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Por um longo tempo a ANL dedicou-se aos estudos de dois implícitos: o par pressuposto/subentendido. Ducrot (2013, p. 11) disse pensar ter resolvido todos os problemas da língua pelo estudo do pressuposto. Grande parte destes estudos foram condensados na obra
Dire et ne pas dire (DUCROT, 1972), onde Ducrot apresentou a discussão sobre pressuposto
e subentendido, partindo de fartos exemplos, como alguns dos mencionados abaixo (DUCROT, 1972, p. 57, tradução nossa)48:
13. Jacques duvida que Marcelo virá. Pressupõe:
13’. Marcelo virá.
14. Jacques ainda detesta Marcelo. Pressupõe:
14’. Jacques detestou Marcelo outrora.
15. Se Jacques tivesse um carro, ele partiria. Pressupõe:
15’. Jacques não tem carro atualmente.
Inicialmente, Ducrot trabalha os pressupostos, observando que, basicamente, um implícito rege que um enunciado (1) posto está sempre encadeado a um outro enunciado (2) pressuposto. A questão para a ANL é entender em que medida este pressuposto está na língua, e não fora dela, quando se fala em enunciação, e não em Lógica. Isto é:
48
Do original :
« 13. Jacques se doute que Marcel viendra. Présuppose : 13’. Marcel viendra.
14. Jacques déteste encore Marcel. Présuppose : 14’. Jacques a détesté Marcel autrefois.
15. Si Jacques avait actuellement une voiture, il partirait. Présuppose : 15’. Jacques n’a pas de voiture actuellement » (DUCROT, 1972, p. 57).
58 Uma primeira questão possível, quando examinamos as relações da lógica e da linguística, é saber se tais relações entre enunciados de uma linguagem pertencem a esta própria linguagem, se então o linguista, descrevendo uma língua, tem a obrigação de indicar quais enunciados podem inferir logicamente uns dos outros (DUCROT, 1989a, p. 66, tradução nossa)49.
Os implícitos (pressuposto/subentendido) têm suas bases na Lógica, e trata-se, a princípio, da antiga ideia de “inferência lógica” retomada por Ducrot em um formato enunciativo-argumentativo. Obviamente lógica e ANL não perfazem as mesmas relações, mas, longe de ser a mesma coisa, Ducrot apenas assume o fato de que, tal como o faz a inferência lógica: “Existe, entre certos enunciados da linguagem ordinária, relações de inferência, tais que, se admitimos umas, somos forçados a admitir outras” (DUCROT, 1989a, p. 66, tradução nossa)50. E exemplifica: o enunciado Alguns homens são maus deve admitir Alguns seres maus são homens de modo mais óbvio, como também observa que a afirmação O barômetro baixou está atrelado à conclusão Há boas chances de chover.
Inicialmente, passemos a abordar a ideia de pressuposto. Para Ducrot (1972, p. 49) a pressuposição é ela mesma uma regra inscrita na língua. E essa regra é básica: no âmbito da significação (frase), um posto sempre está ligado a um pressuposto. Um significado explícito supõe um significado implícito. Por exemplo, o enunciado paradoxal comumente difundido nas redes sociais
“Eu detesto ser bipolar, é maravilhoso!” Pressupõe “Eu tenho bipolaridade”.
Gostar ou detestar (da bipolaridade) não nega o significação atrelada a estes elementos frásticos (ser bipolar).
Porém, mesmo que o pressuposto seja uma regra da língua, ele está ofuscado por problemas próprios da frase (a sintaxe, a homonímia, a falta de contexto, etc), como por
49 Do original : « Une première question possible, quand on examine les rapports de la logique et de la
linguistique, est de savoir si de telles relations entre énoncés d’un langage relèvent de ce langage lui-même, si donc le linguiste, décrivant une langue, a l’obligation d’indiquer quels énoncés peuvent d’inférér logiquement les uns des autres » (DUCROT, 1989, p. 66).
50 Do original : « Il existe, entre certains énoncés du langage ordinaire, des relations d’inférence, telles que, si
59 exemplo, a ambiguidade apresentada por Ducrot (1972, p. 233, tradução nossa)51 no enunciado:
“Jacques encontrou o seu carro incendiado” que tanto pode pressupor:
“Jacques tinha um carro incendiado” (ele já era incendiado), quanto pode pressupor: “Jacques tinha um carro” (que quando encontrado, estava na condição de incendiado).
Mesmo que o verbo “encontrar” introduza o pressuposto de “já possuir”, o verbo “incendiar” pode levar ao oscilamento da significação: epíteto ou atributo (DUCROT, 1972, p. 233). Percebe-se que, mesmo no âmbito da frase, o jogo do pressuposto é inexato, e reclama o olhar do intérprete.
O mesmo problema ocorre com a frase Fui à Alemanha com Pedro (DUCROT, 1987, p. 38), que “pode ser utilizada tanto em contextos nos quais o locutor anuncia que não foi à Alemanha (enquanto Pedro foi), quanto em contexto nos quais anuncia que, quando foi à Alemanha, não viajou com Pedro”. O âmbito da inexatidão dos semantismos da frase (DUCROT, 2014) pode tornar visível uma pluralidade de pressupostos, oriundos dessa inexatidão. Ainda no nível da frase (não do enunciado) há uma propensão à oscilação de significações de uma mesma estrutura (que será ainda mais superpotencializada no nível do enunciado).
Outro modo proposto por Ducrot (1987, p. 38-39) de tornar visível este problema de oscilação semântica, com toda uma multiplicidade interpretativa para o enunciado acima, é observar como a noção de encadeamento (como uma continuação) orienta a evolução interpretativa do discurso para direções diferentes:
Quadro 4 - A escolha de encadeamentos desejados
Enunciado Encadeamento
desejado:
Posto Pressuposto
Fui à Alemanha com Pedro.
O que Pedro viu e fez na Alemanha
Levei Pedro. Minha viagem à
Alemanha. O que eu vi e fiz na
Alemanha.
Acompanhei Pedro. A viagem de Pedro à Alemanha.
51 Do original: Jacques a retrouvé sa voiture incendiée [...] Tantôt incendiée est épithète [...] Tantôt incendiée est
60 Deste modo, a depender do encadeamento que o intérprete deseja dar ao enunciado, podemos dizer que o sentido sempre poderá ser outro. Como se vê, mesmo no âmbito estruturalista, as significações são oscilantes, e os sentidos o serão mais ainda. Nada é engessado no semantismo da frase, nada o será no enunciado, como muitas críticas amadoras ao estruturalismo alegam. A questão é que esta oscilação semântica está na língua. Deste modo, Ducrot é um dos pioneiros nos estudos do entremeio. Bem antes de muitos autores, como Pêcheux, por exemplo, a ANL já demonstrava questões semânticas relacionadas a discurso, falta, equívoco, entremeio e etc, como bem atesta o próprio Pêcheux quando utiliza as noções de Ducrot de pressuposto e subentendido para elaborar suas críticas à semântica clássica (PÊCHEUX, 1975, p. 48). Além delas, Pêcheux ainda utilizou, inclusive, a noção de enunciação do próprio Ducrot para elaborar suas análises (PÊCHEUX, 1975, p. 50). Portanto, ao menos para a ANL, o encadeamento é a noção que dá conta da oscilação da significação e do sentido, jamais estancado, sempre interpretado. O estruturalismo não é inimigo da interpretação, ao contrário, é determinado por ela:
Há sempre uma multiplicidade de interpretações possíveis. E é necessário que os conceitos que o semanticista constrói dêem conta desta possibilidade de interpretação. Se estes conceitos não permitem observar nada além que um só sentido apenas a um enunciado, naquele momento, eu penso que lhes falta alguma coisa. Os conceitos que nós construímos devem abrir a interpretação, e não fechá-la (DUCROT, 2013, p. 19, tradução nossa)52.
Tendo esboçado o pressuposto, passemos a apresentar o seu par, o subentendido. Ao contrário do pressuposto, o subentendido não está marcado na frase. O subentendido, sendo observável na frase, não está na frase, e “pertence ao sentido sem estar antecipado ou prefigurado na significação” (DUCROT, 1987, p. 32). Sua relação é com o enunciado. Faz parte do enunciado, está ligado a condições situacionais que levam o locutor a dizer alguma coisa. No caso mais acima, poderíamos, por exemplo, obter de “Eu detesto ser bipolar, é
maravilhoso!”, o subentendido: “Nunca estou satisfeito com o mundo”, ou “mudo de opinião
com frequência”, ou ainda “sou fácil de ser convencido” etc. Ducrot vai marcar a diferença
52 Do original: « Il y a toujours une multiplicité d’interprétations possibles. Et il faut que les concepts que
construit le sémanticien rendent compte de cette possibilité d’interprétation. Si ces concepts ne donnent à voir qu’un seul sens à un énoncé, à ce moment-là, je pense qu’il leur manque quelque chose. Les concepts que nous construisons doivent ouvrir l’interprétation et non la fermer » (DUCROT, 2013, p. 19).
61 entre pressuposto e subentendido assim: “Para mim, a pressuposição é parte integrante do sentido dos enunciados. O subentendido, por sua vez, diz respeito à maneira pela qual esse sentido deve ser decifrado pelo destinatário” (DUCROT, 1987, p. 41). Dito de outro modo, falar em subentendido em vias estruturalistas ducrotianas é aceitar que o sentido é responsabilidade do locutor e co-reponsabilidade do destinatário, ambos vislumbrados no enunciado e suas continuidades: “o locutor apresenta sua fala como um enigma que o destinatário deve resolver” (DUCROT, 1987, p. 42).
Não é difícil compreender que o critério básico do estudo dos implícitos é que o par pressuposição/subentendido corresponde ao par frase/enunciado, respectivamente. Podemos então pensar em uma ampliação de nosso quadro anterior:
Quadro 5 - Segunda elaboração da dimensão “língua/fala”
Língua Fala
Frase Enunciado
Significação Sentido
Pressuposto Subentendido
Faz-se jus acentuar que, pela postura saussureana adotada, embora a disposição do quadro contenha duas colunas, a ANL vale-se da ideia de “relação” e “equilíbrio” (DUCROT, 2013, p. 10), sendo que as colunas servem apenas de ilustração das duas faces da linguagem, língua e fala, nunca isolamento: “a distinção das duas noções não impede que haja um ponto comum ao pressuposto e ao subentendido” (DUCROT, 1987, p. 42).
Para ilustrar melhor o mérito dos implícitos (agora metodologicamente contemplando pressuposto e subentendido), Ducrot (1987, p. 31) propõe a seguinte micro-análise:
62 Quadro 6 - pressuposto e subentendido no clássico “Pedro parou de fumar”
Pedro parou de fumar.
Nível da frase Põe: Pedro não fuma atualmente
Pressupõe: que ele fumava anteriormente
Nível do enunciado Subentende: Com um pouco de coragem, pode-se chegar lá;
Pedro tem mais força de vontade que você. É possível parar, etc.
Deste modo, Ducrot diagnostica e assume o fenômeno implícito de relação entre enunciados para o tratamento dos sentidos já apresentado pela Lógica. A diferença é que Ducrot não assume relações de inferências lógicas, mas certas relações implícitas do uso da língua, ocorrendo nas minúcias da situação, podendo por materialmente uma estrutura, e subentender enunciativamente outra.
Pelo par de implícitos, temos o refinamento de poder dizer que algo não está dito (explicitamente), mas faz sentido (implicitamente). Ou pelos termos técnicos, que o sentido é de tal forma dinâmico, camaleônico, e não linear que, o enunciado muito embora possa significar explicitamente, também faz sentido implicitamente.
Por outro lado, poder-se-ia refutar: qualquer enunciado pode ser um subentendido? Qualquer enunciado (2) poderia ser um subentendido de um enunciado primeiro (1), já que o sentido pode escapar ao compromisso estrutural da frase, e o implícito rompe a barreira sintática da significação, e já que a significação pode ser ofuscada pela sintaxe, ambiguidade, etc, como mostrou Ducrot? A resposta é não, porque a relação de encadeamento pressuposto/subentendido está determinada pela situação. O critério da escolha do subentendido será dado pelas condições de possibilidade da enunciação:
P re ss upos to / S ube nt end ido
63 Essa situação do subentendido se explica pelo processo interpretativo do qual ele provém. Para mim, com efeito, ele é sempre gerado como resposta a perguntas do tipo ‘Por que o locutor disse o que disse?’ ‘O que tornou possível a sua fala?’ Em outras palavras, uma condição necessária (mas, certamente, insuficiente) para que um enunciado E subentenda X, é que X apareça como uma explicação de sua enunciação. [...] é bem evidente que só pode aparecer no momento dessa enunciação, e que conseqüentemente depende do próprio enunciado (DUCROT, 1987, p. 32).
Deste modo, temos um grande passo decisivo na ANL: ao considerar enunciados implícitos conclamados por enunciados explícitos, Ducrot deu à noção de relação uma particularidade de encadeamento. Ou seja, Ducrot eleva os estudos da ANL a uma condição: investiga-se o sentido por encadeamento(s). Encadear é estudar aspectos do sentido observando dados que significam indiretamente (implícitos), a partir de elementos dados diretamente (explícitos).
Considerar um encadeamento (os elos de uma corrente interligados) nos procedimentos de análise do sentido significa entender que todo enunciado, que é um acontecimento inédito (DUCROT, 1980, p. 34), faz ressoar um “eco” de elementos sígnicos. Significa entender que o enunciado nunca está só, continua por um fio semântico que o liga a outros enunciados. Para comprovar a relação de continuação ou encadeamento, Ducrot (1972, p. 58) afirma que basta expor o enunciado à negação ou à interrogação, para observar que o conteúdo do pressuposto se mantém intacto: “os pressupostos de uma asserção são conservados quando essa asserção é transformada em negação ou interrogação” (DUCROT, 1987, p. 33). Assim, o discurso prossegue nos seus encadeamentos de modo, mesmo se acordado ou não, e mesmo se interrogado, às bases de um pressuposto indesviável, estabelecido pelo enunciado.
Podemos citar como exemplo, o seguinte enunciado paradoxal, muito comum quando um locutor que não domina bem o inglês, indo para os Estados Unidos, responde a quase tudo da seguinte maneira:
64 Ora, como se pode afirmar não falar (inglês) falando (inglês)? Como se nega um conteúdo expondo este conteúdo? Enunciados paradoxais como estes conclamam como que de imediato uma relação pressuposto/subentendido:
Quadro 7 – pressuposto e subentendido em “Sorry, I don’t speak english!”
Sorry, I don’t speak english!
Nível da frase: põe: eu não falo inglês
pressupõe: Eu falo algumas coisas em inglês e
Eu falo (bem) outra língua que não o inglês. Nível do enunciado: Subentende: Não quero informação nenhuma em inglês; Escreva-me!; Não quero falar com você! etc.
Submetendo o enunciado ao teste ducrotiano da negação e interrogação (DUCROT, 1972, p. 58), mesmo que se negue falar inglês, em inglês, não se consegue neutralizar o pressuposto de que o locutor “fala (alguma coisa) em inglês”. E o mesmo pressuposto se manteria no caso de uma interrogativa paradoxal, como: “May I speak in english?” (Posso falar em inglês?), onde já se fala ao questionar, mantendo o pressuposto inviolável.
Como se vê, assumir o postulado mor da ANL – a argumentação está na língua e no seu funcionamento – não significa que falamos de uma língua tal como o senso comum a prevê, “pobre” (por pobre, entenda-se restrita por demais), como geralmente é visto (de maneira desprevenida) um sistema de hieróglifos enquanto desenhos restritos para traçar a realidade dos egípcios, ou em línguas iniciais restritas, ou um processo de início de língua primitiva, restrita a um pequeno grupo de signos (AUROUX, 2001, p. 58), ou, ou ainda um projeto inicial de sistema sem adjetivo, sem advérbio e até sem substantitvo, uma língua inicial apenas verbal, portanto, propensa por isso a processos semânticos de especialidade, repartição, irradiação, restrição, e ampliação, dentre outros (BRÉAL, 2008); mas falamos que a estrutura, tal como ela seja ou qual ela seja, não pode ser subestimada quando posta em funcionamento, quando tomada em autodeterminância pela fala, já que a fala potencializa a
P re ss upos to / S ube nt end ido
65 língua em um complexo de pluralidade de sentidos, marcados ou não na estrutura. O arcabouço teórico-estrutural da ANL evidencia que, em se falando de sentidos, não existe linearidade ou transparência, sendo que a frase é uma noção teórica que dará pistas para observar e explicar o complexo processo dos sentidos, já que “o próprio da linguagem é antes de tudo significar” (BENVENISTE, 1974, p.217, tradução nossa)53.
A ANL afirma que uma língua (qualquer, não importa sua estrutura), quando posta em funcionamento, isto é, quando se relaciona um sistema ao discurso, seu funcionamento, esse acontecimento de enunciação dá-lhe especificidades (marcadas ou não), e leva-nos a observar inevitavelmente que uma continuação, um encadeamento, uma “resposta” ao que foi dito, está inscrito no enunciado dito. Não de modo informacional, não gramatical, mas em outro nível, um nível argumentativo: todo enunciado continua! Como bem observa Ducrot (1990, p. 51, tradução nossa)54: “O valor argumentativo de uma palavra é por definição a orientação que essa palavra dá ao discurso”.