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Assembly Skills

6.4. Development of the Training Program

No andamento da atividade com a 701, os alunos da 702 foram pedir para que antecipássemos o horário da atividade de leitura porque estavam sem aulas a manhã toda e aguardavam somente por nossas aulas de leitura de poemas. Como o horário já estava avançado, quando fomos procurados, não foi possível atendê-los. Solicitamos que aguardassem os dois últimos horários. Ficamos sabendo que, enquanto aguardavam, procuravam obter a liberação do auditório e dos recursos tecnológicos para a garantia completa da execução da atividade, pois, ao final da aula anterior, pediram que usássemos uma música na motivação inicial, e devem ter ficado preocupados porque não nos viram utilizando os referidos recursos nem a música com os alunos da turma 701.

Vinte e três (23) alunos nos aguardavam no auditório da escola. Também uma das maiores participações para a atividade de leitura de poemas com essa turma. Faltaram apenas dois alunos. A utilização da “atividade motivacional” estava garantida. Lá estavam o datashow, a caixa de som, o notebook e o ambiente climatizado, tudo o que eles desejavam. Eles nos sensibilizaram com a iniciativa e talvez com a preocupação de terem uma aula completa. A aqueles meninos estavam nos mostrando, na prática, que nós, professores, devemos estar preparados para nos adaptarmos às circunstâncias do universo escolar. E tudo se torna possível executarmos quando planejamos nossas atividades.

Sensíveis ao anseio da turma apresentamos a letra da música “Perguntas sem respostas”, interpretada por Capital Inicial, solicitando uma leitura rápida para que cantassem a música no momento em que o videoclipe estivesse passando. Um aluno apagou as lâmpadas, o ambiente ficou na penumbra e a música começou a ser tocada enquanto as imagens do vídeo evoluíam. Ouvimos vozes cantando. Eles cantaram a música. Perguntamos: como a vida é vista nessa música? Um dos alunos respondeu, sem rodeios: “A vida é apresentada com dois caminhos: como realidade e como invenção”. Ao nosso pedido de explicação ensinou: “Na vida real, a pessoa não pode hesitar, achar que já conquistou alguma coisa porque pode ter surpresa, como teve o goleiro que ao defender o pênalti (na imagem), não esperou a conclusão da defesa e virou-se para comemorar com a torcida enquanto a bola ganhava efeito, parando dentro do gol. E com a vida inventada, a gente não precisa se preocupar porque podemos mudar até o destino da própria vida”. Essa foi a resposta explicativa, mais enxuta, feita por um aluno, durante as nove atividades. Os demais colegas o aplaudiram. Outro aluno observou que na letra da música havia interrogações, sugerindo que a vida é cheia de perguntas, cheia de dúvidas. Mais uma vez a “motivação inicial” com o gênero música ajudando na introdução do gênero poema.

Passamos à distribuição do poema “Questão de pontuação”, fazendo circular, entre eles, dois exemplares de livros de João Cabral de Melo Neto, emprestados da biblioteca da escola. Antes da apresentação do poeta, um dos alunos perguntou se podia ler algumas informações, que estavam na orelha de um dos livros e assentimos. A “apresentação do poeta” foi realizada pelo aluno que leu a orelha do livro.

Chegamos na fase da “leitura” do poema. Em poucos minutos, a “leitura individual silenciosa” foi vencida. A “individual em voz alta” foi executada por dois alunos. Eles mesmos comandaram os demais colegas na “leitura conjunta” do poema. Como mediadores, devemos levar os alunos a perceberem que há uma estratégia de leitura sendo utilizada e que eles podem fazer uso dela na leitura de outros textos poéticos, que venham a ler posteriormente. Citamos, entre essas estratégias, a sequência básica (COSSON, 2012) e a estratégia de perguntas utilizadas para a discussão- compreensão do texto (SOUZA; GIROTTO, 2011).

Iniciamos o momento da “discussão-compreensão” do texto com a pergunta: o que o poema diz a vocês? Um dos alunos expressou: “O homem pode viver a vida do jeito que ele quiser”. Será? Ele não deve considerar nada? “Todos devem considerar alguma coisa”, interveio uma das meninas. O que você lê no poema a esse respeito?

Sua resposta foi direta: “O poema diz que o homem é responsável por sua vida e que ele pode viver em todos os pontos – exclamação, interrogação e entre vírgulas –, ele só não pode viver o ponto final.” Que leitura vocês fazem do “inevitável ponto final? “Eu acho que tem alguma coisa a ver com a morte.” O que os demais conseguem ver? “Que o ponto final encerra alguma coisa. Ele pode estar encerrando a vida, como a colega falou”. Muito bem. O que o poeta quis dizer com “Todo mundo aceita que ao homem / cabe pontuar a própria vida”? “Essa pergunta já foi respondida, professor, quando o colega falou que cada pessoa pode decidir a sua vida”. Dissemos que concordávamos com ele, mas que considerasse que a leitura não se esgota num simples olhar. O suficiente para a participação de uma das alunas: “Professor, a leitura que eu faço tem a ver com escolhas, com caminhos que devemos seguir, com o futuro.” Outro colega continuou: “Entendo que nem todos aceitam conselhos, e talvez por isso o poeta tenha escrito que cabe ao homem pontuar a sua própria vida”. “É isso mesmo! Tenho um colega que vive dizendo: ‘Ninguém manda em mim! Faço o que acho que é correto’”.

Prosseguimos a mediação, perguntando: onde costumamos usar a pontuação? “Usamos no texto”. E no poema, o poeta está pontuando o quê? “A vida do homem”. Quais sentidos sugerem os sinais de pontuação utilizados no poema? “O ponto de exclamação sugere que o homem vive uma vida louca, sem responsabilidade, na pura emoção mesmo”. “Também sem preocupação”. “Sem prestar conta de seus atos”. E quanto ao “ponto de interrogação”? “O ponto de interrogação faz o homem refletir, pensar na vida”. “Faz o homem decidir se vale a pena viver do jeito que ele acha que deve”. “O nome já diz: ponto de interrogação! Que dúvida!” Quanto à “virgula”, uns três alunos disseram que a vida do homem requer uma pausa, uma parada, e que não pode viver sem observar que um dia vai dar importância para as pequenas paradas. Quanto ao “ponto final”, os alunos mantiveram o entendimento de que o homem tem medo de morrer, embora muitos queiram desistir da vida, desistir de tudo.

Para finalizar esse momento, perguntamos: que leituras vocês fazem sobre o “sem pontuação na política”? Fizemos os seguintes registros: “Todos os que entram na política querem se dar bem”. “A gente vê tanto absurdo na política: coitado do dinheiro da Petrobrás!” “Pelo menos a gente percebe que político é tudo igual, só querem tirar vantagem”. “Eles fazem tudo por debaixo dos panos e quando descobrem é aquela correria pra salvar o mandato”. “Verdade, ainda bem que existe um Ministro sério, como o senhor Joaquim Barbosa. Tiro o chapéu pra ele.” “Alguém tem que pontuar a vida desses caras” (risos).

Em clima de descontração, entregamos o Questionário de Avaliação. Um dos alunos perguntou: “Professor, estamos nos despedindo dessas aulas hoje?” Diante da nossa resposta continuou: “Poxa, agora que estava ficando bom.” Outro prosseguiu: “Mas não podemos terminar assim, sem uma palavra de agradecimento.” O colega que estava ao lado indagou: “E qual a sugestão?”. Sugiro que o nosso representante de turma diga algumas palavras para o professor” A turma apoiou. E o representante, pondo-se de pé, discursou: “Em nome da turma, quero agradecer pelas aulas de leituras de poemas. Nós comentamos, hoje, que foi o melhor que tivemos neste ano. No início, pensamos que era mais uma aula chata, mas logo vimos que não era. Vimos que era algo diferente, interessante. Por isso, saíamos da nossa sala e vínhamos aqui pro auditório participar; por isso, não íamos embora quando nos mandavam ir, queríamos ler os poemas e falar o que achávamos; na semana, comentávamos como eram bacanas suas aulas. Quero dizer ainda: ‘foi mal’ a gente se comportar daquele jeito no primeiro dia. Os colegas falaram que o senhor soube chamar nossa atenção. Até no puxão de orelha o senhor foi poético. Valeu, professor, ‘foi dez’!”.

Ficamos como quem sonha e nos perguntando se o que estava acontecendo era real. Depois de mais de vinte anos de labuta no magistério, deixamos as lágrimas lavarem a nossa alma diante de uma classe. E, sob aplausos, agradecemos. Surpresa, conquista e reconhecimento! Todos permaneceram no auditório, alheios ao horário, respondendo o questionário.

4.9.7 Nossa leitura do poema

O poema “Questão de pontuação”, de João Cabral de Melo Neto, além de tratar os sinais de pontuação – exclamação, interrogação, vírgula, ponto (final), – remete-nos à ideia de sequência das nossas atividades diárias. Na nossa vida temos que colocar os pontos, as pausas, aos descansos, aquele momento de “arrumar” a própria vida. E como precisamos desse momento! Mas para que servem mesmo os sinais de pontuação? Eis uma boa pergunta, que se pode fazer aos alunos e ouvir deles o que sabem sobre isso. O poema nos coloca, no âmbito da literatura, questões que assinalam, poeticamente, as funções desses sinais.

E na prática, na produção de texto, no momento da escrita, eles servem para quê mesmo? Na linguagem literária, os sinais de pontuação exercem funções além daquelas que a sintaxe preconiza. A ausência da pontuação nos poemas é uma delas.

Aliás, observando atentamente o poema de João Cabral de Melo Neto, percebe-se que ele os emprega em todo o poema – os dois-pontos, o ponto e vírgula, a vírgula e o ponto marcando o final do poema. Ainda na literatura, os sinais de pontuação podem ser essenciais em textos, cujas funções predominantes são a fática e a metalinguística.

Nos versos da primeira estrofe, “Todo mundo aceita que ao homem / cabe pontuar a própria vida: / que viva em ponto de exclamação / (dizem: tem alma dionisíaca)”, emprega-se o verbo “pontuar”, verbo de ação, seguido da expressão “alma dionisíaca”, que adjetiva sentimentos, dada a presença do ponto de exclamação, que pode sugerir que ao homem cabe fazer escolhas, inclusive, viver a vida intensamente de maneira responsável ou desvairadamente.

Nos versos da segunda estrofe, “viva em ponto de interrogação / (foi filosofia, ora é poesia); / viva equilibrando-se entre vírgulas / e sem pontuação (na política)”, relaciona-se a interrogação à Filosofia. O que é filosofar senão o questionar, o aguçar ideias, o suscitar opiniões? A Filosofia visa inquietar mentes com questões que tragam a memória, que fervilhem as ideias. Por sua vez, as vírgulas remetem ao equilíbrio, aos vários desafios na vida, aos degraus que subimos, às nossas passadas diárias – também denotam nossa instabilidade cotidiana. A vida sem pontuação, como na política, sugere o descompromisso, o desleixo com as coisas, e nada mais apropriado do que relacionar a política à ausência de pontuação.

Nos versos da terceira e última estrofe, “o homem só não aceita do homem / que use a só pontuação fatal: / que use, na frase que ele vive / o inevitável ponto final”, temos a conclusão do poema com o ponto final – que mais dramático para o homem é saber que sua vida terá um ponto final. A morte, para nós, é o fim de tudo nesta terra. O ponto final metaforiza a morte, certamente. Que mais podem valer os sinais de pontuação, num texto literário, num poema como esse, senão sugestões, ideias, lacunas a serem preenchidas pelo leitor? Eis um bom instrumento para nós, professores, trabalharmos os sinais de pontuação sem nos prendermos àquelas regras, que camuflam depressivamente a sintaxe.

Assim como no poema de Max Martins, que destaca o tempo, no poema de João Cabral de Melo Neto, o tempo também pode estar presente nas marcas implícitas, pela pontuação. A morte é a marca do tempo – o tempo que chega ao fim para os que se vão. E fica, para os que permanecem e não sabem quanto tempo ainda se tem para viver. Eis aí as reticências marcando o passo do nosso tempo, que traz as dúvidas quanto à nossa própria permanência, cá na Terra.