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3.4. Measuring of Skill
A atividade dos dois últimos horários do turno da manhã foi com a turma 702. Essa turma sempre nos surpreendeu. Desta vez, 23 alunos estavam à porta do auditório, esperando a 701 sair para entrarem no recinto - cinco a mais do que na aula passada. Eles não esperaram que todos saíssem para entrarem nem que organizássemos o espaço para que trabalhássemos com a estratégia dos três grupos. Como todos já estavam no interior do auditório e sentados nas carteiras, e por estarmos nos dois últimos tempos de aula, resolvemos trabalhar com o poema sem a formação de grupos.
Apresentamos a “imagem motivadora” para a classe, que, mediante a pergunta: o que deve passar pela cabeça dessa pessoa diante das imagens refletidas no espelho? Fizeram algumas leituras, entre elas: “Eu percebo o antes e o depois.” Pedimos que o aluno clareasse a sua leitura, prosseguindo: “Pode ser uma criança ou um adolescente se vendo como um adulto.” Uma aluna interveio: “É um menino diante de um espelho imaginando, de um lado, sendo uma criança devido aos brinquedos ao lado dele, e de outro, um adulto.” Outro aluno pergunta: “Professor, pode ser um adulto que imagina quando era pequeno?” Voltamo-nos para a classe e deixamos que ela respondesse a pergunta, e ouvimos algumas opiniões: “Claro que pode, não estamos aprendendo a fazer leituras?” “Hum... fiz só uma pergunta, não precisa me bater” – (risos)
Satisfeito com o clima de descontração e a participação preliminar dos alunos, passamos à distribuição do poema “Enquanto é tempo”, de Wilson Pereira, fazendo circular entre eles o livro Voos diversos, de onde o poema foi retirado, e fizemos a “apresentação do poeta e do texto poético”, objeto da atividade de leitura.
Na sequência, eles mesmos começaram a fazer a “leitura individual silenciosa”. Fator positivo, denotando que entenderam a estratégia de leitura. Para nos certificarmos de que o momento da leitura do texto estava sendo realizado espontaneamente,
sugerimos a um dos alunos participantes das discussões, mas que demonstrava resistência em ler na frente dos colegas, talvez por vergonha ou alguma dificuldade, que fizesse a “leitura individual em voz alta” do texto poético. No início, ele resistiu, mas levantou-se da carteira, caminhou até à frente e os demais colegas o incentivaram. Demonstrando timidez, perguntou se podia ler sentado no elevado, onde estava a mesa do auditório. Dissemos que poderia, mas seria melhor se ficasse em pé, pois, assim, todos os colegas o veriam e acompanhariam a sua leitura. Ele começou ler, de forma rápida, demonstrando dificuldade em concluir a leitura porque parava e ria. O riso talvez fosse para afastar o nervosismo. Incentivamos a recomeçar a leitura com um pouco mais de concentração e mais devagar. Assim o fez e conseguiu ler, esforçando-se para não sorrir. Fizemos uma leitura demonstrativa para eles e, na sequência, sugerimos que o mesmo aluno, que fez a “leitura em voz alta”, comandasse os demais colegas na “leitura conjunta”. Ele, procurando concentrar-se, contando até três com os dedos, deu início à leitura do poema. Os demais alunos o acompanharam, e a leitura fluiu até o final do texto, encerrando-se com os aplausos dos colegas.
Passamos à “discussão-compreensão” do texto, com a pergunta: que leitura vocês fizeram do poema? Vocês devem ter percebido que o texto está divido em três momentos. Existem diferenças do menino apresentado nos três momentos? Um dos alunos pediu para falar: “Vejo três tempos: o de criança, o de adolescente e o de adulto; no primeiro, a mãe se preocupa e manda o menino entrar na casa; no segundo, a mãe manda ele sair de casa; e, no terceiro, há um adulto e uma voz que pede para ele voltar a ser criança.” Perguntamos para os demais se era isso que o texto expressava. Alguns disseram que sim, outros ficaram em silêncio. Continuamos tentando fazê-los pensar. Mas é só isso que o texto diz? Há outras leituras? Que tal lermos o que cada momento sugere? Eis mais uma pergunta e as leituras que fizeram:
O que o texto sugere ser esse menino-criança? “Que era um menino rueiro”; “Brincalhão”; “Solto”; “Ele só quer saber de brincar, não se preocupa com a hora de parar e voltar pra casa.” “É um menino vivendo sua fase de inocência.” “Não tá nem aí pro perigo.” O que mais podemos ler nesse primeiro momento? “O poeta sugere proteção e cuidados com a criança.” “Hoje os pais têm medo da criança ser sequestrada, violentada.” Por quê? – perguntamos. “Porque a rua pode representar diversão e perigo.” “É verdade, professor, tanto que a mãe chama: ‘vem pra dentro’”. Muito bem, parabéns! – exclamamos. Então havia brincadeira e cuidado com o menino? “Sim, os dois.”
Vamos passar para o segundo momento do texto. Quem começa? Dois alunos iniciaram: “Agora é uma fase diferente, fase de busca dos sonhos, de conhecer como é a vida lá fora, a liberdade” – disse o primeiro. O segundo continuou: “É, conheço um colega que diz que quer sair de casa para conhecer novas coisas.” O que mais essa parte do texto sugere? “Sugere um adolescente desmotivado.”. Por que será? “As dificuldades”; “A rotina”; “O tédio, ficamos entediados” – foram algumas das leituras. O texto sugere que o adolescente deve sair de qualquer jeito? “Não, mas precisamos tomar cuidado porque há perigo na vida.” “A vida não é só sonhos.” “Aqui no bairro, muitos colegas nossos já morreram porque escolheram viver mais na rua do que em casa.” Percebemos que a hora avançava, porém o interesse da maioria continuava.
Entramos na terceira parte do poema. Qual a leitura que fazemos desse último momento? “De uma pessoa que amadureceu tanto que esqueceu de brincar, de viver.” “É, tem gente que só vive pro trabalho e esquece que há outras coisas na vida.” “Eu conheço um colega que os pais nunca levaram ele pra passear fora do bairro.” Por que será? “Porque trabalham o dia todo e quando chega o domingo, vão jogar futebol, beber e ouvir música com os amigos da rua.”. E por que o poeta diz: “Menino / sai do homem, / e brinca um pouco, / enquanto é tempo.”? “Vejo um convite pra ele brincar.” Brincar como quem? “Quem brinca muito é a criança, acho que é como criança...” “É isso mesmo, professor, o adulto também precisa brincar para ser feliz.” “Se nossos pais vivessem o lado criança deles, o ambiente nas nossas casas seria bem melhor.” A hora passou e não percebemos que a escola estava vazia. E com o gosto de querendo mais por parte de alguns alunos, concluímos mais uma atividade de leitura na semana.
Salientamos que Cosson (2012) propõe para essa fase dois momentos: um “interior” e outro “exterior”. Temos procurado evidenciar na interpretação dos textos poéticos o momento interior, aquele que acompanha a decifração palavra por palavra, verso por verso, sem deixarmos de vislumbrar o exterior, que se materializa no compartilhamento da leitura em outros ambientes. Entendemos que o momento interior seja aguçado, no aluno, a partir da leitura silenciosa, quando estabelece o primeiro contato com o poema, sendo reforçado pelos demais modos de ler e intensificado na interpretação, com a decifração verso por verso, estrofe por estrofe por requerer do nosso aluno um conhecimento de mundo e a necessidade de vasculhar, no seu repertório, algo que esteja relacionado à leitura que acabara de fazer; além de atentar-se às inferências que os colegas fizeram para que, conjuntamente, chegassem à apreensão global do poema.
A impossibilidade de utilizarmos a mesma metodologia dos três grupos de leitura/discussão-compreensão/exposição com os alunos da turma 702 nos remete às lições de Ceia (2002), que ensina que o professor precisa ter discernimento para adequar as metodologias às circunstâncias que surgem e realizar as mudanças para o melhor atendimento das necessidades do momento e de cada turma.
4.5.7 Nossa leitura do poema
O poema “Enquanto é tempo”, de Wilson Pereira, está dividido em três partes, marcadas pelas numerações de um a três, sugerindo a representação das três fases da vida humana: a infância, a adolescência e a adulta.
Na primeira parte, temos os versos: “Menino, sai do sol;/ menino, sai da chuva;/ menino, sai do vento;/ menino, sai da rua;/ menino, vem pra dentro.” Nesses versos, percebemos que há um menino brincando, despreocupadamente, em um ambiente externo, com toda a liberdade que caracteriza a infância. Entretanto, há uma voz, possivelmente materna, que o chama para “dentro” de casa, demonstrando o cuidado, a preocupação com os perigos que a “rua” pode representar para uma criança. Logo, a liberdade de ir para o sol, para a chuva, para o vento e para a rua tem limites, é vigiada, como podemos inferir na chamada e no desejo dos pais de terem os filhos sempre dentro de casa, seguros, protegidos, livres dos perigos que os cercam. Geralmente os pais são obedecidos nessa fase da vida.
Já no segundo momento, temos os versos: “Menino, cria asas:/ vai ao vento/ vai à noite, / vai ao sonho;/ menino, vai em frente, / sai de casa, / sai do sério, / inventa.” O menino, agora adolescente-jovem, talvez esteja enfrentando os dilemas de uma fase de descoberta, de “criar asas” e sair em busca dos sonhos, de relacionamentos, de experiências. Essa é uma fase que todo adolescente-jovem passa. Fase da dúvida, do medo, da rebeldia, da ousadia, do querer fazer as coisas, mas não sabe bem como fazê- las. Muitos, pelo impulso, saem e não conseguem se encontrar e se perdem nas armadilhas do caminho. Mas como se achar sem se perder? Lembramos dos conselhos de nossos pais de que toda liberdade tem limite, de que toda decisão tem consequência, seja ela positiva ou negativa. Quantos de nós não ouvimos advertências do tipo: “Mas se quiseres ir, vá, o mundo é uma escola.” E nessa fase, infelizmente, muitos pais estão ausentes da vida dos filhos, permitindo que a escola da vida os “ensinem”. Percebe-se que não há uma voz paterna ou materna mandando o menino para o mundo, há uma
observação da iniciação de uma fase da vida pela qual o adolescente deve passar, mas que requer cuidado para que se encontre e não se perca.
Os versos do terceiro momento: “Menino, / sai do homem, / e brinca um pouco, / enquanto é tempo.” nos remetem para uma outra fase da vida do menino: a adulta. Dependendo de como o menino construiu sua vida e de como chegou a essa fase, vê-se que aqui há a uma chamada para aquele adulto que trabalha muito, que leva a vida muito a sério, que deixou de sorrir, de brincar, talvez por ter sido marcado pelas durezas da vida ou passado por experiências não tão agradáveis, levando-o a se fechar no “mundo” que construiu para si. “[...] sai do homem, / e brinca um pouco, [...]”. Quem de nós nunca ouviu nossos pais, ao nos verem estudando demais, dizerem: “Menino, chega de estudos, guarda os livros e vai brincar um pouco.” Então, obedientes, saíamos às brincadeiras, ao lúdico, ao riso, às gargalhadas, às correrias... E esse convite é feito agora ao adulto do poema para que ele saia do homem, e, como criança, brinque um pouco, vá a rua, olhe para o céu e veja quantas pipas dançam diante dos seus olhos. E atrás de quantas poderia correr depois de serem cortadas no ar. A brincadeira certamente ajudará o homem cansado e sobrecarregado a aliviar as suas cargas.