perseguições, Maomé e os seus partidários rumaram em direção à cidade -oásis de Yathrib, a qual posteriormente se tornaria Madīnat al -Nabī (a cidade do Profeta), ou seja, Medina. Esta migração aconteceu no ano 622 da era cristã e esta data marca o ano de origem do calendário muçulmano. A imigração de Meca para Medina é chamada hidjra, termo usualmente traduzido como “a fuga”, o que é incorreto, pois que na verdade a palavra árabe significa “cortar os laços tribais e criar novos elos”.

Maomé foi convidado a Medina pelos habitantes da cidade, os quais ganha- ram o nome de Ansār (aqueles que o ajudaram); os imigrantes de Meca foram denominados Muhādjirūn (aqueles que realizaram a hidjra ou os imigrantes); e estes dois grupos reunidos formam aqueles que eram chamados Ashāb (os companheiros do Profeta). Nos anos subsequentes – e até a sua morte no ano 11/632 – o Profeta fortaleceu e governou a comunidade muçulmana (umma em árabe), repeliu os ataques dos seus inimigos da Meca e, através da diplomacia e da guerra, submeteu à sua autoridade uma vasta confederação de cabilas árabes. Quando se encontrou forte o suficiente, ele retornou a Meca e ali entrou como vencedor, reconhecido como o chefe religioso e político investido do poder supremo. No momento em que Deus o chamou para Si, Maomé era pratica- mente o mestre incontestável da maior parte da Arábia e já se preparava para propagar o islã além dos limites da península.