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Spesielle tiltak for å sikre en

De acordo com o enquadramento teórico, efetuado no Capítulo 3, resulta como opção teórico- metodológica a recusa à reificação das estruturas e a valorização dos exercícios de sociabilidade, e margens de liberdade, dos agentes mobilizados por perceções e lógicas. O questionamento sociológico, base da presente investigação, que importa formular é, por conseguinte, este: o que justifica que um consumidor, na presença de tantos e tão sofisticados medicamentos e em contacto com Dietas locais disseminadas, reconhecidas pela sua diversidade e riqueza nutricional, escolha um alimento funcional e o integre na respetiva trajetória alimentar? Constituindo um conceito polissémico (funcional porque apresenta outra função para além da componente nutricional ou funcional porque procura intervir numa determinada função corporal) entende-se como justificada a exploração sociológica das perceções e lógicas de adesão ao consumo dos alimentos funcionais procurando identificar se estes representam uma construção social ou uma resposta moderna a reais necessidades nutricionais. Os AF colocam assim à sociologia o desafio epistémico de evidenciar as motivações de uso dum objeto, material e simbolicamente, híbrido na fronteira entre o alimento e o medicamento:

 Como um complemento na lógica de uma hierarquia de eficácia terapêutica?  Como uma alternativa ao medicamento?

 Enquanto integrante de um estilo de vida saudável?

 Enquanto instrumento de gestão de uma indulgência alimentar sem culpa ou de auto gratificação?

 Enquanto marcador social?

Sendo que a bibliografia disponível sugere que as atitudes e o estilo de vida, em adição aos fatores demográficos, como o sexo, idade ou educação, influenciam, significativamente, a aceitação ou intenção de uso dos AF (Urala & Lähteenmäki, 2007:2) é analiticamente relevante identificar a existência de lógicas, isoladas ou combinatórias, que ajudem a explicar a relação do consumo de AF com 3 dinâmicas sociais que modelam a modernidade alimentar: normalização social, mercantilização e Medicalização. Podendo-se especular, como o faz Lipovetsky, de que “o poder organizador dos habitus é cada vez mais fraco” (2009[2006]:99) assistindo-se, em consequência, a uma individualização das escolhas de consumo, menos

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delimitadas por classe ou estatuto admite-se, então, que a seleção alimentar desempenha papel de relevo na construção de identidades, progressivamente, autocentradas e erguidas, em primeiro lugar, com base na qualidade da saúde, e do bem-estar, alcançados e isto num momento em que os grandes projetos coletivos perderam o seu antigo poder de mobilização (Lipovetsky, 2009[2006]: 119). Se para além de colocarem a saúde e bem-estar como objetivo primordial o fizerem, em paz consigo próprios, pelo efeito gratificador das escolhas, então a saúde combina-se com a felicidade ajudando a explicar que o prazer que emana da ideia, que ingerir alimentos funcionais constitui uma forma de tomar conta de si, é crucial para o sentimento de recompensa (Urala & Lähteenmäki, 2007:5) dos sujeitos, os quais, segundo alguns autores, tendem a considerar o alimento como mais apropriado para suportar a saúde e bem-estar que gerir a doença (Williams & Ghosh, 2008:S92). Importa pois iluminar o papel dos AF no processo de normalização social do ‘novo’, ou do ‘não convencional’, e da progressiva mercantilização dos cuidados de saúde, lato sensu.

Já quanto à hipotética dimensão terapêutica, na utilização dos AF, importa questionar: Porque é que, no contexto de significativa farmacologização da sociedade (Williams et al., 2011) - conceito aqui entendido como proliferação de soluções medicamentosas – necessitam os indivíduos de mobilizar alimentos funcionais como recurso terapêutico? Esta pergunta de partida procura, desde logo, delimitar um campo analítico preciso, clarificando fronteiras com outros domínios sociológicos, em particular a Sociologia da Alimentação, mas igualmente explorar possibilidades de relações substantivas, para além daquelas induzidas pelo senso- comum, assumindo-se que a Sociologia deve corresponder ao desafio de estudar, para além de domínios estabelecidos, realidades sociais emergentes. O questionamento sobre a possibilidade de o alimento funcional, para além da sua utilização instrumental, poder cumprir progressiva, e significativamente, um novo papel como recurso terapêutico emerge dum contexto social denso e pluridimensional: significativo investimento da indústria agroalimentar; sensibilização para doenças com carácter endémico nas sociedades ocidentais (ex. Diabetes e Obesidade); interiorização por parte dos indivíduos da importância dos processos preventivos e múltiplas dependências, culturais e cognitivas, na gestão individual dos percursos de saúde e doença.

Os desafios da sustentabilidade enfrentados pelo estado social, o peso crescente do envelhecimento populacional nos orçamentos de saúde, a promoção do individualismo empreendedor, como sinalizador de modernidade, e a proliferação de fontes de informação facilmente acedidas, têm vindo a assegurar legitimidade social às campanhas que tendem a valorizar a componente das escolhas individuais, mais do que fatores externos, fora do nosso

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controlo, no desenvolvimento dos estados de saúde e doença, promovendo uma progressiva delegação de competências das instituições para os indivíduos. Neste contexto, as opções alimentares mediatizadas vão-se progressivamente polarizando entre regimes alimentares que promovem ou previnem a doença, entre alimentos saudáveis e prejudiciais, entre o fast e o slow food, entre os “super - alimentos” e a ”junk food”, refletindo a evolução da ciência do compromisso da busca de soluções que promovam o incremento da esperança média de vida, para o incremento da qualidade de vida, em outras palavras, o bem-estar (Aiello, 2011).

A progressiva valorização do alimento enquanto ferramenta, com potencial preventivo ou terapêutico, alimenta-se assim do crescimento de distintas tendências sociais associadas à busca de um estilo de vida mais saudável, em particular:

 Desejo, por parte de um número crescente de indivíduos, de assumir o controlo do seu corpo, exercendo disciplina sobre os hábitos alimentares; um corpo obeso transmite imagens de falta de autodisciplina, enquanto um corpo magro significa um elevado nível de controlo (Lupton, 1996).

 Reposicionamento por parte das maiores companhias alimentares, na disponibilização de produtos com significativas alegações de saúde (Burch & Lawrence, 2010).

 Na era da bio-tecno-alimentação, a prevenção e a promoção da saúde medicalizaram distintos comportamentos e substituíram o papel normativo da religião, a qual afrouxou a sua intervenção no quotidiano (Dubois, 1996).

 Interiorização por parte de muitas mulheres das noções de oferenda e cuidado, na lógica do benefício para os membros da família (em especial crianças ou doentes), construindo um regime de “altruísmo nutricional” (Crawford et al., 2010).

 As estratégias promocionais dos alimentos probióticos empregam mensagens nutricionais valorizadoras das “bactérias amigas”, construindo significados sobre estilos de vida, e posicionando os leitores das mensagens como especialistas e simultaneamente leigos no processo (Koteyko & Nerlich, 2007).

Considerando a relevância social do tema, e a necessidade de sobre o mesmo se produzir conhecimento sociológico pertinente, é propósito desta investigação, e no contexto da articulação entre estrutura e ação, responder aos seguintes eixos problemáticos:

 Que racionalidades e perceções modulam/influenciam a ação dos indivíduos no que respeitam as respetivas opções alimentares/terapêuticas?

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 Que condições sociológicas estão a produzir novos discursos e adesão aos novos consumos dos alimentos?

 De que forma os indivíduos, em exercício de reflexividade (racionalidade instrumental vs. racionalidade cognitiva), se apropriam das promessas/ofertas do complexo científico-industrial?

 Os alimentos funcionais, como hibrido entre alimento e medicamento, refletem uma “terapeuticalização” do alimento, nuance moderna da farmacologização da sociedade?

 Afirma-se, na lógica dos pluralismos terapêuticos, o papel do alimento como recurso terapêutico, recuperando, nalguns casos, racionalidades leigas ou prevalece a apropriação quotidiana de objetos, dotados de ambiguidade instrumental, e simbólica, na lógica da normalização dos consumos na pós-modernidade?

 De que forma a crescente regulamentação nesta área (alegações de saúde) pode dar lugar a distintos perfis de adesão e consumo?