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Models and Theories for Skill Acquisition

Training Systems

3.2. Models and Theories for Skill Acquisition

A atividade dos dois últimos tempos do turno da manhã foi com a turma 702. Surpreendemo-nos com o interesse de alguns alunos dessa turma que, ainda no desenvolvimento da atividade com a 701, foram ao auditório saber se teriam aula de leitura porque o inspetor de pátio havia liberado a turma. Surpresos, pedimos que avisassem os demais, que haveria aula de leitura para eles. Nesse momento, mais um grupo de alunas da 702 se aproximou do primeiro grupo para nos comunicar que estavam insistindo para que deixassem a escola.

Pela nossa experiência no magistério, sabemos da satisfação de uma turma de alunos diante da notícia de que estão liberados das aulas, principalmente quando essa liberação acontece antes dos dois últimos horários do turno, salvo se as aulas restantes forem muito interessantes. Apesar das tentativas de dispensá-los, 18 alunos entraram no

auditório, cinco a mais em relação à presença da última atividade, demonstrando para nós que valia a pena permanecerem na escola para a aula de leitura.

Como o “cartaz motivacional – Homens, lixos e bichos: quem é quem?” – já estava afixado ao lado do quadro branco, aproveitamos para utilizá-lo como “atividade motivacional”, solicitando que olhassem, atentamente, para as imagens e respondessem a pergunta: que leitura vocês fazem, ao visualizarem as imagens expostas no cartaz? Oito alunos se manifestaram, dizendo que viam “pobreza”; “pena (dó)”; “sofrimento”; “tristeza”; “fome”; “sede”; “indignação”; “que não dá para viver num ambiente como o que o cartaz mostrava”.

Percebemos que o desenvolvimento das atividades com os alunos dessa turma fluía normalmente, sem interrupções para chamadas de atenção. Eles ficaram atentos, participaram da leitura, e fizeram questão de dizer o que entenderam do texto.

Foi nesse clima de interesse, que procedemos à “apresentação do poeta” Manuel Bandeira, autor de “O bicho”, texto principal de nossa atividade. Observamos o interesse pelo livro que circulava de mão em mão. Alguns olhavam a capa, outros abriam para folheá-lo e passavam ao colega do lado. Ao percebermos que já faziam a “leitura individual silenciosa”, aproveitamos para encorajar um deles a fazer a “leitura em voz alta”, sendo esse modo de ler realizado não apenas pelo voluntário, posto que outra aluna também fez questão de juntar-se ao colega. Depois das duas leituras em voz alta, todos os alunos acompanharam os colegas na “leitura conjunta” do texto poético.

Passamos, em seguida, à “discussão-compreensão” do texto, lendo e relendo com eles os versos das estrofes e incentivando-os a expressarem as leituras que faziam do poema. Destacamos as seguintes: “A primeira leitura que faço é de um bicho que está com muita fome e busca comida num lugar imundo e devora o que encontra sem se importar com o estado do alimento.” “Esta é a situação de muitos brasileiros: não têm o que comer e, por isso, catam o que podem no lixo.” “Fome é uma fome, professor!”

Sobre os tipos de bichos, mencionados no poema, procuramos levá-los à reflexão do porquê de o poeta escolher esses animais e não outros. Eis as leituras: “Porque esses animais buscam no meio dos detritos o que comer.” “Eles estão acostumados a viver nesses ambientes de sujeira, principalmente o rato.” “E o outro bicho não está acostumado a viver nesse tipo de ambiente.” Que outro bicho? – perguntamos. “O homem, professor, o homem está pior do que o cachorro, o gato e o rato, e olha que o poeta não falou no urubu.” Um dos alunos pediu a palavra: “Professor, tem cachorro que tem comida, água, casa, jardim pra correr, roupinha de

marca, óculos, sapatos e as pessoas não têm nem o que comer.” Outra aluna completou: “Cachorro vive melhor do que muita gente.”

Observávamos os seus rostos e notávamos expressões de asco em alguns deles, o que nos levou a perguntar: e que leitura podemos fazer desse homem? “Um homem marginalizado, sem esperança, entregue à miséria.” – foi uma das respostas. E vocês acham que uma imagem como essa que chocou o poeta, chocaria uma pessoa com a mesma intensidade hoje? Um dos alunos respondeu: “Sim e não”. Como sim e não? Explique o que você quer dizer. “O sim é que choca porque ninguém gosta de ver alguém disputando comida com animais. O não é que muitos não estão nem aí para a situação do outro”. “Cadê a solidariedade e o amor pelo próximo?” Outra resposta: “Hoje muitos brasileiros vivem como bicho e o governo não faz nada para ajudar”.

Ao ouvirmos respostas como essas, nos perguntamos se os alunos não estavam reproduzindo “discursos prontos”. É bom que os discentes reflitam sobre essas questões, sobre o papel do governo e deles mesmos enquanto cidadãos. E o professor, enquanto mediador, pode ajudá-los a irem além da reprodução desses clichês, refletindo, de forma crítica, avaliando e fazendo releituras de cada discurso que têm contato. A leitura literária pode ajudar nesse processo.

Para finalizarmos a atividade, passamos um vídeo editado do programa “Hora do Faro”, veiculado na Rede Record de Televisão, e indagamos o seguinte: qual a diferença do homem do poema para o homem do vídeo? “O homem do poema buscava o que comer no lixo e vivia pior do que um bicho. O homem do vídeo, que também buscava o que comer no lixo, aproveitou o que achava no lixo para mudar de vida”. E o que ele achava no lixo, além de comida, que o fez mudar de vida? “Ele achava livros. Limpava os livros com cuidado e depois ia ler.” Os livros podem levar as pessoas a mudarem de vida? “Sim, porque a pessoa que gosta de ler tem muito mais oportunidade de passar num vestibular, de escrever uma boa redação, de falar bem, de participar de uma discussão como a que passamos a fazer aqui nas aulas de Português. Foi o que aconteceu com o homem do vídeo. Hoje ele é médico.”

Mais uma manhã de quebra do discurso provindo do senso comum de que os alunos não leem poemas porque são difíceis de serem lidos e compreendidos. É bem verdade que a dificuldade existe para o aluno e para nós, professores, sendo tal dificuldade a razão de cogitarmos abandonar o trabalho com a leitura de poemas e enveredarmos por outro gênero menos complexo. Porém, a escolha da poesia prevaleceu. E os resultados? São muitos e começam em nós, professores.

4.4.8 Nossa leitura do poema

Numa linguagem simples, objetiva, clara, o poema “O bicho”, de Manuel Bandeira, pode muito bem retratar, nas três estrofes formadas em tercetos e no monóstico, que o finaliza, imagens da realidade cotidiana, vivida nas grandes e pequenas cidades brasileiras, tanto no tempo passado – que para nós pode estar distante, mas que estava bem próximo do poeta, considerando que o advérbio “ontem” nos remete à época e ao contexto social em que o poeta escreveu o poema, a década de 40 – quanto no tempo presente, posto que, aqui como lá, a questão da realidade social e, sobretudo, das desigualdades sociais, denunciadas pela poesia modernista, permanecem na atualidade.

A primeira estrofe “Vi ontem um bicho”, além de nos dar a ideia do tempo, leva-nos a imaginar que o poeta viu, realmente, um bicho, um animal, embora haja a presença primeira do substantivo concreto “bicho”, revelador da substância, da materialidade do ser retratado no poema em uma situação degradante e que escandaliza o leitor ao se deparar, entre outras situações, com a imagem de uma pessoa qualquer, desses sem nome, sem direitos, sem cuidado. Também nos remete ao lugar, onde esse ser famélico buscava saciar a sua fome: “Na imundície do pátio”, cuja localização, provavelmente a céu aberto, fora de residências ou prédios que comercializam produtos alimentícios, mas que serviam de depósito para tudo o que era descartado e lugar de banquete para quem não tinha o que comer; há, também, o escancarar do que esse ser estava fazendo: “Catando comida entre os detritos”, ação animalesca, que pode denotar, por um lado, o que a miséria e as desigualdades sociais são capazes de fazer com o ser humano e, por outro lado, o quanto a sociedade consumista esbanja, jogando na lata do lixo o que não consegue consumir.

A segunda estrofe pode evidenciar o comportamento animalesco do “homem/bicho” diante dos restos de comida encontrados. Os verbos rimados “achava”, “examinava” e “cheirava”, do modo como foram trabalhados na estrofe, demonstram a intensidade do desespero da ação de um ser que deveria examinar/cheirar a comida antes de pô-la à boca e devorá-la, fazendo uso do instinto como fazem os animais, mas não foi o que aconteceu: “Quando achava alguma coisa / Não examinava nem cheirava / Engolia com voracidade”. Vê-se a perda da dignidade, da identidade e da humanidade no poema “O bicho”, que pode ser classificado como um poema de protesto, de reclamação social, que denuncia as mazelas dos pobres, dos mendigos, dos

desabrigados, dos desvalidos, dos que não têm onde morar, o que comer ou como se alimentar de forma digna.

Bom seria se essa imagem do cotidiano, retratada poeticamente “ontem”, fosse de ocorrência ocasional “hoje”, como as rimas ocasionais dos verbos destacados.

A terceira estrofe do poema traz, pela segunda vez, o substantivo “bicho”, acompanhado de três advérbios de negação, levando-nos à percepção da desconstrução da imagem de que o “bicho” não era um animal no sentido próprio do termo, posto que não era um “cão”, um “gato”, um “rato”. E o que seria, então esse bicho? O desfecho está no monóstico: “O bicho, meu Deus, era um homem.” A revelação de que o “bicho” era um homem e a presença do vocativo “meu Deus” levam-nos à ideia de espanto, do inacreditável e, talvez, de cobrança de como o Criador permitiu que a sua própria criação, dotada de razão, chegasse à condição de animal.

O vocábulo “bicho”, além da imagem animalesca que se pode ter, também pode remeter a um contexto figurado, típico da linguagem dos adolescente: ser o “bicho”, ou tal situação foi o “bicho”, transmitindo a ideia de algo extraordinário, simplesmente perfeito ou incontestável. Mas relacionar essa palavra, em destaque no título e no texto de Bandeira, em sentido figurado, certamente levará o aluno a entender que, em tom metafórico, carregado de ideias sugestivas, não se junta à que se expressa no poema. A imagem do bicho comendo o que encontrou no lixo não se junta àquela que se pode criar, ao imaginar algo que foi “o bicho” ou que é o “bicho”.

Portanto, sejam quais forem as múltiplas leituras, que advierem da relação “homem-bicho”, o poema revela um lado cruel e animalesco da vida – o homem que devora a comida que encontra no lixo. O homem faminto, sem casa, sem comida, abandonado, que se alimenta do que é lixo, dos restos jogados nos monturos de lixo.