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Training Systems

2.3. Sport and Entertainment

A atividade de leitura, nos dois últimos horários do turno da manhã, aconteceu com a turma 701. Dezesseis (16) alunos entraram no auditório da escola para participarem da aula. A mesma estratégia metodológica utilizada com a turma anterior foi adotada na segunda turma, com a percepção de um diferencial importante entre as duas turmas: a participação espontânea dos alunos desta turma na leitura e na discussão/compreensão do texto poético.

Na “situação motivacional”, ao serem inquiridos se já conheciam a música “A casa”, mais da metade respondeu afirmativamente, dentre eles uma aluna, que, desembaraçadamente, disse que, quando tinha 4-5 anos, o seu pai cantava para ela e que hoje ela canta para o seu irmão de 4 anos; outro aluno respondeu que a ouviu na escola; um outro disse que a conhecia do programa da Rede Globo de Televisão, “O Caldeirão do Huck”. Como Zilberman (2008) afirma, todos já tivemos uma experiência primeira com a literatura. E esta deve ser valorizada.

As perguntas fluíam juntamente com as respostas. Qual o quadro do programa? “Lar Doce Lar”, responderam. Por que será que foi escolhida para ser a música de abertura e fechamento desse quadro? “Porque tem tudo a ver” – disparou o menor em estatura da classe. Como tudo a ver? Explique-se melhor. “É assim, quem mora numa casa precária é escolhido para que seja construída uma casa nova para a família”. Outra aluna foi além: “Isso é dignidade, autoestima.” Por quê? “Porque a pessoa que sai de um ambiente ruim e passa a morar num ambiente bom, sente-se bem, valorizada”. Com essa resposta, finalizamos a atividade motivacional.

Passamos à distribuição do texto poético aos alunos e em seguida fizemos a “apresentação do poeta e do seu texto poético”. Na sequência, incentivamos a aluna que ouvia o pai cantar e que hoje faz com o irmão o que o pai fazia com ela, a entoar para a classe a versão musicada do poema “A casa”. Para o nosso deleite, ela cantou toda a música e não ouvimos nenhuma voz de desaprovação ou tentativa de atrapalhar sua performance. No final da canção, os colegas a aplaudiram.

Sobre “as leituras”, nos momentos da “leitura silenciosa” e “em voz alta”, percebemos a vontade de lerem o poema não para cumprirem um pedido do professor, mas pelo interesse de participarem, pois a mesma aluna que cantou a poesia-canto, pediu para ler o texto em voz alta diante da classe e ainda conduziu os demais colegas na “leitura conjunta”, cuja performance de leitura foi fluída, facilitada, talvez, pela

vivência dela com o texto e pela musicalidade do texto poético. De modo que “[...] quando essa poesia é recitada no palco – poesia espetáculo – ou quando é veiculada pela música – poesia-canto – ou quando é vivenciada num clima de prazer, caindo na mediação da brincadeira, passa a ser amada e consumida pelo leitor de qualquer idade” (SORRENTI, 2009, p.102)

No tempo destinado à “discussão-compreensão” do texto, iniciamos o debate, perguntando o que o poema passava para eles, e ouvimos de uma aluna: “Passa vontade de ter uma casa própria.” De outro aluno: “De ter uma casa inteira.” Inteira? Explique o que você quer dizer com o uso dessa palavra. Mostrando-se reticente na resposta recebeu o socorro de uma colega: “Professor, se a casa não tinha parede, teto, chão, penico, nada... então ele queria uma casa inteira, completa.” E por que a casa era engraçada? “Porque é uma casa que não tem nada e nos leva a um mundo imaginário.” Voltando-nos para a classe, continuamos inquirindo: por que está localizada “Na Rua dos Bobos”? Quem é o Bobo? Várias respostas foram dadas, entre as quais: “Bobo é quem faz uma casa que não existe.” “É quem imagina que faz uma casa e não fez.” “É o menos inteligente... o idiota.” “É professor, idiota igual do filme Debi & Lóide.” “É o bobo da corte.” E por que a casa recebe o “Número Zero”? “Porque o zero é algo sem valor.” “Que não existe.” “Que é vazio.” – foram algumas das respostas.

O poema é um excelente instrumento para trabalharmos o aspecto social a partir das diferentes visões dos alunos, levando em conta a sua realidade. E como mediadores desse processo de interação e aguçamento de ideias, podemos levar o aluno a imaginar a sua casa, a casa onde vive, a descrever o seu sentimento de pertença. A casa é um lugar, não apenas um espaço. É nessa casa, onde nascemos e vivemos as experiências diárias, onde nos tornamos pessoas no mundo; ela é um intermédio entre o mundo e o indivíduo, no estabelecimento dos laços sociais, como destaca Milton Santos (2008). A casa é o lugar das várias vivências, por isso nutrimos por ela algo especial, pois, além de morada, ela passa a fazer parte da nossa vida. Como pode uma casa sem teto? Como poderia o aluno imaginar a sua casa sem teto, sem nada?

Nesse contexto, poderemos levar os alunos a destacarem, por exemplo, uma casa abandonada, destruída pelo tempo. Buscar, nas gavetas da sua memória, lugares ao redor da sua casa, no seu bairro ou em outros bairros, casas sem teto, sem paredes, sem nada. Será que seria possível? Aguçar a ideia do fato de muitos não terem uma casa para morar; há os que ainda moram debaixo das pontes, sob “casas” improvisadas com papelão. Mas, ainda que fossem de improviso, quem nelas se abriga poderia considerar,

ainda que, de empréstimo, a sua casa, o lugar onde se acomoda e onde se protege do frio ou do calor.

Certamente que os alunos não perceberão todos os sentidos de um poema, nem nós, mas seja qual for a leitura que somos levados a fazer, não podemos ter medo de nos aventurar pelas múltiplas facetas que apresenta, pois, à medida que novas leituras vão sendo feitas, novas revelações de sentidos e de imagens vão surgindo, tornando o poema uma fonte inesgotável de sentidos, e, nessa fonte, encontramos a beleza da literatura.

Como conclusão dessa aula, passamos o curta-metragem “A casa” para que os alunos da 701 se certificassem do que haviam dito, já que esse suporte suplementar reforçou a leitura que fizeram do poema, diferentemente do uso desse mesmo suporte, na 702, quando o utilizamos no andamento da aula para ajudar os discentes dessa turma na compreensão do poema.