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Amigos do islã ou muçulmanos desde o século IV/X no Takrūr, desde o século VI/XII no Mali, por exemplo, eles em geral se mostraram assaz facil- mente satisfeitos com uma divisão do espaço e do trabalho que lhes assegurava, nas cidades islamizadas, total ou parcialmente, os quadros administrativos dos quais eles necessitavam, ao passo que o mundo rural constituía uma reserva inesgotável de mão -de -obra agrícola e servil, relativamente à qual não havia urgência de conversão. A prática islâmica aparenta acomodar -se a esta situação: não reconheceria ela um território privilegiado – Dār al ‑islām – ao lado daquele onde habitam infiéis e “pagãos” (Dār al ‑kufr, Dār al ‑harb)? Contentando -se com a conversão dos príncipes, garantia, em longo prazo, da conversão das massas, o Islã provavelmente adotou uma postura “pastoral”, igualmente encontrada na Europa cristã dos mesmos períodos54.

Os soberanos africanos, mesmo muçulmanos, não foram ativos conversores, é o mínimo que se pode dizer. No entanto, não foram as tentativas de integração política e social, com base no modelo islâmico, que faltaram em seu caso e junto aos seus conselheiros muçulmanos da África subsaariana. Eventualmente, chega-

51 O uso do véu não é uma obrigação no Islã e o véu, tal como compreendido em certos países muçulmanos, não é ortodoxo.

52 Ibn Battūta, em: J. M. CUOQ, 1975, p. 311. 53 Al -Maghīlī, em: J. M. CUOQ, 1975, p. 431.

54 Conquanto não se deva abusar das comparações históricas, é contudo interessante notar que os méto- dos de penetração e instalação do cristianismo e do Islã nas sociedades “pagãs” apresentam por vezes importantes analogias; a violência cristã era, todavia, incomparavelmente maior, por exemplo, contra os eslavos e os escandinavos.

-se ao ponto de acusá -los de mimetismo cultural. Tal é o caso, por exemplo, do

mansa Kankū Mūsā, voltando do Oriente com o arquiteto al -Sāhilī, para o askiya

Muhammad I ou na dinastia de Kano, Muhammad Rumfa, ambos requisitando os serviços do piedoso consultor jurídico tlemceniano al -Maghīlī ou àque- les do egípcio al -Suyûtī, ao imperador Mansa Sulaymān do Mali (742/1341- -761/1360), amigo do sultão marinida Abū ‘Inān, que atraiu para si sábios e consultores jurídicos malikitas. Muitos autores tendem a compartilhar o severo julgamento de al -Idrīsī: “Os eruditos e os homens superiores praticamente não existem em seu meio e os seus reis absorvem tudo o que sabem do governo e da justiça através dos conhecimentos que recebem de certos visitantes eruditos do Norte55.” Esta postura assumida consiste provavelmente em esquecer duas

coisas essenciais. A primeira é que este julgamento não considera certas coisas e conforta a ideia, tão perigosa e segundo a qual nada daquilo que é importante aconteceu na África por seus próprios meios, mas sempre do exterior. Por outra parte, ainda mais grave, pensar como al -Idrīsī consiste em esquecer que as sociedades africanas haviam inventado, bem antes do seu contato com o Islã, formas de organização política, hoje cada vez mais conhecidas, embora ignora- das durante séculos por muçulmanos e cristãos. As modalidades de exercício do poder, fortemente integradas à religiosidade africana, não podiam ser abando- nadas sem que toda a sociedade consentisse através de uma total adesão ao islã: já evocada, a anedota, contada diferentemente por al -Bakrī e al -Dardjīnī, diz respeito à conversão de um rei do Mallal, no século V/XI56. Este último adota

o islã, em condições muito dramáticas, após uma longa estiagem, com vistas a obter do deus dos muçulmanos a chuva necessária à vida do seu povo: ao fazê -lo, ele age conforme o modelo africano de poder. O preço da conversão era alto: destruição de todos os instrumentos do culto ancestral, caça aos mágicos, ruína das tradições seculares. A resposta do povo é surpreendente: “Nós somos teus servidores, não mude a nossa religião!” Temos, desde logo, o direito de questio- nar se os soberanos negros não absorveram, na sociedade muçulmana, com a crença em um deus único, atitude cômoda e eficaz para a administração do seu império, assim como se estas tentativas de “modernização” não constituiriam uma sucessão de buscas de equilíbrio entre os “pesos” das tradições africanas pré -islâmicas e as “exigências da nova religião”.

É possível, com a ajuda de alguns exemplos concretos, interrogar -se sobre o real alcance da política real de integração islâmica.

55 B. LEWIS, 1982, p. 61.

O século VIII/XIV é frequentemente considerado na historiografia africana do Sul do Saara como sendo aquele do apogeu do Império Malinês, caracte- rizado por um notável desenvolvimento econômico, uma influência política internacional, composta de relações diplomáticas com o Marrocos e o Egito, e sobretudo pela decisiva implantação do islã. Portanto, um triunfo da religião muçulmana é fortemente sublinhado por Jean -Luc Moreau quando escreve: “Com o império do Mali, o islã ultrapassaria mais uma etapa no Sudão oci- dental: ele estaria, ao menos parcialmente, na origem de uma nova sociedade57.”

Joseph Ki -Zerbo apresenta o mansa Mūsā como um “fervoroso muçulmano que re -impulsionou a expansão do islã58”.

Sem negar a sinceridade da fé islâmica do mansa Mūsā -o -Peregrino, sem tampouco negar certa presença – essencialmente nas cidades – do islã, nós pen- samos que estes dois autores, os quais inclusive não são os únicos, incorreram em exageros, a um só tempo, em razão do relativamente importante volume de documentos sobre o Mali do século VIII/XIV59 e pela euforia panegirista das

fontes árabes e sudano -berberes do século XI/XVII. Inclusive, Joseph Ki -Zerbo, ele próprio, reconhece que “a massa de camponeses (constituindo a imensa maio- ria das populações do Mali), permanecia animista, postura que o mansa tolerava com a reserva da obediência e do tributo60”. Em suplemento, não vemos como o

mansa Mūsā teria logrado relançar “a expansão do islã”, sem ter, como inclusive

nenhum outro soberano malinês, realizado qualquer guerra santa (Jihad). Ultrapassemos um século e meio: o final do século IX/XV e o X/XVI ofe- recem outros exemplos da vontade manifesta de transformar profundamente os hábitos africanos, assim como da indecisão real em face destas pressões.

O askiya Muhammad, quem se tornou mestre de um poder graças a um golpe de Estado, levou muito adiante a tentativa de integração política e social em conformidade com a ética corânica. Para legitimar o seu golpe de Estado, ele se serve de todos os meios que a religião muçulmana podia lhe oferecer. Apoiando -se no “partido muçulmano” dos letrados de Tombouctû, ele faz a sua peregrinação à Meca no final do século IX/XV. Ele obtém a delegação do poder espiritual sobre o Sudão, com o título de califa. No interior, ele se cerca quase exclusivamente de conselheiros muçulmanos. Diante da dificuldade em resolver os problemas sociais que lhe impunha uma parte da herança recebida de Sonni

57 J. -L. MOREAU, 1982, p. 103. 58 J. KI ‑ZERBO, 1978, p. 136.

59 Ibn Battūtā, al -‘Umarī, Ibn Khaldūn etc. 60 J. KI ‑ZERBO, 1978, p. 136.

‘Alī o Grande, ele solicita quatro consultas a três juristas de primeira ordem: ‘Abdullāh al -Ansammānī, de Takeda, al -Suyūtī e al -Maghīlī. Este último faz, ao que tudo indica, o maior esforço, atendendo o pedido do askiya, uma espécie de manual do príncipe muçulmano perfeito, Respostas às questões do emir al ‑Hādjdj

‘Abdullāh ibn Abū Bakr61. Sob demanda de outro soberano negro, o tlemceniano

escreveria também uma obra no mesmo estilo, As obrigações dos príncipes (Risālat

al ‑Mūlūk), destinada ao rei de Kano, Muhammad Rumfa (867/1463 -904/1499).

O askiya Muhammad, preocupado em estar conforme ao modelo de cali- fado, adota as insígnias orientais de poder: um brasão, uma espada, um Corão; fixando para as sextas -feiras o dia das audiências, conduzindo guerras santas – embora sem sucesso – contra os “infiéis”. Ele não pode, todavia, à imagem dos imperadores malineses que o precederam, abandonar as tradições africanas que o determinam conservar atributos ancestrais herdados do tempo dos shi: tambor, fogo sagrado, um protocolo preciso regendo a vestimenta, o penteado, os adornos, a imagem das insígnias do soberano, a existência do hori farima na alta administração, em outros termos, o grande padre do culto aos ancestrais e gênios.

Em definitivo, ele não aplica os conselhos de alto rigor dados por al -Maghīlī contra os “falsos muçulmanos”, dos quais, dando crédito ao jurista, o askiya estava rodeado. As lições de al -Maghīlī permaneceram letra morta na África Ocidental até o momento em que ‘Uthmān Dan Fodio fez delas uma doutrina e uma arma contra os príncipes tornados inúteis para a expansão do islã.

No Bornu, herdeiro do Kānem, os soberanos (mai), verdadeiros deuses vivos, cercam -se entretanto de letrados muçulmanos, de imames. Estes últimos ten- tam, sob o reino de ‘Alī ibn Dūnama (877/1472/910/1504), conformar a moral dos notáveis com as prescrições do Corão. O “sultão” dobra -se, porém, os notá- veis recusam -se a obtemperar. Igualmente, a justiça dos kādī permanece confi- nada nas cidades e não suplanta o direito os grupos africanos. Os países haussa convertidos ao islã no século VIII/XIV pelos missionários fulas e manden, os soberanos e os zeladores, têm as mesmas dificuldades para fazer adotar a religião muçulmana pelas populações rurais e até urbanas. No Katsina, após a passagem de al -Maghīlī, para tentar purificar o morno islã dos haussa, “bosques sagrados dos animistas foram cortados e, em seu lugar, mesquitas foram construídas”. O modo de vida do Oriente Médio se impõe na sociedade muçulmana: harém e véu para as mulheres, utilização dos eunucos, sistema fiscal inspirado no Corão etc. Mas, todas estas não seriam duráveis. Finalmente, a aparente inação dos reis

recobre, ao que tudo indica, a consciência que eles tiveram segundo a qual os obstáculos sociais levariam à rejeição do Islã.

Foi fora do seu controle, “na base”, que se efetuaram em definitivo os mais reais progressos do islã durante estes séculos. Comerciantes africanos, wangara e posteriormente diúlas, bem como “missionários” muçulmanos de todo tipo, levaram aos campos e às cidades, até as bordas da floresta, a mensagem do Pro- feta. Esta expansão lenta não atrapalhou, por si, os hábitos das sociedades no interior das quais nasciam pequenos centros muçulmanos. Elas continuaram, por exemplo, a produzir bens culturais conformes às suas tradições: a descoberta, tão notável nestes últimos anos, de uma arte do estatuário em terra cota, em pleno Mali “muçulmano” testemunha a este respeito62.

Os resultados

Eles são, no atual estádio das pesquisas, muito dificilmente apreciáveis, des- concertantes com aparentes contradições.

O Islã trouxe certamente ao Sul do Saara, desde o século IV/X, a escrita e as técnicas de pesagem63. Em qual medida a primeira e as outras transformaram

hábitos anteriores? Quais teriam sido estes últimos, relativamente à conservação dos traços do passado, à contagem, ao conhecimento matemático?

Pode -se perfeitamente dizer que a literatura árabe ao Sul do Saara aparenta ter ignorado as culturas africanas e as suas línguas. Conviria ainda, para decidir a respeito e possuir a justa medida, conhecer o conteúdo das bibliotecas das instituições de ensino, na Mauritânia, no Mali, no Burkina Fasso, no Níger, no Chade e no Sudão. Do mesmo modo, o estudo científico da evolução de certas línguas africanas pelo contato com a língua árabe. Provavelmente, é exato dizer que os letrados “em árabe” ignoraram, porque elas eram “pagãs” e mais simples- mente ainda porque eles não tinham consciência da sua existência, as culturas africanas antigas; neste aspecto, eles se mostraram tão pouco perspicazes quanto à maioria dos missionários cristãos, alguns séculos depois. Seria provavelmente injusto perceber nesta ignorância um desprezo pré -estabelecido perante as socie- dades e culturas árabes.

62 No tocante a esta arte, conferir B. de Grunne, 1980. Igualmente: La rime et la raison, 1984, e UNESCO,

História Geral da África, vol. IV, ilustrações das páginas 187, 188, 190 a 193.

Podemos constatar que estes letrados, no Norte do Saara, na maioria das vezes estrangeiros à região até o século IX/XV – provavelmente não seria este o caso na África Oriental –, transportaram consigo as suas preocupações. Estas últimas talvez não mais possuíssem, após o século VII/XIII, o brilho da grande do florescimento cultural árabe -muçulmano, embora o Marrocos do século VII/ XIII, por exemplo, seja ilustrado por grandes pensadores; talvez muitas áreas do saber tenham definhado então no mundo muçulmano, mesmo se algumas permaneciam vigorosas. Talvez se tenha em demasia recopiado os autores pas- sados, talvez o formalismo jurídico tenha suplantado o pensamento vivo. Seria necessário, uma vez mais, para validamente decidir sobre o que convém concluir, esperar o exame minucioso de milhares de manuscritos, ainda não estudados, inclusive quando são classificados; conhecer, por exemplo, o tesouro guardado na Biblioteca Karāwiyyīn de Fez e da Biblioteca Real de Rabat, onde se encontram tantos manuscritos vindos de Tombouctû e obras concernentes à África.

No momento, pode -se estimar no início ser normal que estes letrados malinkes, fulas, soninquês, berberes ou negro -berberes, tais como os mourimagha kankoï de Jenné, os baghayogho, os katī, os ibn Dansal al -Fūlānī, os Ahmed Bābā, os ibn al -Mukhtār Gombele de Tombouctû etc., ligados à letra e ao espírito do islã, pensassem em árabe, escrevessem em árabe, comentassem os livros oriundos da tradição islâmica. Este islamo -centrismo sem dúvida ofereceu às universidades de Tombouctû uma fama menos impactante que o desejado atualmente pelos africa- nos negros, os quais nada encontram nelas, segundo o que sabemos atualmente, dos traços do seu passado cultural64. Isso não permite dizer senão uma coisa: os

letrados muçulmanos pertenciam a um mundo assaz fechado, ainda minoritário frente a uma massa de fiéis da religião tradicional africana que eles estimavam dever converter e, talvez, conduzir a outros modos de vida; isso não os predispu- nha a se tornarem historiadores esclarecidos do passado africano e nem sequer testemunhas da vida das sociedades autóctones por eles qualificadas como “pagãs”.

É sem dúvida neste terreno que a pesquisa está menos avançada e a sereni- dade do pesquisador é mais difícil de ser respeitada.