Queremos pensar aqui no tratamento do sujeito no interior da linguagem, o que a ANL entende por Teoria Polifônica da Enunciação. Tal é o motivo deste tópico.
A questão sujeito (ou subjetividade) é assim pensada para Benveniste e Ducrot: para Benveniste (1974; 2006), o signo base é o eu (+ espaço + tempo) instaurado pela enunciação; Para Ducrot, o signo base é a frase pensada em relação com a enunciação. Por estes signos, a subjetividade se constitui da seguinte forma para ambos: para Benveniste, trata-se de um sujeito centrado, para Ducrot, um sujeito descentrado. Isto é: para Benveniste, a enunciação transcende vários elementos que referem um único sujeito, para Ducrot, a enunciação produz um enunciado com vários elementos que revelam vários sujeitos (que ele prefere não chamar sujeito, mas locutores e enunciadores). Localizadas as diferenças, vejamos estes princípios de modo pormenorizado.
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Do original: « le propre du langage est d’abord de signifier » (BENVENISTE, 1974, p.217).
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Do original: “El valor argumentativo de una palabra es por definición la orientación que esa palabra da al discurso” (DUCROT, 1990, p. 51).
66 Em várias pesquisas (DUCROT, 1980, p. 45; DUCROT, 1987, p. 161; DUCROT, 1990, etc) fica posto que a ANL discorda da relação necessária eu-tu benvenisteana. Para Ducrot, o “eu” não remete necessariamente àquele que fala. Para ele a forma de representação da subjetividade é mais sutil. Ducrot enxerga um descentramento das figuras da subjetividade. Deixando de lado o ser do mundo, Ducrot pensa a subjetividade no enunciado, e faz perceber que pelo dizer projetam-se diferentes “eus”. Ducrot (1987) vai questionar a questão subjetiva única do “eu”, onde as representações do “eu” nos discursos são muito mais complexas que as esboçadas por Benveniste.
No tocante ao prósito que nos concerne (esboçar teoricamente a TPE) determinemos as constitutividades e limites da TPE, tal como ela foi concebida nesta primeira fase, antes da TBS (que explicaremos adiante). Consideremos o seguinte enunciado paradoxal, comum em momentos nos quais criminosos tentam se eximir de culpa ou se justificar, diante de assassinatos ou furtos:
Eu não era eu naquele momento!
Para nós linguistas, o fato de alguém estar transtornado por raiva, doença, fome, mecanismo de defesa, ou outra necessidade qualquer ou condição imperativa que seja (aspectos privilegiadamente de interesse de outros saberes, como Psicologia, Sociologia ou Direito), não exime o caráter semântico (aspecto do saber linguístico) de um sentido paradoxal que se resume em afirmar-se e negar-se simultaneamente. Como compreendemos neste trabalho, não se trata de uma enunciação [eu] + [não-eu], mas da estranheza de alguém enunciar [eu + não- eu].
Ducrot (1987), na sua perspectiva polifônica, deixará de lado um molde metodológico eu-tu benvenisteano (e bakhtineano) e apresentará em um único enunciado (não por isso deixando de lado o texto), uma multiplicidade de personagens, que veremos pormenorizadamente abaixo. Basicamente, no enunciado dado acima, a ANL localizará no mínimo: duas “vozes” (dois pontos de vista, que Ducrot chama enunciadores: “E1 – eu era
eu”, e “E2 – eu não era eu”. E ainda apresentará uma personagem, o Locutor (L), que
enunciou todo o enunciado, e que concorda com (assimila) E2, além de outra personagem, um
locutor (λ), que será a pessoa do enunciado (o locutor é um referente linguístico do Locutor que fala (não real, mas linguístico). O locutor λ é a pessoa que surge quando o Locutor L fala de si mesmo. Eis o esquema:
67 Eu não era eu naquele momento
Enunciador 1 (E1) – Eu era eu
Enunciador 2 (E2) – Eu não era eu.
Locutor (L): Aquele que enuncia, e assimila E2.
locutor (λ): o referente linguístico questionado e designado pelo pronome “Eu”.
O que faremos agora é aprofundar teoricamente a desenvoltura da TPE, pensada pelo paradoxo, já que em todo o tempo, propomos fundamentalmente nesta pesquisa um modo de analisar que reclame a pertença da anormalidade, tal como ela é, combatendo uma postura que afirme um pertencimento do procedimento comum e mais imediato de “traduzir” anormalidade em normalidade, por termos técnicos, para depois explicar a anormalidade.
Tendo esboçado o modo ducrotiano de entender a questão do sujeito na linguagem por essa micro-análise, passemos a pormenorizar as nuances da TPE, no seu momento anterior à TBS.
2.5.1 A relação enunciador/enunciador e Locutor/locutor
O princípio da polifonia (1987), termo musical que designa duas vozes consecutivas, foi tomado inicialmente por Bakhtin (2002). Por seu turno, Ducrot pretendeu desmistificar a unicidade do sujeito benvenestiano por esta noção. Para Ducrot, como vimos, a polifonia na sua fase inicial consiste em identificar personagens no enunciado, como locutor (L), locutor
ser no mundo (λ) e enunciador (E). Segundo ele (DUCROT, 1987, p. 191), há basicamente
duas formas de polifonia: uma primeira que se refere à existência de dois locutores distintos, e uma segunda, referente ao enunciador. Comecemos pelo locutor. E por que dois locutores (L e λ)? Responde o linguista:
Já que o locutor (ser do discurso) foi distinguido do sujeito falante (ser empírico), proporei ainda distinguir, no próprio interior da noção de locutor, o ‘locutor enquanto tal’ (‘L’) e o locutor enquanto ser do mundo (‘λ’). [...] de um modo geral, o ser que o pronome eu designa é sempre λ, mesmo se a
68 identidade desse λ só fosse acessível através de seu aparecimento como L (DUCROT, 1987, p. 188).
Para clarificar, Ducrot propõe dois exemplos: Interjeições estão ligadas a L, e os sentimentos, ligados a λ (Um produz o enunciado de sentimento (L), o outro sente (λ). Por exemplo, ao dizer Eu desejo, Ducrot (1987, p. 190) afirma que “não é enquanto locutor que se experimenta o desejo [L], mas enquanto ser do mundo [λ]. [...] Por outro lado, o ato de desejar pertence tipicamente a L”. Assim, L fala e λ sente; outro exemplo é o ethos, que está ligado a L, e o que esse ethos constrói está ligado a λ. Por exemplo, não importa o que se diga, a enunciação diz respeito a L, e “o que o orador poderia dizer de si, enquanto objeto da enunciação, diz, em contrapartida, respeito a λ” (DUCROT, 1987, p. 189). Importante dizer que ambos L e λ são representações da língua, isto é, nascem no enunciado, e não têm relação com o mundo.
Por outro lado, Ducrot verifica que, além dessas personagens do discurso (um L que projeta um λ, sem precisarem existir, sendo diferentes de sujeitos falantes empíricos, mas se mostrando apenas como representações que não carecem de existência referencial, apenas linguística), Ducrot ainda identifica pontos de vista expressados pela enunciação, que chamou
enunciadores:
Chamo ‘enunciadores’ estes seres que são considerados como se expressando através da enunciação, sem que para tanto se lhe atribuam palavras precisas; se eles ‘falam’ é somente no sentido em que a enunciação é vista como expressando seu ponto de vista, sua posição, sua atitude, mas não no sentido material do termo, suas palavras. (DUCROT, 1987, p. 192).
Importante dizer que as noções técnicas polifônicas (L, λ e E) relacionam-se com outras noções da ANL, como a pressuposição, que no caso de Pedro parou de fumar, temos uma voz E1 – “Pedro fumava antes” para o pressuposto, e uma voz E2 – “Pedro não fuma atualmente”
para o posto. Posto e pressuposto, além de suas particularidades, não deixam de ser pontos de vistas (enunciadores, portanto). O Locutor de Pedro parou de fumar assimilará (concordará com) E2.
69 Em uma empresa provisoriamente sem chefe, dois funcionários começaram a não trabalhar direito, e um deles faz uma piada:
- O chefe mandou você trabalhar, senão vai pegar pra você!
O humor é dado pelo efeito de sentido paradoxal da criação de um locutor (λ) que não existe no contexto (como alguém que não existe toma existência, e inclusive dá uma ordem?).
Em termos polifônicos de locutores, é mais fácil clarificar este paradoxo, já que “o locutor é uma ficção discursiva” (DUCROT, 1987, p. 187), não-existindo-existindo linguisticamente, mas identificável polifonicamente.
Assim, no referido enunciado identificamos os seguintes locutores: O funcionário piadista:
L1 – o piadista que adverte transmitindo a ordem do suposto patrão.
λ1 – constrói-se obediente ao patrão (o bom empregado que cumpre a tarefa de
advertir).
O funcionário interlocutor:
L2 – o interlocutor que (pressupomos que) ri da piada, ou escuta.
λ2 – constrói-se de modo passivo (escuta a advertência sem pronunciar-se).
Não fala, mas está presente pelo pronome “você” (mandou você...). O suposto-chefe:
L3 – o que dá a ordem a L1 (de modo pressuposto): “Vá lá e diga X”.
λ3 – constrói-se o chefe, maior na hierarquia, que evita a forma L3 (dar ordem)
para falar com L2, já que pode usufruir de L1, seu subordinado. Mostra-se uma
pessoa λ enérgica e exigente, por preferir termos como “mandou” (e não “pediu”) e “vai pegar pra você” (ao invés de vai ter consequências).
No enunciado-piada, podemos também escutar pelo menos as seguintes vozes: Em o chefe mandou você trabalhar...:
E1 – Todo chefe deve ser obedecido.
70 Em ...vai pegar pra você:
E3 – Trabalhos não executados sofrem consequências negativas (que poderá ser
também um encademento, uma orientação). E levando-se em conta o contexto piadista:
E4 – Os funcionários não devem trabalhar mesmo na ausência do chefe (a polaridade
negativa de E2). Marcamos um adendo de que a polaridade (DUCROT, 1987, p. 205)
refere-se ao modo afirmativo ou negativo do enunciado. No caso de E3, a polaridade é
negativa.
O Locutor-piadista, no caso, toma a atitude de assimilar E3 rejeitando os outros enunciadores
(explicaremos a noção de atitude posteriormente).
Obviamente, mais uma vez empreendemos uma micro-análise explicativa, carente de um norte de investigação profundo, que lhe exporia mais enunciadores e locutores.